Comunicação pseudo-não-violenta

pegada

Comunicação não-violenta não é só não falar em tom ríspido e acusatório, ou não usar palavras chulas. Não deixa de ser agressiva a fala que é violenta em sua essência, mesmo que revestida de palavras polidas.

É cansativo conversar com aquele tipo de pessoa que fala que “só está dando a sua opinião” enquanto vomita preconceitos. Que, por exemplo, insiste em se referir à mulher trans* sempre no masculino. Ou que declara que casais não hétero, ou com pessoas trans* não deveriam adotar crianças porque isso as influenciaria negativamente. Ou que fala que pessoas negras deveriam colocar o passado de lado, para que todes nós possamos olhar para um futuro “sem distinção de cor”. Que “explica” que, por uma questão biológica, a mulher é menos racional que o homem. Que diz a uma mulher que ela não deveria fazer sexo assim ou assado, porque isso não seria coerente com a ideologia que ela defende.

Imagine a seguinte cena:

Pessoa1 pisa delicadamente no pé da Pessoa2. Pessoa2, pisada, diz:

“Escuta, você está pisando no meu pé”.

Pessoa1 nem para para olhar onde está pisando e só responde:

“Não estou pisando não, estou andando normalmente…” E continua pisando.

Não tem um “Pô, desculpa, verdade, não vi seu pé, vou tomar cuidado da próxima vez”, ou mesmo um “Ah é? Nossa, vou olhar para ver se enxergo o seu pé e te retorno.” Na cabeça egocêntrica e sem-noção dela, não existem outros sentimentos no mundo além dos que ela também sente. Logo, se ela não acha que algo é ofensivo, não há possibilidade de que seja. Isto é, se ela não viu o seu pé, mesmo que não estivesse prestando atenção, não há possibilidade de que ele esteja lá.

A Pessoa2 então fica com raiva e diz:

“Tira o pé, porra!”

Pronto. A Pessoa1 agora está ofendidíssima.

“Que grosseira, para que isso? Com “vocês” é assim, não dá para dialogar, distorcem tudo o que eu faço, estou só andando! Não se pode nem mais andar em paz? E mesmo que eu tivesse te pisado, você não tem o direito de falar assim! Perdeu totalmente a razão. Vai ver até colocou o pé ali de propósito para poder se fazer de vítima.”

Pois é, rola de tudo, até gaslighting*. O que não rola é ela se responsabilizar por onde pisa e rever seu caminho.

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*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.

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Rebelde “sem causa”

jornadas de junho

Que satisfação é para a pessoa adulta rir da rebeldia jovem!

Quão tranquilizante transformar cinismo em realismo, individualismo em sabedoria, covardia em prudência.

Quão aconchegante usar outra pessoa para justificar a nossa corrupção, incutindo nela, de uma só vez, culpa pelo sacrifício dos nossos ideais e vergonha por se dar ao luxo de sonhar – “Eu era como você, mas ‘tive que’ mudar para comprar a comida que você come.”

Quão confortável usar nossa “experiência de vida” para escusar nossa acomodação. Como se alguém experimentasse alguma vida além da sua própria, UMA única, um espaço amostral minúsculo perto do nível de cagação de regras por aí.

A “experiência de vida”, aliás, é a carteirada da pessoa adultista. Costuma vir acompanhada de “um dia você…” e “quero ver quando…”. É com ela que a pessoa adulta racionaliza sua vergonha de ter se transformado em tudo o que sempre desprezou; é com ela que a pessoa adulta zomba da energia transformadora das pessoas mais jovens que ela; é com ela que a pessoa adulta silencia o dissenso e deslegitima o que se passa nos corações que batem mais forte que o dela.

Massa de manobra? Peões em um tabuleiro? Manipuláveis? Sugestionáveis? Influenciáveis? Bando de arruaceiros?

Será que nos incomodaríamos se o barulho não denunciasse o “estilo de vida” que nos seduziu? Será que nos doeríamos se o idealismo jovem não cutucasse o nosso próprio, querendo acordá-lo de seu sono modorrento? Será que desdenharíamos des insurgentes se sua revolta não esfregasse na nossa cara a nossa submissão?

Se, na nossa opinião, lhes falta saber disto ou daquilo, por que não dialogar, ao invés de desqualificar?

“Ah, mas não escutam, acham que sabem tudo!” Lamuriam de pronto as sóbrias cãs adultistas, projetando em outrem sua própria arrogância surda.

Se queremos que nos ouçam, temos que começar ouvindo – de verdade, com respeito e acolhimento.

O despeito com que é tratada a força criadora e revolucionária da juventude me parece muito mais inveja que sensatez. É como dizem… quem desdenha quer comprar. Mas comprar o quê? Quem ainda não se vendeu.

http://www.youtube.com/watch?v=Wv49RFo1ckQ

Asfixia emocional

Sufocar

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir.

No processo de aprender a ser a melhor mãe que eu poderia ser, eu aprendi a acolher. A empatizar. E isso mudou a minha vida.

Esse acolhimento me surpreendeu ao iluminar partes de mim que antes eu mantinha no escuro. Me peguei, de repente, abraçando uma menininha triste e assustada que eu encontrei num canto, escondida sob camadas e camadas de raiva. Uma menininha de cuja existência eu havia me esquecido por completo, que a vergonha de sentir, de chorar, tinha me feito enxotar da memória.

Depois de dar voz à dor que ela sentia, um pequeno milagre aconteceu: comecei a sentir também a dor dentro de outras pessoas. Minha percepção do mundo e de quem estava ao meu redor mudou. Subitamente, éramos todes crianças tristes e assustadas, tentando sobreviver ao que não queríamos lembrar.

Hoje eu entendo. Como podemos nos abrir para os sentimentos de outras pessoas, como podemos nos dispor a sentir com elas o que elas sentem, e não apenas entender o que elas pensam, sem que tenhamos antes abraçado os nossos próprios sentimentos negados, reprimidos, silenciados?

Como reconhecer em você o que há em mim se eu não suporto antes me olhar no espelho?

Se estamos tentando não sentir, não conseguimos lidar com o sentimento de outrem, porque a dor lá fora nos faz recordar da dor aqui dentro. Incomodades, queremos que aquilo acabe logo, mas, por mais que queiramos, não temos como fazer alguém parar de sofrer (o que nos faz sentir, ainda por cima, impotentes). É aí que podemos optar por agir egoísta e pragmaticamente sobre aquilo que efetivamente está sob o nosso controle; não o sofrimento em si, mas a demonstração dele para nós – o choro, as lamúrias, os lamentos que se desenvolvem diante dos nossos olhos e ao alcance dos nossos ouvidos.

É por isso que nossas palavras de conforto mais comuns frequentemente carregam, no fundo, a conotação de “pare com isso”: “não foi nada”, “não chore” ou “vai passar”, por exemplo. Todas elas, ao invés de realmente oferecerem um ombro, apenas impõem o fim da exposição daquela dor diante da gente. No fundo, quando confortamos alguém dessa forma, só quem se conforta somos nós.

E como reage a pessoa cujo sofrimento incomoda a quem está à sua volta, ou a quem ela ama? Fugindo para poder sofrer em paz, talvez, ou, mais provavelmente, engolindo seus sentimentos e corroendo-se aos poucos, por medo de afastar as outras pessoas.

É isso que acontece com a criança. Para ela, a ideia de viver distante do amor de seus pais é simplesmente excruciante; o medo do abandono é absoluto e avassalador. Qualquer coisa lhe parecerá melhor que isso.

Não creio que seja o intuito de nenhum pai ou mãe que eu conheço desamparar ses filhes num momento de angústia. No entanto, frequentemente, a impressão que passamos às crianças infelizmente não é essa. “Seu sofrimento me incomoda. Pare ou eu vou embora” é a lição que a criança aprende com cada noite passada chorando sozinha no berço, com cada explosão emocional à qual, por birra adulta, viram-lhe as costas, com cada ameaça de violência por sentir que ela recebe – como “vou te dar motivo para chorar”, ou “se você disser de novo que me odeia, vou embora”, ou “se você disser que odeia o seu irmãozinho, vai ficar de castigo”. Com cada machucado e tombo e susto tratados com “já passou”.

Ah, “já passou”. Eu poderia escrever uma tese sobre esse já passou. Duas palavrinhas tão pequenininhas e tanto autoritarismo, tanto silenciamento, tanto adultismo nelas. Tanto gaslighting*. Desde quando se pode, de fora de alguém, determinar quando o sofrimento dessa pessoa acaba ou não? Se a pretensão em si já é absurda, dar voz a ela é uma crueldade. Mas mesmo mães pais muito carinhoses e bem intencionades continuam reproduzindo essa fala, pois tanto a escutaram ao longo de suas próprias infâncias que não se dão conta do quão violenta ela é.

Essa frase, como as que eu citei acima e tantas outras, é um bolo de alfinetes recoberto por algodão. Parece doçura, parece carinho, parece apoio, mas, no fundo, é só uma ordem muito egocêntrica e autoindulgente emanada da pessoa adulta direto para o coração da criança: “cale-se!”

É assim que internalizamos a noção de que só merecemos e recebemos amor quando estamos felizes e somos agradáveis. Não é à toa que tantas pessoas cometem suicídio “inesperadamente”, sem ter dado mostras da profundidade da depressão em que se encontravam. Até o final, elas têm a sensação de que precisam manter a qualquer custo a fachada da felicidade ou se verão completamente sozinhas naquela escuridão.

É uma lição que, na maioria das vezes, levamos para o resto das nossas vidas, acarretando não só falta de autoconhecimento, mas também o desprezo, deslegitimação e invalidação de nossos próprios sentimentos. Muitas vezes nos orgulhamos dessa repressão e ostentamos como medalhas as neuroses que ela nos causa, como se fossem mostras de força. “Estou cada vez melhor, melhor e melhor”, murmuramos rangendo os dentes para os nossos botões inquietos.

Mais do que isso, como dito, por termos aprendido desde cedo a não sentir, aprendemos também a não tolerar o sentimento de outrem, a não ser que seja algo feliz e bonito e sorridente, que não seja desagradável para ninguém. Não apenas evitamos chorar, como passamos também a considerar fraca e inconveniente a pessoa que chora. Nos afastamos (quem sabe até com repugnância) de quem “escolhe” sofrer e falar de coisas ruins e, se um dia nos tornamos mães e pais, o nosso impulso será o de reproduzir esse silenciamento também com nosses filhes (além de todas as outras pessoas ao nosso redor), que, por sua vez, um dia crescerão e darão continuidade ao ciclo tóxico do recalque.

Podemos passar nossas vidas tentando construir uma nova realidade para nós, mas nada de fato mudará enquanto mantivermos nossas caixas-pretas sentimentais intocadas e seu conteúdo inalterado. O mundo lá fora não terá salvação enquanto o mundo aqui dentro não for tido como digno de ser salvo, enquanto o que se passa nele sequer for ouvido ou considerado.

Quando vejo um certo tipo de ira, invariavelmente me pergunto se ela não seria um cobertor pesado com que se abafam os soluços de uma criança que há anos chora sozinha, sufocando lentamente longe da luz do acolhimento.

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*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.

Nota

Meu guest post no Eu Mamãe!

Falei sobre adultocentrismo e adultismo. Confira!
http://eumamae.com/2014/10/14/guest-post-adultocentrismo-por-leticia-penteado/#sthash.GYur7X0d.dpbs

Uma palhinha:

“Uma das faces mais feias do adultismo é o adultocentrismo. Considerar tudo o que acontece da nossa perspectiva, sem tentar entender o lado da criança. Sem fazer qualquer esforço para empatizar, como se o único ponto de vista válido fosse o da pessoa adulta. Como se só a pessoa adulta fosse pessoa.

Por exemplo, eu não gosto da expressão “terrible twos” (“os terríveis dois anos”). Não chego a chamar de “terrific twos” (“os maravilhosos dois anos”) – isso seria, no meu caso, uma falsidade – mas não gosto dessa coisa de classificar como terrível uma fase pela qual as crianças passam. Porque frisa o quanto isso é incômodo para MIM, pessoa adulta.

É como dizer “adolescente é uma merda”. Sabe? Não é adolescente que é uma merda, é a adolescência que é uma merda. Por mais incômoda que ela seja para os nossos umbigos adultos, ela com certeza o é ainda mais incômoda para quem é adolescente.

Similarmente, por mais terríveis que sejam os dois anos para os nossos umbigos adultos, com certeza eles são ainda mais terríveis para as crianças que estão passando por eles.. E olha que elas levam na esportiva na maior parte do tempo; enquanto nós já aprendemos a guardar rancores, elas normalmente explodem e perdoam e superam em minutos. Conviver com crianças é ter a oportunidade de observar de perto alguém que de fato vive no presente.

O que quer que as crianças façam, elas não estão fazendo PARA a gente, ou COM a gente. É parte de uma fase pela qual elas estão passando e não algo deliberado e pessoal CONTRA nós.

É muito comum, aliás, que num extremo de adultocentrismo, se transforme tudo o que a criança faz para se desenvolver – inclusive e especialmente em termos de autonomia – numa encheção de saco para os pais. E isso é um desaforo.  Tipo assim: que chato, né? Que desagradável e inconveniente as crianças agora inventarem de ter personalidade própria… que insulto para nós, pessoas adultas, termos que compor as nossas vontades com as delas.

Esse enfoque é de um desrespeito, de uma falta de consideração que me tiram do sério. Sem falar na generalização grosseira que costuma acompanhá-lo. Crianças não são todas iguais, não agem e reagem todas da mesma forma. Elas são pessoas, indivíduos, e isso deveria ser levado em consideração. Faça um texto generalizando pessoas adultas e choverão críticas nesse sentido; faça um texto generalizando crianças e choverão comentários “é a pura verdade, são todas assim”. E isso, claro, também é adultismo.”