The weaker sex – or why I need feminism

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

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“You’re a strong woman”. I once liked hearing that.

Nowadays, it’s not like it offends me, but I feel differently when someone tells me that. I have a potty mouth, I say what I think unapologetically, I take up space, I look people in the eyes and have a firm handshake… I act as though I am not afraid of being who I am. In other words, I am, in many small things, what most people would expect a man to be. Hence, I am “strong”.

That is why telling me I am strong became, to me, a cookie that patriarchy (that is, institutionalized sexism) throws at me for being “more of a man and less of a woman”. Because being a woman is being weak.

This change in my perception happened because I now know that those things are not what makes me strong. If I am strong – and yes, I am strong – it is because I survived. My mere presence in the world right now proves my strength. I fought and I prevailed.

Against whom?

I could well say it was against myself. And I wouldn’t be really lying.

But it would be more precise to say that I fought against the cage of expectations that emprisoned me and the things and people that kept it strong. It wasn’t really against myself, but against a false self, built around me, smothering my truths and filtering the light and the sound and the smells and the tastes that came from the world outside.

I struggled, I won. I broke many bones, I cut my skin. But one day those bars crumbled and I could finally look out there, mesmerized by all those stars in the sky. I never knew the night could be so beautiful. So serene.

I was afraid to fly, afraid that my wings wouldn’t work, afraid of the sound my body would make as it hit the ground – the insignificance of my existence exposed by the same mundane thump that would have been made by, say, a sack of potatoes. The lights would go out and that would be it. The world would keep turning indifferently.

But I jumped. Because I had to. Because I wanted to live. And that is what made me stronger.

Every time I see a woman, I also see a cage – sometimes still whole, sometimes already in pieces, but always, deep down, the same cage I once saw from the inside. And I see someone who also survived. Because she is there. In front of me.

And she may have delicate hands and slender fingers that feel like cotton in mine. She may have eyes that seem fascinated by the floor all the time. She may be small and use sweet words and blush every time somebody curses around her. She may recoil when shouted at, and cry when she can’t bring herself to speak. She may silence before the injustice inflicted upon her, or upon others. She may look at her own pain and keep telling me and herself that “it was nothing, it is nothing, I’m just gonna go over there and put a band-aid on it, so silly of me to suffer over this, really”.

But she is strong. Because, just like me, she has come this far. And, because of that, I cannot help but see something of me in her and something of her in me.

I need feminism because no one should have to be strong to survive.

O sexo frágil – ou por que eu preciso do feminismo

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

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“Você é uma mulher forte”. Eu já gostei de ouvir isso.

Hoje, não é que me ofenda. Mas eu tenho outra sensação quando dizem isso para mim. Eu falo palavrão, digo o que penso sem me desculpar, ocupo espaço, olho nos olhos, tenho um aperto de mão firme… eu ajo sem demonstrar medo de ser quem eu sou. Em outras palavras, sou, em pequenas coisas e muitos trejeitos, o que a maior parte das pessoas esperaria de um homem. Daí que sou “forte”.

Por isso, dizerem que eu sou forte virou, para mim, um biscoitinho que o patriarcado (o machismo institucionalizado) joga para mim por eu ser “mais homem e menos mulher”. Porque ser mulher é ser fraca.

Essa mudança na minha percepção aconteceu porque eu hoje sei que essas coisas não são o que me faz forte. Se eu sou forte – e sim, eu sou forte – é porque eu sobrevivi. A minha mera presença no mundo neste momento comprova a minha força. Eu lutei e eu prevaleci.

Contra quem?

Eu poderia dizer que foi contra mim. E não seria exatamente uma mentira.

Mas seria mais preciso dizer que eu lutei contra a gaiola de expectativas que me aprisionava e aquilo e aqueles que a mantinham em pé. Não era bem contra o meu eu, mas contra um falso eu, montado ao meu redor, sufocando as minhas verdades e filtrando a luz e o som e os cheiros e os gostos que vinham do mundo lá fora.

Eu lutei, eu venci. Eu quebrei muitos ossos, lacerei minha pele. Mas um dia enfim as barras se partiram e eu consegui olhar lá para fora e me mesmerizar com todas aquelas estrelas no céu. Eu nunca soube que a noite poderia ser tão linda. Tão serena.

Tive medo de voar, de minhas asas não funcionarem, do som que meu corpo faria quando batesse no chão – a insignificância da minha existência exposta pela mundanidade do mesmo baque surdo que poderia ser, digamos, de um saco de batatas. As luzes se apagariam e nada mais. O mundo continuaria a girar, impassível.

Mas eu saltei. Porque tinha que saltar. Porque eu queria viver. E foi isso que me fez mais forte.

A cada mulher que eu vejo, vejo também uma gaiola – às vezes inteira, às vezes já em pedaços, mas sempre, no fundo, a mesma gaiola que eu um dia vi por dentro. E vejo alguém que também sobreviveu. Porque ela está ali, diante de mim.

E ela pode ter mãos delicadas e dedos finos que parecem algodão entre os meus. Ela pode ter olhos que se encantam com o chão a todo instante. Ela pode ser pequena e usar palavras doces, corar diante de qualquer impropério. Ela pode se encolher quando lhe gritam, chorar quando não consegue falar. Ela pode calar diante das injustiças que sofre, que outras pessoas sofrem. Ela pode olhar para a própria dor e repetir para mim e para si mesma que “não foi nada, não é nada, vou só ali colocar um bandeide, que bobagem a minha sofrer por isso”.

Mas ela é forte. Porque, como eu, ela chegou até aqui. E, por isso, eu não consigo deixar de ver algo de mim nela e algo dela em mim.

Eu preciso do feminismo porque ninguém deveria ter que ser forte para sobreviver.

Wanna know what adultism feels like?

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Being a child means being small in a world designed for big people.

Being a child means being weak in a “might makes right” world. Democracy is a concept only valid for adults.

Being a child means not having control over anything, not even your own body. Most kids don’t even get to choose how much or when to eat or what to wear.

Being a child is having to show respect even when no respect is shown towards you. What adult person, for instance, would be treated the same way a child is treated after making a mistake?

Being a child means having people pick on you all the time under the pretext of education.

Being a child is having your feelings constantly disregarded or ridiculed, or yet hurt by sport, because “it’s so cute” when you get sad, angry, etc.

Being a child means not being taken seriously even when you know better then the person who is talking to you.

Being a child means having your natural behaviour turned into a disease so that people can sedate you in order to make living with you more convenient to them.

Being a child is having your needs – for attention, play, free movement, vocalization, verbalization – seen as a whim and treated as low priority.

Being a child is having to hear people say they don’t like you, or even hate you, without even knowing you – when they say they don’t like or hate children – and that is not even considered offensive.

Being a child means being completely at the mercy of the people who look after you. It means loving, depending on and not being able to get away from the people who may torment you. And it means that nobody else will do anything about it because they don’t want to seem nosy.

Being a child means becoming an emotional or physical punching bag at the drop of a hat and being a white canvas upon which adults project their most sordid desires and the most terrible fears. It means being blamed by the violence that is inflicted upon you.

Being a child means being fragile, vulnerable and voiceless.

“Criação empática”? Por que não “criação com apego”?

The questionnaire

Porque a minha ênfase é na empatia, no respeito pela criança, nos princípios envolvidos.

Equivocadamente, o termo “criação com apego” é hoje muito largamente utilizado para denominar um determinado conjunto de práticas – parto humanizado, amamentação exclusiva até os seis meses e prolongada até pelo menos dois anos, etc. – e não a ideologia que deveria permeá-lo.

Isso causa uma confusão muito infeliz, em que se pensa que a criação é automaticamente apegada quando as pessoas adotam essas práticas (e não é) ou que a criação não tem como ser apegada quando as pessoas não adotam essas práticas (e sim, pode ser). Chega-se ao ponto de haver pessoas que acreditam que criação com apego se encerra junto com a primeira infância.

Uma vez, eu vi uma página anarquista falando que a educação tinha que ser autoritária para ser libertária [pausa para vomitar]. No meu entender, você pode ser a pessoa mais libertária do mundo, mas, se você pretende doutrinar crianças para que também o sejam, você está adotando uma postura autoritária. Os fins não justificam os meios.

Claro que criação com apego não é anarquismo (apesar de eu acreditar que as duas coisas se complementam lindamente). Esse exemplo é só para mostrar que, a partir do momento em que desvalorizamos o ponto de vista da criança (no caso, partindo do princípio de que ela tem que ser e pensar o que queremos que ela seja e pense), ainda que com a melhor das intenções, arriscamos prejudicar nosso vínculo de apego com ela. Porque a desrespeitamos.

Eu adotei as tais práticas. Eu tive a oportunidade e os meios para fazê-lo. Mas nunca, em nenhum momento, elas em si foram para mim mais importantes que o bem-estar da nossa família coletiva e individualmente. Se funcionasse, ok. Se não funcionasse, eu não ficaria massacrando ninguém, nem a mim mesma, para nos “adequar”. Porque, como eu já disse, o importante não é o check-list, o “pacote”, mas a empatia e o respeito, o acolhimento, o carinho. Palavras que eu vou repetindo neste texto e em tudo o que eu escrevo, porque são insubstituíveis e são, para mim, o que faz a diferença. Não o número de horas que bebês passam no sling.

O maior problema, no entanto, é que essa confusão dissemina a noção de que a criação com apego é algo elitizado, só disponível para quem pode se dar ao luxo de fazer o que está na lista. E daí as pessoas desanimam e se afastam, se fecham, não querem nem ouvir.

Ou pior, pensam que é algo que necessariamente contribui para perpetuar o machismo e o patriarcado (machismo institucionalizado), já que essas práticas se tornam pesadas quando deixadas a cargo de uma só pessoa e, na maioria dos lares, as mulheres não podem contar com a colaboração dos homens na criação. E assim o feminismo se distancia da luta antiadultista, o que é péssimo para ambos os movimentos. Mas isso é assunto para um outro post.

Respeito e empatia não custam um centavo sequer. Criação empática não é luxo de criança rica, de quem nasce em berço de ouro. É DIREITO de TODAS as crianças. A criança ser ouvida, ser respeitada, ter não só as suas necessidades como suas vontades consideradas nas decisões que a envolvem – realmente consideradas, não só ouvidas de forma protocolar – não é algo que dependa de dinheiro, ou uma determinada prática de criação. Eu acho que há práticas que excluem a empatia – como a adoção de posturas autoritárias – mas não consigo pensar numa prática a que ela esteja necessariamente condicionada.

Há quem desista do apego, da empatia, porque “já não fiz X e Y, então nem vale a pena”. E isso é uma tristeza. Não há um ponto em que nos conectarmos com quem amamos com respeito e igualdade não valha mais a pena.

Nunca é tarde para passar a tratar pessoas como pessoas.

Creche ou licenças? Um manifesto pela sororidade entre mães

união

Eu parei de trabalhar para ficar em casa com mes filhes.

Assim que fiquei grávida, pedi exoneração do meu cobiçado cargo público concursado e estável; não esperei sequer para usufruir da licença-maternidade paga pelo Estado. Essa foi uma decisão minha, um desejo meu que, dentro do meu universo de privilégios, me foi possível concretizar.

Essa foi a minha decisão muito antes de saber o que era criação empática*, antes de saber que bater em criança não era só desnecessário, como prejudicial. Para a sorte da minha filha mais velha (e minha também), eu consegui aprender tudo isso antes de ela nascer.

Nada que eu já fiz na minha vida antes me deu tanto prazer. Ou tanto trabalho. Sim, é estressante e às vezes muito difícil, mas é algo que eu faço de coração, com uma dedicação sincera, que vem de dentro de mim naturalmente, algo que eu nunca havia experimentado antes.

Perdi a conta de quantas vezes outras mães me perguntaram no que eu trabalhava e, ao ouvirem a resposta, baixaram os olhos e disseram que, se pudessem, teriam também parado de trabalhar. Que o pior dia da vida delas foi o dia em que tiveram que deixar seus bebês, às vezes com menos de um mês, com outra pessoa, para poderem retornar ao trabalho, porque dependiam desse sustento, ou porque suas carreiras jamais sobreviveriam a um período tão longo de ausência.

Eu não consigo imaginar a dor de se separar de um bebê tão novo contra a própria vontade. É por isso que eu apoio a ampliação da licença-maternidade (e, claro, da licença paternidade, porque não cabe à mulher sozinha cuidar des filhes).

Mas eu não posso ignorar que cada mulher é uma. Que cada realidade é uma. E que, assim como inúmeras vezes encontrei mulheres feridas por não terem podido ficar com seus bebês, inúmeras vezes encontrei mulheres que me disseram que não suportariam deixar de trabalhar. Que, por mais que amassem ses filhes, deixar de exercer uma atividade remunerada fora de casa as deixaria frustradas e infelizes.

Eu conheço os estudos e argumentos que demonstram que, biologicamente falando, o melhor para a criança é ficar junto da mãe nessa primeira infância, ou aos cuidados de uma coletividade, mas com a participação direta da mãe. Mas há muito mais em nós que só a nossa biologia. Não vejo como poderia ser bom para a criança ficar o dia todo ao lado de uma mãe amargurada e irritadiça, deprimida, que não queria estar ali.

Não quero com isso legitimar o discurso de “mãe feliz é bebê feliz, então vale tudo”. Existe mais de uma vontade envolvida nessa relação e uma dessas vontades é a de um ser completamente vulnerável e incapaz de se impor e isso não pode ser esquecido jamais. Só quero dizer que transformar a maternidade num moedor de carne de mulher é um erro e que não apenas a mulher é prejudicada por isso, mas a criança também.

Também não posso ignorar que não é porque o homem com quem eu compartilho a minha casa é consciente de suas responsabilidades como pai e habitante, que essa é a realidade de todas as outras mulheres.

Para a maioria, deixar de trabalhar é passar a depender financeiramente de alguém que já as vê como subalternas. É alimentar a covardia do machista. A maior parte dos homens acha que trazer dinheiro para casa encerra sua participação no lar – e foda-se que tem alguém trabalhando 24 horas por dia, sem direito a folga nem quando está doente. E é uma situação que não se reverte da noite para o dia, afinal, tem toda uma logística a ser considerada. Que tempo essa mulher vai ter para conseguir ir a uma entrevista de emprego? Com quem vai deixar as crianças?

Entendo, assim, que há muitas mulheres que precisam ou querem voltar a trabalhar mesmo tendo filhes pequenes. E é por isso que eu também apoio a demanda pelo aumento da quantidade e da qualidade das creches, além de uma política que permita às mulheres conciliar trabalho e cuidados com seus bebês, facilitando a amamentação e o convívio sempre que possível.

Não há, a meu ver, uma dicotomia entre licenças e creche. Pelo contrário, elas se complementam para atender a TODAS as mães. Me desagrada o debate que contrapõe uma opção à outra, porque é um debate que, na verdade, contrapõe escolhas pessoais de maternidade e cria uma disputa entre as mulheres representadas por essas escolhas. E enquanto nós estamos aqui, competindo entre nós, o sistema segue nos oprimindo.

Se o Estado atende a nossa escolha pessoal e nós nos calamos, mesmo sabendo que continuam impossibilitadas as escolhas de outras mulheres, nós estamos nos omitindo e permitindo que, através dessa divisão, ele nos enfraqueça e silencie.

É de interesse coletivo e urgente que nossas crianças sejam tratadas com o melhor cuidado possível, porque elas serão as pessoas adultas de amanhã. Elas estarão à frente das comunidades de que participaremos. Elas estarão encarregadas dos cuidados e funções de que nós um dia necessitaremos. Portanto, chega de “quem pariu Mateus que o embale”. Chega de “problema dela”. O problema é nosso.

Mulheres devem ter mais opções, não menos. Lutemos unidas pelas creches, pelas licenças e por muito mais!

***

 *Por “criação empática”, me refiro à forma de criar antiadultista, respeitando a criança como ser humano, buscando uma relação horizontal e não autoritária dentro de casa. Eu usei o termo “attachment parenting”, ou sua tradução comum “criação com apego” por um tempo, mas sinto que eles causam mal-entendidos, porque tornaram mais identificados com um conjunto de práticas (parto humanizado, amamentação prolongada, cama compartilhada, etc.), do que com a filosofia de criação e educação que, na verdade, surgiram para denominar – e que é o meu foco real.

Friendzone é o caralho!

sofá

– Letícia? Oi! É o Flavião. E aí, beleza?

Eu estava intrigada, mas já feliz. O Flavião! Bródi lá dos tempos de ensino médio, de altos papos e muitas histórias.

– Fiquei sabendo que você voltou de viagem e resolvi ligar. Quer ver um filme, trocar uma ideia?

Claro que eu queria. Aceitei prontamente, deliciada. Eu sempre tinha considerado o cara, mas nunca soube que o sentimento era mútuo.

Acho difícil colocar em palavras o quanto esse convite me envaideceu. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento abusivo. Saber que a minha companhia era apreciada por alguém me jogou lá para cima. Eu me senti interessante. Me senti importante. Valorizada. Praticamente um cara. (sim, praticamente um cara. Percebe a intenção desta frase? Vai ficar mais clara depois)

Flavião chegou, entrei no carro. Fomos conversando o caminho todo até a casa dele e nos divertindo muito. Eu me achando.

Chegamos na casa dele, eu me sentei no sofá; ele foi buscar umas brejas para a gente e, no caminho, ligou a TV e o filme.

Apareceram pessoas metendo na tela. Sim, era um filme pornô.

Lógico que era um filme pornô. Lógico que ele tinha me trazido ali para uma coisa e uma coisa apenas. Como eu pude pensar que algum cara se interessaria só pela minha amizade, pela minha companhia? Senti vergonha de ter causado esse mal-entendido, fiquei completamente sem saber como agir.

Ele voltou com as brejas, me deu uma, sentou do meu lado já com cara de “chega mais”.

Eu, em choque, ainda caindo em mim, paralisada e muda. Flavião percebeu o meu desconforto e o meu desconcerto. A cara de chega mais se dissolveu num olhar confuso.

Nesse momento, ouvimos um barulho no portão. Era a mãe dele. Minha humilhação não estava completa. Às pressas, meu ‘amigo’ me levou para os fundos, onde eu tive que pular um muro para sair sem que ela me visse.

Eu demorei muito tempo para me dar conta de que eu não tinha causado esse mal-entendido. Nada do que eu fiz ou falei deu a entender que eu pretendia fazer sexo com ele, ou mesmo que estaria aberta a essa proposta. Nada do que ele fez ou falou até chegarmos na casa dele deu a entender que era isso que ele tinha em mente. Como é que eu iria saber? Só mesmo se eu desde o começo supusesse que “não existe amizade entre homens e mulheres”, que “homens só querem saber de sexo”, etc. etc. etc.

Desde que essa história aconteceu, eu já a contei várias vezes, sempre com tons cômicos. Mas é só hoje que percebo os traços trágicos dela. Depois disso, eu nunca mais fui capaz de achar que algum homem quereria qualquer outra coisa comigo além de sexo. Ou que a minha presença ou companhia pudessem ser minimamente interessantes para um homem caso não fôssemos fazer sexo.

A ponto de eu não convidar amigos meus para virem à minha casa, para ficarem aqui batendo um papo comigo. Não porque eu não os quisesse aqui, mas simplesmente porque inconscientemente partia do princípio de que eu seria rejeitada já que eu não tenho “nada” a oferecer a eles se o sexo está fora de cogitação. E essa rejeição, para mim, seria mais dolorosa do que ser rejeitada como amante.

É por isso que, quando a galera fala de friendzone, eu fico passada. Porque, para mim, essa coisa de a mulher se aproveitar de um homem, “manipulando” seu interesse sexual para ter um amigo – veja só que coisa, que falta de escrúpulos – não existe. O que existe é a sexzone: Quando um cara faz de conta que é seu amigo e, na verdade, só quer mesmo é fabricar uma oportunidade para te comer. Sim, comer. Acho que essa é bem a palavra que cabe aqui.

Tô fora.

Existe adulto de 17 anos? O adultismo na discussão da maioridade penal

… continuando a minha catilinária à propaganda eleitoral do candidato do PMDB ao governo do Estado de São Paulo

A sociedade considera pessoas com 17 anos jovens demais para terem suas angústias levadas a sério, para procriar, para casar, para gerir empresas, para escolher uma profissão (e por isso se espera que escolham o que seus pais querem que escolham); legalmente, aliás, nessa idade ainda estão impedidas de fazer tatuagem, colocar piercings*, dirigir, consumir álcool, viajar sem a autorização de responsáveis, realizar negócios sem assistência…

Mas não para ir para o xilindró; afinal, para punir, assim como para culpabilizar a vítima pelo próprio abuso, nunca é cedo demais. Funciona assim: quando a pessoa “acerta”, o acerto é de quem a criou, de professores, da sociedade; quando ela “erra”, o erro é só dela, ela que é ruim de nascença, e quanto antes o mal for arrancado dela, melhor.

Quem é adulte com 17 anos? Quem é não deveria ser. Deveria ter tempo e espaço para ser criança e para ser adolescente.

Para que educar, se eu posso bater até cansar? Educar dá trabalho, toma tempo. Bater alivia o meu estresse, dá para eu descarregar a raiva toda do meu dia ruim.

Similarmente, para que reabilitar uma criança ou adolescente, se eu posso simplesmente trancá-les no sistema de incidência e reincidência e jogar a chave fora?

Quando eu tranco, fico me sentindo melhor, mais segura, ainda que, na verdade, es menores cometam apenas 0,9% dos crimes praticados no país, e 0,5% dos crimes contra a vida. Mas eu vou e falo que não vou tolerar esse absurdo e meto a molecada na cadeia e pronto; agora posso dormir tranquila. Porque eles é que são o problema, claro. Não as pessoas do meu “tamanho”.

Existem mais pessoas adultas praticando crimes violentos contra crianças e adolescentes que crianças e adolescentes praticando crimes violentos contra pessoas adultas. Mas quanto a isso não há clamor público, não há campanha política. Afinal, criança e adolescente não votam; votam os pais deles. Os mesmos que se indignaram com a Lei Menino Bernardo.

Muitas pessoas se incomodam muito em ver outras se referirem aos menores infratores como crianças, mas não sabem por quê. Eu creio que sei.

Quando alguém nos machuca, nós sentimos ódio. Nós queremos punir, nós queremos que essa pessoa sofra. Mas, ao mesmo tempo, por sermos seres humanos, tendemos a sentir empatia por outros seres humanos. Especialmente crianças. Daí que fica muito mais fácil de odiar e querer castigar um “monstro” que uma criança.

Mas empatizar com quem pratica o ato não é aceitar o ato, ou concordar com ele. E é precisamente essa empatia que é capaz de nos ajudar a separar a justiça da vingança.

A adolescência é o momento em que começamos efetivamente a dar ao mundo os frutos gerados pelas sementes que foram plantadas em nós. O comportamento violento, para mim, vem a falta de respeito e de amor. É a dor que se converte em raiva, o medo que se converte em ódio, a humilhação sofrida que se converte em sadismo. No fundo, por mais chocante que isso seja, é muito uma questão de sobrevivência. A gente mata no outro o que queria matar na gente, a gente se vinga na outra pessoa pelo que fizeram com a gente. Exatamente como acontece no caso da palmada.

Essas pessoas, tão jovens, não precisam de cadeia. Precisam de tratamento. Precisam vivenciar o respeito e do amor que nunca tiveram. Se eles não sabem o que é isso, como poderiam tê-lo com outras pessoas?

Jovens são recuperáveis sim, e muito mais facilmente que adultes. Porque são mais adaptáveis, mais maleáveis. Desde que haja boa vontade da parte das pessoas ao redor deles, desde que alguém consiga acolhê-les, a despeito do que possam ter feito. O que obviamente não é sempre uma tarefa fácil.

Uma vez, em 2008, na Fundação Casa (antiga Febem), em São Paulo, uma funcionária me disse  “esses meninos chegam aqui querendo convencer a gente que eles são bicho. Mas você não pode ir na deles. Porque você muitas vezes é a única pessoa que pode mostrar para eles que isso não é verdade.” Me emocionou a consciência dessa pessoa, num lugar que era, na época**, tão cheio de descaso – um depósito de gente nova, uma penitenciária júnior.

Eles não são bichos. Não são animais. E não são adultos, nem mesmo os marmanjos de 17 anos e onze meses.

São pessoas muito jovens e muito machucadas, muito feridas, tentando sobreviver ao que foi feito com elas, reproduzindo com outrem a maldade que sofreram.

Você duvida? Então pense no que teria que ser feito com você para que você tivesse a coragem de praticar os atos cuja crueldade tanto lhe causa revolta, que são noticiados de forma sensacionalista.

Só de alguém que aparece no jornal ou uma pessoa conhecida sofrer uma violência, muitas vezes sem que algo sequer tenha sido feito diretamente conosco, já estamos dispostes a trancar e torturar e matar adolescentes. A prender e arrebentar. A esquecer da pouca idade e do discernimento reduzido deles.

Isso nos torna monstros? Não. Nos torna humanes, assim como eles são. Pessoas, apenas, tentando sobreviver à dor. Uma dor que ninguém no mundo nunca deveria conhecer. Temos mais em comum com esses “monstros” do que imaginamos.

***

 

* Excluído aí o piercing que é colocado no lóbulo da orelha, hipocrisia das hipocrisias; mamãe pode furar sua orelha no lóbulo quando você é um bebê recém-nascido e não tem a menor consciência do que está acontecendo, mas você não pode colocar um brinquinho na parte de cima da sua orelha, por sua própria e livre e espontânea vontade, com, digamos dezesseis anos.

** Hoje, felizmente, tenho notícia de que a Fundação Casa mudou para melhor. Houve uma descentralização e regionalização, com a diminuição da superlotação e permitindo um atendimento individualizado, próximo das famílias e comunidades de onde os internos vêm. Onde antes os prédios eram como prisões, dizem que agora se parecem mais com escolas. A taxa de reincidência, com isso, caiu de 29 para 13% e o número de rebeliões também diminuiu.