Vítimas e algozes

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Quantas vezes você sofreu uma agressão e só pensou que deveria ter reagido horas, dias, meses depois? Quantas vezes demorou ainda mais tempo para entender que não merecia aquele tratamento, que nada justificaria aquilo?

Quantas vezes alguém gritou ou fez alguma grosseria com você e você se calou, hesitante, incapaz de, naquele momento, articular, sequer para si, que essa pessoa não tinha esse direito? Que ninguém tem o direito de desrespeitar você, ainda que você tenha errado?

Quantas coisas você poderia ter dito? “Ok, eu errei, peço desculpas, mas você não pode me tratar assim.” “Entendo que você esteja irritado, mas exijo respeito.” “Eu não tenho que aguentar isso.”

Mas as palavras, mesmo essas palavras, simples, pacíficas, não vêm. Para onde elas foram? Onde se esconderam? Vejamos.

A menininha de dois anos derruba o copo de suco. O pai grita com ela. Grita quando o copo cai, grita enquanto vai buscar o pano, grita enquanto limpa o chão. Grita todos os gritos que já ouviu na vida, o trabalho estressante, o time de futebol que não ganha, os semáforos que sempre fecham na hora em que ele vai passar. Grita, grita, grita.

Ela tem dois anos. Não foi de propósito. Copos caem, acidentes acontecem, especialmente quando a sua coordenação motora ainda está em pleno desenvolvimento. Há apenas alguns meses, sequer se esperaria que ela segurasse um copo sozinha. Ela está se aventurando, aprendendo. E falha, porque falhar faz parte de se aventurar e aprender.

Ninguém repreenderia uma criança que cai quando está começando a andar. Mas o suco suja o chão e isso cria uma oportunidade para extravazar dá trabalho para o pai. Ele grita, e grita ainda mais (ou mesmo fisicamente agride) se a criança responde. E, assim, as palavras dela aprendem a rapidamente fugir em situações de conflito.

E se fosse de propósito? E se ela tivesse atirado no chão o copo? Daí valeriam os gritos, ou a possível surra que tomaria na maioria dos lares mundo afora?

Não. Porque ela ainda seria uma criança, com pouquíssimo controle sobre seus sentimentos e atos, dominada por seus impulsos, agindo e falando sem pensar. Ao contrário de nós, pessoas adultas. Ou deveria ser.

Será que, sem os gritos já ouvidos, o trabalho estressante, etc., a postura do pai seria a mesma? Ou será que ele seria capaz de olhar para a situação com mais clareza, menos tomado por emoções incontroláveis que o levam a reagir com tanto exagero e irracionalidade?

Sempre podemos pedir desculpas mais tarde, é verdade. Mas quão reparador é o que acontece mais tarde se, para a criança (especialmente nessa idade), só existe o agora?

Quando uma criança é tratada dessa forma, ela aprende que aquele tratamento é admissível e merecido por ela. Que aquela reação é compatível com aquela situação. Que sofrer desrespeito faz parte da correção dos erros dela e que ela sempre está errada, mesmo que não entenda o porquê.

É necessário intervir quando vemos isso ocorrer, por mais atrito que isso nos possa causar com pessoas adultas a quem amamos. Porque com estas poderemos conversar novamente depois, com a cabeça fria; com a criança não. A criança precisa ouvir, ali, imediatamente, que lhe é devido um tratamento digno, ou o momento de defendê-la, de protegê-la, de incutir-lhe a noção de que aquele abuso é inescusável terá passado para sempre. Se não tomarmos uma atitude, em breve estaremos diante de mais uma pessoa cuja reação automática diante de uma grosseria é encolher-se e culpar-se em silêncio.

Muitas vezes passamos tanto tempo e nos dedicamos tanto a aprender a reagir a ofensas que nossa reação fica até desequilibrada. Excessiva. Nos tornamos pessoas constantemente armadas, à espera de alguém que nos pise nos calos (e tudo vira calo), para que possamos revidar tudo o que não revidamos a vida toda. Na nossa ânsia por jamais nos submetermos àquilo de novo, inadvertidamente impomos a outrem o que nos fizeram. Montamos artificialmente uma maldade que não é nossa e amordaçamos a empatia dentro de nós.

E nunca haverá vingança suficiente. Porque a raiva que sentimos é da nossa própria impotência, da nossa própria docilidade. Nós, vítimas, nos culpamos pelo que outras pessoas nos fizeram. Nós, vítimas, achamos que estava sob o nosso controle outra pessoa não nos agredir. E isso, claro, não é verdade.

O mundo condiciona as crianças a não discutirem, a apanharem sem chorar ou reclamar, a suportarem e calarem, a nunca dizerem não. E depois recrimina a passividade, culpando a falta de reação do agredido pelos atos do agressor.

Já fomos crianças. Já sofremos esse condicionamento. Agora somos gente grande e temos o poder de escolher. Cabe-nos decidir se queremos passar de vítimas a algozes.

Vamos quebrar o ciclo da violência!

Mais sobre a proteção

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O post anterior rendeu muito papo.

Lulu Anders, que colaborou comigo para fazer aquele texto, discutindo essa repercussão, escreveu algo que me representa tanto, que eu achei tão lindo, que resolvi inaugurar uma seção de Guest Posts, só para poder trazer para cá a manifestação dela, com a devida permissão dela e algumas mínimas alterações minhas.

“Eu acho que a atitude do pai diante do filho mexe com um caminhão de certezas e verdades que carregamos com convicção e que usamos para atropelar quem ameaça nos desestabilizar com a perspectiva do novo.

O que mais me assustou nesse vídeo foi a coerência daquela imagem com a visão corriqueira de que, sim, devemos proteger, nem que seja socando e humilhando, para que a pessoa protegida não seja socada e humilhada pelo mundo, pela vida, “pela polícia”, como dizem tantos.

São a família e o Estado o mesmo leviatã, dominando e amedrontando com a ameaça do caos. Família e Estado equiparados, iguais. E igualmente perversos e cegos pelo próprio poder.

O que levou aquele menino até ali? Será que ele não queria mudar o mundo para realizar seu eu oprimido? Será que viver segundo o que se lhe impõe é insuportável e, na sua idade, ainda ele ainda não está devidamente domado após sucessivos “banhos de realidade”? Que realidade? A história esta aí para mostrar que a realidade se faz e refaz e desfaz o tempo todo.

Se eu amar e respeitar uma pessoa, ouvindo-a quando ela quer e precisa, será que ela não me ouviria também? Será que exclamaria, no meio de uma situação como a vista, “você não fala comigo”?

A pessoa jovem deseja mudar o mundo que a trata com injustiça e crueldade. Insurgir-se contra tiranias como essa é a forma como ela se mantém sã em uma sociedade doente. Mas é um duelo de Davi contra Golias. E quando lhe quebram a espinha, ela não raro adoece. E ganha um diagnóstico para justificar seu desejo pelo extraordinário. Pelo extra-ordinário. Pelo novo.

É sinal de saúde e maturidade se adequar a uma sociedade doente?

Esse pai (e, para que fique claro, agora já falamos de um arquétipo de pai, de uma forma de criar e educar) quer proteger o filho de quê? Das frustrações por não conseguir mudar o mundo? E as frustrações por nunca ter tentado, não doem uma vida toda?

Por que não nos abrirmos para que nossas crianças realizem suas potências e pisem em nossas verdades, para que descubramos juntas um mundo novo? Por que não protegê-las da iniquidade, ao invés de protegê-las de seus sonhos?

Podemos querer defendê-las do mal, mas de que valeria isso se lhes sufocássemos o espírito, se as amordaçássemos e acorrentássemos numa realidade que repudiam?

Não queremos que se machuquem, queremos que vivam, que estejam saudáveis. Mas para isso não podemos nós próprios nos tornar quem cala, viola, humilha.

Não seriam muitas vezes as pessoas que defendem esse cerceamento de alma as mesmas que reclamam da juventude apática, modorrenta, sem iniciativa?

De que vale uma vida sensata, mas sem sentido?

Digamos, então: “Vou com você, meu amor. Já que você quer um mundo melhor, já que esse é o seu sonho, eu, que te amo, vou com você até o fim. Permita-me fazer-lhe companhia nesse engajamento. E cuide-se, pois, sem você, eu morreria.”

Quando você traz ao mundo uma pessoa revolucionária, é inútil tentar segurar o vento. Amemos e cuidemos e ouçamos e respeitemos. Sejamos dignos de acompanhá-la em sua luta.

Proteger não é prender em grilhões ou cortar asas. Proteger é um processo de cuidado, atenção e respeito, que habilita o sujeito a ser livre e feliz, como a mãe pássaro que encoraja seus filhotes para o vôo.

Dói a liberdade do outro, né? Dói ver nosso maior amor cair na vida sem garantias. Dói muito. Mas amar é aprender e essa dor é a parte mais dura de nosso aprendizado.

Eu quero aprender. Quero ter o coração aberto e a mente iluminada para o enorme aprendizado de acompanhar o crescimento de alguém. Que eu possa, com meu amor, criar vida. E que eu tenha coragem e dignidade para ver meu filhote voar sem o desejo mórbido de cortar-lhe as asas.”

Despir para proteger

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* Com a (linda e essencial!) colaboração de Lulu Anders

Conceito curioso.

Um pai, para proteger seu filho, corajosamente se embrenha entre manifestantes black bloc e o retira de lá. O menino a princípio se recusa a sair, mas o pai argumenta pungentemente sobre a inutilidade daquele tipo de manifestação, diz que o ama… “desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria”.

Li isso, bem assim, aqui. Mas talvez a tinta em que aquelas linhas foram escritas só fosse cor-de-rosa para os meus olhos.

Essa névoa romântica me fez pensar numa cena de carinho equivocado, de autoritarismo por engano, vinda de um pai bem-intencionado, amoroso, preocupado com o bem-estar de seu filho, que não queria perdê-lo, vê-lo preso ou machucado.

Mas daí eu vi o vídeo do que realmente aconteceu e foi dito e como tudo aconteceu e dito.

Vi os puxões, os trancos, a violência. Vi o dedo adulto em riste, martelando seu controle no peito de um menino. Vi o tom de voz de “eu sou seu dono”. Vi o riso e o escárnio dos repórteres que registravam a cena. Vi o rapaz que, mesmo vacilante e fragilizado, sabia-se com razão, mas estava preso na angústia de não conseguir se expressar e argumentar de forma coerente em meio à comoção do momento, repetindo apenas as mesmas coisas de novo e de novo, gritando para ser ouvido a despeito silenciamento imposto pela agressão que ali sofria, publicamente, de seu pai.

Em dado momento, o pai arranca do rosto do filho a camisa preta que o cobria. Esse “desmascaramento” foi muito simbólico. O rapaz, adolescente, construindo um eu autônomo, foi despido à força dessa identidade propriamente sua por um pai que não a aceita, que não o aceita. Pois o filho tem que ser o que esse pai dele, dono dele, quer que ele seja. “Você é meu filho. Eu te sustento” Ele repete diversas vezes. Mas poderia ter dito “você pertence a mim. E enquanto você depender e não tiver como se defender de mim, você será só o que eu quiser que você seja e agirá só como eu quero que você aja.”

Como pode o desnudamento do rosto do jovem à revelia, essa exposição, passar por proteção e cuidado? O gesto poderia muito bem ter sido o de abaixar-lhe as calças. Porque a finalidade era a mesma: enfraquecê-lo, ridicularizá-lo, forçá-lo a submeter-se por medo e vergonha. Se há alguém ali sendo cuidado e protegido, esse alguém é o tirano que se refestela no pátrio poder poder familiar.

“É o meu sonho”, protesta o rapaz. E, não contente com a humilhação que praticava, o pai foi mais longe: “você não vai mudar o mundo, meu filho”, ele decreta, com toda a amargura da geração que falhou e inveja o mundo de possibilidades da juventude. Com as certezas do velho que se nega a ouvir o novo, que se resigna e se acomoda em sua impotência. Como a “sabedoria” desdenha da paixão e do vigor que ainda não foram sufocados pelo cinismo!

Quem acha que isso é uma forma de empatia, de “eu já passei por isso” está redondamente enganado. Essa parte do “diálogo” se resume a “Você é fraco, você é tolo. Os meus grilhões um dia serão os seus e não há nada que você possa fazer para mudar isso. Eu aceitei, você também tem que aceitar. Até mesmo os seus sonhos me pertencem.”

Não há debate, não há discussão, não há apoio, nem orientação. Há apenas o mandar e o obedecer. Assim como o mundo faz com o pai, sente o pai que deve fazer com o filho.

“Você não estava falando comigo”, diz o garoto. E o tirano lança mão de sua cartada maior, do último refúgio de seu autoritarismo parental, o autoritarismo que empurra e bate, mas não é violência; que grita, mas não agride; que expõe, mas está protegendo; que humilha, mas é para o seu bem. “Eu te amo, cara”, ele diz, emocionado. Eu te amo, eu sou seu pai. Eu te amo, me obedeça. Eu te amo, é seu dever me entender e me perdoar. Eu te amo.

O menino balança, incapaz de ignorar o sentimento, preso na coleira invisível de seu próprio amor, este sim real, incondicional, transformado em ferramenta de controle. Responde: “eu também”.

Já o amor do pai se chama socialmente de amor, mas tem pouco de amar de fato. Porque é difícil acreditar num amor que não respeita. A pessoa que o pai ama, ali, não é a pessoa que o filho realmente é, mas o projeto, a pessoa que ele quer que o filho seja. O “resto”, a “máscara”, ele arranca, ele destrói, ele desconsidera. Porque o covarde precisa matar no outro aquilo que um dia teve tirado de si.

O homem ideal?

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***Contém linguagem sexualmente explícita

Ele é firme, ele é justo, ele nunca chora. Chorar é a humilhação dos fracos (“Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és!”). E ele é muito forte. É o mais forte de todos.

Honrado, jamais busca resolver seus conflitos com sua descomunal força física, mas, quando é forçado a usá-la, sobrepuja a todos os seus adversários. Nunca perdeu uma briga, física ou verbal. Nunca precisou de um golpe baixo, um arranhão, uma mordida, um puxão de cabelo, de orelha. Afinal, isso é para as mulheres e quem se equipara a elas.

Ele é fera em todos os esportes, é sempre o mais rápido, o mais forte, o mais ágil. Ganha todos os jogos e ganha todas as mulheres, troféus que ele usa para demonstrar sua superioridade em relação aos outros homens. Ele nunca perde. Nunca. Se parece que ele perdeu é porque o jogo ainda não acabou.

Sua pica mede 30cm de comprimento, 5cm de diâmetro e vibra como as asas de um besouro mágico sobre um saco escrotal com bolas de 100 g cada uma. Suas cuecas e calças têm que ser feitas sob medida. Mas, no final, essa rola toda é quase desnecessária, já que mulheres gozam ao menor toque de seus dedos e às vezes até mesmo sob o seu mero olhar. Todas se abrem para ele como flores orvalhadas numa linda manhã de verão. Ninguém, absolutamente ninguém, é melhor do que ele na cama. Ou no sofá, ou na rede, ou na grama, ou no telhado. E ele está sempre em ponto de bala esteja onde estiver, seja quando for, seja como for. Ele é capaz de fazer sexo ininterruptamente, meter dúzias de vezes sem tirar, satisfazer dezenas de mulheres de uma só vez e tudo isso sem jamais se cansar.

Todas as mulheres que ele possui são atraentes, fogosas e eram todas virgens antes dele. Todas o amam loucamente, têm crises de ciúmes constantes, ameaçam se matar, brigam entre si. Nunca ninguém fica com ele só por sexo, elas sempre se apaixonam no final. Nenhuma mulher jamais consegue discutir com ele sem acabar se entregando aos seus encantos. Ele é o domador de todas as megeras, o pau dele é uma varinha mágica do amor.

Elas fazem tudo por ele, de modo que ele mal tem que escovar os próprios dentes, limpar a própria bunda. Ainda bem, porque ele não é capaz de lavar um copo, de fazer um miojo lendo as instruções do pacotinho. Óbvio, já que estas estão num nível muito inferior ao intelecto avantajado dele, assim como todos os manuais de instrução e os mapas. Mesmo porque, ele é um desbravador, um aventureiro, e sabe que o melhor jeito de conhecer os caminhos é se perder neles. Seguir mapas é para os indefesos, não para heróis como ele. Se ele acabar no meio do mato ou cercado por malfeitores, ele é plenamente capaz de se virar sozinho.

Se alguma de suas inúmeras mulheres o traísse (coisa que jamais aconteceria, isso é só mesmo uma hipótese muito impossível sendo levantada por questões teóricas) ele a largaria imediatamente. E ela se mataria de arrependimento e pela vergonha da desonra, já que teria cometido esse crime sem sentir prazer algum, numa tentativa vã de se vingar dele por ter tantas outras mulheres.

Ele tem o corpo musculoso, mas não malha, não faz ginástica, não vai à academia. Quando muito, pratica lutas. É magro, apesar de ser capaz de comer como um ogro, especialmente carne, muita carne, vermelha e malpassada, e tomar muita cerveja em goles sôfregos, acompanhada de vodka, uísque e outros destilados, tudo de excelente qualidade. Mas ele não é alcoólatra. Alcoolismo é para os frágeis, ele tem de tudo, não precisa do álcool como muleta para nada.

Ele é assertivo, confiante, fala sempre sem gaguejar, com perfeição, de forma franca e direta. Todos sempre querem saber sua opinião e suas piadas são sempre engraçadíssimas. Ele é brilhante e profundamente culto, apesar de estudar muito pouco, já que está sempre na balada, com mulheres, praticando esportes ou tomando cerveja com os amigos – que ele tem às pencas e todos o admiram e o seguem sem pestanejar.

Não há quem resista à sua lábia; ele é muito influente. Por isso ele tem sempre os melhores empregos e trabalhos, nunca tem chefes ou superiores, especialmente que sejam mais jovens ou da mesma idade que ele (ou mulheres, claro), ganha rios de dinheiro e só anda de carrão, dirigindo sempre com muita velocidade, afinal, ele pode pagar multas e pessoas para assumirem seus eventuais pontos na carteira. Esperar no trânsito é para os beta.

Ele está sempre por cima das mudanças tecnológicas e sabe mexer em todos os aparelhos eletrônicos com a mesma maestria com que mexe em mulheres. Não há segredos da informática que estejam além de suas aptidões. Afinal, ser ultrapassado tecnologicamente é ficar velho. E ficar velho é ficar impotente, é para os homens menores, os menos homens, esses que não são garanhões orgulhosos como ele é. De velhice, nele, no máximo, no máximo, leves cãs que adornam suas másculas têmporas.

Aliás, ele também mexe com sucesso em todos os motores que encontra (especialmente os de veículos) e todos os eletrodomésticos; ninguém conserta qualquer coisa numa casa melhor do que ele. Nenhuma de suas mulheres perde tempo chamando outros homens, homens-serviçais, para fazer o que ele faz melhor. Não é à toa que em filmes pornô há o clichê dos encanadores e consertadores de coisas, já qualquer homem de verdade (como ele) sabe que há uma estreita ligação entre a potência sexual e a capacidade de fazer o trabalho do macho da casa. Está tudo lá, naquele poderoso cromossomo Y.

Aliás, ele já carregou pessoas para fora de casas em chamas, salvando-as em seus musculosos braços; já desceu de árvores com gatinhos brancos e felpudos; já liquidou sozinho hordas de bandidos muito maus. E tudo isso com muito sarcasmo e uma expressão blasé em seu rosto (ele tem muito estilo). A polícia, o corpo de bombeiros e até mesmo as forças armadas tiveram que reconhecer seus feitos, declarando-o membro honorário de suas fileiras.

E é por isso que ele é tão amado, tão admirado, tão invejado. O líder nato.

Eis o homem ideal do patriarcado.

Eu às vezes tenho pena de todos os homens que não são esse homem. Mas costumo ter muito mais pena de todas as mulheres e crianças que têm que conviver com a frustração de todos esses homens.

“Honrar pai e mãe”– como o adultismo supera a idade

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O adultismo é a opressão da criança pela pessoa adulta. Ele parte de uma visão que desconsidera a criança como ser humano, impedindo que o indivíduo adultista empatize com ela. Ele pode até achá-la fofinha, pode “gostar de criança”, mas da mesma forma como gosta de gatos, cachorros, canários… Não existe nele, pela criança, o mesmo respeito que ele tem pelas pessoas adultas.

Eu vi num texto do Alfie Kohn uma citação que achei perfeita, de Magda Gerber: “Muitas coisas horríveis foram feitas em nome do amor, mas nada horrível pode ser feito em nome do respeito.”

Tanto se acredita que as crianças não merecem respeito que hoje vemos um Senado unido pelo “direito” de humilhar crianças. Ou seja, não querem apenas o “direito” de agredi-las fisicamente: consideram um acinte que lhes seja negado pisotear a dignidade de ses filhes quando bem entendem.

Claro que há pessoas que ainda defendem que isso é necessário para a extirpar o mal que existe na criança, para torná-la boa. Mas sabemos que, no fundo, o que se pretende é continuar podendo transferir o próprio sofrimento para quem não tem como se defender.

Muita gente acha o adultismo algo válido justamente por que um dia poderemos passá-lo adiante, como um trote de faculdade (que também me parece ser baseado numa espécie de  Síndrome de Estocolmo): você sofre hoje, daí se torna parte do grupo e passa a defendê-lo, porque, inclusive, amanhã será a sua vez de fazer sofrer a quem chega.

O negro sempre será negro, a mulher sempre será mulher, a pessoa LGBT* sempre será LGBT*. Mas a criança um dia será adulta. E daí poderá ser adultista com crianças como a que um dia ela foi. Ou seja, ao invés de impedir que outras pessoas passem pelo que ela passou, fazendo por elas o que não pode fazer por si mesma, ela poderá se colocar na posição de agressor, “vingando-se” ao impor a outrem a mesma dor que sentiu. Assim, ela não estará sozinha, tudo fará parte de um ciclo, tudo será justificado e necessário e ela não precisará pensar a respeito, sentir raiva, tristeza, indignação. É só soterrar tudo embaixo do “agora é a minha vez!”

Mas o adultismo não some depois que a gente cresce.

Aprendemos desde cedo a “honrar pai e mãe”. Não é só algo religioso, é algo que permeia toda a nossa cultura. Alice Miller falava disso, do quanto esse pedestal em que se colocam os pais nos impede de entrar em contato com nossos sentimentos e reconhecer nossas dores, como se fazê-lo fosse um sacrilégio. Nos obrigamos a perdoar e esquecer, afinal, são nossos pais. Eles estão acima do bem e do mal e nós só lhes devemos a nossa gratidão. Como se fosse um favor cuidar da criança que nós escolhemos criar.

Esse processo de silenciamento nos faz muito mal, gerando diversos desdobramentos psíquicos e inclusive físicos. Muitas vezes, o trauma sofrido causa menos dano do que o silêncio a respeito dele.

Além disso, para muitos pais es filhes jamais crescerão. Eu uma vez ouvi de um britânico uma história que ilustra bem isso: um dos veterinários mais bambambam do Reino Unido foi visitar a fazenda de seus pais. Chegando lá, disseram-lhe que um dos animais estava doente e ele resolveu dar uma olhada. Enquanto ele examinava o bicho, sua mãe apareceu e soltou a pérola: “não está na hora de chamarmos um veterinário de verdade?”

Pois é. A pessoa cresce, se torna adulta, mas continua sendo vista como “criança”: incompetente, inepta, sem dignidade.

Não se espera que de ninguém a tolerância à violência, ainda que “apenas” verbal e psíquica. Mas, a partir do momento em que se estabelece que a parte agressora é um pai, uma mãe, de repente, a gente tem que ser compreensivo, paciente. Tem que entender. Muites suportam absurdos porque “papai é assim mesmo” ou “é o jeito da mamãe”.

Por que o tratamento digno não é exigível justamente das pessoas de quem mais poderíamos esperá-lo? Por que mantemos em nossas vidas indivíduos que nos tratam de uma forma que não admitiríamos de mais ninguém?

Crianças aprendem pelo exemplo. Não basta que as respeitemos e exijamos que nos respeitem quando permitimos que outras pessoas nos desrespeitem diante delas. Especialmente no contexto de um relacionamento em que se diz haver amor (qualquer que ele seja).

Eu quero que mes filhes cresçam sabendo que são, como todas as demais pessoas no mundo, dignes de respeito simplesmente por existirem. Inclusive o meu.

“Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”

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Muitos homens perguntam. Talvez seja esse o maior privilégio masculino de todos: não entender o nosso medo de estupro.

É privilégio porque o medo que não entendemos é o medo que não temos. E homens em geral tanto não têm medo de estupro que a ideia de um homem ser estuprado é motivo constante de piada. No cinema, por exemplo, é tema comum em comédias de besteirol.

Aliás, quando se trata de estupro de homens por homens, mesmo que só metafórico, fica sempre tão claro que não é uma questão de tesão, mas de dominação. Né? “Fulano é a putinha de beltrano”, “vou botar no seu c*”, “chupa!” E essa dominação de um homem pelo outro, sua completa subjugação e humilhação se dá justamente por seu “rebaixamento” à posição de mulher – o que há de mais degradante possível para um homem numa cultura machista e misógina como a nossa.

Já quando a vítima é mulher, de repente, o estupro acontece por conta do “desejo incontrolável” que ela instigou. Foi ela quem resolveu “brincar com fogo”, que “assumiu esse risco” com aquelas roupas/aquele comportamento/indo para aquele lugar/saindo com aquele cara… e daí conclui-se que a mulher na verdade “estava querendo” o estupro, que consciente ou inconscientemente desejava a atenção do estuprador. Porque ser estuprável é ser desejável. É ser bonita, ser “gostosa”. O estupro é praticamente uma massagem no ego da mulher, olha só. Ela deveria agradecer por ser estuprada. E o homem que estupra uma mulher considerada feia merece um abraço. (pausa para vomitar)

Ou seja, fica tudo no colo da mulher. Cabe a ela “se enfeiar”, como se isso fosse prevenir o estupro. Quisera fosse tão simples; quando até mesmo mulheres de burca são estupradas, quando até o rímel é apontado como causador do estupro ao invés do estuprador, pergunta-se: quão feias temos que ser para ficarmos a salvo de sermos estupradas?

E, especialmente, como equalizar ser feia o suficiente para ser inestuprável com ser bonita o suficiente para não perder o seu valor numa cultura em que a mulher que não corresponde minimamente ao padrão de beleza vigente é vista como desprezível? Quando nada que uma mulher possa fazer parece mais relevante que seus atributos físicos, quando nada que ela faça pareça ter mérito quando ela se mostra aquém de um ideal estético impossível?

Para a mulher é quase imperdoável não se encaixar no padrão de beleza. Em incontáveis filmes vemos o clichê do patinho feio que tem que se transformar em cisne para provar seu valor e ficar com o tão importante herói no final. E como o papel da mulher é ser bonita antes de qualquer outra coisa, a beleza feminina é socialmente esperada, e a eventual não adequação ao padrão – leia-se: feiura – é tratada como uma ofensa, como uma transgressão. Não é só motivo de piada, mas de ódio. É por isso que a gordofobia é pior para as mulheres que para os homens.

Numa sociedade em que mulheres são vistas como objetos, não sujeitos, mulheres “feias” são objetos quebrados, inúteis, sem valor. E são tratados de forma correspondente.

Ah, mas a mulher pode também evitar as situações de risco. Né?

Pois é. Mas o que seria uma situação de risco? Quando a maior parte dos estupros acontece não num beco escuro, de madrugada, no bairro mais perigoso da cidade, mas em algum lugar e horário insuspeitos (incluindo a própria casa da vítima, a qualquer hora do dia)? Quando a maior parte dos estupradores não é o estranho que violentamente agarra a mulher na rua e a estupra, mas o conhecido, o familiar, o vizinho, o “amigo”, o colega de trabalho ou de escola, o chefe, o namorado, o marido?

Mas tem gente que insiste que esses conhecidos só estupram as vítimas porque elas passaram a mensagem errada para eles. Porque elas os confundiram, os provocaram.

Será? O que é uma provocação num mundo em que há (muitos!) homens que esperam sexo como retribuição por amizade? Por alguma ajuda prestada? Por respirarem?

Qualquer sorriso constrangido pode ser interpretado como um estímulo ao prosseguimento da cantada que já não é bem vinda, ao mesmo tempo em que a rejeição clara pode ser considerada uma grosseria a ser punida com agressões desde verbais até fatais. De novo, como equalizar rudeza o suficiente para tornar-se menos passível de sofrer ataques sexuais enquanto ainda se mantém simpática o suficiente para não correr o risco de ser agredida, espancada ou morta? Será que não é mais fácil estabelecer que um homem não considere como sim nada além de um “sim”?

É por isso que ser mulher, muitas vezes, é viver com a sensação de que “se correr o bicho bate, se ficar o bicho estupra”.

A cada hora, no Brasil, são registrados seis casos de estupro. E esse número é subestimado, já que a violência sexual raramente é denunciada, porque é normalizada na nossa sociedade, isto é, vista como algo que “faz parte” ou algo pelo qual se culpa a mulher, e as vítimas muitas vezes se calam por medo ou vergonha.

Por isso, quando alguém me pergunta “Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”, tenho vontade de responder apenas com: “Que bom para você não saber. Nós também gostaríamos de nos dar ao luxo dessa ignorância.”