E a palavra do dia é… sororidade!

A primeira vez em que vi esse termo numa discussão feminista, me apaixonei por ele. A ideia de criar um laço entre mulheres, de estimular nossa proteção umas às outras, de desconstruir a competitividade que o patriarcado nos impõe.

E agora eu a vejo sendo usada como o zap num jogo de truco. Um zap silenciador. Como você pode criticar outra feminista? Cadê a sua sororidade? Quem critica as irmãs aplaude “uzómi”.

E assim sororidade passou a ser usada para calar qualquer dissenso, qualquer apontamento de transfobia, racismo, elitismo, homofobia, bifobia…

Pô, eu sempre tive uma ideia tão diferente de sororidade.

Daí vi este texto. Concordo com o sentimento – e principalmente com a imagem do cartaz, que diz: “meu protesto será interseccional ou não será nada” – e gostaria de ir mais a fundo em relação a um ponto.

Para mim, não é que temos que colocar de lado a sororidade para apontar os erros no movimento. É que temos que apontar os erros no movimento precisamente por uma questão de sororidade.

A sororidade, para mim, é linda porque ela me mostra que mesmo aquela pessoa com quem eu não me identifico é minha irmã, minha semelhante. E me lembra que a dor que essa pessoa sente, mesmo que diferente da minha, ou até mesmo incompreensível para mim, é legítima, e que ela, tanto quanto eu, precisa de espaço para falar sobre essa dor e ver-se acolhida nela.

Não é concordar ou discordar. É considerar aquele ponto de vista, entrar nele, encontrar a pessoa humana por trás dele. É empatizar.

Quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade, a meu ver, que me cabe ouvi-la e ampará-la. Me cabe buscar entender essa crítica e seus fundamentos e, se for o caso, discutir sua validade não com a violência de quem luta contra um adversário, mas com o cuidado, a atenção, a consideração que eu gostaria que tivessem para comigo.

Porque para mim é essa a essência da sororidade: empatizar. Imaginar-se na outra e permitir que a outra seja você. Mesmo não sendo, mesmo só por um segundo. Tentar sair de si mesma, olhar-se de longe, enxergar seus próprios privilégios e sentimentos e desnudar-se deles para, nessa nudez, encontrar a outra pessoa diante de você com outros olhos, mais humildes, menos armados, menos defensivos.

É abrir mão de ganhar ou perder, estar certa ou errada. Eu já disse antes e torno a dizer: a empatia é o que fará o patriarcado ruir. E, para mim, a essência da sororidade sempre foi essa. Empatia.

As aventuras de um viajante (sexista) no tempo

tardis

Ele saiu da cápsula e olhou para o futuro ao seu redor, ainda zonzo.

Estava num parque muito arborizado, o dia ensolarado e bonito, o clima ameno. Havia pessoas jogando o que parecia ser basquete numa quadra ali perto. Um robô preto (seriam micropainéis solares?) que se equilibrava sobre uma única roda anotava os pontos num placar embutido em seu peito, aparentemente apitando o jogo.

Foi olhar mais de perto.

Logo que chegou o convidaram para se juntasse a  eles, porque um dos times estava com um jogador a menos. Foi. Havia anos que não jogava (mesmo descontando o tempo que havia pulado com a cápsula), mas não havia perdido o jeito. Com a ajuda dele, seu time que antes estava perdendo, nivelou o escore e, em breve, as equipes disputavam ponto a ponto uma vitória emocionante.

O final do jogo se aproximava. O time adversário marcou – uma linda cesta de três pontos de uma moça baixinha – e ficou um ponto à frente. Esta era a última chance de vencer. Ele passou a bola para um jovem que, num erro crasso, deixou que ela saísse pela lateral. Inacreditável. O robô apitou o fim do jogo, apontou para o lado vencedor, disse alegremente “tenham todes um bom dia!”, e foi até um canto da quadra, onde aparentemente se desligou.

Exasperado pela adrenalina, o viajante se esqueceu de onde e quando estava. Voltou-se para o jogador que havia falhado, gritando:

– Porra, velho, você parece uma mulherzinha jogando!

O outro parou e ficou olhando para ele. Depois olhou para si mesmo, como quem procura alguma coisa, e disse:

– É?

O viajante se enervou ainda mais.

– Eu estou te insultando, porra!

O homem pareceu ficar ainda mais confuso.

– É? – repetiu, pensativo. – Isso foi um insulto? – perguntou, inclinando a cabeça para o lado, claramente intrigado.

– Não é? – perguntou o viajante, ainda mais irritado.

– “Mulher”? “Mulher” é insulto? Por quê? – disse, daí abanou a cabeça, como quem se dá conta de que está se focando em algo irrelevante – Mas, olha, desculpe. Estou vendo que você ficou muito aborrecido. Eu sinto muito que eu tenha posto o jogo a perder no último segundo. Também fiquei decepcionado.

O viajante não sabia direito como responder a isso. Ele havia insultado o cara e ele, ao invés de agredi-lo de volta, não só não se sentia ofendido como ainda pedia desculpas.

O rapaz se aproximou um pouco e disse, com cuidado:

– Vejo que perder a partida te afetou bastante. Tem alguma outra coisa te incomodando? Quer tomar um café, conversar?

Essa demonstração de sensibilidade por parte de um estranho o pegou desprevenido. Que problema ele poderia ter? Ele havia perdido o jogo, qualquer um reagiria daquela forma, não? Não? Não?!

– Cê é viado, é?

– Se sou o quê? – perguntou o jovem, com uma expressão de surpresa.

– Viado. Gay, homossexual.

– Ah. – franziu o cenho, parecendo considerar a pergunta por um segundo. – Exclusivamente, você diz? Não sei. Até hoje não fui. Qual a relevância disso? Você está de novo me “insultando”? – ele não fez as aspas no ar, mas o viajante as sentiu em sua entonação.  – Você não é daqui, né?

– Não. E perguntei porque você está aí, me convidando para tomar café e falar “dos meus sentimentos”. – as aspas dele ele fez com uma careta.

– Sim, estou. Te ofendi? Não foi a minha intenção. Achei que você talvez precisasse disso e que a sua explosão pudesse ser um pedido de ajuda. E como eu não tenho nada específico para fazer agora… O que isso tem a ver com a minha vida sexual?

– Você não está me cantando?

– Cantando?

– Sim, sim, tentando me seduzir…

– Ué, mas se eu estivesse atraído por você, por que eu não te diria? Por que te convidaria para tomar um café, te ofereceria ajuda, como se não quisesse nada além disso? Que conceito estranho. De onde você vem? Você está a fim de mim, é isso?

– Não, você não entendeu…

– Olha, se eu mudar de ideia eu te aviso, mas neste momento não estou a fim de você.

O viajante suspirou tentando entender o diálogo em que se metera. Afinal deu-se conta de que era uma oportunidade valiosa de entender parte daquela cultura futura.

– Então vocês simplesmente chegam e falam para as pessoas que estão interessados nelas?

– Sim, daí podemos sair juntos ou não, conversar para nos conhecermos melhor… mas já estamos sabendo do que se trata, quer dizer, que há uma intenção sexual envolvida. Lá de onde você vem isso não acontece?

– Não.

– Nossa, deve ser confuso. Por que?

– Não sei… não acontece. Acho que chegar chegando, assim, pode assustar as pessoas.

– Assustar? Que coisa. Eu acho assustadora a ideia de alguém te chamar para tomar um café e conversar querendo na verdade fazer sexo e não te falar nada disso. Porque e aí, se você não quiser, o que acontece?

– É frustrante. Investir todo aquele tempo e tal e a pessoa no final não querer nada…

– Pô, mas como assim? Se você tivesse dito desde o começo o que queria, talvez ela não tivesse feito você perder seu tempo.

– Sim, mas e se você chega e fala e já toma um não na cara? Fica aquela rejeição no ar. Como você se sentiria se me dissesse que está se sentindo atraído por mim e eu dissesse que não sinto o mesmo?

– Me sentiria rejeitado sim… mas, sei lá, faz parte da vida. Algumas pessoas gostam da gente, outras não. Algumas pessoas se sentem atraídas pela gente, outras não. Faz parte, não tenho tanto medo de ser rejeitado a ponto de esconder o que sinto. Por que será?

– Não sei. Nunca vi ninguém lidar assim tão bem com a rejeição.

– Eu nunca vi ninguém lidar tão mal. Desculpa eu falar assim, mas é que me parece tão sem sentido! Se você tem medo de ser rejeitado, daí não fala nada, pode ser ainda pior! Se você fica enrolando, o tempo passa e você pode inclusive perder o momento, caso a pessoa também estivesse interessada, cada um esperando o outro falar primeiro para ter certeza de que não vai ser rejeitado… ou como você disse, fica se sentindo frustrado, além de rejeitado, se a pessoa no final não sente atração por você.

O viajante no tempo ficou boquiaberto.

– É, dito assim parece mesmo não fazer muito sentido. Como você faz para lidar com a rejeição?

– Não sei. Acho que não me afeta tanto porque… sei lá, porque sinto que você pode não gostar de mim aqui, hoje, mas alguém gosta, alguém vai gostar, alguém já gostou.

– E se ninguém gostasse?

O moço pensou.

– Acho que não faria diferença. Eu me sentiria só, claro… mas eu sei que eu sou gostável. Eu gosto de mim.

– Mas por quê?

O outro riu.

– Não sei! Eu sou quem eu sou. Não sou perfeito, mas sinto que sou… digno de respeito, amor, carinho, sabe?

– Mas por quê? – perguntou o viajante no tempo, sentindo-se uma criança diante de um mundo incompreensível.

– Porque existo, sou uma pessoa!

Ficaram os dois em silêncio um tempo. Era coisa demais para o viajante processar de uma só vez.

O jovem hesitou algumas vezes, mas por fim tomou coragem e perguntou:

– Você não se sente assim?

O viajante respondeu

– Não. – e surpreendeu-se com o nó que apertou sua garganta subitamente. Precisou de um tempo antes que conseguisse prosseguir. – Eu sinto… acho que sinto que tenho que merecer ser amado.

– E o que você precisa fazer para merecer ser amado?

Ele nunca tinha pensado nisso.

– O que as pessoas querem que eu faça, suponho.

– Entendi. É por isso que você acha natural sair junto, conversar, tomar café, sem falar que está interessado na pessoa… acha que assim, fazendo agrados, vão passar a gostar de você caso não gostassem antes.

Plim! Como aquilo fazia sentido.

– Eu tento comprar o afeto das pessoas.

O cara ficou meio sem-graça.

– Eu não disse isso.

– Não, fui eu quem disse. Não se preocupe, não estou ofendido. É verdade. Compro o afeto pagando adiantado e fico indignado se não recebo aquilo pelo que paguei.

O viajante estava perdido num turbilhão de memórias que demonstravam o que ele acabara de dizer.

Depois de alguns momentos, o moço perguntou:

– Como você está se sentindo?

O viajante respondeu, quase em transe, os olhos fixos num horizonte muito mais antigo do que parecia:

– Aliviado. Não é engraçado? Estou falando algo tão triste, mas estou quase… alegre. Me sinto leve. Flutuante. Livre. Acho que cresci com essa noção de que eu precisava merecer ser amado sem nem me dar conta disso e me deparar com alguém para quem esse conceito é bizarro colocou-o em evidência para mim. Obrigada.

– Não tem de quê. O prazer foi meu. Eu próprio nunca tinha examinado essa parte de mim e esta conversa me ajudou a fazer isso. Mas… se não se incomoda de eu perguntar, você sempre se sentiu assim?

O viajante pensou.

– Sim. Não me lembro de um tempo em que essa sensação não tenha sido parte da minha vida.

– Mesmo na sua casa? Com a sua família?

– Especialmente na minha casa, com a minha família.

– Seus pais diziam que não te amavam quando você não fazia o que queriam?

– Não precisavam. Estava implícito em tudo o que eles faziam e falavam para mim. Se eu não conseguisse a aprovação deles, se não agisse da forma como queriam, eles me tratavam sem amor, ou me batiam.

O outro ficou pasmo. Não conseguiu disfarçar seu choque.

– Batiam em você?

O viajante no tempo olhou para ele, fez que sim com a cabeça. Deu de ombros.

– Ah, eu era um pivete mesmo, vivia enchendo o saco, um estorvo. Eles faziam bem de me dar umas bordoadas de vez em quando… mas não era nada demais, sabe, só umas palmadas… nada demais. Nada demais.

O jovem o abraçou, com lágrimas nos olhos. E, quase sem se dar conta, de repente, o viajante chorava também.

As casas e as regras

quem manda

”Minha casa, minhas regras”, é o que dizem. E com isso esperam justificar sentirem-se no direito de cobrar, como se lhes fosse devida, a obediência acrítica des filhes.

Discordo. Quem trouxe mes filhes para dentro da minha casa fui eu. Assim, não é mais “minha” casa. É “nossa” casa. Nós todes moramos juntes aqui. Por mais indesejada que possa ser uma gravidez, por maior que seja a pressão social sobre as mulheres para que se tornem mães, ter filhes ainda é muito mais uma escolha do que ser filhe jamais poderia ser.

Por essa razão, entendo que não é justo (aliás, me cheira a chantagem) impor que façam o que digo ou “a porta da rua é a serventia da casa”. Não é por escolha própria que crianças ou adolescentes dependem de seus pais, ou não podem sair de suas casas sem grave prejuízo a sua segurança e desenvolvimento.

Somos uma família. Estamos todes no mesmo barco e nos interessa não só o nosso próprio bem-estar, mas também o das outras pessoas que aqui moram, porque a situação de cada pessoa influencia direta ou indiretamente a das outras. Nada mais fundamental, portanto, do que todas terem voz, sejam adultas, crianças ou adolescentes.

Não é questão de cada cabeça um voto. Não é eu defendo o meu e você o seu, votamos e vemos quem ganha. Isso pode ser fácil, rápido e prático, mas continua dando na mesma: uma vontade abafando a outra, uma palavra silenciando a outra. E com o tempo virão coligações e venda de voto e ditadura da maioria ou qualquer outra coisa, porque o que era para ser democracia virou instrumento de dominação.

O que nós queremos, aqui na nossa casa, é não haver ganhar ou perder. É sempre procurarmos a solução em que todes sairemos minimamente satisfeites. Dá muito mais trabalho, claro, mas vale muito a pena. Porque nos ensina a buscar a composição das vontades e não a sobreposição das vontades. Nos ensina a transigir, flexibilizar, buscar alternativas, dialogar, ceder.

Ao invés de estabelecermos regras fixas, que se tornam fins em si mesmas, só porque são, de novo, o mais fácil, rápido e prático (“isto, logo aquilo”; norma, logo sanção), preferimos ter princípios cuja aplicação pode ser debatida e refletida caso a caso, sempre que possível ou desejável.

Em lugar da preocupação com lícito e ilícito, legal e ilegal, queremos empatia, responsabilidade e boa-fé. Buscamos a motivação intrínseca, o desenvolvimento natural do discernimento dentro da liberdade de pensamento e de escolha.

Eu prefiro lidar com adolescentes e crianças questionadoras sabendo que um dia serão adultes capazes de se virar sozinhos e pensar por si próprios do que lidar com cordeirinhos silenciosamente obedientes que um dia serão massa de manobra para outrem, eternos subalternos e subjugados, beijando a mão que es golpeia.

A verdadeira revolução começa dentro do meu lar, dentro de mim. Para lutar contra a opressão, preciso antes lutar contra a opressora que me habita.

Hoje, a minha casa; amanhã, o mundo.

Queima!

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Muitas vezes, quando vejo alguém criticar a aparência de outra pessoa, eu ouço ao fundo a sanha beata que aponta para a pecadora: “Vergonha! Como assim?! como assim…”

“… você se acha bonita?”

“… você se acha gostosa?

“… você sai de saia com essas coxas gordas?

“… você sai de saia com essas pernas finas?

“… você usa fio dental com essa bunda caída?”

“… você vai à praia com toda essa celulite?”

“… você não vai colocar silicone?”

“… você não se depila?”

“… você não pinta o cabelo?”

“… você não aplica botox?”

“… você não usa maquiagem?”

O que não é dito, mas está aí nas entrelinhas, é:  “Enquanto eu estou aqui…”

“… permanentemente de dieta ou me sentindo culpade por burlar a dieta?”

“… passando calor, dor e desconforto para não mostrar as partes de mim que não são “aceitáveis”?”

“… com vontade de vestir uma burca toda vez que me sinto abaixo do padrão de beleza?”

“… arriscando a minha vida com procedimentos dolorosos para me aproximar ou me manter no padrão?”

“Desse jeito, vai parecer que o meu sofrimento é desnecessário e eu não sou superior a ninguém por passar por ele. Como assim?”

O choro e o colo

unhappy

Lendo este ótimo post do blog Eu Mamãe, me lembrei do episódio que segue.

Eu estava esperando o elevador enquanto tentava acalmar meu filho que, então com apenas alguns meses, chorava inconsolavelmente no meu colo. Uma moça  chegou e, vendo a minha situação, disse, solidariamente: “ai, é o fim quando a gente dá colo e mesmo assim eles continuam chorando, né?”

Sinceramente grata pelo apoio, sorri apressadamente para ela e voltei a focar minha atenção no menino.

Achei muito bonita a atitude dessa pessoa, de me reconfortar, de me mostrar, caso eu estivesse constrangida por estar com uma criança que chorava alto, que ela entendia e não estava incomodada. Ela foi uma fofa, para dizer o mínimo.

Mas a verdade é que não concordo com o que ela disse. Aliás, não é nem que não concorde com o que ela disse; é que eu encaro isso de uma forma completamente diferente.

Meu bebê chora porque está incomodado com alguma coisa e essa é a maneira dele de me mostrar isso. Eu não quero que o choro acabe, simplesmente. Eu quero que o incômodo que está causando o choro acabe. E sei que nem sempre isso é possível. E aceito isso. Esse, para mim, é o cerne da questão.

Quando eu pego uma criança no colo, não é para que ela pare de chorar. É para que ela se sinta acolhida, digna de amor e amada, mesmo quando não está feliz, não está sorrindo, não está cheia dos lindos guuuus e gaaas que encantam a toda a gente.

Se isso for suficiente para que ela fique menos incomodada, que bom. Mas, se não for, valeu o carinho, a atenção. Saber que ela sabe que eu estou aqui com ela para o que der e vier.

O que não quer dizer que eu considere o choro agradável. Não é e é biologicamente feito para não ser, para ser algo que não dá para ignorar. Nem quer dizer que eu nunca me sinta frustrada ou irritada quando o choro se prolonga e eu sou confrontada com o fato de que não há nada que eu possa fazer, que eu não tenho poder algum sobre aquele mal-estar.

É só que, quando eu dou colo, minha expectativa não é por fim ao choro. Pelo menos não diretamente ou necessariamente. E vejo que isso me ajuda a lidar com o chorar das crianças – e com o meu! E o de outras pessoas também. Porque aprendo a legitimar as lágrimas ao invés de inibi-las. Por mais difícil que seja ver alguém chorar.

E é difícil. Ver uma pessoa chorando é ver as nossas próprias lágrimas no rosto de outre. Não é à toa que a empatia é algo tão mais raro do que deveria ser. Não é fácil sentir com outra pessoa algo que não se quer sentir por si só. E quando a pessoa que chora é alguém a quem amamos, então, é ainda mais difícil de tolerar. Porque ver alguém que amamos chorar é contemplar nossa própria falibilidade e impotência, nossa incapacidade de acolchoar o mundo com nosso amor. E isso não é só triste; é muito assustador.

Daí que, a partir dessa minha postura ao lidar com o choro des mees filhes, ao invés de dizer “não foi nada”, ou “já passou”, aprendi a perguntar “machucou?” ou “está doendo?” e me abrir para ouvir a resposta, ainda que ela me perturbe. Ainda que ela doa em mim.

A gente é educade para fazer as pessoas pararem de chorar, como se parar de chorar fosse parar de sofrer. E não é. É sofrer ainda mais, porque tem que sofrer escondido para não incomodar ninguém.

Vamos romper esse ciclo. Vamos aprender a abraçar as pessoas que choram não para silenciá-las, mas para acolhê-las, validar seus sentimentos. Mesmo que eles não sejam confortáveis ou convenientes para nós.

Perdoar e esquecer

PERDAO

É muito perturbador para mim quando vejo uma pessoa contar de violências (de qualquer tipo) que sofre ou sofreu, e quem a está escutando, ao invés de empatizar com ela, aconselhá-la a ser tolerante e compreensiva com a pessoa de quem partiu a agressão.

Acontece muito em casos de violência doméstica por parte de pais ou companheires, isto é, casos em que o algoz é alguém a quem a vítima ama e que supostamente ama a vítima.

Ressalvo que, para mim, eventualmente empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faz parte do processo de reabilitação. Reconstruir a humanidade no monstro e desconstruir o monstro na humanidade é algo necessário para que consigamos inibir a reincidência, seja no indivíduo ou na sociedade. Não estou negando isso.

Estou falando de quando a pessoa empatiza com a parte agressora na cara da vítima que acaba de relatar o que passou, ao invés de e antes de empatizar com a vítima. A pessoa está ali, desnudando um trauma seu, completamente vulnerável, e é recebida não com a escuta atenciosa, com apoio, mas com a defesa de quem a traumatizou.

Acho que, muitas vezes, a pessoa que faz isso o faz porque de alguma forma se identifica com o agressor – e, portanto, defende a si mesma – ou porque não consegue lidar com o sofrimento da outra e fica tentando convencê-la e a si mesma de que não foi tão ruim assim, ou porque se identifica com a vítima, mas, ao contrário dela, quer continuar negando seu sofrimento. Afinal, para empatizar, ela teria que reconhecer que o ocorrido é violência, uma percepção com que ela não quer ou não é capaz de lidar naquele momento.

Nada contra alguém não querer lidar com alguma coisa. Cada um sabe de si e de quando está pronto para enfrentar seus fantasmas. Mas uma coisa é não querer lidar; outra coisa, muito diferente, é impedir outra pessoa de fazê-lo.

Não raro, ainda se chama a isso de acolhimento, de “dar uma força”, de “ajudar a enxergar o que aconteceu com objetividade”. É dito que ao entender o agressor a vítima ficará melhor. Que a cura é perdoar. Perdoar e esquecer.

É muito enraizada na nossa cultura essa glorificação do perdão como uma dádiva maravilhosa e mágica, como se pronunciar a frase “eu perdoo” produzisse um encantamento que desintegrasse mágoa, rancor, ódio… qualquer sentimento indesejável.

Só que esse perdão não é real. É um subterfúgio para evitar voltar a falar a respeito do ocorrido, porque “você já perdoou”. Esse perdão não redime, não absolve, não liberta, nem engrandece. Ele só serve para silenciar a vítima, recalcar seus sentimentos e, de quebra, colocar culpa, vergonha e sensação de inadequação no caldeirão emocional já borbulhante dela. É uma fuga de quem escuta e pode ser também de quem “perdoa”, quando o faz para não se permitir pensar mais sobre aquilo, para não dialogar com a dor que a memória daquilo causa. Daí o “esquecer” que costuma acompanhar esse “perdoar”.

Enfia-se tudo num quarto escuro, fecha-se a porta e abracadabra. Tudo em ordem – aqui fora. Só que a porta fica lá. E toda vez que você olha para ela você lembra daquela bagunça embolada lá dentro e as suas entranhas se reviram.

Quando desconstruímos um trauma, podemos não nos sentir bem a respeito dele (afinal, ele não deixará de ser uma memória ruim), mas não precisaremos nos forçar a esquecê-lo, porque ele não vai mais ter o poder de nos sobressaltar a qualquer momento. Não é que ele será esquecido, mas ele vai naturalmente parar de ser lembrado o tempo todo.

Uma das formas de desconstruir traumas é falando a respeito deles e sendo acolhide em sua fala, sendo recebide com empatia no sofrimento que eles causam. E isso não é possível quando se é interrompido pela censuradora imposição do perdão.

Não querer sentir não significa não sentir. Fosse assim, nenhum coração jamais se partiria. Sentimos, apenas. Sem motivo, sem razão, sem proporção. Sentimos. Sentir não é crime, não é feio, não é bonito, não é certo, não é errado. Não cabe julgamento do sentir, porque ele não é controlado pela nossa vontade.

O que podemos controlar são as atitudes que tomamos a partir do que sentimos, mas não o que sentimos em si. Aliás, ao nos escondermos do que sentimos, corremos o risco de perder o controle inclusive sobre os nossos atos, porque é quando damos as costas para os nossos sentimentos que eles nos atacam de surpresa e tomam conta da gente. Acabamos agindo sem ter consciência do real porquê do nosso agir. Ou seja, a sua raiva, por si só, não vai matar ninguém. Você, por outro lado, pode acabar matando se não se permitir lidar com ela.

A analogia que eu gosto de fazer é: quando alguém pisa no seu pé você não espera para entender o motivo antes de se permitir sentir dor. Ou raiva. É só depois que você se foca na pessoa que te pisou e tenta entender o lado dela, avalia o contexto, etc. Ou não. Porque tentar entender o que levou essa pessoa a pisar no seu pé não vai fazer o seu pé doer menos. E fingir que não doeu e ter que engolir seu “ai” só vão fazer doer ainda mais.

Sentir primeiro o seu, lidar primeiro com o seu e buscar empatia primeiro pelo seu não é egoísmo. É questão de sobrevivência, de saúde mental. Mesmo porque, antes disso, o que você fizer (inclusive empatizar com outras pessoas) será contaminado pelo que você está evitando em si mesme.

Impor à mulher que seja compreensiva, que “perdoe e esqueça” a violência de ume parceire (pouco importa o gênero) é machista; isso me parece óbvio. A imposição ae filhe de que seja compreensive, de que “perdoe e esqueça” a violência de seus pais, familiares ou de quem se responsabiliza ou se responsabilizou por sua criação é adultista. E tóxica. Vem lá da ideia de que a gente não pode sentir raiva de pai e de mãe, mesmo quando apanha ou é injustiçado. Porque honrar pai e mãe e respeitar os mais velhos e repressão e culpa vêm antes da saúde mental da criança. Daí crescemos aprendendo a tolerar agressões de quem a gente ama, como se fizessem parte do amor o gaslighting* e o desrespeito.

Muites não conseguem resolver traumas por não se permitirem sentir raiva de quem os causou. Por sentirem culpa quando tentam. E o “perdoar e esquecer”, ao reafirmar isso, só agrava a situação e retraumatiza a pessoa.

 

*Fazer gaslighting (lê-se gaslaitim)é manipular a vítima para que duvide de sua percepção a ponto de acreditar que a violência que sofre ou sofreu está só na cabeça dela – ou não aconteceu, ou não foi bem assim, ou não foi nada demais, ou acontece com todo mundo, ou a culpa é dela mesma. Não raro, chega uma hora em que a vítima, confusa, começa a acreditar que está doente, ou fica tão consternada que passa a agir de uma forma que, diante de terceiros, confirma a alegação do agressor de que ela seja o problema. É muito comum em situações de violência doméstica, violência sexual, assédio moral, bullying, etc. O termo vem de uma peça de teatro de 1938, chamada Gas Light, escrita por Patrick Hamilton, que gira em torno de uma mulher que é gaslaiteada por seu marido.

A criança má

crianças mas

A sociedade adora uma história de terror protagonizando crianças (como esta, ou esta, ou esta, ou esta…). Mas gosta ainda mais quando a história é baseada em acontecimentos reais.

Vira-e-mexe eu recebo um link de uma reportagem ou artigo que fala sobre a maldade infantil. É um clichê: começa com a “bomba” de que existem crianças más (e a contraposição disso à suposta percepção reinante de que elas sejam puras e inocentes), daí vêm referências a estudos que indicam que a criança já nasce má e exemplos de manifesta maldade infantil, e, às vezes, algumas palavrinhas de profissionais da área psi nesse sentido. Enfim: tenham medo, pais, muito medo. Se vocês bobearem, vocês poderão ser os próximos.

Mas o que é uma criança má? E o que é uma criança “boa”?

Eu concordo com a percepção de Alfie Kohn, autor de Unconditional Parenting: para o senso comum, a criança “boa” é a criança que não incomoda.

Pessoas adultas incomodam o tempo todo – falam alto demais, se comportam de forma que não é apropriada para o ambiente ou o momento em que estão. Mas isso é considerado direito deles e só lhes acarreta sanções em casos extremos. As crianças, em compensação, não podem fazer barulho, não podem ter um dia ruim, não podem ter atendidas as suas necessidades de movimento, de atenção, de cuidado, de brincadeira. As crianças têm que se submeter. Por quê? Porque podemos fazer com que se submetam, claro.

As pessoas gostam de falar como se o existisse de fato um “tabu da inocência infantil”, e que ele protegesse indevidamente a criança, conferindo-lhe alguma espécie de vantagem em relação à pessoa adulta. Um privilégio, quem sabe.

Muito ouço falar desse tal tabu, mas não vejo. A presunção de inocência que eu conheço só existe para es adultes. Para as crianças, o que observo é uma expectativa, uma exigência de inocência sobre-humana que, quando frustrada, se transforma em prova de malícia intrínseca, ensejando as mais cruéis punições. O fato de que, ainda hoje, em pleno século XXI, a maioria das pessoas defende a violência contra a criança (seja física, verbal ou psíquica) como algo necessário para a educação comprova isso, especialmente quando analisamos a quantidade de situações em que esses castigos se agravam a ponto de se causar lesões e mortes.

O que me chama a atenção nesse tipo de artigo é que a informação de que há crianças psicopatas não é passada de forma neutra. Ela é exposta de forma sensacionalista, indiretamente apoiando a tese não só de que há algumas raras crianças más, mas de que as crianças, como um todo, “não são boas”. E daí para a reafirmação da antiquíssima (mas infelizmente ainda em voga) noção de que elas são, portanto, todas más (e que nos cabe torná-las boas através da punição), é um pequeníssimo pulo, porque é dessa forma maniqueísta que o senso comum trabalha – ou é tudo, ou é nada. Ou as crianças são todas puras e angelicais, ou são todas demoníacas. É esta, aliás, a essência da “Pedagogia Venenosa” (Schwarze Pädagogik) denunciada por Alice Miller em seu livro For Your Own Good – a ideia de que as crianças estejam inoculadas pelas sementes do mal e nos caiba arrancar isso delas, mesmo que na base da violência.

De fato, parece-me que o intuito de todos os textos desse tipo que eu, por infelicidade, li, era, subliminarmente, embasar a punição das crianças por sua suposta malícia, dentro da dinâmica de exigir o inexigível e depois repudiar a realidade.

Mesmo em relação a bebês com poucos meses de vida podemos verificar essa forma de pensar. Ainda mais abundantes que os textos que falam da tão horripilante maldade infantil são os que falam, velada ou escancaradamente, da criança ainda muito pequena como um Rasputin em miniatura, um ser maléfico e manipulador, que busca dominar os pais e adestrá-los e que, portanto, devem os pais retribuir na mesma moeda (o que não me pareceria uma atitude muito madura mesmo que eu acreditasse na premissa de que ela parte).

Segundo essa lógica, toda criança é um psicopata em potencial e cabe aos pais evitar que esse potencial se realize, “impondo limites”. Não ensinando princípios, não passando valores, mas impondo limites. Aparentemente, o que queremos criar não são pessoas íntegras, mas pessoas limitadas. E é bem isso o que sobra dessas crianças cuja “altivez” foi quebrada: pessoas limitadas. Limitadas a reproduzir a violência que sofrem, a obedecer quem lhes parece mais forte, a só reconhecer em si os sentimentos que não forem vergonhosos, ou incômodos para outrem.

E dizer que a criança é má porque nasce má, apesar de ser reconfortante para os pais (“não é culpa nossa, já veio quebrado”), não é necessariamente verdade. Ainda que haja pesquisas apontando evidências de configurações neurológicas e genéticas que levam à psicopatia, há também estudos que demonstram que o cérebro da criança é bastante moldável a partir das experiências que ela vivencia. Veja aqui um artigo muito interessante a esse respeito.

Mesmo porque, se o meio não tem influência sobre a criança, então não há “limites” que resolvam o problema. Ou será que o meio é relevante o suficiente para nos sentirmos justificados em nossas punições, e irrelevante o suficiente para não nos responsabilizarmos pelees adultes que nosses filhes se tornarão? Que conveniente.

Eu tenho para mim que, ainda que nem todas as vítimas se tornem um dia algozes, todos os algozes foram um dia vítimas. E talvez o que tenha acontecido com eles sequer seja reconhecido como violência, de tão normalizado que está. No livro que citei acima, Alice Miller demonstra muito eficientemente a banalização, deslegitimação e silenciamento do sofrimento na infância e suas consequências nefastas, usando como exemplos Hitler e Christiane F., entre outros.

Isso quer dizer que acho que não devamos responsabilizar as crianças (ou es adultes que elas se tornam) pelos seus atos? Não. Isso quer dizer que acho que não devemos usar a alegação de responsabilização das crianças para nos escusarmos de reconhecer nossas próprias responsabilidades como mães, pais, educadorees e, em geral, pessoas adultas que interagem com crianças, queiramos ou não, porque elas fazem parte da nossa sociedade, apesar de serem constantemente tratadas como cidadãs de segunda-classe.

Ninguém pondera sobre as motivações dessas crianças que se tem tanta convicção de serem tão más. O que leva, por exemplo (como num caso citado em uma das matérias que vi), um menino a mentir sistematicamente para fazer com que suas babás sejam despedidas? Talvez ele sinta que, assim, seus pais terão que ficar com ele; talvez ele esteja rejeitando a presença delas em sua vida, rejeitando a ausência dos pais. Não parece que deve haver algum motivo para que uma criança esteja disposta a machucar a si própria para se ver livre de alguém ou de alguma situação? Não seria melhor tentar conversar com ele e entendê-lo, do que simplesmente rotulá-lo de delinquente e puni-lo, só porque esta é a opção mais fácil e confortável para os pais?

Ao invés de lidar com o que ocorreu no momento, não seria melhor lidar com a causa para isso, de forma a prevenir acontecimentos futuros similares?

Não. A maldade começa e termina na criança. Nós somos grandes, elas são pequenas. Não temos que nos reexaminar, não temos que repensar nossas posturas, nossos atos, exemplos, palavras. Não temos que revisitar nossos próprios traumas, analisar nossos desejos e temores.

Não temos que… e não queremos. Mas acho que devemos.