“Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”

interrogação

Muitos homens perguntam. Talvez seja esse o maior privilégio masculino de todos: não entender o nosso medo de estupro.

É privilégio porque o medo que não entendemos é o medo que não temos. E homens em geral tanto não têm medo de estupro que a ideia de um homem ser estuprado é motivo constante de piada. No cinema, por exemplo, é tema comum em comédias de besteirol.

Aliás, quando se trata de estupro de homens por homens, mesmo que só metafórico, fica sempre tão claro que não é uma questão de tesão, mas de dominação. Né? “Fulano é a putinha de beltrano”, “vou botar no seu c*”, “chupa!” E essa dominação de um homem pelo outro, sua completa subjugação e humilhação se dá justamente por seu “rebaixamento” à posição de mulher – o que há de mais degradante possível para um homem numa cultura machista e misógina como a nossa.

Já quando a vítima é mulher, de repente, o estupro acontece por conta do “desejo incontrolável” que ela instigou. Foi ela quem resolveu “brincar com fogo”, que “assumiu esse risco” com aquelas roupas/aquele comportamento/indo para aquele lugar/saindo com aquele cara… e daí conclui-se que a mulher na verdade “estava querendo” o estupro, que consciente ou inconscientemente desejava a atenção do estuprador. Porque ser estuprável é ser desejável. É ser bonita, ser “gostosa”. O estupro é praticamente uma massagem no ego da mulher, olha só. Ela deveria agradecer por ser estuprada. E o homem que estupra uma mulher considerada feia merece um abraço. (pausa para vomitar)

Ou seja, fica tudo no colo da mulher. Cabe a ela “se enfeiar”, como se isso fosse prevenir o estupro. Quisera fosse tão simples; quando até mesmo mulheres de burca são estupradas, quando até o rímel é apontado como causador do estupro ao invés do estuprador, pergunta-se: quão feias temos que ser para ficarmos a salvo de sermos estupradas?

E, especialmente, como equalizar ser feia o suficiente para ser inestuprável com ser bonita o suficiente para não perder o seu valor numa cultura em que a mulher que não corresponde minimamente ao padrão de beleza vigente é vista como desprezível? Quando nada que uma mulher possa fazer parece mais relevante que seus atributos físicos, quando nada que ela faça pareça ter mérito quando ela se mostra aquém de um ideal estético impossível?

Para a mulher é quase imperdoável não se encaixar no padrão de beleza. Em incontáveis filmes vemos o clichê do patinho feio que tem que se transformar em cisne para provar seu valor e ficar com o tão importante herói no final. E como o papel da mulher é ser bonita antes de qualquer outra coisa, a beleza feminina é socialmente esperada, e a eventual não adequação ao padrão – leia-se: feiura – é tratada como uma ofensa, como uma transgressão. Não é só motivo de piada, mas de ódio. É por isso que a gordofobia é pior para as mulheres que para os homens.

Numa sociedade em que mulheres são vistas como objetos, não sujeitos, mulheres “feias” são objetos quebrados, inúteis, sem valor. E são tratados de forma correspondente.

Ah, mas a mulher pode também evitar as situações de risco. Né?

Pois é. Mas o que seria uma situação de risco? Quando a maior parte dos estupros acontece não num beco escuro, de madrugada, no bairro mais perigoso da cidade, mas em algum lugar e horário insuspeitos (incluindo a própria casa da vítima, a qualquer hora do dia)? Quando a maior parte dos estupradores não é o estranho que violentamente agarra a mulher na rua e a estupra, mas o conhecido, o familiar, o vizinho, o “amigo”, o colega de trabalho ou de escola, o chefe, o namorado, o marido?

Mas tem gente que insiste que esses conhecidos só estupram as vítimas porque elas passaram a mensagem errada para eles. Porque elas os confundiram, os provocaram.

Será? O que é uma provocação num mundo em que há (muitos!) homens que esperam sexo como retribuição por amizade? Por alguma ajuda prestada? Por respirarem?

Qualquer sorriso constrangido pode ser interpretado como um estímulo ao prosseguimento da cantada que já não é bem vinda, ao mesmo tempo em que a rejeição clara pode ser considerada uma grosseria a ser punida com agressões desde verbais até fatais. De novo, como equalizar rudeza o suficiente para tornar-se menos passível de sofrer ataques sexuais enquanto ainda se mantém simpática o suficiente para não correr o risco de ser agredida, espancada ou morta? Será que não é mais fácil estabelecer que um homem não considere como sim nada além de um “sim”?

É por isso que ser mulher, muitas vezes, é viver com a sensação de que “se correr o bicho bate, se ficar o bicho estupra”.

A cada hora, no Brasil, são registrados seis casos de estupro. E esse número é subestimado, já que a violência sexual raramente é denunciada, porque é normalizada na nossa sociedade, isto é, vista como algo que “faz parte” ou algo pelo qual se culpa a mulher, e as vítimas muitas vezes se calam por medo ou vergonha.

Por isso, quando alguém me pergunta “Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”, tenho vontade de responder apenas com: “Que bom para você não saber. Nós também gostaríamos de nos dar ao luxo dessa ignorância.”

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4 comentários sobre ““Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”

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