“Mas ela parecia mais velha com aquele chapeuzinho vermelho”, diz o lobo-mau, palitando os dentes

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*** TRIGGER WARNING (AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL): abuso sexual de menores

Eu gostei muito da série Breaking Bad (apesar de ter detestado o final). Nela, testemunhamos a derrocada moral dos dois personagens principais, daí o título – “to break bad”, em inglês, quer dizer “virar mau”. Um dos momentos mais interessantes para mim foi quando o personagem de Aaron Paul, Jesse Pinkman, um traficante de drogas, resolve captar clientela infiltrando-se (e aos seus comparsas) em reuniões do Narcóticos Anônimos.

Essa é uma metáfora perfeita para explicitar um tipo de comportamento predatório que, por algum motivo, as pessoas têm muita dificuldade de perceber em outras situações. Mesmo num personagem que era um vendedor de substâncias ilícitas, algo que a maior parte das pessoas já julga condenável por si só, essa atitude foi vista como deplorável.

Uma coisa é considerar as pessoas responsáveis por suas próprias escolhas; outra coisa, completamente diferente, é ignorar que elas nem sempre estão em condições de fazer essas escolhas. E outra coisa, pior ainda, é saber, em determinado caso, que elas não estão e se aproveitar disso.

Se eu sei que uma pessoa tem um problema de compulsão com sexo, será mesmo uma atitude de boa-fé minha fazer sexo com ela num momento em que sei que ela pode estar agindo compulsivamente? Será que eu posso mesmo dizer que ela está escolhendo fazer sexo comigo? Ela pode não estar bêbada ou entorpecida, mas sua capacidade de discernimento está reduzida em relação àquilo.

Quando falamos de crianças e adolescentes fazendo sexo com pessoas adultas, sempre tem alguém para dizer que “tem menina que parece mais velha”, que “tem menina que provoca”, que “tem menina que é muito mais madura sexualmente que muita mulher”. Mesmo quando falamos de meninas muito novas, abaixo da idade legal de consentimento (quatorze anos), tem quem defenda o “pobre coitado” que pode ser, na opinião deles, injustamente condenado por estupro de vulnerável mesmo quando a menina parecia ter “toda a maturidade” de uns dezesseis anos.

Maturidade sexual, infelizmente, não está condicionada à maturidade emocional ou intelectual. Se fosse assim, boa parte das pessoas adultas que eu conheço não alcançaria a fase reprodutiva antes de morrer. O que seria ótimo, aliás, em termos evolutivos.

Isso demonstra como gente grande é hipócrita e adultista mesmo. Você tem treze anos? Não tem idade para escolher aonde ir, o que comer, o que fazer. Mas abra as pernas e lá vou eu – afinal, foi você quem pediu e você sabia muito bem o que estava fazendo quando pediu por isso.

As pessoas adultas se esquecem de como é difícil ser criança. Ser invisível, ser relevade, ser ignorade e ignorável. É por isso que as crianças normalmente querem crescer logo e qualquer coisa que lhes faça parecer mais velhas se torna atraente para elas.

A sexualização e a adultização têm esse efeito. Seus peitos despontam e, de repente, as pessoas adultas passam a prestar atenção em você. E você se sente grande e importante. Sua presença não é mais indiferente. Muitas vezes, você sente, inclusive, equivocadamente, que tem algum controle sobre o interesse que desperta e as interações que podem vir com ele.

É muito fácil para uma menina com baixa-autoestima se deixar levar pela sexualização para tentar suprir sua necessidade de se sentir amada, bonita, desejada. E é muito fácil para um adulto manipular essa necessidade para conseguir sexo fácil de alguém que não tem consciência de que está sendo usada. Ou, ainda, para prender uma mulher desde sua mais tenra infância numa relação profundamente abusiva. Ainda que o interesse sexual dessa menina seja o mais genuíno possível, existe uma hipossuficiência óbvia na interação entre um homem adulto e uma menina de treze anos.

O problema, para mim, não é a sexualidade natural da menina. O meu problema é o adulto que se aproveita dessa sexualidade ou defende essa prática. Que acha que não existe, ou diz não ver, diferença entre o consentimento de uma mulher e o de uma criança.

Mais tarde, ficam as cicatrizes, as marcas da objetificação… e a culpa, a sensação de se ser a única responsável por tudo o que ocorreu, o que é reforçado pelo fato de que as pessoas ao seu redor, especialmente as adultas, quando te procuram, não é para ver se você está bem, para ver qual a angústia que você tenta silenciar daquela forma, mas para te repreender. Na cabeça delas, seu único problema é a sua “sem-vergonhice”. Você foi pelas suas próprias pernas, sem coação. Você queria. Quem sabe até tenha gozado.

Os caras que se servem de você? Para eles ninguém olha feio, afinal, estão só fazendo “o que qualquer um faria no lugar deles, porque homem é assim”. Que conveniente. É de se pensar o que fazem perambulando pelas ruas de uma sociedade dita civilizada pessoas incapazes de controlar seus impulsos sexuais. Mas essa observação já vem sido feita – e ignorada – há muito tempo.

Não é o jeito que a menina se veste, a forma como ela se porta, o número de pessoas com quem ela já se relacionou sexualmente que vão justificar que um adulto aproveite para tirar sua casquinha. Quão mais velha de fato pode parecer uma menina de doze, treze, catorze anos? Mesmo com toda a maquiagem, as roupas e o acessórios de uma mulher adulta, será que dá para alguém dizer que ela parecia não ser uma adolescente? Será que é assim tão inconcebível, na dúvida, não trepar?

“Ah, mas ela estava gostando”, “ah, mas ela estava querendo”. Gostando de quê? Querendo o quê? Será mesmo que ela queria o mesmo que ele? Será que ela queria o que ele estava tão ávido para dar? Ou será que está se sujeitando, dando-se em troca de uma coisa bem outra, que ela própria não consegue sequer verbalizar?

Se você realmente acha que uma pessoa de menos de catorze anos tem condições de consentir de verdade (entendendo todas as implicações envolvidas) a uma relação sexual com uma pessoa mais velha que ela, considere o seguinte: e se a pessoa mais velha que estivesse se relacionando com essa menina fosse, digamos, uma mulher? Ou se fosse um homem, mas a criança em questão fosse um menino? E aí? O que é maior, a sua homofobia ou a sua hipocrisia?

Quando alguém próximo de mim dá voz a esse tipo de discurso, a primeira coisa que me passa pela cabeça é que essa pessoa está defendendo a si mesma, que está se identificando com o estuprador.

Não quero alguém assim perto des mes filhes.

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