Querida companheira misândrica de luta feminista,

dar as mãos

Não te odeio. Não te desprezo. Não acho que você está errada por sentir o que sente. Não quero você fora do movimento. Não te acho uma negação em termos de humanidade. Na verdade, eu entendo você.

Aliás, é muito difícil não entender uma mulher ser misândrica nos dias de hoje, quando vemos rotineiramente tantas mulheres sofrendo tantas violências e isso sendo considerado não só normal como digno de ser aplaudido.

É claro, portanto, que compreendo bem que a misandria e a misoginia, apesar de similares na essência – o ódio – são absolutamente distintas em causa, contexto e consequências. Afinal, enquanto a misoginia nasce do opressor, acalentada pela opressão que exerce, a misandria nasce no oprimido, em reação à opressão que sofre; enquanto a misoginia viceja num mundo que a nutre, a aprova e estimula, a misandria  é repudiada, reprovada, malvista e demonizada. Misandria é a Cinderella do castelo do ódio sexista. Ou, pelo menos, seria, se a Cinderella não fosse uma tremenda bundona. Não pense que não sei disso.

Também, por favor, ponha-me a salvo da impressão de que tenho qualquer coisa a dizer contra o seu ódio, o seu sentimento ou ressentimento e a legitimidade dele. Não acho que você tem que trabalhar isso se não quiser, que tem que parar de sentir o que quer que seja. Eu sou partidária de talvez conter a ação, dependendo do caso, mas nunca de reprimir o sentimento.

Meu problema, assim, não é com o que você sente – não escolhemos sentir, sentimos, apenas; o sentir não conhece razão, não conhece querer, e eu sei disso. Minha objeção é com relação ao que algumas pessoas misândricas fazem a partir do que sentem. Creio que todes somos livres para odiar, mas peço respeito a quem não compartilha desse ódio.

Tudo bem se para você a mais mínima cortesia, a menor mostra de boa educação, o menor cuidado com a polidez pareçam resquícios do machismo opressor que nos compele a sermos aprazíveis. Mas, por favor, tente entender que para muitas de nós a comunicação não-violenta é o ato de maior subversão possível diante do patriarcado que nos quer disputando, competindo, guerreando, vociferando umes contra es outres sem nunca parar para escutar.

A gente pode chamar de luta a nossa luta. De combate. Mas a verdade verdadeira? Acho que a nossa luta é pelo convencimento. Primeiro porque creio que não queremos o poder, mas acabar com o poder. Não é que o feminismo vai ter vencido quando metade des opressores do mundo forem mulheres – ou mesmo quando todes forem. O feminismo terá vencido quando não houver mais ninguém oprimindo ninguém.* Sempre entendi assim.

Não queremos dominar, queremos que não haja dominação. Não queremos oprimir, mas que não haja opressão. Estou enganada?

Me parece que, fora dos esportes, luta não empata. Existe sempre um perdedor e um vencedor. Um que sai por cima e outro por baixo. E a animosidade continua. O ódio e o medo continuam, aguardando o próximo embate. A guerra, mesmo fria, ainda é guerra. E ninguém merece viver com essa tensão, sempre de costas para a parede, sempre dormindo com um olho aberto. Pensei que estivéssemos tentando construir um mundo em que isso não fosse necessário.

É admissível que uma mulher seja explorada, humilhada e violentada, desde que seja por outra mulher? Não seria também machista usar da sua força para fazer sofrer a outra, não seria isso uma emulação do macho opressor?

E o que seria, por exemplo, colocar a mulherzinha que curte homens em seu devido lugar? Mostrar para ela como ela é fraca? Explicar bem explicadinho o quanto ela é oprimida e é imbecil demais para entender, já que quem discorda disso só pode ser por falta de intelecto? Seria isso sororidade, respeito, feminismo? Acolhimento?

Não é que você não pode sentir ódio, ou dizer que o sente. É que quando você se pronuncia de forma a equivaler sua misandria a feminismo, quando você dá a entender que são sinônimos, quando você recrimina as mulheres que não odeiam, como se fossem pelegas, como se fossem vendidas, como se as experiências delas negassem as suas e os sentimentos delas negassem os seus, quando você se nega a empatizar com elas, desclassificando e deslegitimando o que elas sentem por homens que elas de fato amam (filhos, pais, irmãos, amigos), quando você dá a entender que essas mulheres são umas idiotas iludidas, quando você faz provocações, tomando para si o direito de desrespeitar pessoas em espaços inclusivos mesmo quando não te faltam espaços exclusivos em que você possa desopilar livremente toda a sua bile misândrica… você pode sentir uma satisfação momentânea, você pode se sentir vingada, o que for. Mas o que acontece aqui, fora de você, é que você afasta as MULHERES que não se sentem como você. Mulheres, veja, não homens.

Você reforça a noção de que feminismo é machismo ao contrário, de que o feminismo é um movimento intransigente e raivoso em que só há espaço para quem odeia homens. Você desvaloriza a sua fala e a de outras feministas e valoriza a fala dos machistas que dizem que o feminismo não merece ouvidos.

Uma vez uma moça me disse que o discurso do feminismo não é voltado para os homens, nem para as mulheres que ainda apoiam o patriarcado. O discurso feminista é para quem, então? Não de mulheres para mulheres, mas de feministas para feministas, celebrando um feminismo exclusivo que tende a morrer quando suas representantes se esvaírem?

Pois eu acredito em fazer o possível para disseminar nossas ideias, para abrir ouvidos, para prender atenções e aguçar curiosidades. Fazer o possível para que o nosso discurso não interfira na transmissão das nossas informações, para que a nossa abordagem não ponha a perder a comunicação de nossos ideais. Sinto que essa responsabilidade é nossa, é do nosso ativismo.

Não estou falando simplesmente da conversão de homens ao feminismo, de “ser gentil com o opressor”, ou algo assim – estou falando de alcançar as mulheres, as vítimas, as pessoas que, ao invés de se sentirem acolhidas, sentem-se recriminadas pelo discurso violento, culpabilizadas por ele.

Porque do ódio ao homem para o ódio à mulher que não odeia o homem é um passo. E o ódio se move com muita agilidade.

A empatia tem muitos níveis e muitas aplicações. Uma delas é favorecer o diálogo. Temos muito mais em comum do que temos de diferença.

Juntas, podemos ir muito mais longe.

 

* Versão da frase de Lierre Keith: “People sometimes say that we will know feminism has done its job when half the CEOs are women. That’s not feminism; to quote Catharine MacKinnon, it’s liberalism applied to women. Feminism will have won not when a few women get an equal piece of the oppression pie, served up in our sisters’ sweat, but when all dominating hierarchies – including economic ones – are dismantled.”

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