Quer saber o que é opressão adultista?

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Ser criança é ser gente pequena num mundo pensado e feito para gente grande.

Ser criança é ser uma pessoa fraca num mundo em que impera a lei do mais forte. Democracia só existe entre adultes, da porta para fora de casa.

Ser criança é não ter controle sobre nada, nem mesmo seu próprio corpo. À maioria das crianças não é dado sequer o direito de escolher o quanto ou quando comer, ou o que vestir.

Ser criança é ter que respeitar mesmo não sendo respeitade. Que pessoa adulta, por exemplo, receberia o tratamento que recebe uma criança quando comete algum erro?

Ser criança é as pessoas implicarem com você o tempo todo sob o pretexto de te educar.

Ser criança é ter seus sentimentos constantemente relevados ou ridicularizados, ou ainda feridos por esporte, porque é “tão bonitinho” quando você fica triste, com raiva, etc.

Ser criança é não te levarem a sério mesmo em assuntos em que você sabe mais do que quem fala com você.

Ser criança é seu comportamento natural ser transformado numa patologia para que as pessoas possam sedar você a fim de que sua convivência seja mais cômoda para elas.

Ser criança é ter necessidades suas – de atenção, de brincadeira, de movimento livre, de vocalização e verbalização – tratadas como capricho e postas em segundo plano.

Ser criança é ter que ouvir que não gostam de você, ou mesmo te odeiam, sem nem te conhecer, e isso não ser considerado ofensivo.

Ser criança é estar completamente à mercê de quem cuida de você. É não ter como fugir e depender de e amar quem te atormenta. E as pessoas não te socorrerem porque ninguém quer “se meter”.

Ser criança é se transformar num saco de pancadas emocional ou físico num estalar de dedos, é ser uma tela em branco em que se projetam os desejos mais sórdidos e os medos mais terríveis dos adultos. Ser vítima de violência e te culparem pela violência que você sofreu.

Ser criança é ser frágil, vulnerável e sem voz.

Querida companheira misândrica de luta feminista,

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Não te odeio. Não te desprezo. Não acho que você está errada por sentir o que sente. Não quero você fora do movimento. Não te acho uma negação em termos de humanidade. Na verdade, eu entendo você.

Aliás, é muito difícil não entender uma mulher ser misândrica nos dias de hoje, quando vemos rotineiramente tantas mulheres sofrendo tantas violências e isso sendo considerado não só normal como digno de ser aplaudido.

É claro, portanto, que compreendo bem que a misandria e a misoginia, apesar de similares na essência – o ódio – são absolutamente distintas em causa, contexto e consequências. Afinal, enquanto a misoginia nasce do opressor, acalentada pela opressão que exerce, a misandria nasce no oprimido, em reação à opressão que sofre; enquanto a misoginia viceja num mundo que a nutre, a aprova e estimula, a misandria  é repudiada, reprovada, malvista e demonizada. Misandria é a Cinderella do castelo do ódio sexista. Ou, pelo menos, seria, se a Cinderella não fosse uma tremenda bundona. Não pense que não sei disso.

Também, por favor, ponha-me a salvo da impressão de que tenho qualquer coisa a dizer contra o seu ódio, o seu sentimento ou ressentimento e a legitimidade dele. Não acho que você tem que trabalhar isso se não quiser, que tem que parar de sentir o que quer que seja. Eu sou partidária de talvez conter a ação, dependendo do caso, mas nunca de reprimir o sentimento.

Meu problema, assim, não é com o que você sente – não escolhemos sentir, sentimos, apenas; o sentir não conhece razão, não conhece querer, e eu sei disso. Minha objeção é com relação ao que algumas pessoas misândricas fazem a partir do que sentem. Creio que todes somos livres para odiar, mas peço respeito a quem não compartilha desse ódio.

Tudo bem se para você a mais mínima cortesia, a menor mostra de boa educação, o menor cuidado com a polidez pareçam resquícios do machismo opressor que nos compele a sermos aprazíveis. Mas, por favor, tente entender que para muitas de nós a comunicação não-violenta é o ato de maior subversão possível diante do patriarcado que nos quer disputando, competindo, guerreando, vociferando umes contra es outres sem nunca parar para escutar.

A gente pode chamar de luta a nossa luta. De combate. Mas a verdade verdadeira? Acho que a nossa luta é pelo convencimento. Primeiro porque creio que não queremos o poder, mas acabar com o poder. Não é que o feminismo vai ter vencido quando metade des opressores do mundo forem mulheres – ou mesmo quando todes forem. O feminismo terá vencido quando não houver mais ninguém oprimindo ninguém.* Sempre entendi assim.

Não queremos dominar, queremos que não haja dominação. Não queremos oprimir, mas que não haja opressão. Estou enganada?

Me parece que, fora dos esportes, luta não empata. Existe sempre um perdedor e um vencedor. Um que sai por cima e outro por baixo. E a animosidade continua. O ódio e o medo continuam, aguardando o próximo embate. A guerra, mesmo fria, ainda é guerra. E ninguém merece viver com essa tensão, sempre de costas para a parede, sempre dormindo com um olho aberto. Pensei que estivéssemos tentando construir um mundo em que isso não fosse necessário.

É admissível que uma mulher seja explorada, humilhada e violentada, desde que seja por outra mulher? Não seria também machista usar da sua força para fazer sofrer a outra, não seria isso uma emulação do macho opressor?

E o que seria, por exemplo, colocar a mulherzinha que curte homens em seu devido lugar? Mostrar para ela como ela é fraca? Explicar bem explicadinho o quanto ela é oprimida e é imbecil demais para entender, já que quem discorda disso só pode ser por falta de intelecto? Seria isso sororidade, respeito, feminismo? Acolhimento?

Não é que você não pode sentir ódio, ou dizer que o sente. É que quando você se pronuncia de forma a equivaler sua misandria a feminismo, quando você dá a entender que são sinônimos, quando você recrimina as mulheres que não odeiam, como se fossem pelegas, como se fossem vendidas, como se as experiências delas negassem as suas e os sentimentos delas negassem os seus, quando você se nega a empatizar com elas, desclassificando e deslegitimando o que elas sentem por homens que elas de fato amam (filhos, pais, irmãos, amigos), quando você dá a entender que essas mulheres são umas idiotas iludidas, quando você faz provocações, tomando para si o direito de desrespeitar pessoas em espaços inclusivos mesmo quando não te faltam espaços exclusivos em que você possa desopilar livremente toda a sua bile misândrica… você pode sentir uma satisfação momentânea, você pode se sentir vingada, o que for. Mas o que acontece aqui, fora de você, é que você afasta as MULHERES que não se sentem como você. Mulheres, veja, não homens.

Você reforça a noção de que feminismo é machismo ao contrário, de que o feminismo é um movimento intransigente e raivoso em que só há espaço para quem odeia homens. Você desvaloriza a sua fala e a de outras feministas e valoriza a fala dos machistas que dizem que o feminismo não merece ouvidos.

Uma vez uma moça me disse que o discurso do feminismo não é voltado para os homens, nem para as mulheres que ainda apoiam o patriarcado. O discurso feminista é para quem, então? Não de mulheres para mulheres, mas de feministas para feministas, celebrando um feminismo exclusivo que tende a morrer quando suas representantes se esvaírem?

Pois eu acredito em fazer o possível para disseminar nossas ideias, para abrir ouvidos, para prender atenções e aguçar curiosidades. Fazer o possível para que o nosso discurso não interfira na transmissão das nossas informações, para que a nossa abordagem não ponha a perder a comunicação de nossos ideais. Sinto que essa responsabilidade é nossa, é do nosso ativismo.

Não estou falando simplesmente da conversão de homens ao feminismo, de “ser gentil com o opressor”, ou algo assim – estou falando de alcançar as mulheres, as vítimas, as pessoas que, ao invés de se sentirem acolhidas, sentem-se recriminadas pelo discurso violento, culpabilizadas por ele.

Porque do ódio ao homem para o ódio à mulher que não odeia o homem é um passo. E o ódio se move com muita agilidade.

A empatia tem muitos níveis e muitas aplicações. Uma delas é favorecer o diálogo. Temos muito mais em comum do que temos de diferença.

Juntas, podemos ir muito mais longe.

 

* Versão da frase de Lierre Keith: “People sometimes say that we will know feminism has done its job when half the CEOs are women. That’s not feminism; to quote Catharine MacKinnon, it’s liberalism applied to women. Feminism will have won not when a few women get an equal piece of the oppression pie, served up in our sisters’ sweat, but when all dominating hierarchies – including economic ones – are dismantled.”

O meu, o seu, o nosso…

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Todo mundo parece que morre de medo de qualquer coisa que não seja o capitalismo porque, fora dele, “não dá para cada um ter as suas coisas”.

Eu acho que não é bem assim.

Por exemplo: você tem uma furadeira? Se sim, quantas vezes por ano você usa a sua furadeira? E quanto esse trambolho custou? Quanto pesa? Quanto espaço ela ocupa?

A menos que você trabalhe com ela ou tenha um hobby que envolva seu uso, o fato é que ela provavelmente quase nunca é usada. Mas você não pode simplesmente se livrar dela. Se o fizesse não a teria para os raros (mas existentes) momentos em que ela é necessária.

E se, digamos, no seu prédio ou na sua vizinhança, houvesse uma furadeira disponível para quando alguém precisasse dela, incluindo você? Não seria melhor?

Daí você me diz: isso não funciona, porque as pessoas não teriam cuidado com o equipamento, ele quebraria, não dariam manutenção… e eu te respondo: mas imagina que, ao invés de terem a mentalidade de que “dane-se, não é meu mesmo”, as pessoas tivessem a mentalidade de que “isto não só é meu como é de outras pessoas também”. Tivessem a mentalidade de que não é só o que é só nosso que merece cuidado.

Ter é tão importante na nossa sociedade atual, é tão almejado e desejado, que grande parte das nossas leis e do nosso governo existe para tratar da disputa de patrimônio, da briga por coisas, por valores. Aliás, na nossa obsessão por ter, transformamos também pessoas em coisas, em objetos de consumo, e as disputamos como se o fossem. Muito da violência de gênero e da violência contra a criança decorre dessa objetificação.

Quando a gente fala de pôr fim à propriedade privada, todo mundo cai na neurose do parquinho: daquele dia horrível em que a tia da escolinha ou a mamãe ou quem quer que seja te forçou a dividir o brinquedo mesmo contra a sua vontade. Empatizo. Acho uma tremenda sacanagem.

Mas não é disso que a gente está falando. A gente não está falando de tirar de você algo que de que você precisa, que é útil para você, que você está usando. Ou de FORÇAR você a fazer o que quer que seja. Também acho que não vale a pena a gente lutar para construir um mundo novo se for para ser assim.

A gente está falando que o conceito de “meu” e “seu”, etc., com que a gente vive, é todo inventado. É baseado não na nossa necessidade das coisas que são minhas e suas, mas numa ideia de território meu e seu, numa ideia de segurança. Porque fomos ensinados a ver as nossas coisas como extensões de nós mesmos, como prova de que existimos, de que “somos alguém”, de que somos dignos de respeito. Porque temos sempre a sensação de que ter é poder e que quem não tem poder deve temer quem o tem.

E estamos muitas vezes tão envolvidos nessa competição pelo ter/poder que sequer percebemos como isso não faz sentido, como isso cansa. Porque cansa, não é? Ficar o tempo todo cercando as “suas” coisas? Com medo de que alguém te faça mal para tomar de você as “suas” coisas? Devotando a sua vida a buscar coisas para serem “suas”? Quanto mais coisas temos, de mais coisas precisamos para cuidar das que já temos.

E daí estamos tão ocupados cuidando das nossas coisas particulares e privadas que começamos a não nos importar com as coisas que não são só nossas. Como se aquilo que não fosse nosso e só nosso (mesmo aquilo que também é nosso, como as coisas “públicas”) não fosse digno de cuidado.

É difícil imaginar uma coisa diferente depois de crescer nesse sistema. Mas eu te pergunto: sem a escassez, sem esse medo de ficar sem, de precisar e não ter… será que permaneceria a necessidade de ter e manter e acumular? Se você não precisasse sempre “ter” algo que não está usando para ter certeza de que isso estaria disponível para você quando você precisasse dele, você ainda assim sentiria essa necessidade? Se todos nós tivéssemos à nossa disposição tudo aquilo que queremos, será que ter ainda seria medida de importância do indivíduo?

Voltemos ao parquinho. Imagine uma criança cercada de brinquedos que não são dela, mas de todas as crianças, de todas as pessoas, brinquedos que ficam ali no parque, à disposição de quem queira brincar com eles. Ela pega um. Vem outra criança e pede para pegá-lo. Ela o está usando, cede apenas se quiser. Então a outra criança pega outro brinquedo, que não está em uso. Porque nenhuma das duas tem como brincar com os dois ao mesmo tempo. Então, enquanto uma brinca com um, a outra brinca com o outro. Se os brinquedos não serão quebrados, nem sumirão dali, não há necessidade de uma esconder da outra os brinquedos que não estão sendo utilizados.

Claro que, quando se trata de crianças de dois anos, as coisas podem não ser tão simples, já que eles estão justamente num momento de definir suas pessoas, seus territórios pessoais, etc. Mas eu imagino que nós, adultos, já estejamos mesmo hoje melhor equipados para lidar com esse tipo de situação.

Imagine que a diferença entre o que é comprado e o que é de graça não existisse, porque tudo estaria disponível de acordo com as necessidades de cada um. E que quando você não está usando, não precisa ficar guardando, preocupado com alguém pegar aquilo, se alguém vai tirá-lo de você. Porque você sabe que, de qualquer forma, você não vai ficar sem. E com o bônus de poder compartilhar o cuidado e manutenção dessa coisa com outras pessoas.

Num cenário como esse, acredito inclusive que a maior parte das pessoas, ao invés de esconder as coisas, as ofereceria por livre e espontânea vontade. Porque começa a existir a empatia, o colocar-se no lugar do outro, saber como é bom poder fazer uso de algo quando se precisa daquilo.

Imagine que, mais do que ter alguma coisa para chamar de sua, você tenha todas as coisas de que precise, sem que nada tenha que ser só seu para estar disponível para você, para você ter suas necessidades satisfeitas ou mesmo para você ser considerado alguém digno de respeito.

Não parece legal? Não dá vontade de experimentar?

Sobre pais e bullies

pais e bullies

Hell’s Kitchen. Reality show em que cozinheiros competem entre si, com eliminações a cada episódio até que reste apenas um, a quem caberá o prêmio de se tornar chef executivo de algum dos restaurantes de Gordon Ramsay, chef inglês célebre tanto por seus feitos culinários quanto por seu temperamento explosivo e a generosidade com que distribui insultos ao seu redor.

Chega a ser impressionante como a estrela do show – o próprio Ramsay – pode, truculenta e arbitrariamente, falar e fazer o que quiser aos participantes, que, via de regra, aceitam tudo resignadamente. Mas não parece ser só o prêmio o que os motiva a tamanha docilidade; eles de fato parecem buscar a aprovação, o respeito e a aceitação de Ramsay (o que raramente conseguem). Os competidores se derretem ao ouvir dos lábios do famoso chef qualquer coisa que se passe remotamente por um elogio, e sofrem intensamente quando se tornam o foco de suas ofensas – o que, aliás, pode acontecer independentemente de mérito passado; um único e trivial erro pode render toda uma noite de exposição e humilhação. Nos bastidores, eles expõem lacrimosamente seus sentimentos, sendo muito frequente a vergonha por “ter decepcionado chef Ramsay”.

Em momentos de confraternização com os aspirantes a chef, no entanto, o mesmo homem exibe uma doçura que, não fossem as suas diatribes gravadas e amplamente testemunhadas, não seríamos capazes de acreditar que possivelmente viriam dele. É como se fossem duas pessoas diferentes, o furioso, ultrajante e intimidador Ramsay no restaurante durante a competição e o dócil, atencioso e agradável Ramsay de fora dela.

Interessantíssimo, além de extremamente bem dirigido e soberbamente atuado, o filme “A Hora Mais Escura” (“Zero Dark Thirty”, de 2012, dirigido por Kathryn Bigelow) mostra algo incomodamente semelhante. No filme são mostradas práticas de ‘interrogatório’ de suspeitos num campo de concentração americano. Depois de ser brutalizado, torturado, humilhado, cagado, ao prisioneiro é subitamente oferecido o “privilégio” de um banho, roupas limpas, e uma refeição digna (pelo tratamento de rotina ele seria alimentado por meio de um funil metido em sua garganta, pelo qual se despejaria alguma lavagem).

E ali, desperto do pesadelo da tortura para a bênção dos pequenos confortos do mínimo de dignidade de sua pessoa humana, suas lealdades repentinamente mudam. O torturador é um cara legal, que só quer que aquele sofrimento acabe. Não lhe traz nenhum prazer degradar o interrogado daquela forma, mas ele não tem nenhuma alternativa se este não lhe der as informações de que precisa. “Eu quero ser legal, eu quero te ajudar. Me ajude a te ajudar” é a mensagem.

Em 1973, um grupo de reféns num assalto a banco em Estocolmo chocou o mundo ao demonstrar lealdade – até carinho – em relação aos seus captores. Em seu esforço de sobrevivência durante o cativeiro, haviam passado a vê-los não como o motivo por estarem naquela situação, mas como pessoas cuja “benevolência” os havia mantido vivos. Aparentemente, ao assumirem como seus os objetivos e valores de seus sequestradores, deslocaram para si a responsabilidade pelo que lhes ocorresse (“se eu me portar conforme o esperado, ficarei bem”), e passaram a sentir-se mais seguras, mais no controle, menos vítimas. Cunhou-se a partir daí o termo “Síndrome de Estocolmo” para definir casos semelhantes, e especula-se até mesmo que ela tenha um papel importante no treinamento militar, por exemplo.

É hoje moda falar sobre bullying. Mas fala-se muito como se fosse um fenômeno espontâneo, que partiria da própria criança. Já há quem fale do bullying cometido pelo professor em relação ao aluno, mas ainda é raro que se veja a correlação entre o bullying sofrido dentro de casa, no âmbito da própria família e o bullying que acontece fora dela, perpetrado pela criança.

Ora, bullying pode ser basicamente definido como atos reiterados de violência física ou emocional, ocorridos no âmbito de uma relação desigual de poder. Que nome se dá então, à atitude de um pai ou uma mãe que constantemente batem, xingam e/ou gritam com seus filhos? Educação? Criação? Por quê?

Trata-se de uma relação obviamente desigual de poder (não apenas físico), em que ocorrem reiteradamente atos de violência física ou emocional. Por que, então, imagina-se que os nefastos efeitos físicos e psicológicos do bullying (que, aliás, muitas vezes se estendem por toda a vida do indivíduo) não seriam sentidos pela vítima desse tratamento? Por que se imagina que os ganhos em termos de uma suposta “disciplina” e “obediência” (leia-se “conformação de comportamento por medo”, seja de medo de punição, seja de não ser amado) compensariam esses outros efeitos?

Como solução para o bullying propõe-se conscientizar as “testemunhas silenciosas” (as outras crianças que o veem ocorrer sem fazer nada) e os bullys quanto às consequências de seus atos para a vítima e para a sociedade como um todo. Nada se fala de revisitar o bullying que já tradicionalmente ocorre dentro de casa, ou de se conscientizar as “testemunhas silenciosas” adultas de que impedir que um pai bata no filho não é “se meter na criação dos outros”; é impedir um abuso que não deveria ocorrer nunca, jamais.

Quando se é rotineiramente maltratado física ou emocionalmente por alguém maior e mais forte do que você, qual é a diferença entre ele ser seu pai ou outra criança ou adolescente?

Na verdade, há uma diferença. A diferença é que você ama seus pais. Que você desesperadamente quer sua aprovação, aceitação e respeito. Seu amor. Só que isso, longe de tornar a situação melhor, a torna muito, muito pior. Porque não é só que você está nas mãos de um bully. Você ama seu bully. E isso torna cada humilhação sofrida ainda mais dolorosa, mais desesperadora, na medida em que se tende a voltar a raiva pela agressão contra si mesmo e não contra o agressor ou agressora.

Aliás, confusa, a criança os defende. Já que sua compreensão de mundo depende de tudo o que seus pais fazem ser “bom” e “certo”, a consequência lógica é a de que ela própria é “má” e “errada”. Não ocorre a ela o horror do tratamento violento que ela recebe. Ela que fez o que não devia, que falou o que não devia… muito como ocorre com a mulher de quem popularmente se diz que “gosta de apanhar”, a desproporcionalidade e absurdidade da reação de quem a agride não lhe é sequer compreensível. Lidar com a sensação de desamor que essa noção lhe traria é simplesmente insuportável naquele momento.

Não raro, na tentativa de não sentir esse desamor, ela abafa todos os seus sentimentos a respeito, classificando-os como “bobagem”, dizendo para si mesma que seu sofrimento é ilegítimo, que “não é motivo para chorar”, que “não é nada demais”.

 E, claro, se você dá a essa criança ou adolescente (ou adulto) a oportunidade de “virar a mesa”, de assumir, ela própria, o papel de seus pais bullies, de extravasar seus sentimentos de inadequação e humilhação ao impô-los a outras pessoas, se você lhe oferece uma válvula de escape para todo o ódio e ressentimento que ela não se permite sentir de seus pais, ela raramente irá rejeitá-la.

Eu não conheço Gordon Ramsay. Nunca li sua biografia. Mas não me admiro ao ouvir que seu pai era um homem violento e cruel.

Os homens no feminismo e o protagonismo da mulher

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Se você é um homem que se considera feminista ou aliado do feminismo, pode ser que às vezes você se sinta frustrado por querer ajudar e ser recebido com animosidade no movimento feminista.

Você conhece o movimento de verdade e o abraça como necessário para dissolver as opressões presentes na nossa sociedade, mas mesmo assim não se sente bem-vindo. Sente-se excluído e marginalizado. Sente que as mesmas mulheres que tanto clamam pela igualdade de gênero dão importância demais ao fato de você ser homem. E você só quer ajudar.

Não, você não é o inimigo. Pelo menos, não necessariamente e, muitas vezes, não intencionalmente. Aliás, na minha opinião (sei, no entanto, que há feministas que discordariam de mim), nenhum homem é o inimigo só por ser homem.

Acontece que, muitas vezes, os homens no movimento fazem críticas que podem ser lidas como tentativas de ensinar às mulheres como ser mulher, como ser feminista, o que é feminismo e como ele deve ser praticado.

Essa é uma atitude condescendente e paternalista, que obviamente causa de grande consternação no meio feminista quando vinda de homens, porque é percebida como uma invasão do mando masculino num meio criado precisamente para nos pormos a salvo disso.

Vou tentar explicar fazendo uma comparação: alguém branco diria que “muitos negros não sabem ser negros” ou que “o movimento negro também é para os brancos que desejam uma sociedade mais justa e os brancos têm o direito de reclamar quando veem erros sendo cometidos pelo movimento negro”?

Não soaria estranho? Meio que alguém de fora se intrometendo em algo que não tem como saber de fato como é (mesmo que sua própria realidade seja influenciada por isso)? Ditando regras sobre o que é sofrer e lutar contra uma opressão que só conhece como espectador ou perpetrador? O branco salvador, o “mighty whitey” vindo salvar os negros de sua própria ignorância? Dizendo a eles o que é ou não movimento negro, o que representa ou não o movimento negro, o que defende ou não a pessoa negra da opressão racista?

Similarmente, na maior parte das vezes em que um homem critica o movimento feminista ou as mulheres como um todo, fica um tom de todo-poderoso e sábio homem, salvando as mulheres de si mesmas e iluminando os caminhos obscurecidos pelos seus incontroláveis hormônios e exageradas emoções.

Entende o que estou querendo dizer? É uma atitude inferiorizante. E o feminismo não é só um movimento de defesa e proteção da mulher, de desconstrução da opressão. É um movimento que busca atingir esses objetivos empoderando as mulheres, para que construam a confiança de que necessitam para se emanciparem de fato. A gente mostra o caminho, a gente tenta remover os obstáculos, mas as pessoas têm que caminhar com suas próprias pernas e por sua própria vontade, ou não terão se emancipado de fato.

Nós crescemos sendo ensinadas, implícita ou explicitamente, a ouvir e obedecer homens e considerar suas opiniões antes e acima das opiniões de mulheres. Quando você se esquece da sua posição de destaque por ser homem, quando fala pretendendo ensinar às mulheres o que é ser mulher, ou como uma mulher (feminista ou não) deve ser ou agir, você reforça a ideia de que as mulheres têm que buscar esse tipo de referencial junto a homens como você – e não mulheres como elas. Você acaba reforçando o conceito machista de que a sua opinião sobre as mulheres é mais importante do que a delas sobre si mesmas. E quando você critica o feminismo que você tanto quer apoiar, muitas vezes você ajuda a consagrar para as mulheres ainda fora do movimento a visão do feminismo como algo falho, que não vale a pena, além de dar mais argumentos para os homens que dizem que o feminismo deve ser combatido e não abraçado. E creio que nem eu nem você queremos isso.

O problema não é só o que você fala. É o contexto cultural em que você fala, que pode alterar completamente o sentido e as consequências da sua fala. Pense num comediante negro fazendo uma piada sobre o que é ser negro no Brasil. Agora pense num comediante branco fazendo essa mesma piada. Vê a diferença? Um deles está usando o humor para tecer uma crítica social, provocando reflexão. O outro está usando o humor para escarnecer da classe de pessoas que é oprimida pela classe de pessoas a que ele próprio pertence, provocando mais opressão. Um está questionando, o outro está reafirmando.

Mas então como criticar? Quando criticar?

A minha pergunta é: por que criticar? Por que não centrar suas críticas no machismo e no patriarcado que combatemos juntos e deixar as críticas ao movimento para as mulheres que participam dele? Garanto que sempre haverá quem as faça e que serão mais bem recebidas – e ouvidas – dessa forma.

Não é uma questão de você se calar. Se quer falar, fale. Mas se a sua intenção é realmente ajudar o movimento, seria legal, antes de falar, você lembrar do peso não intencional que a sua fala tem por conta dos privilégios de que você goza como homem na nossa sociedade machista. Ainda que você não os queira, que não os tenha, pessoalmente, produzido, e busque ativamente desconstruí-los.

Depois de crescer testemunhando a violência doméstica em sua casa, Patrick Stewart (o ator que interpreta o Professor Xavier do X-Men), tornou pública a sua campanha contra ela, dizendo a esse respeito que “As pessoas não te dão ouvidos ou te levam a sério a não ser que você seja um homem velho e branco; eu sou um homem velho e branco e então vou usar isso para ajudar a quem precisa”.

Creio que os homens não só podem como devem se aliar ao feminismo. E que são poderosos aliados. Mas que esse poder, se não for usado com sabedoria, ao invés de ajudar, pode acabar sabotando quem mais precisa dele.

Mulheres contra mulheres – o caso Adelir e o feminismo

O caso Adelir nos trouxe importantes reflexões acerca dos direitos humanos das mulheres no país, do machismo do sistema obstétrico e jurídico e da institucionalização da violência obstétrica.

Mas mais do que isso, mais uma vez acirrou o debate entre feminismo e maternidade, quando parte do movimento feminista silenciou diante daquela atrocidade e parte do movimento pela humanização do parto entendeu esse silêncio como prova de que o feminismo como um todo não representa a maternidade, ou, ainda mais grave, que não há espaço no feminismo para as mães.

Sim, o movimento feminista tem um problema muito sério de segregar os assuntos relativos à maternidade em seu meio. Porém, devemos nos lembrar que existem, sim, diversas ativistas que buscam conciliar as pautas da maternidade com o feminismo (e não somos poucas e estamos nos tornando cada vez mais numerosas). Somos, inclusive, críticas dessa marginalização da maternidade dentro do movimento.

E não estamos sós; vi cartas de repúdio ao acontecido escritas por coletivos feministas. E um texto da Lola Aaronovich, do blog Escreva, Lola, Escreva a respeito (acho o máximo que um blog que é uma das maiores referências do feminismo no Brasil atual defenda a nossa causa, não só em relação à Adelir, mas à humanização do parto como um todo).

Ocorre que o feminismo, com seus erros e seus acertos, com seus entendimentos e desentendimentos, é um movimento plural, cheio de vertentes. Há muito mais no feminismo que só mulheres que diminuem outras mulheres, seja pelo motivo que for.

Há espaços feministas que respeitam as mães e a maternidade, espaços que precisam ser expandidos. Mas essa expansão fica difícil se não aderirem ao feminismo mais mulheres que respeitem a escolha pela maternidade. E essa adesão é dificultada quando temos um discurso intransigente e violento, um discurso que assusta e afasta as mulheres do feminismo ao invés de aproximá-las.

O nosso inimigo é o machismo – uma forma opressora de pensar e de ver o mundo, de falar e de agir, que inferioriza a mulher perante o homem, o fraco perante o forte, o menor perante o maior. Creio que todas ganharíamos ao concentrarmos nossas forças não em lutar contra pessoas, e principalmente umas contra as outras, mas em combater essa ideologia e sua institucionalização, esteja onde ela estiver, na fala e nas ações de quem quer que seja.

Quanto às mulheres reprodutoras do machismo, sabe aquele lance de o mais poderoso truque do opressor ser conseguir que o oprimido reproduza a sua fala e a própria opressão? O pobre querendo ser rico e escarnecendo do pobre mais pobre que ele, o não-branco querendo ser branco e escarnecendo do não-branco que é menos branco que ele, seja na cor da pele, seja na forma de agir, no vestir, na cultura, nos modos, etc.?

Claro que a mulher muitas vezes tem ideias, falas e atitudes machistas. Mas isso não faz dela o opressor, nem tira sua qualidade de vítima; faz dela, talvez, menos consciente da opressão que sofre, de onde ela vem e de como ela poderia mudar isso – o que não equivale a dizer que ela não seja individualmente responsável pelos seus atos e palavras.

Segundo muitas feministas, não há mulheres machistas, apenas reprodutoras do machismo. Para mim não há diferença em termos de efeitos práticos. Para quem sofre a opressão, tanto faz se é opressão ativa ou reativa ou produtora ou reprodutora.

Por essa razão, prefiro de falar de ideias, falas e atitudes machistas (ou racistas, ou elitistas, ou adultistas, etc.) e não PESSOAS machistas (racistas, elitistas, adultistas, etc.). Eu aponto a opressão não no ser, mas no agir. Na manifestação. Porque a rotulação me parece despertar mais defensividade e resistência do que atenção e desloca a discussão para a pessoa, ao invés de centrá-la na ideologia, que é o que eu quero combater.

Afinal, não quero destruir ninguém; pelo contrário, quero que elas se juntem a mim, o que não conseguirei se simplesmente as transformar em minhas inimigas. Não quero manipulá-las, mas quero, sim, fazer a minha parte para que seu livre convencimento, ainda que no sentido oposto ao que eu defendo, seja de fato livre e não informado pela reatividade pessoal à violência presente no meu discurso. Ou terei falhado como ativista, como sei que já falhei diversas vezes.

Assim, pessoalmente, eu prefiro que nos comprometamos a buscar e desconstruir o machismo que temos dentro de nós (e creio que sempre teremos algum, mesmo sendo muito feministas, já que vivemos em um mundo muito machista e é muito difícil não introjetar algo tão enraizado na nossa cultura).

Enfim, diante de uma juízA e uma médicA que submeteram uma mulher a esse nível de violência por conta de uma diretiva machista (seja a supressão dos direitos fundamentais da mulher em favor de uma proteção equivocada à expectativa de direitos do nascituro, seja a desconfirmação de sua autoridade médica), que tal criticar seus atos e seus erros individualmente, ao invés de generalizá-los e usá-los como sintoma do que está errado “com as mulheres” ou, ainda mais grave “com as feministas” (algo que sequer sabemos se elas são)?

Que tal centramos nossas críticas e esforços na nossa direção comum – o combate ao machismo e ao patriarcado?

Tiro no pé não mata

Suponhamos que uma pessoa dê um tiro em seu próprio pé. A ferida não é fatal, mas ela tem que ir para o hospital. No caminho, um cara bate deliberadamente no carro que a transportava para lá e ela morre. Suicídio?

É verdade que ela só estava naquele carro, naquela hora, naquele lugar, porque deu um tiro no pé. Sim, ela participou da cadeia de eventos que culminou em sua morte. Mas não foi o tiro que, de fato, a matou. Fosse só pelo tiro, ela teria chegado ao hospital, sido atendida e saído da história viva. O que foi determinante para que ela morresse foi a atitude do cara que bateu no carro em que ela estava.

Claro que é válido questionar por que motivos uma pessoa atira no próprio pé, ou possui uma arma, etc; são questões que devem ser entendidas e saneadas. Mas, se a sociedade quiser evitar que mais casos como esse ocorram, ela deve se focar em coibir comportamentos como os desse indivíduo, que são o que de fato os causam. Afinal, não tendo acesso à vítima em questão, o cidadão simplesmente encontraria outra.

Dito assim, parece óbvio. Mas vejamos outras situações que eu considero similares, mas que costumam ser tratadas de uma forma muito diferente:

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente a atenção e aprovação dos homens ao seu redor (tiro no pé). Eventualmente, acaba sobrando sozinha com um “amigo” que a estupra, se aproveitando do fato de que ela não consegue dizer “não” expressamente, apesar de sua recusa ser clara e seu desagrado ser evidente (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente parceiros dominadores, agressivos, violentos (tiro no pé). Entra num relacionamento com um homem particularmente abusivo que a espanca (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a comportar-se de forma autodestrutiva, como embriagar-se até desmaiar em festas e baladas (tiro no pé). Eventualmente, é estuprada por um homem que se aproveita de seu estado de embriaguez (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a não questionar as autoridades com que se depara, especialmente se forem homens. Um dia, engravida e coloca-se nas mãos de um mau médico obstetra, não buscando informações que a protegeriam (tiro no pé). O tal médico a força (juntamente com seu bebê) a passar por uma cesariana desnecessária e indesejada, ou por um parto violento e traumático, cheio de intervenções desnecessárias (cara que bate no carro).

O que todas essas situações têm em comum? Bom, primeiro, são casos de violência de gênero. Sim, podem ocorrer com homens também. Só que a quantidade de homens que passa por esse nível de abuso e violência em situações semelhantes é ínfima em comparação.

Em segundo lugar, todas as vítimas retratadas são antes vítimas do machismo e misoginia do ambiente em que cresceram e vivem. Todas elas, em resposta a esse ambiente, desenvolveram comportamentos “tiro no pé” que as colocaram, digamos assim, em carros propícios a sofrerem batidas.

Em terceiro lugar, e o mais relevante para o que se pretende aqui ilustrar, são todos casos em que a vítima tem alguma participação na cadeia de eventos que culmina com a violência que é praticada contra ela. Mas, a exemplo do caso do tiro no pé, a participação delas NÃO É DETERMINANTE para o que lhes ocorre ao final.

Não haveria estupro se não houvesse o estuprador. Não haveria violência doméstica se não houvesse o agressor. Não haveria violência obstétrica se não houvesse o mau profissional do ramo. Como já foi dito, se o cara não consegue vitimar uma, ele simplesmente vai e encontra outra.

No caso de um assalto não se diria que a culpa é da pessoa que foi assaltada, apesar de ela, como ocorre nos exemplos dados, ter participado da cadeia de eventos que levou a que ele ocorresse (estando no local onde ele ocorreu, dando mostras de que tinha o que ser roubado, não sendo suficientemente vigilante, por exemplo). Mas muito se ouve que a mulher não pode se fazer de vítima, que mereceu, que “estava pedindo”. Outros ainda dizem que a mulher “tem que tomar o controle da situação”, parar de “esperar que alguém a salve”. Como se ela fosse ter poder de, já estando dentro de uma situação de agressão, repeli-la só com a força de sua vontade.

Ela pode ter dado um tiro no pé, mas não se violentou. O controle que ela poderia ter da situação acaba quando ela entra na casa do amigo mal-intencionado, quando ela toma a primeira pancada, quando ela perde a consciência depois de beber demais, quando ela dá entrada no hospital para parir. O que acontece a partir daí não está sob o controle dela e sugerir que estivesse é onerá-la com uma responsabilidade que cabe a outro indivíduo – ao indivíduo que, no controle real daquela situação, OPTOU por agir com brutalidade.

É válido questionar – e entender – o que levou a vítima à situação em que ocorreu a violência que ela sofreu. Por parte da própria vítima, para que consiga escapar de novamente encontrar-se ali, e por parte da sociedade, para que compreendamos a importância de desconstruir o machismo e a misoginia que geram os padrões de comportamento que colocam mulheres nessas situações. Mas, para diminuir a incidência desse tipo de violência, não adianta diminuir a disponibilidade de presas. Tem-se que focar nos predadores.

Uma coisa é reconhecer que há uma bagagem emocional que cria uma vulnerabilidade em relação a esse tipo de agressão. Outra coisa, muito diferente, é essa mesma bagagem emocional ser utilizada para justificar os atos dos agressores e para colocar culpa nas vítimas, perante a sociedade e a si mesmas, uma manipulação que transforma em principal e determinante o que, na verdade é só concorrente e facilitador para o resultado final.

Olhando-se no espelho, a mulher sente vergonha pela violência que ela SOFREU. É forçada ao silêncio e à negação, um processo muitas vezes ainda mais doloroso do aquilo por que ela já passou. Chega a inventar desculpas para seu agressor, defendê-lo (“eu não me fiz entender”, “eu que fiquei com ele” ou “eu que provoquei”, “eu não lembro de nada, talvez eu tenha consentido”, “ele estava só fazendo o trabalho dele, quem sou eu para julgar, não estudei medicina”), ou ouvir essas mesmas desculpas e defesas (não raro acompanhadas de acusações e ameaças) das pessoas que deveriam dar-lhe apoio, talvez até mesmo sua família, quando tenta romper esse silêncio.

Por que tanta falta de apoio à vítima, tanto apoio ao agressor?

Porque não se quer culpar a quem de direito. Ou porque sequer se vê o ato dele como algo culpável, porque se entende que estupro só é estupro se a mulher é “de bem” e está sóbria, gritando e chutando; violência doméstica só é violência doméstica se nunca houve um grito, um palavrão, uma única atitude abusiva por parte do parceiro (ou pior! Se a mulher estava de boca fechada, a casa limpa, a roupa lavada, a comida na mesa e a testa do agressor livre de quaisquer cornos, imaginários ou não); violência obstétrica é invenção de gente desocupada que quer se meter no trabalho dos outros. Porque se costuma pensar que todos esses agressores estavam só fazendo que lhes era “natural” diante das circunstâncias.

Porque se parte do princípio bizarro de que podridão humana e natureza humana são a mesma coisa.