Sim, foi estupro

 

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Ser mulher na nossa sociedade é viver tentando não se permitir perceber as violências de que se foi ou é vítima. Nem mesmo as violências que são reconhecidas pelo Estado como violências, que foram inclusive tipificadas como crimes, nos sentimos confortáveis para denunciar. E, quando falo de denunciar, não estou falando nem para a “justiça” ou para a comunidade de que fazemos parte, ou mesmo nossa própria família. Digo, antes de tudo, para nós mesmas.

Talvez seja porque, na letra fria da lei, não enxergamos as pessoas cujos comportamentos ela endereça, e menos ainda as pessoas vitimadas por aquele comportamento. A lei não endereça o trauma, não dialoga com a dor. Por natureza, ela nem teria esse poder, mesmo que quem a escreveu assim o desejasse. Ela é, em sua própria essência, um retrato sem rostos.

Não sei se isso é algo proposital, deliberado, mas, para noventa por cento das pessoas, ligar o que está planificado na linguagem inacessível e mortiça da lei ao que se passa na realidade tridimensional ao redor delas é uma ginástica cerebral excepcionalmente árdua. A lei é como um nome de luxo, pomposo e quilométrico, para uma pessoa que sempre conhecemos por um apelido simples, cotidiano. É um “José Felipe Camargo de Fonseca e Abrantes de Medeiros” para um “Zé” com quem conversamos brevemente sobre a música no elevador hoje de manhã.

Não é simplesmente como olhar a planta de um imóvel e reconhecer nela os cômodos em que se habita; sim, isso levaria algum empenho, maior ou menor conforme a maior ou menor aptidão para a coisa, ou experiência nesse exercício. Mas ler um artigo de lei e perceber nele atos que praticamos ou foram praticados contra nós demanda algo mais. Demanda, antes de tudo, que nos levemos a sério. Que nos enxerguemos como pessoas sujeitas de direito, dignas de serem resguardadas pela pompa e circunstância do legalês, do juridiquês.

Encontramos, no artigo 217-A do código penal, que trata-se de “estupro de vulnerável” o ato de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Mas quantas mulheres conseguem relacionar esse “José Felipe” ao “Zé” que aconteceu com elas? Que percebem que foram praticados atos libidinosos com elas, então menores de 14 (catorze) anos, e que isso, por si só, não importa como, quando, quantas vezes e quem fez, constitui estupro de vulnerável? Que são irrelevantes as demais circunstâncias?

Uma mulher conta dos primos mais velhos que ostensivamente a espiavam, fazendo comentários e se masturbando, enquanto ela, com doze anos de idade, tomava banho; conta de como a tia dela, mãe desses meninos, ao saber disso, não apenas se recusou a tomar providências, mas disse que era ela quem estava querendo se mostrar e eles só faziam o que “era natural” para eles.

Outra moça relata que um tio aproveitava para apalpá-la quando ninguém estava olhando. Houve um dia em que alguém enfim o pegou fazendo aquilo, mas, ao invés de socorrê-la, virou a cara para ela, passando então a olhá-la com repulsa. O abusador em si seguiu com seus abusos tranquilamente, sem sofrer a mais mínima censura ou reprovação.

Mais outra fala do padrasto que se roçava nela quando ela era criança. E que, quando ela brigava, falava que não sabia como ela ia um dia ter um homem se não gostava daquilo. Reclamar com a mãe não surtiu efeito: esta disse que a menina estava querendo chamar atenção, estragar a felicidade dela, roubar o homem dela. E daí ela se calou. E ele aproveitou.

Essas memórias são expostas como se o que se passou como se fosse um “mimimi”. Com a vergonha de quem sente que não tem cabimento sequer se lembrar daquilo. Como se o trauma, a mácula que ficou nelas, não fizesse sentido. Algo previsto em lei como crime hediondo, sendo tratado como se fosse uma bobagem.

Essas mulheres não são exceções. Infelizmente, há muitas outras, com histórias de amigos da família que “tiravam casquinhas”, professores que roubavam apalpadelas, vizinhos que encoxavam no elevador, pais de amiguinhas que mostravam o pinto, pais, avôs, irmãos, amigos de irmãos, colegas de classe… são tantas, tantas, que a sensação que eu tenho é a de que não conheço UMA ÚNICA mulher que não tenha passado por alguma violência sexual na vida dela. E, bizarramente, a maior parte delas não se dá conta de que foi isso – violência sexual – o que se passou.

E não é que não se deem conta por serem tolas ou ignorantes. É que foi consistentemente feita com elas toda uma lavagem cerebral nesse sentido. Foi-lhes ensinado, quando elas ainda eram jovens o bastante para jamais esquecerem a lição, que estupro não era nada. Que, aliás, seria “histeria” da parte delas chamar de estupros os estupros que, de fato, sofreram. Que era besteira delas ficarem incomodadas por “tão pouca coisa”. Que, ao falarem, elas próprias seriam julgadaselas é que provocaram, elas é que não pararam, elas é que estão inventando, elas é que são sem-vergonha. Que elas teriam que perdoar. Que elas estariam “arruinando a vida de um homem de bem” por conta de “nada”. Que estariam “destroçando a família” por puro “egoísmo”. Egoísmo. Delas. Afinal, “homens fazem o que homens fazem”; “eles são assim mesmo”.

Não lhes ocorre, quando olham para trás, mesmo sentindo o arrepio de asco e o gosto amargo de tantos sentimentos reprimidos a tanto custo, que o que lhes foi feito não é normal, não é natural. Que não é porque todo mundo tem uma história assim que é ok que histórias assim continuem se repetindo. Que não é ok que estupros desse tipo continuem ocorrendo, sem que ninguém faça nada a respeito, como se não justificassem uma atitude.

Precisamos rasgar essa mordaça de culpa, vergonha e medo. Precisamos falar dessas coisas. Ainda que não possamos ou não queiramos processar criminalmente os responsáveis, precisamos reconhecer e nomear essas violências e legitimar o sofrimento que elas causam. Se não por nós mesmas, por nossas meninas. Para que elas jamais tenham que repetir para si mesmas, sozinhas, escondidas, tentando esquecer o inesquecível: “não foi nada”.

Acolhimento

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento

“MAS ele é ótimo com as crianças”

 

ótimo com as crianças

Passo mal quando ouço isso.

Ele agride a mulher que é mãe des filhes dele. É ausente, não coopera, falta com seus compromissos. A violência dele, que assume inúmeras formas, talvez chegue até a ser física. A misoginia que ele exibe orgulhosamente não tem limites. MAS… ele é ótimo com as crianças, as pessoas dizem.

Como? Fico me perguntando.

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele é um merda com a mãe delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele torna infeliz a pessoa que é a cuidadora principal delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele dá a elas o exemplo da violência dentro de suas próprias casas? Ensina a elas que dor faz parte de amor? Que brutalidade é paixão?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando repassa a elas o machismo de que homem não faz serviço doméstico, homem não cuida de criança, homem só usufrui?

Como ele pode ser ótimo com as crianças se ele só se relaciona com elas nos termos dele, quando ele quer e só para curtir e não para cuidar? Como ele pode ser ótimo com as crianças se, na hora que aperta, espera da mulher que ela sacrifique a carreira profissional e acadêmica dela, porque acha que isso é não é exigível dele?

Ele é “ótimo com as crianças” porque está relaxado, bem dormido e bem disposto. Trampinho que começa e acaba (e não 24h, afinal, isso é coisa de mulher, esse ser tão frágil e protegido pela sociedade), cervejinha com os amigos, chega e encontra comida na mesa, toma banho sem pressa, dorme a noite toda bem tranquilo, não lava um copo. Sem nem falar na exigência social ridiculamente menor em torno de ele “se cuidar” (leia-se, estar bonitinho de se olhar) enquanto ela assovia e chupa cana.

É fácil pagar de bonzão quando tem outra pessoa carregando o piano para você.

Não, mulher. Ele não é ótimo com as crianças. Porque, para ser ótimo com as crianças, ele teria que ser pelo menos razoável com você. Para ser ótimo com as crianças ele teria que se importar com elas a ponto de se importar com quem cuida delas. Para ser ótimo com as crianças ele teria que estar presente na vida delas além do momento que é conveniente para ele.

Ele não é ótimo com as crianças. Ele é ótimo com ele mesmo. E só.

Não caia nessa. Não cometa consigo mesma a violência de achar que o seu bem-estar é irrelevante. Não existe bom pai sem antes existir bom companheiro. Companheiro de equipe de cuidado des filhes, mesmo que não de relacionamento amoroso.

Quem quer participar da criação tem que participar por inteiro, não só na parte que fica bonita na fita.

Gaslighting desde o berço

manipulação

No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

“Estou ficando louca?”

gaslight

Cena do filme Gaslight, 1944

 

Você já entrou numa discussão com toda a certeza de que tinha razão e saiu dela se desculpando, com uma sensação estranha de confusão, de que o mundo tinha virado do avesso?

Eu nunca pensei, quando ingressei no serviço público (sim, eu estive no serviço público por alguns anos), que um dia eu seria a “louca do departamento”. Sabe? Aquela pessoa que todo mundo cochicha quando passa, que é “louca de tomar remédio”, que tira licença para fazer tratamento psiquiátrico (e um tanto de gente acusa de estar só enrolando, inclusive)? Essa.

Mas eis que um dia eu me olhei no espelho e ela estava lá, me encarando de volta, com olhos esbugalhados, olheiras profundas, o rosto abatido, os cabelos desgrenhados. “Como é que você foi parar aí?” Perguntei, num misto de nojo e pena. E ela me contou. Mas foi só anos mais tarde que aprendemos que o que havia ocorrido tinha nome.

Eu já fiz um texto em que expliquei brevemente a minha interpretação de alguns termos interessantes que usamos no feminismo, inclusive o gaslighting (lê-se “gaslaitim”), de que vou tratar aqui; mas esse é um conceito que, para mim, foi tão necessário e libertador, que sinto a necessidade de falar mais esmiuçadamente a respeito dele. É engraçado como é importante, como é empoderador, nomear o gaslighting, conhecê-lo e reconhecê-lo. É como se nos vacinasse.

A definição básica de gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade. Isso pode chegar ao ponto de a pessoa (e/ou quem convive com ela) começar a duvidar de sua sanidade mental ou mesmo acreditar piamente que a perdeu. Um de seus objetivos mais frequentes é o silenciamento.

O termo vem de uma peça de teatro de 1938, de Patrick Hamilton, chamada “Gaslight”, com duas adaptações para o cinema, uma britânica, de 1940, e outra americana, de 1944. A peça fala sobre um homem que pratica gaslighting com sua esposa até que todes, incluindo ela mesma, pensem que ela está mentalmente doente (tem outras coisas na trama, claro, mas eu não vou entregar).

O gaslighting, a meu ver,pode ocorrer em duas esferas: a primeira, da confiança da pessoa em sua própria percepção, e a segunda, da confiança de outras pessoas na percepção dela. Nem sempre ele atinge a ambas, mas sempre atingirá (ou tentará atingir) a pelo menos uma delas.

Por isso, as pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são as pessoas que já sofrem o preconceito de serem “loucas”, “irracionais”, “governadas por hormônios”, “histéricas”, “barraqueiras”, “brutas”, “sensíveis demais”, “gagás”, que “não falam coisa com coisa”. Ou seja, toda e qualquer pessoa cujas palavras, opiniões e sentimentos tendam a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo: mulheres, crianças, adolescentes, idoses, pessoas negras, pessoas LGBT, pessoas que sofrem de doença mental, pessoas com deficiência, pessoas cujo discernimento seja limitado por algum motivo, etc.

Como a sociedade já dá, injustamente, menos credibilidade a essas pessoas, o trabalho da pessoa gaslaiteadora de descreditá-las perante outrem é facilitado, já está praticamente pronto. Além disso, por estarem habituadas a esse tratamento, elas próprias podem já ter introjetado esse gaslighting, já tendo muita dificuldade de confiar em seus próprios sentimentos e percepções, deixando também pronto o trabalho da pessoa gaslaiteadora nesse sentido.

As crianças são, para mim, as maiores vítimas dessa forma de abuso psicológico e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem percebe que é isso o que fazem. É tanta coisa para falar a respeito que farei um post só para tratar disso. Me aguardem.

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A forma mais crassa de gaslighting, a mais desavergonhada, é alguém falar que não fez algo que fez, ou fez algo que não fez (ou falou). Este vídeo sensacional do Porta dos Fundos ilustra bem essa situação.

Um outro exemplo: marido se compromete a passar o dia com as crianças; de última hora, resolve sair para jogar bola com os amigos; ao invés de reconhecer sua falta de palavra, faz de conta que nunca prometeu nada.

Não é que ele finja que esqueceu, simplesmente. Se ele fizesse isso, ele estaria mentindo, mas assumindo que falhou, mesmo que não admitisse que a falha foi deliberada. O que configura o gaslighting dele é o fato de que ele tenta imputar a falta de compromisso dele a uma “viagem” (um erro de percepção) da pessoa com quem ele assumiu o compromisso, que fica lá pensando “ué… será que estou ficando louca? Será que realmente não chegamos a conversar a respeito e eu imaginei tudo? Mas eu lembro! Mas ele está falando com tanta certeza…” e assim por diante. A pessoa, especialmente por acreditar na boa-fé da outra, parte do princípio de que ela própria deve estar enganada. Que ela tem que estar enganada. Porque, né, quem faz isso? Quem tem tanta desonestidade, tanta frieza, tanta cara de pau? Pois é. Tem gente que tem.

Que nem quando um estuprador (ou até pedófilo!) fala que o ato foi consensual, que a vítima sabia muito bem o que fazia, ou mesmo que nada aconteceu, que ela é uma louca inventando isso para prejudicá-lo, para chamar atenção. Gaslighting.

Também é gaslighting quando alguém leva outra pessoa a duvidar de sua percepção em relação aos fatos, mesmo admitindo os fatos em si. É o que acontece nos casos em que se culpa a vítima pelos atos nocivos de outra pessoa. Quando se justifica o estupro com a conduta ou das roupas da vítima, quando se justifica a violência doméstica com o fato de a mulher não ter saído do relacionamento depois ou mesmo antes da agressão, quando se justifica a cesárea desnecessária com o “consentimento” obtido através da coação da mulher em pleno trabalho de parto. Sabe quando a pessoa vira a mesa e joga a culpa que é dela para outra? Então.

No caso do marido que mencionei acima, ele praticaria essa versão de gaslighting se, quando confrontado a respeito de sua falta de compromisso, ele virasse para a outra pessoa e dissesse que só prometeu porque ela forçou a barra, que é pelo bem dela ou das crianças que ele vai sair jogar futebol, que é porque ele está estressado porque ela briga tanto com ele, que foi ela mesma quem sugeriu que ele deveria sair, etc. Como se algo que a outra pessoa supostamente fez ou falou desse a ele o direito de não cumprir sua palavra. Pior, como se nem fosse um ato deliberado, uma escolha dele, mas algo a que ele se vê forçado pelas circunstâncias, coitado dele. De novo, o cara está tirando o foco do fato de que a atitude dele é errada e fazendo a outra pessoa pensar e sentir que o erro, na verdade, é dela. Que ele é a vítima ali.

Acontece muito em casos de traição conjugal. Casal monogâmico, uma das pessoas vai e faz sexo com alguém de fora e depois fala que foi levada a isso porque suas necessidades (afetivas, sexuais, o que for) não estavam sendo plenamente satisfeitas dentro do relacionamento. Como se isso escusasse a desonestidade e deslealdade de seus atos.

Tem também a deslegitimação, que eu chamo de gaslighting emocional. Agir ou falar como se a outra pessoa não tivesse o direito de sentir o que for, como se o sentimento dela não fosse justificado; minimizar o acontecido, impor que a pessoa perdoe e/ou esqueça, dizer ou implicitar que é exagero, ou mesmo diretamente negar que haja qualquer causa para a pessoa se sentir daquela forma.

Aliás, é incrível a dificuldade que muitas pessoas têm de entender que sentimento não precisa ser justo, motivado, fazer sentido. Sentimento a gente não escolhe, não tem por querer, não é certo, nem errado. Sentimento a gente sente, e só. Podemos ter um problema com o que alguém faz a partir do que sente, mas não tem cabimento recriminar ou reprovar o sentimento dela em si.

Voltando ao assunto, é o que acontece quando alguém passa por uma violência e, ao falar a respeito, ouve que tem que “entender o outro lado”, por exemplo. Não nego que empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faça parte do processo de reabilitação e seja algo importante a se fazer. Mas não faz sentido defender a parte agressora para a vítima que, num momento de completa vulnerabilidade, desnuda um trauma pelo qual passou. É uma questão de contexto.

Também é muito comum que pessoas pertencentes a grupos oprimidos, ao apontarem discursos e atos que reforçam essa opressão, ouçam de volta que “estão de vitimismo”, ou que “ai, agora tudo é racismo”, ou que “foi só uma piada”, ou que “você não soube interpretar”, e por aí vai.

Retomando o marido lá de cima, ele estaria praticando essa forma de gaslighting se falasse para quem reclama com ele que a pessoa está exagerando, implicando, procurando pelo em ovo, ou se saísse com o irônico “tá, eu só faço merda/só cago/sou um bosta mesmo”.

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Por fim (aqui no texto, não nas formas possíveis degaslighting, que são infinitas, infelizmente), tem uma espécie de gaslighting especial que eu chamo de “gaslighting de flagrante preparado”. Flagrante preparado é quando a pessoa é induzida a praticar o delito por obra de outra pessoa que a instiga àquilo justamente com o intuito de incriminá-la. A propósito, juridicamente, é uma modalidade ilegal de flagrante (súmula 145 do Supremo Tribunal Federal).

gaslighting de flagrante preparado é quando uma pessoa provoca, cutuca, escrotiza e, claro, gaslaiteia outra até esta perder a cabeça, e daí usa isso, essa explosão, como desculpa para desconsiderar os argumentos e sentimentos desta. Muitas vezes, inclusive, se utiliza disso para descreditar a pessoa gaslaiteada perante a outrem, para que também desconsiderem seus argumentos e sentimentos. Sabe o povo do “apelou, perdeu”? Então.

Muito comum no contato com as criaturas passivo-agressivas do mundo.

Esclareço que não estou defendendo a agressão (até porque isso pode cair naquele caso de gaslighting em que a pessoa culpa a outra por seus próprios atos). O que estou falando é que não é porque alguém se descontrola que podemos ignorar o que essa pessoa tem a dizer. E que é de uma monstruosidade indescritível usar contra uma pessoa o descontrole que conscientemente se provocou nela. E que há pessoas que fazem isso. Deliberadamente.

Nos casos de assédio moral, como o de que fui vítima, é muito comum o gaslighting de flagrante preparado, especialmente porque costuma haver toda uma hierarquia envolvida, uma autoridade de que se abusa para pressionar a pessoa gaslaiteada, que é enlouquecida em fogo brando até explodir e, a partir daí, começa a agir de forma descontrolada, dando munição para quem diz que o problema na verdade é ela.

Pode parecer pouca coisa, um drama de escritório, mas não é. É uma forma de abuso psicológico muito grave e muito tóxica e é um sintoma de uma sociedade que é seletiva em relação às pessoas que merecem seu acolhimento. Há relativamente pouco tempo, tivemos um verdadeiro holocausto brasileiro e quase ninguém sabe. Por quê? Porque aconteceu com pessoas “loucas”. E quem quer ouvir o que elas têm a dizer?


 

Gostaria de agradecer pelas trocas com as inúmeras mulheres que conheço que, como eu, vivenciaram (e/ou vivenciam) essa forma de violência psíquica em suas vidas e compartilharam suas impressões comigo. Dedico a vocês este texto.

“Mas eu não abortaria”

Esta semana vi uma campanha no facebook para que mulheres postassem fotos de si mesmas grávidas, dizendo serem contra o aborto.

Muitas participaram, muitas outras participaram para dizer que, apesar de terem filhes, são favoráveis à legalização do aborto, ou pelo menos à descriminalização do aborto. Inúmeros posts foram feitos a respeito, nos mais diversos blogs.

Em meio a isso tudo, no grupo feminista de que participo, uma pessoa querida trouxe um debate muito interessante: a posição do “eu não faria, mas sou a favor” ou “sou a favor, mas não faria”. De onde vem a necessidade de dizer que não faria? Não seria, de certa forma, um julgamento moral, uma forma de dividir as mulheres em duas classes – as que fariam e as que não fariam?

Seria realmente empático da parte de alguém defender o direito ao aborto seguro enquanto ainda se condena essa prática como uma “atrocidade” ou “monstruosidade” ou “assassinato” ou algo assim?

Eu já abortei e, a mim, particularmente e pessoalmente, não me ofende alguém só dizer que não faria. Para mim, não é o mesmo que dizer “considero uma atrocidade, mas apoio o seu direito de cometê-la” ou “acho uma merda, mas ok outra pessoa fazer”, ou mesmo falar “eeeeeeu não faria” (assim, com uma entonação que deixa poucas dúvidas sobre o que a pessoa realmente acha de quem faz).

Um mero “eu não faria”, para mim, soa apenas como uma pessoa falando de si própria. Dizendo que ela, por uma miríade de motivos (que não se atêm aos religiosos, vide haver pessoas religiosas que abortam e pessoas sem religião que não abortam), acredita que não faria um aborto.

Digo “acredita” porque, como quem já engravidou – de propósito ou sem querer, desejada ou indesejadamente – sabe, engravidar muda muita coisa na gente. Eu já vi pessoas que sempre disseram que não queriam ter filhes e que abortariam se engravidassem resolverem ter a criança, assim como já vi pessoas que sempre juraram que nunca, jamais, nunquinha, de forma alguma, abortariam (bastante julgamento moral aí), depois de se verem grávidas, em pouco tempo passarem a pertencer a esse grupo de mulheres que antes elas tanto haviam julgado. Frise-se o plural em ambos os casos, porque não falo de uma mulher nem duas.

Mesmo assim, fica a pergunta do por que, do para quê. De onde vem a necessidade de a pessoa oferecer gratuitamente essa informação sobre si mesma, se é algo que trata apenas dela e não tem nada a ver com apoiar ou não a legalização do aborto?

Bom, primeiro, penso na pressão de outras pessoas – família, amiges, eventuais colegas de trabalho, ou pessoas que frequentem o mesmo lugar de culto religioso – especialmente se estamos falando de posicionamentos em TL de facebook. Essa pressão se torna ainda maior pelo fato de estarmos falando de algo que, infelizmente, ainda constitui um crime na nossa legislação. Não são poucas as pessoas que defendem a suprema baboseira de que o mero falar a respeito e defender a legalização seria um crime em si ( a “Incitação ao crime”, prevista no artigo 286 do Código Penal – “Incitar, publicamente, a prática de crime”), como forma de silenciar e censurar opiniões pró-legalização.

A pessoa que sucumbe a essa pressão tenta fugir da mesma reprovação moral de que nós, mulheres que abortam, sofremos. Eu acho, claro, que seria muito útil que ela desconstruísse isso. Útil para ela e para a coletividade em que ela está inserida. No entanto, não me sinto no direito de exigir essa desconstrução dela, porque penso ser algo que cada pessoa tem seu tempo – e seu desejo ou não – de fazer. Sinto que empurrar pessoas para que enfrentem essa repressão é tão injusto quanto, guardadas, claro, as devidas proporções, exigir que pessoas LGBT saiam do armário quando elas não se sentem prontas para fazê-lo. A pressão para elas é invencível naquele momento.

Todas as vezes em que eu falo sobre aborto há pessoas que me procuram com mensagens privadas de apoio. Muitas delas jamais abortaram e acreditam que não o fariam e mesmo assim empatizam tanto com a mulher que aborta que sentem a necessidade de manifestar isso de alguma forma. O fato de elas temerem sofrer represálias por conta desse posicionamento diminui a validade do acolhimento que elas se dispõem a prestar? Eu sinto que não.

Outro ponto é o valor argumentativo dessa assertiva. Dizer “eu não faria, mas defendo o direito de fazer” realça, para mim, a necessidade de não impormos a outras pessoas nossos próprios valores, crenças, vontades, etc. Frisa a desnecessidade de concordância com o ato para a aceitação dele.

A presença dessa declaração, muitas vezes, longe de ser uma forma de criar a distinção entre as mulheres que fariam e as mulheres que não fariam, é uma forma de lembrar a todes precisamente a irrelevância da posição pessoal de cada ume sobre si mesme quando se pensa numa criminalização que é aplicada a toda a coletividade. É uma forma de demarcar que a legalização obviamente não torna obrigatório o aborto, mas apenas o possibilita para quem o QUEIRA.

Há quem problematize (com muita propriedade) se não seria contraproducente tentar desfazer uma distinção através de uma fala que aparentemente a reafirma. Mas eu acredito que não, porque já vi discussões em que foi esse posicionamento que permitiu que a pessoa percebesse que falar de legalização do aborto não é, necessariamente, falar dela própria abortar ou não.

Um outro aspecto, não menos importante – aliás, o mais proeminente para mim nessa questão da empatia – é a necessidade da pessoa de reafirmar para si mesma valores que, talvez, sinta-se traindo ao defender a legalização do aborto. Porque ela pode ter convicções tão profundas quanto ao aborto ser algo fundamentalmente errado que lhe seja muito difícil conciliar isso com sua defesa do direito de outras pessoas decidirem sobre algo que envolve a autonomia que têm em relação a seus corpos. E falar isso talvez seja a forma que essa pessoa encontrou de ficar em paz com um posicionamento que ela sente ser contraditório ou incoerente. E eu respeito isso.

Eu, pessoalmente, não acredito que um feto seja uma criança, a menos que seja uma criança para a mulher em cujo corpo ele está. Eu penso que o que torna o feto um bebê é a mulher que o carrega vê-lo dessa forma: humanizá-lo, personalizá-lo. Não é algo baseado na ciência ou na religião, é quase uma forma de sentir. Afinal, eu já engravidei três vezes, mas em apenas duas senti que havia uma criança crescendo dentro de mim.

Daí, por pensar dessa forma, às vezes me esqueço de que muitas pessoas acreditam que há um bebê dentro de cada mulher grávida desde o momento em que ocorre a concepção. De que, quando eu falo em aborto, essas pessoas ouvem assassinato. E reagem, muitas vezes, com a mesma revolta com que eu reajo quando pessoas falam de seu “direito” de maltratar crianças.

Então eu tento manter isso em mente nas minhas interações com outras pessoas quando trato do assunto – que elas não necessariamente sentem e pensam como eu em relação a isso e que elas não precisam sentir e pensar como eu para me apoiarem no meu sentir e pensar e, inclusive, agir. Que, aliás, me parece uma grande demonstração da tolerância  que eu considero essencial à vida em sociedade que elas sejam capazes de colocar de lado convicções tão profundas e aceitarem o meu direito de praticar um ato que muitas vezes vai contra tudo em que elas acreditam.

A empatia, para mim, não está em não julgar, mas em colocar o meu julgamento de lado por um segundo e me colocar na posição da outra pessoa, tentar ver pela perspectiva dela o que se passa com ela, me despindo, naquele momento, das minhas próprias crenças, da minha forma de ver o mundo, e adotando as dela.

No meu entender, empatizar inclui aceitar que a pessoa pode pensar diferente. Que ela tem o tempo dela para desconstruir e o querer dela em relação a fazê-lo ou não. E que não é porque eu acho que ela deveria desconstruir que ela tem que desconstruir, já que, assim como eu acho que ela deveria desconstruir, ela também pode achar que quem deveria desconstruir sou eu. A moral de cada pessoa só cabe a ela própria trabalhar – ou não.

Por isso, não me incomoda que a pessoa tenha para si mesma que eu cometi uma atrocidade, uma monstruosidade, um assassinato. Não creio que alguém pense assim porque quer, simplesmente. Conheço casos de pessoas que veem o aborto como infanticídio e mesmo assim o fizeram, porque se viram forçadas a isso pelas circunstâncias em que estavam, e hoje ainda se odeiam por isso. Será que alguém faz isso por vontade? Será que alguém vive em conflito porque gosta de sofrer? Não acredito nisso. Me incomodaria sim se ela manifestasse esse julgamento de forma a me ferir com ele, se ela pretendesse me adequar à moral dela, me impor o sofrimento que ela sentiria no meu lugar.

Agora, obviamente, não é porque algo não me fere que não fere a qualquer outra mulher que tenha feito um aborto. A maioria delas se ressente e muito de ver a necessidade de outras pessoas de logo estabelecerem que não fariam um aborto, mesmo quando defendem sua legalização. E isso, só isso – saber que há alguém que, quando eu falo assim, se sente julgada e discriminada, ao invés de apoiada – para mim, como diria Lucys Santos, já seria motivo para evitar essa fala.

Além disso, o aborto é invariavelmente um tópico delicado para quem passou por ele. Especialmente por conta da ilegalidade, o tratamento (ou até não tratamento, que infelizmente acontece bastante) que mulheres recebem durante o procedimento muitas vezes é traumatizante. A sensação de desamparo, de frieza, o medo de morrer, o medo de ser descoberta, muitas vezes se somam a outros sentimentos comuns (embora nem sempre presentes) a respeito, de pesar, culpa, tristeza, reprovação moral, temor religioso, etc. São lembranças que frequentemente passam a assombrar a mulher que aborta para o resto da vida dela.

Me parece absolutamente irrazoável exigir que alguém que passou por tudo isso, alguém que está na posição de pessoa oprimida, aliás, ainda tenha empatia e compreensão quando as palavras de outres cutucam essa ferida, que tantas vezes sequer chegou a cicatrizar. Que muitas nunca tiveram a chance de elaborar, falar a respeito, por medo de serem presas.

O pior aspecto da criminalização, ao meu ver, é esse silêncio. É essa falta de franqueza, de diálogo. Não só porque haja mulheres sofrendo sozinhas enquanto precisam do nosso apoio, mas porque essa troca facilitaria a empatia tão necessária na compreensão da posição da outra pessoa e no respeito ao direito dela em relação ao seu próprio corpo. Porque é fácil ser contra um ato em abstrato, sem ter que olhar nos olhos de quem o comete. É fácil esquecer quem está ao redor do feto, do embrião, quando aquela pessoa não está diante de você.

Se, por um lado, não temos como mudar de fora a moral das pessoas, por outro, sinto que a legalização seria uma forma de estabelecer limites para que a moral pessoal de um indivíduo não extrapole a sua pessoa, impondo-se a outrem. Ao mesmo tempo, a legalidade abriria o caminho para a conversa que poderia suscitar o acolhimento que permite o apoio à outra pessoa mesmo quando os atos desta contrariam a nossa moral.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já tenham feito pelo menos um aborto. Mulheres solteiras, casadas, com filhes, sem filhes, com grana, sem grana. Olhe ao seu redor, para as mulheres que você ama. Uma delas (ou mais!) pode estar neste momento sofrendo muito com as suas palavras e você jamais saberá disso. Isso não é suficiente para que você reconsidere seu uso?

Crianças são pessoas

Continuando o assunto da semana passada, resolvi escrever a partir da minha resposta a um dos comentários que apareceram no meu post “Tirania Infantil?”.


Nós vivemos em sociedade. Viver em sociedade significa viver em contato com outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade.

Crianças e suas mães são pessoas. E fazem parte da nossa sociedade. O que é ótimo, a menos que não tenhamos interesse na continuidade dela.

Algo que ilustra bem isso é o nosso atual sistema previdenciário, que é solidário. Ou seja, se você contribui hoje, o seu dinheiro é usado para custear as aposentadorias e demais benefícios que são pagos hoje; quando for a sua vez de receber, o seu benefício será custeado pelas pessoas que estejam trabalhando e recolhendo suas contribuições à previdência naquele momento.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora. Mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar – talvez até mesmo a sua sobrevivência – dependerá. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Mas o mais fácil é nos acomodarmos, responsabilizando apenas a mãe (nem mesmo o pai, olha só o machismo da coisa) pelo bem-estar da criança. O mais fácil é dar de ombros e mandar um “quem pariu Mateus que o embale”, o que é particularmente ridículo e profundamente hipócrita num país em que o aborto é criminalizado – sentir-se no direito de desamparar alguém por conta de uma escolha que ela na verdade foi privada de fazer.

Mas é só dizer isso que aparece alguma alma especial falando algo na linha do “ninguém mandou abrir as perninhas”. Fora o machismo de fazer vergonha a Jece Valadão, eu espero sinceramente que, por uma questão de coerência, quem pense dessa forma mesquinha tome para si mesme seu conselho e se abstenha de manter relações sexuais quando não estiver disposte a procriar. Até porque somente a completa abstenção tem eficácia contraceptiva comprovada de 100% sem riscos e efeitos colaterais – afinal, é muito bonito sair papagaiando que “hoje em dia só engravida quem quer” quando não se tem alergia a látex ou se convive bem com o D.I.U. ou os inúmeros problemas e riscos de saúde que a pílula anticoncepcional traz. Além disso, só para constar, a laqueadura (esterilização feminina) continua sendo tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples.

Enfim, essa visão da criança como uma ferramenta de tortura para mulheres que ousaram fazer sexo e, mais, a visão das mães como pessoas que “trazem problemas ao mundo” por suas “escolhas pessoais” em relação à maternidade é tão comum que acontece até, por exemplo, de recriminarem a mãe por usufruir da licença-maternidade, como se fosse culpa dela – e do bebê – a sobrecarga profissional que eventualmente resulte de sua ausência temporária ao trabalho. Veja só: ao invés de revoltar-se contra sua própria exploração, contra o sistema, contra sue empregadore, a pessoa prefere culpar outra pessoa tão explorada quanto ela.

Acontece até mesmo de feministas terem um posicionamento hostil com relação a crianças e mães, porque transferem para elas (e tudo o que envolva a maternidade) a raiva que sentem da expectativa machista de que, por de serem mulheres, desejem a maternidade e saibam tudo sobre ela e só se sintam plenamente realizadas tornando-se mães.

Eu entendo o ressentimento e reconheço a opressão, mas não acho que uma opressão justifique outra. Essa falta de sororidade e esse adultismo só fazem pisar ainda mais quem já está por baixo e em nada atingem o machismo que é o verdadeiro problema nesse caso.

É comum vermos pessoas falando que não gostam de crianças (ou mesmo que as odeiam, detestam, querem morram todas, etc.). Falando não, bradando, de peito estufado e voz confiante. Enquanto é socialmente inadmissível, hoje, alguém ostentar seu preconceito em relação a qualquer grupo oprimido – pessoas negras, idosas, LGBT, com deficiência, etc. – ninguém parece ter problemas se o preconceito é contra crianças. E, sim, é preconceito você “não gostar de crianças”. Você pode não saber lidar com elas, você pode não saber cuidar delas; já não gostar delas todas, assim, por princípio, só por serem crianças? Preconceito.

E vem a resposta indignada: “mas agora você vai querer cagar regra sobre o gostar alheio? Vai querer me forçar a gostar do que eu não gosto?”

Não. Não posso, e, menos ainda, quero, forçar qualquer pessoa a gostar ou desgostar de nada ou ninguém. O que eu quero é respeito. Para todo mundo. Se você tem preconceitos e não quer desconstruí-los, ok. A cabeça é sua, eu é que não quero entrar nela. Mas vá ter o seu preconceito lá no seu canto, sem incomodar ninguém. Afinal, assim como você tem o direito de gostar ou desgostar do que ou quem for, preconceituosamente ou não, as demais pessoas do mundo têm o direito de não se sentirem discriminadas, desrespeitadas, ofendidas e insultadas simplesmente por pertencerem a um determinado grupo.

Como você se sentiria se alguém declarasse na sua frente – ou até para você – que não gosta de quem é da sua etnia, de quem exerce a sua profissão, de quem tem a sua idade, de quem tem a sua orientação sexual, de quem tem a sua crença ou não crença religiosa? Você não sentiria raiva, medo, tristeza? Não se sentiria, no mínimo, hostilizade?

E por que se supõe que as crianças não sintam isso? Então crianças não têm sentimentos, nem dignidade? Não se ofendem? Não riem quando lhes fazem cócegas? Não sangram quando são espetadas?

Claro que sim. Elas são pessoas. Como eu e você.

Eu já viajei de ônibus e avião com crianças chorando, assim como já viajei de ônibus e avião com pessoas adultas fumando (sim, fumando), gritando, discutindo aos berros, dando chiliques. Mas nunca vi ninguém reclamar da balbúrdia das pessoas adultas da forma como tão unanimemente se reclama desse “insuportável incômodo” que é o choro de um bebê. E isso mesmo quando, evidentemente, a capacidade de uma pessoa adulta de se controlar é infinitamente maior que a capacidade de um bebê de se controlar (se é que cabe controle em relação à única forma que uma pessoa dessa idade tem de demonstrar qualquer tipo de desconforto).

Também já jantei em restaurantes onde havia pessoas adultas agindo de forma extremamente desagradável. Mas é das crianças que brincam e correm que as pessoas reclamam. Ninguém fala nada para as pessoas adultas que agem de forma inconveniente, mas basta uma criança abrir a boca para que alguém já se sinta no direito de olhar feio, ou fazer comentários desaforados e demais malcriações passivo-agressivas ou diretamente agressivas que lhe estejam ao alcance.

Por quê? Por que a nossa tolerância é tão menor com quem, na verdade, mereceria mais dela? Por que não implicamos com alguém do nosso tamanho?

Por covardia. Exigimos das crianças que ajam da forma como é mais conveniente para nós porque estamos na posição de forçá-las a isso, ou de constranger outra pessoa para que o faça, sem nem mesmo nos darmos ao trabalho de avaliar se é mesmo cabível a adequação que estamos demandando. Já em relação à pessoa adulta, via de regra engolimos tudo o que não seja proibido por lei (e até mesmo muitas coisas que, na verdade, o são, vide o caso dos fumantes em aviões e ônibus).

Não estou falando que choro de criança seja melodia celestial, nem estou dizendo que crianças nunca ajam de forma inaceitável (eu sou mãe, sei bem que isso não é verdade). O que eu estou tentando expor neste texto é a suprema hipocrisia adultista, que muitas vezes torna “inaceitáveis” os comportamentos infantis da criança enquanto tolera de pessoas adultas coisas muito piores.

A reflexão que estou fazendo aqui não é no sentido de “vamos deixar as crianças fazerem o que bem entenderem”, mas no sentido de parar de penalizar crianças por serem crianças. De parar de exigir delas (e de cobrar de mães e pais que o façam) um comportamento adulto enquanto negamos a elas a tolerância que teríamos com uma pessoa adulta.

Se o choro do bebê incomoda a você, saiba que a ele incomodam seus fogos e rojões, seus motores barulhentos que fazem fumaça fedorenta, seus gritos, suas baladas, seus aparelhos de som, seus perfumes excessivos, suas televisões, o ruído dos seus animais domésticos, seus cigarros, suas comidas de cheiro forte, suas buzinas, seus aspiradores de pó e demais eletrodomésticos, seus alarmes de carro e de casa e de relógio, suas sirenes, suas luzes, etc. E nem por isso ele te odeia a priori. Olha só. Como são grandes as pequenas pessoas, não?

Quando vamos sair das nossas bolhas adultocêntricas e adultistas e reconhecer que crianças têm tanto direito de ocupar o espaço quanto nós?


 

*Agradeço novamente às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)