O corpo da mãe

corpo

Assim que eu pisei dentro do círculo, pensei que tinha feito merda. Porque o que estava vindo não era o que eu achava que iria vir e estava tão forte, tão intenso. Será que eu estava preparada para o que estava atrás da porta que eu estava prestes a abrir?

Eu estava num ‘fórum’ ou ‘círculo de confiança’, uma prática que está começando a se difundir no Brasil, voltada à promoção de transparência, confiança e gestão emocional em coletividades. Já falei a respeito antes.

Aquele círculo, em particular, era temático, ou seja, tinha um tema preestabelecido e as pessoas podiam ir entrando, se quisessem, para discorrer sobre aquele assunto na sua vida naquele momento, diante dos olhares empáticos e sustentadores des demais participantes do círculo.

O tema da sessão era, simplesmente: meu corpo.

Eu não queria entrar. Eu pensei e pensei e não achei muito o que falar disso naquela hora. A coisa mais viva dentro de mim a esse respeito me parecia ser o esporão no calcâneo que me causava dores ao caminhar e me impedia de correr já há quase seis meses.

Assim que o centro foi aberto, no entanto, eu senti algo que aprendi ser, em mim, o “chamado” do campo do fórum, o sinal de que é hora de eu entrar: o coração batendo acelerado, as pernas inquietas, a vontade de levantar.

Eu não queria entrar. Meu calcanhar não parecia lá tão importante naquele momento.

Minha pulsação ficou ainda mais pesada, veio para meus ouvidos, minha garganta.

Esperei ainda alguns segundos, talvez por covardia de antecipar que não seria tão simples, talvez  por medo de monopolizar o tempo disponível. Então fiquei tentando conter tudo aquilo, a pretexto de ver se não tinha mais alguém que quisesse entrar primeiro, me sentindo uma garrafa de coca-cola recém-chacoalhada.

Mas o tempo passou e ninguém me salvou; eu já não tinha mais como conter aquela erupção.

Me ergui, meio a contragosto, uma parte de mim brigando e querendo ficar sentada. Tive uma troca de olhares com a facilitadora, em que tive a impressão de que ela percebeu o meu conflito interno e checava se eu estava presente, consciente, responsável por mim.

Sim, eu estava – estava na chuva e já disposta a me encharcar.

Dei meu primeiro passo e já não me lembrava mais o que eu queria dizer. Meu corpo inteiro se eletrizou, como se atingido por um raio. Eu estava tremendo, minhas mãos formigavam, minhas pernas estavam bambas, mas eu caminhava em passos, enérgicos, largos, fazendo círculos dentro do círculo, procurando dentro de mim as palavras. A cada movimento, eu sentia chegando até mim o cuidado, o respeito, a segurança das pessoas que, sentadas, me observavam em silêncio.

As lágrimas começaram a correr grossas, viscosas, quase, pelo meu rosto e, de repente, da minha boca saiu:

“Eu sou mulher?”

E, logo em seguida, com mais dor, mais lágrimas:

“Eu sou mulher! … Mas… eu sou mulher?”

Um segundo de silêncio e de novo irrompeu de mim:

“Este corpo, é de mulher?”

Agora eu girava em mim e girava no círculo, rotação e translação, sem lua, sem sol, sem rumo preciso, sem saber onde queria chegar, mas sabendo que queria chegar.

Mais uma contração e eu expeli:

“Se este corpo não é de mulher então é de quê?”

Um soluço fundo socou meu peito.

“Quem eu sou?”

Parei, chorando muito, de olhos fechados.

A facilitadora me chamou, me guiando para que eu não me perdesse em mim. “Para quem você está perguntando, Naomi?”

Eu ali era Naomi, não Letícia. Não podia ser Letícia, porque seríamos duas Letícias e isso causaria confusão. E o meu nome de criança, meu nome japonês, meu nome secreto, meu nome de dentro da família, dito ali, enquanto eu chorava, aberta, exposta, foi como um carinho de mãe depois de um susto grande. Me veio um suspiro de alívio lá de dentro da alma.

Um segundo depois, me lembrei das minhas colegas de balé caçoando de mim, cantando “Naomi, ‘não-é-hómi’, mas parece…” e a vergonha me invadiu rápido, me fez temer ser ridícula.

Olhei em volta, buscando o cuidado, o carinho do círculo. A reafirmação de que eu poderia deixar vir, deixar nascer, que o que viesse seria aceito, seria bem-vindo. Que aquele meu presente para mim e para o grupo era desejado.

Senti o amor chegando até mim, me segurando em pé, me amparando na minha pesquisa de mim. Outro afago de mãe, outro suspiro. Eu não estava sozinha.

Respirei fundo, foquei na pergunta; como ela chamava a razão, a emoção que me agarrava aliviou um pouco a pressão sobre o meu corpo, meu pescoço. Minha voz se desembargou.

“Não sei. Para alguém que possa me responder.” Aqui uma pontada de raiva, como uma irritação sem um alvo particular, uma frustração de quem não encontra o caminho que parece que está perto, mas não vem. Uma tristeza que não queria ser tristeza, que não queria aceitar. Impaciência? Talvez.

“E quem você acha que pode responder isso?” Ela me perguntou então, com um sorriso suave, curioso, reassegurador.

Eu ri pequeno.

“Eu”.

Ela me perguntou se eu gostava do meu corpo, do que ele me proporcionava.

Eu comecei a dizer que sim, que gostava do meu corpo, e então a co-facilitadora me perguntou se eu me importaria de mostrar mais desse corpo de que tanto falávamos.

Eu estava usando uma jaqueta enorme e pesada. Tirei. Não me contentei e tirei também a camisa, ficando só de sutiã. Teria tirado mais, mas senti frio. Eu me sentia segura ali; se quisesse poderia ficar totalmente nua. Na verdade, já estava.

Completei então me acariciando, agradecendo ao meu corpo, relembrando coisas e sensações que ele me trazia – movimento, conquista, prazer. A alegria me deixou leve e fez brotar de mim:

“Meu corpo me deu uma filha e um filho. E fez leite para eles.”

As lágrimas voltaram, agora mais fluidas. De repente me senti muito só. Só eu.

Era a primeira vez que eu ficava sem as crianças por tanto tempo. Meu marido foi com elas visitar a mãe dele e eu tive “férias” por um mês inteiro. Há seis anos e meio eu não ficava sozinha só comigo, sem qualquer preocupação imediata na minha cabeça que não fosse o meu próprio bem-estar. Há seis anos e meio meu corpo não era só meu, mas dividido com crianças que queriam colo, que queriam peito.

E o tempo de peito estava chegando ao fim. Depois de seis anos e meio.

Era uma delícia agridoce estar só comigo e eu estava desfrutando dela ao máximo em cada segundo. Mas foi só naquele instante que eu me dei conta de que estava atravessando uma crise de identidade por conta disso. E a profundidade dela.

De repente, me veio o grito:

“Mãe?”

“MÃE?!”

“MÃÃÃEEE!!!”

E a resposta, em seguida, melancólica, serena, aceitando a verdade:

“Não tem mais mãe. A mãe agora sou eu.”

(Eu ainda tenho mãe. Não era sobre ter a mãe. Era sobre ser adulta. Sobre ser responsável não só por mim, mas por outras duas pequenas pessoas também.)

Era o fim de uma era. O fim de uma eu.

O fim de uma eu muito querida, que trouxe tantas coisas novas, tanta mudança, tanta revolução para mim e, por tabela, para quem estava ao meu redor. E o começo de uma nova eu, com tanta promessa e esperança de ainda mais aventuras.

Mas uma precisava morrer para a outra poder nascer. E como eu iria fazer a transição de uma vida para a outra? Como eu iria conciliar as atividades dessa nova eu com a minha maternidade, essa nova maternidade dessa nova mãe que eu agora era? E quem era ela?

Meu corpo agora voltava a ser só meu. Mas que corpo era esse, agora?

Seis anos e meio.

Eu agora voltava a ter tempo para mim. Mas quem era a pessoa que eu ia encontrar nesse retorno para mim?

Seis anos e meio.

Será que eu ia gostar dela? Será que ela ia gostar de mim? Será que ela iria conseguir cuidar das crianças – dentro e fora de mim?

Aquele círculo me mostrou – melhor dizendo, me ajudou a ver – que viver o luto era o que abriria caminho para a minha celebração.

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Flutuando

Foto de participante do curso curtindo o amanhecer. Tirada por Alam Kenji Minowa. 

“Para você, que gosta de gatos” dizia a legenda da pessoa que me mandou o vídeo. Era um vídeo sobre como se comportavam os gatos em gravidade zero. Que nem em uma estação espacial.

Acontece que gatos, como se sabe, têm um sistema interno muito interessante que lhes permite quase sempre cair de pé. Se você solta o gato no ar, mesmo que ele esteja com os pés para cima, ele rapidamente identifica onde é em cima, onde é embaixo e gira o corpo, primeiro a metade dianteira, depois a traseira e voalá. Aterrisagem leve e perfeita, com as quatro patas lindamente cravadas no chão.

E em gravidade zero?

Em gravidade zero, não há em cima, não há embaixo. Não há cair. Daí que o gato fica se torcendo desesperadamente para um lado e para o outro, tentando identificar o “chão”.

Eu não gostei do vídeo, achei enervante, angustiante. Mas muitas pessoas – como a que o enviou para mim, suponho – acham aquilo engraçado, fofo. Se você quiser ver, eis o link.

Este texto, no entanto, não é sobre o sofrimento dos animais em experimentos conduzidos por seres humanos (apesar de eu ser solidária à causa), mas para falar sobre um curso que eu fiz em fevereiro passado, chamado “Seminário As One“, oferecido pela Vila Yamaguishi, em Jaguariúna.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Me dê um segundo que eu já chego lá.

O seminário são oito dias de imersão em grupo (de preferência um grupo de pessoas que não se conheçam entre si), em um sítio, sem contato com o mundo exterior (nem mesmo por celular), refletindo intensamente sobre questões simples, mas fundamentais da nossa existência.

Basicamente, conduzimos, de forma científica, uma pesquisa em torno do zero (no sentido de esvaziamento das nossas presunções, pré-concepções, preconceitos, dogmas, etc.) através do reconhecimento e temporária suspensão de tudo aquilo que não é esse zero.

(E, ah, como tem coisa que não é o zero… é de cair o cu da bunda, como se diz no sul.)

A premissa já é muito interessante, mas o método, a forma como essa investigação ocorre, também é completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha vivenciado. Os “zeladores” – como são chamadas as pessoas de lá que nos acompanham durante o curso – muito pouco falam. E, quando falam, normalmente é na forma de perguntas. O que acaba acontecendo é que, apesar de haver uma orientação básica em uma direção, quem anda são os integrantes do grupo, com suas próprias pernas… e o caminho leva cada pessoa, ao mesmo tempo, para dentro e para fora de si mesma.

A furiosa (em intensidade e, em alguns momentos, humor) pensação é interrompida somente para alimentação, banheiro e higiene pessoal e do ambiente. Ah, e alguns minutinhos de leves exercícios para começar o dia. É puxado, uma maratona cerebral mesmo – ainda que sobre assuntos que não sejam só intelectuais. Até eu, que me considero uma pessoa bastante racional, porque vejo que muito do meu processamento das coisas passa pela minha cabeça e, especificamente, pela sua articulação em palavras, fiquei em algumas horas com uma vontade louca de, sei lá, fazer uma ciranda, uma pintura, dançar…

E, no entanto… “Dá vontade de sair para dar uma volta”, uma colega comentou num dado momento. Um dos zeladores levantou as sobrancelhas: “Ué, e por que você não vai?” Não era uma pergunta retórica. Algo que é vivido no seminário, desde o momento de chegada até o momento de partida, é que não existe obrigação. Existe escolha. Eu posso não gostar das escolhas que tenho ao meu dispor, mas isso não faz da minha escolha menos escolha.

E foi com pequenos detalhes assim que, nessa busca, eu fui perdendo meu chão… meu em cima, meu embaixo, meu norte, meu sul. O que enfim traz à baila os gatos em gravidade zero. Porque, de repente, me peguei agradecida por ter visto o tal vídeo, mesmo que não tenha gostado dele, porque me trouxe acolhimento encontrar a imagem perfeita para ilustrar o furacão de sentimentos dentro de mim – e de tantas outras pessoas, aparentemente.

Eu passei uma vida toda aprendendo a designar um céu e uma terra; desenvolvendo esse hábito a partir de uma necessidade de segurança, de não querer me machucar, de querer cair de pé. E agora eu estava vendo que, no fundo, nunca houve céu nem terra, mas apenas escolhas minhas de ir em uma direção ou em outra, baseadas na minha forma de ver a vida e o mundo e eu mesma. E que, por hábito, por medo, eu agora, tendo me privado dos meus eixos de costume, me contorcia, procurando alguma base de sustentação.

Essa ideia me permitiu colocar de lado o meu desespero para fazer eu mesma o experimento de simplesmente me deixar flutuar. E então perceber que não estava caindo. Porque a sensação da queda – e seu impacto – vinham da mesma ilusão que me trazia segurança, ou seja, a ideia de que havia direções certas e erradas para eu seguir.

Naquele momento, desvencilhada dessa ilusão, eu tomava consciência de que era livre para flutuar.

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***Você pode ler mais sobre a minha experiência no Seminário As One na página de depoimentos, aqui.

***Você pode encontrar mais informações sobre os próximos seminários, custos etc., aqui.

Pintura da artista Bronwin Schuster, encontrada em https://www.boredpanda.com/cats-in-space-bronwyn-schuster/

Feminismo é amor

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Sim. Para mim, feminismo é amor.

É comum que a palavra feminismo seja associada à raiva, à luta. E faz sentido que seja. Mas, para mim, o que o feminismo promove é algo anterior a isso. Mais profundo que isso.

Eu já sentia raiva antes do feminismo. Essa raiva vinha do fato de que muitas necessidades muito básicas minhas – de liberdade, de segurança, de respeito, de cuidado, de justiça – não estavam sendo atendidas em inúmeras das minhas interações. E do medo de que jamais o fossem. E da sensação de impotência diante disso.

Eu sempre fui a “arrogante”, a “briguenta” (leia-se: mulher assertiva). Então eu achava que não tinha raiva represada. Que comigo era bateu-tomou, que eu resolvia as coisas na hora e deu.

Mas daí eu conheci o feminismo. E me dei conta de todas as violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido.

Quando eu falo das “violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido”, estou me referindo a todos aqueles atos que eu me senti muito mal de receber; que, na minha percepção, negavam a minha humanidade. E que eu por tanto tempo fingi que tudo bem eles terem acontecido, dizendo para mim que era o jeito que as coisas eram. Que fazia parte. E fiz de conta que nem doeu tanto assim. Eu contava sobre alguns em tom de piada, aliás, rindo aquele riso vazio, oco, que a gente ri sem alegria.

Por quê? Porque eu sentia vergonha de ter sofrido com aquilo. No fundo, eu achava que eu deveria ter algo em mim para merecer ser tratada daquela forma. E, se não era algo que eu tinha feito, então talvez fosse algo em quem eu era. Que aquele era o meu lugar no mundo.

Não passava pela minha cabeça me revoltar contra isso. Eu teria me revoltado, se fosse a história de outra pessoa – como tantas vezes de fato me revoltei por outrem, uma revolta que só ia até o ponto em que eu não me reconhecia na outra pessoa. Porque, se eu olhasse para ela e visse a mim mesma, não conseguia mais empatizar com ela.

E isso, por quê?

Porque eu não me amava. Eu não sei dizer se realmente me odiei, assim, em absoluto, em algum momento. Senti, sim, muito ódio de mim muitas vezes. Ódio do meu corpo, do meu rosto, meu nariz. Ódio do meu jeito de ser. Da minha voz. Eu acho que nunca quis ser outra pessoa, mas eu sei que quis ser uma versão diferente de mim mesma. Uma versão que, na minha cabeça, pudesse receber amor, cuidado, respeito. Porque eu achava que o jeito de receber essas coisas era mudar a mim mesma. Que tinha algo de fundamentalmente errado comigo para eu não tê-las.

O que o feminismo fez foi me mostrar que não.

Pela primeira vez entretive a noção de que eu não era um ser estruturalmente inadequado, que merecesse passar por aquelas coisas, lidar com aquelas coisas e suas tantas outras manifestações no dia a dia. De que, talvez, eu fosse digna de defesa. De cuidado. Por mim mesma.

Por mim mesma.

E, assim, aos poucos, eu comecei a sentir mais amor por mim. Comecei a me aceitar mais como sou, a cada dia em que sou. Comecei a ser capaz de empatizar mais comigo mesma à medida em que me via espelhada nas outras mulheres com quem empatizava. E comecei a (re)conhecer as mulheres ao meu redor, sem a crença interior tóxicas de que fossem minhas inimigas, sem querer me vingar de mim mesma nelas.

E, desse amor, a revolta nasceu. A raiva aflorou. Tanta raiva. E me dei conta de que muita raiva que eu sentia e achava que era de outras coisas, no fundo vinha disso. Porque as coisas que a gente esconde da gente não vão embora. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – e funciona assim dentro da nossa cabeça também, a meu ver. Toda aquela raiva que estava dentro de mim, contida, guardada, escondida, na verdade estava o tempo todo borbulhando e eclodindo em cada ocasião que tinha oportunidade de fazê-lo.

E, sim, houve momentos em que eu fiquei muito pouco tolerante com o que percebesse como violência – agora que eu finalmente via o meu balde cheio, qualquer gota me fazia transbordar… e eu me permitia transbordar. Mas ver o balde cheio foi o que me ajudou a esvaziá-lo. Ainda tem muita coisa lá dentro, claro. Mas tem bastante que já evaporou.

Ao me permitir sentir a minha raiva, o feminismo me libertou dela. Antes, eu era mais dela; hoje, é ela é mais minha. E eu me sinto mais capaz de escolher a forma como vou lidar com ela.

O mesmo amor que me faz levantar contra quem age de forma a ferir quem eu amo, hoje me faz levantar por mim mesma, seja com raiva ou não.

E amar a mim mesma me permite hoje amar a outras pessoas com muito mais aceitação e entrega, o que me traz muito mais satisfação nas minhas interações.

É por isso que, para mim, feminismo, em seu aspecto mais básico, mais fundamental, é amor.

Quem (não) é a vítima?

***Publicado originalmente em Revista Fórum, em 25 de outubro de 2017.

****Aviso de conteúdo sensível – caso de Goiás****

Eu sofri bullying e abuso sexual na escola entre 13 e 14 anos. Já falei sobre isso antes.

Se eu tivesse uma arma à minha disposição, talvez tivesse matado alguém. Talvez tivesse me matado. Talvez ambos.

Não estou dizendo que isso seria justo, certo, bom. Estou apenas constatando um fato que se torna mais e mais evidente quando converso dentro de mim com aquela menina deprimida e desesperada e, como é típico da idade, impulsiva.

E quando lembro das pessoas que eram minhas colegas e da forma como elas agiram, e consigo enxergar o quanto, no fundo, elas eram muito como eu, agradeço pelo fato de que eu nunca tive uma arma de fogo à minha disposição.

O bullying não acontece porque crianças e adolescentes são cruéis e é isso que fazem, ou porque é essa a natureza humana. Esse comportamento é aprendido e se trata de uma emulação, uma transferência.

Filhotes de animais brincam simulando atividades dos animais adultos. Corças brincam de saltar, correr, esquivar-se. Leõezinhos brincam de caçar. Crianças humanas brincam de casinha, de trabalhar, de falar ao telefone… e fazem bullying.

Isso não se refere só à educação dentro de casa, ou vinda da mãe (ao contrário do que afirma o machismo desbragado de alguns comentários a respeito) mas fora de casa também. Somos parte de uma sociedade que muitas vezes parece baseada na ideia de marginalizar e agredir pessoas que fujam de uma determinada norma ou padrão. O assédio moral – bullying de gente grande – é recorrente em ambientes de trabalho e redes sociais.

Muito se diz de ensinar respeito às crianças. Pouco se fala do quanto desse aprendizado é absorvido através da própria pele. Ainda menos se dialoga sobre o impacto que o nosso exemplo, o exemplo que nós, pessoas adultas da sociedade, damos, tem sobre esse aprendizado.

E quase nada se fala sobre a necessidade de transformar os ambientes de convivência e as interações de forma que seja possível que as pessoas de todas as idades encontrem acolhimento e legitimação para suas aflições. Para que tenhamos empatia, suporte e apoio para lidar com elas, para que encontremos outras formas de dar-lhes vazão que não incluam obliterar a existência alheia para que nos sintamos em segurança… ou mesmo violentar sistematicamente outra pessoa ou grupo de pessoas nesse intuito.

Um menino abriu fogo contra sua sala de aula. Atirou em seis adolescentes, matando dois deles. Um menino que vinha sofrendo bullying naquele espaço, por parte do grupo de pessoas que se reunia ali.

E, se isso é triste, mais triste ainda é o nosso impulso de, diante de uma tragédia assim, tentar identificar agressores e vítimas. Como se algo tão complexo pudesse ser dividido assim, de forma maniqueísta, simplista.

Na perspectiva branca e preta da lei, feita para dividir o mundo entre o que está dentro e fora dela, isso é facilitado. Mas eu não estou falando da lei.

Ouvi pessoas usando o caso para advertir contra forçar quem sofre bullying a se virar sozinho, e ouvi pessoas usando o caso para advertir contra a educação que poupa a criança de lidar com frustrações. Ouvi pessoas falando que o menino que atirou estava fazendo sua justiça torta contra quem o atormentava diariamente, e e ouvi pessoas falando que o menino que atirou é quem atormentava aes demais, constantemente ameaçando colegas com as armas dos pais policiais.

Eu não vejo bullies e atiradores. Procurei e não encontrei. Vejo meninos e meninas em uma situação que escalou de forma trágica e inesperada. Vejo três vidas perdidas, de um jeito ou de outro, vidas de pessoas feitas de muito mais do que só o que aparece na estreiteza de rótulos como esses.

O que fica para mim não é uma linha divisória que coloca um de um lado e outres de outro, mas o quanto as linhas que nos dividem – a todas as pessoas, não só àquelas envolvidas neste caso – são ilusórias.

O que fica é a tristeza da percepção de que são elas, essas linhas ilusórias, que são o problema. E não os meninos e meninas que agem e reagem sob a orientação delas.

Freixo, Priscila e Isadora

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 29 de julho de 2017.

freixo

 Foto: Luiza Marangoni (de http://www.srzd.com/brasil/priscila-soares-e-marcelo-freixo-o-machismo-oculto-e-o-explicito/)

Nesta semana, Priscila Soares (vulgo “ex-mulher de Freixo”, segundo a maior parte da mídia) denunciou, por meio das redes sociais, o machismo que sofreu durante sua relação com um dos políticos atualmente mais proeminentes da esquerda dita mais à esquerda: Marcelo Freixo, PSOL.

Como exposto por Maria Elisa Maximo, do Catarinas, “Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.”

É sempre infeliz quando a postura majoritária da esquerda nos coloca em posição de encontrar lucidez nos prepostos mais delirantes da direita. Pois eu li e, mesmo tampando o nariz, me vi obrigada a concordar com Rodrigo Constantino, que propôs uma reflexão sobre como essa denúncia teria sido recebida se seu alvo fosse, por exemplo, o homem que adoramos odiar: Jair Bolsonaro.

Nós esperamos machismo das figurinhas da direita. Mas o que fazemos quando nos deparamos com o machismo da esquerda? O que fazemos quando pessoas a quem admiramos se mostram menos que perfeitas?

Problematizamos? Desconstruímos?

Ou chamamos de “linchamento”, justificamos, racionalizamos e varremos para debaixo do tapete para manter a incolumidade de nossos ídolos?

É muito complicado ver que as pessoas que fazem apontamentos e levantam questionamentos que são tão importantes são tão frequentemente tratadas como se fossem elas próprias o problema. Como se estivessem “fazendo o jogo da direita” ou “dividindo/enfraquecendo o movimento”.

Isadora Freixo, filha de 19 anos do político, compreensivelmente veio a público defender a imagem do pai. Expondo memórias dolorosas de seu relacionamento com Priscila, minou sua credibilidade (se é que isso ainda precisava ser feito, já que a moça já mal estava sendo ouvida), fazendo uso da alegoria da “mulher rejeitada” e fez alusão ao histórico de depressão desta. Ou seja, sem perceber, corroborou as alegações feitas por Priscila em relação ao gaslighting que esta vinha sofrendo.

Contudo, é uma situação complicada. O que Isadora descreve de sua relação com Priscila, assim como os detalhes fornecidos por esta de sua relação com Freixo, não é mera “lavação de roupa suja em público”. São as evidências que corroboram o apontamento (ou acusação, como se costuma chamar) das opressões sofridas no âmbito dessas relações. No caso de Priscila, o machismo, nomeado claramente. No caso de Isadora, o adultismo, que, para esta, como para a maioria das pessoas, infelizmente segue inominado.

Priscila nunca foi filha de Freixo. Isadora nunca foi companheira dele. Mais que isso, Priscila nunca foi Isadora e Isadora nunca foi Priscila. Óbvio, né? Pois é. Mas a decorrência dessa obviedade é menos óbvia. Ambas tiveram com ele tipos de convivência distintos, não só pelo tipo de relação, mas porque são pessoas diversas e, logo, as relações que formam, ainda que com o mesmo cara, serão diversas. Resumindo: a perspectiva de uma não invalida a da outra.

Isadora, assim como Priscila, tem o direito de expor seu ponto de vista. O problema, a meu ver, está em contrapor esses pontos de vista como se apenas um deles pudesse prevalecer. Como se só houvesse espaço para o reconhecimento de uma dor. Uma forma de opressão.

Fazer isso é, na minha opinião, usar o sofrimento de uma pessoa para apagar o da outra, quando, infelizmente, o que não falta é espaço para todo mundo sofrer, ao mesmo tempo, ainda que por motivos diferentes.

E foi por isso que me incomodou tanto o artigo publicado por esta Revista Fórum a respeito dessa questão. Porque, ao lê-lo, eu tive exatamente essa sensação, a de que rolou um: se precisamos falar de flores, então vamos falar de flores, mas vamos antes tecer toda uma crítica às flores, para que, quando estas finalmente aparecerem, elas já sejam vistas com outros olhos.

E isso me parece silenciamento – e não só silenciamento, mas, o que é pior, um silenciamento que finge não ser silenciamento. Afinal, não é que não houve oportunidade de falar, né? É só que a gente vai fazer o possível para que ninguém escute.

E tem mais. Sempre me deixa um gosto amargo na boca quando, diante de uma situação em que se discute o comportamento de um homem, a discussão se desloca para as mulheres que o “defendem” ou o “atacam”, tirando de foco, tcharam… o homem em si. E isso é, para mim, muito machista. Porque agora se atacam as honras e as credibilidades das mulheres, uma é uma louca ciumenta, a outra é uma fedelha ciumenta e por aí vamos.

A crítica ao machismo de Freixo (ou mesmo a outras incoerências deste) não precisa apagar suas virtudes, nem aquilo que ele construiu ou constrói de bom para quem gosta dele. Pelo contrário, é algo que pode ser muito produtivo e benéfico se conseguirmos ter a maturidade de ouvir com orelhas de quem quer aprender e evoluir.

É difícil não cair no maniqueísmo de “ah, ele é machista, logo, não presta”, ou “ah, ela é adultista, logo, não presta”. As pessoas não se resumem a um só aspecto, um só comportamento. Não é porque alguém falou ou fez algo problemático que agora se tem um compromisso de odiar essa pessoa. Fãs do Freixo podem continuar fãs do Freixo sem passar paninho para ele. Quem se solidariza com Priscila pode continuar a se solidarizar sem passar paninho para ela.

Pessoas pisam na bola. Erram. Mas podem aprender com seus erros.

É só que fica difícil a gente aprender com erro quando, ao invés de assumir esse erro, a gente finge que não foi erro, ou que até que faz sentido, no contexto, ou que nem foi tão ruim assim, ou que, na verdade, veja bem… e assim vamos na desresponsabilização. E ninguém consegue ser a tal da mudança que quer ver no mundo.

Confiando

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 1 de março de 2017.

confiando

Há mais ou menos um mês, eu, junto com a minha família, entrei num barco.

No fluxo, o barco balançou, chacoalhou, rodopiou. E eu enjoei, vomitei, chorei.

Senti saudades da terra firme de onde eu vinha antes.

Senti vergonha da minha dificuldade de me manter de pé ali dentro.

Senti raiva do barco, das pessoas nele.

Senti medo de não saber para onde estava indo, ou quem eu seria quando chegasse lá.

Senti tristeza de perceber que já não tinha mais como voltar.

Acima de tudo, porém, senti alegria. Alegria de estar viva. De estar me aventurando. De estar tão bem acompanhada nesta jornada. De estar aprendendo e descobrindo um mundo novo, fluido; escorregadio, mas cheio de possibilidades que a solidez de tantas certezas tendem a matar.

Alegria de aceitar e me soltar e me entregar e me descobrir, de repente, flutuando, leve. Livre.

Há mais ou menos um mês, eu conheci Ita Gabert e Barbara Stutzel. E elas me apresentaram uma Letícia que eu ainda não conhecia.

No começo, me senti estranha, deslocada, inadequada: eu, criatura das pedras, no meio de tanta gente do mato, quase todo mundo com alguma experiência em ecovila, permacultura, anos e anos de prática de vegetarianismo ou veganismo ou algo próximo… e eu pensando comigo se não era o caso de contrabandear, sei lá, um salame, para um momento de desespero.

De repente, eu, que nunca tinha sequer acampado na vida, estava lá, olhando embaixo das camas antes de deitar, para ver se não havia alguma criatura peçonhenta por ali. Cuidando para não deixar crianças sozinhas em lugares ermos, porque estava rolando um papo de onça na região. Sentada num assento sobre um balde, lendo nas simpáticas instruções da parede que “um pote de serragem costuma bastar” para cobrir meu cocô ali dentro – o resultado óbvio tendo sido uma prisão de ventre de quatro dias.

O curso – “O Segredo da Confiança” – não era sobre cagar na serragem, nem sobre aprender a conviver com outros animais, ou passar dias sem comer carne. Mas, sem esse curso, eu acredito que não teria conseguido fazer qualquer dessas coisas agora, e não só por uma questão de falta de oportunidade. Eu creio que não teria me permitido fazer qualquer dessas coisas.

Ita e Barbara são alemãs; moram em comunidades intencionais em seu país há décadas. Seu curso é um compartilhamento, de forma dinâmica e prática, do que sabem sobre a vivência e convivência comunitária e, especialmente, sobre como lidar com conflitos dentro de coletividades de forma a promover coesão e crescimento individual e conjunto.

O cerne do curso é o Fórum ZEGG (link só em inglês por enquanto), uma ferramenta que serve para promover transparência e visibilidade dentro da comunidade. O Fórum não tem pretensões terapêuticas ou de resolução de conflitos, embora muitas vezes resultem processos terapêuticos e conflitos sejam resolvidos, simplesmente pelo trabalho de transparência e visibilidade que ele proporciona.

O formato em si é bastante simples: integrantes se dispõem sentades em um círculo e alguém entra nele para falar de si (sentimentos e necessidades vivas naquele momento) com o apoio de duas pessoas que ficam no papel de facilitadoras do processo, fazendo perguntas e sugestões de falas e ações que a pessoa que está no centro pode ou não aceitar (mantendo, portanto, sua responsabilidade sobre si mesma).

No entanto, alguma coisa a mais acontece ali dentro. Talvez seja a segurança proporcionada pela escuta empática e atenta das pessoas ali presentes, talvez seja o prévio entendimento de que o que é trazido nunca é exclusivo de quem se expõe, mas sempre um fragmento de uma humanidade comum a todo o grupo e, assim, uma pista para que cada indivíduo ali se conheça melhor de alguma forma. Seja como for, o fato é que se abre ali um campo com uma energia diferente, muito similar à que vivenciei nas constelações sistêmicas de que participei; e experimentar esse campo é incrível.

As muitas horas do curso incluíram, além da prática do fórum, dinâmicas para que as pessoas se conhecessem melhor (a si mesmas e umas às outras) e tarefas lúdicas a serem cumpridas em grupo, além de muita cantoria e dança. Demorei para me tocar que havia um desenho aí para que nós, integrantes do grupo, formássemos uma comunidade, ainda que temporária, e que tivéssemos a chance de convivermos o suficiente para que desentendimentos começassem a surgir. Porque não adianta só falarmos sobre lidar com conflitos, né?

Eu trouxe ao Fórum o meu incômodo com o banheiro seco quase que como piada, embora fosse algo sério, que afetava meu humor e minha (enfezada) presença. Eu queria muito usar o banheiro, porque queria ver como era, mas, quando chegava lá… nada. Me sentia como se estivesse broxando e a comparação me parecia hilariante.

Mas, claro, essa parte era só o bandeide.

No fundo, havia o meu corpo manifestando minha dificuldade de me desapegar das minhas crenças em relação ao que eu podia ou não ser, fazer. Havia um medo meu de não dar conta daquelas mudanças todas, especialmente sabendo que não tinha mais como voltar atrás – não em paz, pelo menos. E uma desculpa para eu me manter na minha zona de conforto, confirmando para mim que eu não funcionaria fora dela.

Colocar as nossas tralhas emocionais para fora é tão salutar e necessário para o nosso bem-estar quanto defecar. E, assim como acontece com nossos dejetos, o que pode se tornar até tóxico se retido dentro de nós, se torna adubo que alimenta o ciclo da vida quando posto para fora.

Comecei falando dos meus intestinos, rindo, terminei falando das minhas entranhas, chorando. E naquela noite, como se por mágica, nasceu de mim uma Letícia capaz de cagar num balde com serragem.

Vida. Nova vida.

Esse foi apenas um dos meus momentos no Fórum. Houve muitos outros, igualmente profundos e transformadores, inclusive durante falas de outras pessoas. Foi uma experiência revolucionária e tão fantástica que, assim como me encho de gratidão por ter tido a oportunidade de vivê-la, me encho de tristeza por saber que ela está atualmente praticamente restrita a quem pode pagar por ela, pela necessidade de cobrir o custo das passagens de Ita e Barbara (que vêm da Alemanha) e do alojamento e alimentação nas ecovilas onde ocorrem os módulos. Ressalvo aqui o esforço considerável que tem sido feito no sentido de não impedir o acesso de quem tem interesse, mas não tem grana.

Eu gostaria de levar o Fórum para fora desses espaços privilegiados. Porque falta o recorte de raça, de classe, de região. Porque o Fórum, para mim, faz parte da revolução da qual eu quero fazer parte – uma revolução feita pela conexão, pela cooperação, por mudanças que ocorrem não por força, medo ou vergonha, mas porque mudar passou a fazer sentido, simplesmente. E eu gostaria que mais pessoas tivessem acesso a isso, se quiserem.

Então eu vim aqui mostrar. Chamar. Pedir. Porque quanto mais gente se interessar pelo Fórum, maior a probabilidade de conseguirmos fazer uma formação de facilitadores de Fórum aqui no Brasil, o que nos possibilitaria disseminá-lo com a nossa cara e as nossas cores, e com um custo mais baixo ou mesmo em modelos de economia alternativa, corresponsabilização financeira, etc.

Ita Gabert oferecerá a palestra vivencial “Comunicação e Transparência em Grupos” na Umapaz, em São Paulo, no dia 13 de março, das 19 às 21hs; havendo procura por essa palestra, ela conduzirá, também nesse mesmo espaço, de 1 e 2 de abril, o curso vivencial “O Segredo da Confiança”. Ambos os eventos serão gratuitos; ótimas oportunidades de colocar os pezinhos na água e ver se dá para encarar.

Bora lá?

Confiando

**** Conheça também a página do curso no face, “Semente da Confiança“.

Atualização: a data do curso vivencial da Ita mudou para 1 e 2 de abril (antes estava 7 e 8). daí alterei aqui para constar.

Ode à raiva

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 6 de fevereiro de 2017.

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Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Acho que, na superfície, a emoção com que eu estou mais familiarizada é a raiva. Essa que, para tantas pessoas, é a marca da involução. Eu gosto da minha raiva. Ela é parte de mim e minha aliada, porque me dá clareza quanto ao que eu queria que fosse e não está sendo e me ajuda a agir de forma a mudar isso. Ela nasceu da necessidade. Do perigo daquilo que me parecia a morte e do medo que veio desse perigo.

No fundo, creio, o que eu sinto com mais frequência é medo. Ou vergonha. Ou medo de sentir vergonha, vergonha de sentir medo ou até medo de sentir medo. Só que, como tenho medo de que todo esse medo e essa vergonha me absorvam, me engulam (porque são emoções que me incomodam muito mais), não passo muito tempo de papo com eles; assim que dão as caras, eu chamo a raiva, meu leão-de-chácara emocional, para tirá-los da minha frente.

E daí, quando ela chega, tenho dificuldade de não permitir que ela se espalhe e tome conta de mim. Que me cubra e me possua.

Ela é tão sedutora! Tão brilhante, tão gloriosa, tão linda. Ela me faz sentir grande, poderosa, desinibida. Temida e destemida.

É tão melhor do que me sentir vulnerável. Fraca. Impotente. Assustada.

Minha raiva avança. Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Ao contrário da minha tristeza, que contempla, suspirante; ou do meu medo, que se retrai, vacilante; ou da minha vergonha, encolhida, autoflagelante…

A minha raiva avança.

Ela me impele, às vezes tão subitamente que eu só me dou conta depois, quando já estou lá adiante. O mais mínimo fôlego que eu lhe dê faz com que exploda como uma labareda, esquentando meu corpo para a ação, estufando meu peito, erguendo a minha cabeça, afiando a minha língua, enchendo meus músculos de sangue e meus olhos de brilho orgulhoso.

Quando estou dentro dela, é como se eu me tornasse um estupendo e estúpido cavalo feito de fogo, os olhos tapados para tudo o mais ao meu redor, galopando furiosamente em frente até o meu corpo se exaurir, o resto de mim reduzido a assistir, em transe, àquele espetáculo de luz e sombras, muitas vezes mais horrorizante que belo, mas sempre hipnotizante.

Ela já salvou a minha vida e quase me matou tantas vezes, de tantas formas diferentes… ela me consome e some, me abandonando nos escombros do incêndio que se passou, o medo e a vergonha a me espreitarem, agora sozinha, em cada canto da escuridão.

Mas eu gosto da minha raiva. Num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada, ela é o que tantas vezes me ajudou a escapar do segundo caso em direção ao primeiro. E me fez companhia quando eu não consegui – embora seja uma companhia um tanto destrutiva essa raiva enjaulada, que não tem para onde ir nem como agir, que se bate e debate e me bate, recusando-se a ceder lugar à tristeza, ao luto, à aceitação daquilo que nem eu nem ela temos como mudar.

Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

É só que faz um tempo que eu não quero mais viver num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada.

Quero, por exemplo, conseguir ouvir as mensagens que me incomodam, apesar de elas me incomodarem – quem sabe tem alguma coisa importante nelas? – e fica difícil de ouvir qualquer coisa com a balbúrdia da minha raiva rolando.

Quero também enxergar o mundo à minha volta; ver o quadro todo, não só sair de A e ir para B em uma linha reta. Porque vai que tem outros caminhos que eu possa pegar, outras trilhas que eu possa abrir. Outras formas de viajar. Outros lugares em que chegar. Que não envolvam brigar para estar em cima ou me deixar ficar por baixo.

Eu gosto da minha raiva. Agradeço à minha raiva. Sem dúvida, foi também ela que me trouxe até aqui, que fez de mim quem eu sou. E eu gosto de quem eu sou.

Mas eu não quero mais ser passageira – nem dela, nem de ninguém.

Vou colocar um banquinho do meu lado, e aprender a ensiná-la a sentar ali para me contar o que ela tem a me dizer. Um banquinho, aliás, onde o medo e a vergonha também poderão se sentar e conversar comigo um pouco mais, para a gente se conhecer melhor. Quero que eles todos possam me abraçar, mas quero algum espaço para que não me envolvam por completo. Afinal, eu não pertenço a eles; eles pertencem a mim.

Não vai ser fácil, nem indolor; e eu vou, muitas vezes, falhar… mas eu sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

E agora eu entendo que há bravura na vulnerabilidade e força no medo. E que a gente pode mudar de planos no meio da nossa jornada. Porque a guerra… é cansativa. E solitária.

E quando eu estiver sumindo dentro das minhas emoções, há pessoas que podem me ajudar a voltar à superfície e colocá-las de volta no banquinho ao meu lado.

Eu só preciso lembrar de pedir.