Rebelde “sem causa”

jornadas de junho

Que satisfação é para a pessoa adulta rir da rebeldia jovem!

Quão tranquilizante transformar cinismo em realismo, individualismo em sabedoria, covardia em prudência.

Quão aconchegante usar outra pessoa para justificar a nossa corrupção, incutindo nela, de uma só vez, culpa pelo sacrifício dos nossos ideais e vergonha por se dar ao luxo de sonhar – “Eu era como você, mas ‘tive que’ mudar para comprar a comida que você come.”

Quão confortável usar nossa “experiência de vida” para escusar nossa acomodação. Como se alguém experimentasse alguma vida além da sua própria, UMA única, um espaço amostral minúsculo perto do nível de cagação de regras por aí.

A “experiência de vida”, aliás, é a carteirada da pessoa adultista. Costuma vir acompanhada de “um dia você…” e “quero ver quando…”. É com ela que a pessoa adulta racionaliza sua vergonha de ter se transformado em tudo o que sempre desprezou; é com ela que a pessoa adulta zomba da energia transformadora das pessoas mais jovens que ela; é com ela que a pessoa adulta silencia o dissenso e deslegitima o que se passa nos corações que batem mais forte que o dela.

Massa de manobra? Peões em um tabuleiro? Manipuláveis? Sugestionáveis? Influenciáveis? Bando de arruaceiros?

Será que nos incomodaríamos se o barulho não denunciasse o “estilo de vida” que nos seduziu? Será que nos doeríamos se o idealismo jovem não cutucasse o nosso próprio, querendo acordá-lo de seu sono modorrento? Será que desdenharíamos des insurgentes se sua revolta não esfregasse na nossa cara a nossa submissão?

Se, na nossa opinião, lhes falta saber disto ou daquilo, por que não dialogar, ao invés de desqualificar?

“Ah, mas não escutam, acham que sabem tudo!” Lamuriam de pronto as sóbrias cãs adultistas, projetando em outrem sua própria arrogância surda.

Se queremos que nos ouçam, temos que começar ouvindo – de verdade, com respeito e acolhimento.

O despeito com que é tratada a força criadora e revolucionária da juventude me parece muito mais inveja que sensatez. É como dizem… quem desdenha quer comprar. Mas comprar o quê? Quem ainda não se vendeu.

http://www.youtube.com/watch?v=Wv49RFo1ckQ

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3 comentários sobre “Rebelde “sem causa”

  1. Lígia Amenda disse:

    Isso é tão Belchior!! Demais Letícia!
    Me arrepio sempre quando escuto a música “como nossos pais” pq passa bem essa ideia do seu texto:
    “Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
    Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
    Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
    Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
    Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
    Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
    Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
    É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
    Você me pergunta pela minha paixão

    Digo que estou encantada com uma nova invenção
    Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
    Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
    Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

    Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
    Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
    Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
    Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
    Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
    Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
    Você pode até dizer que eu ‘tô por fora’, ou então que eu ‘tô inventando’
    Mas é você que ama o passado e que não vê
    É você que ama o passado e que não vê
    Que o novo sempre vem

    Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
    Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
    Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos

    Nós ainda somos os mesmos e vivemos
    ainda somos os mesmos e vivemos
    Ainda somos os mesmos e vivemos
    como nossos pais”

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