Mulheres contra mulheres – o caso Adelir e o feminismo

O caso Adelir nos trouxe importantes reflexões acerca dos direitos humanos das mulheres no país, do machismo do sistema obstétrico e jurídico e da institucionalização da violência obstétrica.

Mas mais do que isso, mais uma vez acirrou o debate entre feminismo e maternidade, quando parte do movimento feminista silenciou diante daquela atrocidade e parte do movimento pela humanização do parto entendeu esse silêncio como prova de que o feminismo como um todo não representa a maternidade, ou, ainda mais grave, que não há espaço no feminismo para as mães.

Sim, o movimento feminista tem um problema muito sério de segregar os assuntos relativos à maternidade em seu meio. Porém, devemos nos lembrar que existem, sim, diversas ativistas que buscam conciliar as pautas da maternidade com o feminismo (e não somos poucas e estamos nos tornando cada vez mais numerosas). Somos, inclusive, críticas dessa marginalização da maternidade dentro do movimento.

E não estamos sós; vi cartas de repúdio ao acontecido escritas por coletivos feministas. E um texto da Lola Aaronovich, do blog Escreva, Lola, Escreva a respeito (acho o máximo que um blog que é uma das maiores referências do feminismo no Brasil atual defenda a nossa causa, não só em relação à Adelir, mas à humanização do parto como um todo).

Ocorre que o feminismo, com seus erros e seus acertos, com seus entendimentos e desentendimentos, é um movimento plural, cheio de vertentes. Há muito mais no feminismo que só mulheres que diminuem outras mulheres, seja pelo motivo que for.

Há espaços feministas que respeitam as mães e a maternidade, espaços que precisam ser expandidos. Mas essa expansão fica difícil se não aderirem ao feminismo mais mulheres que respeitem a escolha pela maternidade. E essa adesão é dificultada quando temos um discurso intransigente e violento, um discurso que assusta e afasta as mulheres do feminismo ao invés de aproximá-las.

O nosso inimigo é o machismo – uma forma opressora de pensar e de ver o mundo, de falar e de agir, que inferioriza a mulher perante o homem, o fraco perante o forte, o menor perante o maior. Creio que todas ganharíamos ao concentrarmos nossas forças não em lutar contra pessoas, e principalmente umas contra as outras, mas em combater essa ideologia e sua institucionalização, esteja onde ela estiver, na fala e nas ações de quem quer que seja.

Quanto às mulheres reprodutoras do machismo, sabe aquele lance de o mais poderoso truque do opressor ser conseguir que o oprimido reproduza a sua fala e a própria opressão? O pobre querendo ser rico e escarnecendo do pobre mais pobre que ele, o não-branco querendo ser branco e escarnecendo do não-branco que é menos branco que ele, seja na cor da pele, seja na forma de agir, no vestir, na cultura, nos modos, etc.?

Claro que a mulher muitas vezes tem ideias, falas e atitudes machistas. Mas isso não faz dela o opressor, nem tira sua qualidade de vítima; faz dela, talvez, menos consciente da opressão que sofre, de onde ela vem e de como ela poderia mudar isso – o que não equivale a dizer que ela não seja individualmente responsável pelos seus atos e palavras.

Segundo muitas feministas, não há mulheres machistas, apenas reprodutoras do machismo. Para mim não há diferença em termos de efeitos práticos. Para quem sofre a opressão, tanto faz se é opressão ativa ou reativa ou produtora ou reprodutora.

Por essa razão, prefiro de falar de ideias, falas e atitudes machistas (ou racistas, ou elitistas, ou adultistas, etc.) e não PESSOAS machistas (racistas, elitistas, adultistas, etc.). Eu aponto a opressão não no ser, mas no agir. Na manifestação. Porque a rotulação me parece despertar mais defensividade e resistência do que atenção e desloca a discussão para a pessoa, ao invés de centrá-la na ideologia, que é o que eu quero combater.

Afinal, não quero destruir ninguém; pelo contrário, quero que elas se juntem a mim, o que não conseguirei se simplesmente as transformar em minhas inimigas. Não quero manipulá-las, mas quero, sim, fazer a minha parte para que seu livre convencimento, ainda que no sentido oposto ao que eu defendo, seja de fato livre e não informado pela reatividade pessoal à violência presente no meu discurso. Ou terei falhado como ativista, como sei que já falhei diversas vezes.

Assim, pessoalmente, eu prefiro que nos comprometamos a buscar e desconstruir o machismo que temos dentro de nós (e creio que sempre teremos algum, mesmo sendo muito feministas, já que vivemos em um mundo muito machista e é muito difícil não introjetar algo tão enraizado na nossa cultura).

Enfim, diante de uma juízA e uma médicA que submeteram uma mulher a esse nível de violência por conta de uma diretiva machista (seja a supressão dos direitos fundamentais da mulher em favor de uma proteção equivocada à expectativa de direitos do nascituro, seja a desconfirmação de sua autoridade médica), que tal criticar seus atos e seus erros individualmente, ao invés de generalizá-los e usá-los como sintoma do que está errado “com as mulheres” ou, ainda mais grave “com as feministas” (algo que sequer sabemos se elas são)?

Que tal centramos nossas críticas e esforços na nossa direção comum – o combate ao machismo e ao patriarcado?

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