“Criação empática”? Por que não “criação com apego”?

The questionnaire

Porque a minha ênfase é na empatia, no respeito pela criança, nos princípios envolvidos.

Equivocadamente, o termo “criação com apego” é hoje muito largamente utilizado para denominar um determinado conjunto de práticas – parto humanizado, amamentação exclusiva até os seis meses e prolongada até pelo menos dois anos, etc. – e não a ideologia que deveria permeá-lo.

Isso causa uma confusão muito infeliz, em que se pensa que a criação é automaticamente apegada quando as pessoas adotam essas práticas (e não é) ou que a criação não tem como ser apegada quando as pessoas não adotam essas práticas (e sim, pode ser). Chega-se ao ponto de haver pessoas que acreditam que criação com apego se encerra junto com a primeira infância.

Uma vez, eu vi uma página anarquista falando que a educação tinha que ser autoritária para ser libertária [pausa para vomitar]. No meu entender, você pode ser a pessoa mais libertária do mundo, mas, se você pretende doutrinar crianças para que também o sejam, você está adotando uma postura autoritária. Os fins não justificam os meios.

Claro que criação com apego não é anarquismo (apesar de eu acreditar que as duas coisas se complementam lindamente). Esse exemplo é só para mostrar que, a partir do momento em que desvalorizamos o ponto de vista da criança (no caso, partindo do princípio de que ela tem que ser e pensar o que queremos que ela seja e pense), ainda que com a melhor das intenções, arriscamos prejudicar nosso vínculo de apego com ela. Porque a desrespeitamos.

Eu adotei as tais práticas. Eu tive a oportunidade e os meios para fazê-lo. Mas nunca, em nenhum momento, elas em si foram para mim mais importantes que o bem-estar da nossa família coletiva e individualmente. Se funcionasse, ok. Se não funcionasse, eu não ficaria massacrando ninguém, nem a mim mesma, para nos “adequar”. Porque, como eu já disse, o importante não é o check-list, o “pacote”, mas a empatia e o respeito, o acolhimento, o carinho. Palavras que eu vou repetindo neste texto e em tudo o que eu escrevo, porque são insubstituíveis e são, para mim, o que faz a diferença. Não o número de horas que bebês passam no sling.

O maior problema, no entanto, é que essa confusão dissemina a noção de que a criação com apego é algo elitizado, só disponível para quem pode se dar ao luxo de fazer o que está na lista. E daí as pessoas desanimam e se afastam, se fecham, não querem nem ouvir.

Ou pior, pensam que é algo que necessariamente contribui para perpetuar o machismo e o patriarcado (machismo institucionalizado), já que essas práticas se tornam pesadas quando deixadas a cargo de uma só pessoa e, na maioria dos lares, as mulheres não podem contar com a colaboração dos homens na criação. E assim o feminismo se distancia da luta antiadultista, o que é péssimo para ambos os movimentos. Mas isso é assunto para um outro post.

Respeito e empatia não custam um centavo sequer. Criação empática não é luxo de criança rica, de quem nasce em berço de ouro. É DIREITO de TODAS as crianças. A criança ser ouvida, ser respeitada, ter não só as suas necessidades como suas vontades consideradas nas decisões que a envolvem – realmente consideradas, não só ouvidas de forma protocolar – não é algo que dependa de dinheiro, ou uma determinada prática de criação. Eu acho que há práticas que excluem a empatia – como a adoção de posturas autoritárias – mas não consigo pensar numa prática a que ela esteja necessariamente condicionada.

Há quem desista do apego, da empatia, porque “já não fiz X e Y, então nem vale a pena”. E isso é uma tristeza. Não há um ponto em que nos conectarmos com quem amamos com respeito e igualdade não valha mais a pena.

Nunca é tarde para passar a tratar pessoas como pessoas.

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2 comentários sobre ““Criação empática”? Por que não “criação com apego”?

  1. Letícia…caí no seu blog por acaso e vc foi um achado na minha vida! rs Pratico muito isso e sou muito criticada por deixar que meu filho tenha vontades.Ele decide mesmo sobre os brinquedos dele,as roupas,onde quer ir,com quem quer brincar..não faço a linha criança tem que ser “educada”….sou muitoo criticada por isso,ouve até quem me dissesse que ele poderia se tornar um criminoso ou algo parecido pq tem seus desejos atendidos ( dentro do limite da segurança claro).Não encontro muitos textos voltados pra a fase dos 4 aos 5 anos,quando a criança já se expressa bem,quando puder escreva algo !

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