As aventuras de um viajante (sexista) no tempo

tardis

Ele saiu da cápsula e olhou para o futuro ao seu redor, ainda zonzo.

Estava num parque muito arborizado, o dia ensolarado e bonito, o clima ameno. Havia pessoas jogando o que parecia ser basquete numa quadra ali perto. Um robô preto (seriam micropainéis solares?) que se equilibrava sobre uma única roda anotava os pontos num placar embutido em seu peito, aparentemente apitando o jogo.

Foi olhar mais de perto.

Logo que chegou o convidaram para se juntasse a  eles, porque um dos times estava com um jogador a menos. Foi. Havia anos que não jogava (mesmo descontando o tempo que havia pulado com a cápsula), mas não havia perdido o jeito. Com a ajuda dele, seu time que antes estava perdendo, nivelou o escore e, em breve, as equipes disputavam ponto a ponto uma vitória emocionante.

O final do jogo se aproximava. O time adversário marcou – uma linda cesta de três pontos de uma moça baixinha – e ficou um ponto à frente. Esta era a última chance de vencer. Ele passou a bola para um jovem que, num erro crasso, deixou que ela saísse pela lateral. Inacreditável. O robô apitou o fim do jogo, apontou para o lado vencedor, disse alegremente “tenham todes um bom dia!”, e foi até um canto da quadra, onde aparentemente se desligou.

Exasperado pela adrenalina, o viajante se esqueceu de onde e quando estava. Voltou-se para o jogador que havia falhado, gritando:

– Porra, velho, você parece uma mulherzinha jogando!

O outro parou e ficou olhando para ele. Depois olhou para si mesmo, como quem procura alguma coisa, e disse:

– É?

O viajante se enervou ainda mais.

– Eu estou te insultando, porra!

O homem pareceu ficar ainda mais confuso.

– É? – repetiu, pensativo. – Isso foi um insulto? – perguntou, inclinando a cabeça para o lado, claramente intrigado.

– Não é? – perguntou o viajante, ainda mais irritado.

– “Mulher”? “Mulher” é insulto? Por quê? – disse, daí abanou a cabeça, como quem se dá conta de que está se focando em algo irrelevante – Mas, olha, desculpe. Estou vendo que você ficou muito aborrecido. Eu sinto muito que eu tenha posto o jogo a perder no último segundo. Também fiquei decepcionado.

O viajante não sabia direito como responder a isso. Ele havia insultado o cara e ele, ao invés de agredi-lo de volta, não só não se sentia ofendido como ainda pedia desculpas.

O rapaz se aproximou um pouco e disse, com cuidado:

– Vejo que perder a partida te afetou bastante. Tem alguma outra coisa te incomodando? Quer tomar um café, conversar?

Essa demonstração de sensibilidade por parte de um estranho o pegou desprevenido. Que problema ele poderia ter? Ele havia perdido o jogo, qualquer um reagiria daquela forma, não? Não? Não?!

– Cê é viado, é?

– Se sou o quê? – perguntou o jovem, com uma expressão de surpresa.

– Viado. Gay, homossexual.

– Ah. – franziu o cenho, parecendo considerar a pergunta por um segundo. – Exclusivamente, você diz? Não sei. Até hoje não fui. Qual a relevância disso? Você está de novo me “insultando”? – ele não fez as aspas no ar, mas o viajante as sentiu em sua entonação.  – Você não é daqui, né?

– Não. E perguntei porque você está aí, me convidando para tomar café e falar “dos meus sentimentos”. – as aspas dele ele fez com uma careta.

– Sim, estou. Te ofendi? Não foi a minha intenção. Achei que você talvez precisasse disso e que a sua explosão pudesse ser um pedido de ajuda. E como eu não tenho nada específico para fazer agora… O que isso tem a ver com a minha vida sexual?

– Você não está me cantando?

– Cantando?

– Sim, sim, tentando me seduzir…

– Ué, mas se eu estivesse atraído por você, por que eu não te diria? Por que te convidaria para tomar um café, te ofereceria ajuda, como se não quisesse nada além disso? Que conceito estranho. De onde você vem? Você está a fim de mim, é isso?

– Não, você não entendeu…

– Olha, se eu mudar de ideia eu te aviso, mas neste momento não estou a fim de você.

O viajante suspirou tentando entender o diálogo em que se metera. Afinal deu-se conta de que era uma oportunidade valiosa de entender parte daquela cultura futura.

– Então vocês simplesmente chegam e falam para as pessoas que estão interessados nelas?

– Sim, daí podemos sair juntos ou não, conversar para nos conhecermos melhor… mas já estamos sabendo do que se trata, quer dizer, que há uma intenção sexual envolvida. Lá de onde você vem isso não acontece?

– Não.

– Nossa, deve ser confuso. Por que?

– Não sei… não acontece. Acho que chegar chegando, assim, pode assustar as pessoas.

– Assustar? Que coisa. Eu acho assustadora a ideia de alguém te chamar para tomar um café e conversar querendo na verdade fazer sexo e não te falar nada disso. Porque e aí, se você não quiser, o que acontece?

– É frustrante. Investir todo aquele tempo e tal e a pessoa no final não querer nada…

– Pô, mas como assim? Se você tivesse dito desde o começo o que queria, talvez ela não tivesse feito você perder seu tempo.

– Sim, mas e se você chega e fala e já toma um não na cara? Fica aquela rejeição no ar. Como você se sentiria se me dissesse que está se sentindo atraído por mim e eu dissesse que não sinto o mesmo?

– Me sentiria rejeitado sim… mas, sei lá, faz parte da vida. Algumas pessoas gostam da gente, outras não. Algumas pessoas se sentem atraídas pela gente, outras não. Faz parte, não tenho tanto medo de ser rejeitado a ponto de esconder o que sinto. Por que será?

– Não sei. Nunca vi ninguém lidar assim tão bem com a rejeição.

– Eu nunca vi ninguém lidar tão mal. Desculpa eu falar assim, mas é que me parece tão sem sentido! Se você tem medo de ser rejeitado, daí não fala nada, pode ser ainda pior! Se você fica enrolando, o tempo passa e você pode inclusive perder o momento, caso a pessoa também estivesse interessada, cada um esperando o outro falar primeiro para ter certeza de que não vai ser rejeitado… ou como você disse, fica se sentindo frustrado, além de rejeitado, se a pessoa no final não sente atração por você.

O viajante no tempo ficou boquiaberto.

– É, dito assim parece mesmo não fazer muito sentido. Como você faz para lidar com a rejeição?

– Não sei. Acho que não me afeta tanto porque… sei lá, porque sinto que você pode não gostar de mim aqui, hoje, mas alguém gosta, alguém vai gostar, alguém já gostou.

– E se ninguém gostasse?

O moço pensou.

– Acho que não faria diferença. Eu me sentiria só, claro… mas eu sei que eu sou gostável. Eu gosto de mim.

– Mas por quê?

O outro riu.

– Não sei! Eu sou quem eu sou. Não sou perfeito, mas sinto que sou… digno de respeito, amor, carinho, sabe?

– Mas por quê? – perguntou o viajante no tempo, sentindo-se uma criança diante de um mundo incompreensível.

– Porque existo, sou uma pessoa!

Ficaram os dois em silêncio um tempo. Era coisa demais para o viajante processar de uma só vez.

O jovem hesitou algumas vezes, mas por fim tomou coragem e perguntou:

– Você não se sente assim?

O viajante respondeu

– Não. – e surpreendeu-se com o nó que apertou sua garganta subitamente. Precisou de um tempo antes que conseguisse prosseguir. – Eu sinto… acho que sinto que tenho que merecer ser amado.

– E o que você precisa fazer para merecer ser amado?

Ele nunca tinha pensado nisso.

– O que as pessoas querem que eu faça, suponho.

– Entendi. É por isso que você acha natural sair junto, conversar, tomar café, sem falar que está interessado na pessoa… acha que assim, fazendo agrados, vão passar a gostar de você caso não gostassem antes.

Plim! Como aquilo fazia sentido.

– Eu tento comprar o afeto das pessoas.

O cara ficou meio sem-graça.

– Eu não disse isso.

– Não, fui eu quem disse. Não se preocupe, não estou ofendido. É verdade. Compro o afeto pagando adiantado e fico indignado se não recebo aquilo pelo que paguei.

O viajante estava perdido num turbilhão de memórias que demonstravam o que ele acabara de dizer.

Depois de alguns momentos, o moço perguntou:

– Como você está se sentindo?

O viajante respondeu, quase em transe, os olhos fixos num horizonte muito mais antigo do que parecia:

– Aliviado. Não é engraçado? Estou falando algo tão triste, mas estou quase… alegre. Me sinto leve. Flutuante. Livre. Acho que cresci com essa noção de que eu precisava merecer ser amado sem nem me dar conta disso e me deparar com alguém para quem esse conceito é bizarro colocou-o em evidência para mim. Obrigada.

– Não tem de quê. O prazer foi meu. Eu próprio nunca tinha examinado essa parte de mim e esta conversa me ajudou a fazer isso. Mas… se não se incomoda de eu perguntar, você sempre se sentiu assim?

O viajante pensou.

– Sim. Não me lembro de um tempo em que essa sensação não tenha sido parte da minha vida.

– Mesmo na sua casa? Com a sua família?

– Especialmente na minha casa, com a minha família.

– Seus pais diziam que não te amavam quando você não fazia o que queriam?

– Não precisavam. Estava implícito em tudo o que eles faziam e falavam para mim. Se eu não conseguisse a aprovação deles, se não agisse da forma como queriam, eles me tratavam sem amor, ou me batiam.

O outro ficou pasmo. Não conseguiu disfarçar seu choque.

– Batiam em você?

O viajante no tempo olhou para ele, fez que sim com a cabeça. Deu de ombros.

– Ah, eu era um pivete mesmo, vivia enchendo o saco, um estorvo. Eles faziam bem de me dar umas bordoadas de vez em quando… mas não era nada demais, sabe, só umas palmadas… nada demais. Nada demais.

O jovem o abraçou, com lágrimas nos olhos. E, quase sem se dar conta, de repente, o viajante chorava também.

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4 comentários sobre “As aventuras de um viajante (sexista) no tempo

  1. Estou encantada com esse blog! Parabéns!!! Vc escreve muito bem!!! Consegue passar perfeitamente suas ideias!!!! Estou realmente encantada! Me sentindo tão compreendida!!! Nossa! Keep up the good work!

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