Friendzone é o caralho!

sofá

– Letícia? Oi! É o Flavião. E aí, beleza?

Eu estava intrigada, mas já feliz. O Flavião! Bródi lá dos tempos de ensino médio, de altos papos e muitas histórias.

– Fiquei sabendo que você voltou de viagem e resolvi ligar. Quer ver um filme, trocar uma ideia?

Claro que eu queria. Aceitei prontamente, deliciada. Eu sempre tinha considerado o cara, mas nunca soube que o sentimento era mútuo.

Acho difícil colocar em palavras o quanto esse convite me envaideceu. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento abusivo. Saber que a minha companhia era apreciada por alguém me jogou lá para cima. Eu me senti interessante. Me senti importante. Valorizada. Praticamente um cara. (sim, praticamente um cara. Percebe a intenção desta frase? Vai ficar mais clara depois)

Flavião chegou, entrei no carro. Fomos conversando o caminho todo até a casa dele e nos divertindo muito. Eu me achando.

Chegamos na casa dele, eu me sentei no sofá; ele foi buscar umas brejas para a gente e, no caminho, ligou a TV e o filme.

Apareceram pessoas metendo na tela. Sim, era um filme pornô.

Lógico que era um filme pornô. Lógico que ele tinha me trazido ali para uma coisa e uma coisa apenas. Como eu pude pensar que algum cara se interessaria só pela minha amizade, pela minha companhia? Senti vergonha de ter causado esse mal-entendido, fiquei completamente sem saber como agir.

Ele voltou com as brejas, me deu uma, sentou do meu lado já com cara de “chega mais”.

Eu, em choque, ainda caindo em mim, paralisada e muda. Flavião percebeu o meu desconforto e o meu desconcerto. A cara de chega mais se dissolveu num olhar confuso.

Nesse momento, ouvimos um barulho no portão. Era a mãe dele. Minha humilhação não estava completa. Às pressas, meu ‘amigo’ me levou para os fundos, onde eu tive que pular um muro para sair sem que ela me visse.

Eu demorei muito tempo para me dar conta de que eu não tinha causado esse mal-entendido. Nada do que eu fiz ou falei deu a entender que eu pretendia fazer sexo com ele, ou mesmo que estaria aberta a essa proposta. Nada do que ele fez ou falou até chegarmos na casa dele deu a entender que era isso que ele tinha em mente. Como é que eu iria saber? Só mesmo se eu desde o começo supusesse que “não existe amizade entre homens e mulheres”, que “homens só querem saber de sexo”, etc. etc. etc.

Desde que essa história aconteceu, eu já a contei várias vezes, sempre com tons cômicos. Mas é só hoje que percebo os traços trágicos dela. Depois disso, eu nunca mais fui capaz de achar que algum homem quereria qualquer outra coisa comigo além de sexo. Ou que a minha presença ou companhia pudessem ser minimamente interessantes para um homem caso não fôssemos fazer sexo.

A ponto de eu não convidar amigos meus para virem à minha casa, para ficarem aqui batendo um papo comigo. Não porque eu não os quisesse aqui, mas simplesmente porque inconscientemente partia do princípio de que eu seria rejeitada já que eu não tenho “nada” a oferecer a eles se o sexo está fora de cogitação. E essa rejeição, para mim, seria mais dolorosa do que ser rejeitada como amante.

É por isso que, quando a galera fala de friendzone, eu fico passada. Porque, para mim, essa coisa de a mulher se aproveitar de um homem, “manipulando” seu interesse sexual para ter um amigo – veja só que coisa, que falta de escrúpulos – não existe. O que existe é a sexzone: Quando um cara faz de conta que é seu amigo e, na verdade, só quer mesmo é fabricar uma oportunidade para te comer. Sim, comer. Acho que essa é bem a palavra que cabe aqui.

Tô fora.

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8 comentários sobre “Friendzone é o caralho!

  1. Alexandre disse:

    Meninas, saiam dessa ilusão, realmente não existe amizade entre homem e mulher. Aliás, até existe. Enquanto o relacionamento durar ele será seu melhor amigo… Se algum homem disser que é só amizade mesmo, ele estará mentindo. Sejam amigas de outras mulheres, porque homem só tem amizade mesmo com outro homem. E tenho dito!

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    • Alexandre, agradeço a sua participação. Você não acha que você está generalizando? Eu hoje tenho amigos que me parecem muito sinceros em sua amizade.
      Mas sim, concordo com você – nós temos que ser amigas de outras mulheres. É libertadora e, aliás, revolucionária a amizade entre mulheres.
      Mas, claro, a gente (eu) às vezes demora para se dar conta disso, porque cresce aprendendo a valorizar sempre muito mais a presença masculina que a feminina nas nossas vidas.

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    • Desculpe entrar no meio do argumento.
      Eu acredito, defendo e tenho amigas mulheres.

      Na verdade, não vou ficar criando conversa por aqui. Apenas não acredito que generalizar seja melhor opção. ”Ele estará mentindo”, não meu brother, uma coisa muito importante para um homem é manter sua palavra, mentir é sim reflexo de uma grande parte das pessoas, mas eu acredito também na outra parte. Não é ilusão acreditar na pequena parte. Já estou utilizando a conta do Facebook para caso você comente eu receba notificação.

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  2. Vi seu texto na timeline de uma colega do facebook e vou publicar aqui a resposta que eu dai a respeito do seu texto, espero n ofender afinal é apenas um ponto de vista assim como o seu texto.

    ( Ela compartilhou o seu texto como sendo o texto mais foda e inteligente de todos os tempos )

    “N achei tao inteligente, o texto é apenas um ponto de vista, uma opinião – muito bem apresentada, alias – é baseado em experiências pessoas. Cada caso é um caso, eu por exemplo tenho amigas e tive algumas que era até impossível de não querer mas a personalidade delas n batia com a minha se fosse pra ir pra cama, sabe? Uma analise antropológica, séria da sociedade ( ou pelo menos do meio em que a autora está inserida ) daria mais credibilidade ao ” Não existe friendzone ” pois sim, existe. Existe homem por ai que sofre de verdade com a ideia de estar apaixonado pela melhor amiga. Nem tudo se resume ao sexo, pelo menos não ao meu ver* ( aqui marca um ponto de vista, como no texto ) O texto peca por generalizar uma situação contemporânea que tem múltiplas variáveis por isso eu daria um 5/10 sendo a verdade apresentada, uma de muitas ” meias verdades ” geralmente criadas por quem tende a generalizar o comportamento humano. Outra coisa que as pessoas tendem a fazer, é tirar o resultado da experiência com uma pessoa e achar que o resultado será o mesmo para todas as outras. N que seja realmente importante frisar mas ela tirou a experiência que teve com um homem babaca e decidiu que todos os outros seriam babacas do mesmo jeito, isso é misoginia, não ? Um texto genérico que engana muito bem aos olhos de pessoas menos atentas às falhar de caráter ali empregadas.”

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    • Samuel, uma aulinha de interpretação de texto para você.
      Primeiro, vamos separar as coisas.
      Um ponto é o friendzone. Não, friendzone não é se apaixonar pela melhor amiga e não ser correspondido, simplesmente. De acordo com OS PRÓPRIOS HOMENS que fazem inúmeras piadas as respeito, como se isso fosse engraçado, friendzone é quando um cara não recebe o sexo que acha que lhe seria devido por ser “tão legal” com uma mulher. Ele investe todo aquele tempo se fazendo de “amigo” quando, no fundo, sempre quis o envolvimento sexual. Sim, sexual. De novo, quem diz isso, não sou eu. Uma das coisas que esses caras mais zoam é o “eu te amo muito… como amigo”. Porque o que isso quer dizer é que não vai rolar sexo. Ou seja, não é amor, ok? Não fale como se quem resume tudo a sexo fosse eu.
      O segundo ponto é a minha experiência e a suposta generalização dela e a acusação de misandria que você me fez. Perceba que o texto não trata disso. O texto não chega e fala ‘todos os homens são’. Pelo contrário, o que o texto faz é justamente trazer a questão do self-awareness. Esse texto surgiu no momento em que eu me dei conta de que: “Desde que essa história aconteceu, eu já a contei várias vezes, sempre com tons cômicos. Mas é só hoje que percebo os traços trágicos dela. Depois disso, eu nunca mais fui capaz de achar que algum homem quereria qualquer outra coisa comigo além de sexo. Ou que a minha presença ou companhia pudessem ser minimamente interessantes para um homem caso não fôssemos fazer sexo.
      A ponto de eu não convidar amigos meus para virem à minha casa, para ficarem aqui batendo um papo comigo. Não porque eu não os quisesse aqui, mas simplesmente porque inconscientemente partia do princípio de que eu seria rejeitada já que eu não tenho “nada” a oferecer a eles se o sexo está fora de cogitação. E essa rejeição, para mim, seria mais dolorosa do que ser rejeitada como amante.”
      Ou seja, EM NENHUM MOMENTO eu disse que todos os homens são uns babacas que só querem sexo. Eu falei DE MIM, e falei DE COMO ME SINTO, do TRAUMA que esse evento me gerou (e de que eu tinha acabado de me dar conta, daí o texto). De como isso NÃO É ENGRAÇADO. Não é piada. É uma merda. Dos efeitos escrotos que isso teve NA MINHA autoestima. Lê de novo. Eu estava falando do meu conceito em relação a mim mesma. Não que HOMENS não querem nada além de sexo, mas que EU, por conta do ocorrido, sinto que EU não tenho nada a oferecer além disso.
      Eu critiquei o conceito de friendzone a partir disso, mostrando o quão injusto ele é quando a gente considera o lado da mulher. O quão ridículo é esperar sexo de outra pessoa como retribuição por ser um ser humano decente com ela. Sabe? Não disse que todos os homens são assim, que todas as pessoas que se apaixonam por pessoas de quem são amigas são escrotas, nada disso.
      Não existe friendzone. Existe sexzone.
      Não preciso de viés antropológico, nem de considerar múltiplas variáveis para falar DE MIM. Não preciso da sua avaliação para sentir que minhas observações, de novo, A RESPEITO DE MIM MESMA são legítimas e válidas. Você, no seu afã de vir aqui “desancar” a mim e ao meu texto – e, por tabela, a pobre da sua amiga – não se deu conta de que veio cagar regras para mim sobre os meus sentimentos. Nem se deu ao trabalho de ler o texto direito. Aliás, isso tem nome, sabe? Aqui no feminismo a gente chama isso de mansplaining, ou homexplicanismo. É quando um homem age dessa forma condescendente e paternalista com relação a uma mulher num debate, falando merdas ou acacianismos como se fossem as maiores sacadas do universo.
      Por favor, no futuro, poupe-se desse vexame.

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