Seu papai é noel? – Sobre adultismo natalino

Imagem de Haddon Sundblom


*Eu tenho um texto pronto sobre como criança não é personagem de RPG que eu queria muito linkar neste, mas, na correria do final de ano, ele acabou ficando em casa. Assim que sair eu coloco a referência.


Tem momento mais “família” que Natal? Casa cheia de gerações e gerações unidas por laços de sangue… e, muitas vezes, nada mais.

Digo nada mais porque, muitas vezes, o natal é a oportunidade que algumas pessoas covardes usam para aproveitarem-se da “santidade” do momento (ou seja, do fato de que nenhume filhe quer “estragar o natal da família brigando”), para cravar impunemente seus punhais adultistas no fígado de qualquer “criança” (leia-se: pessoa das gerações seguintes) que passa perto.

Pode ser que, muitas vezes, o que propicie tão despudorada encheção de saco seja o álcool que, muitas vezes, rega essas festas de fim de ano. Ou talvez, muitas vezes, esse álcool seja apenas uma desculpa, uma muleta etílica em que a pessoa grossa, crassa e bruta (ainda que de palavras aparentemente polidas) muitas vezes se apoia para se deliciar com o mal-estar que causa ao seu redor.

Muitas vezes, ainda há o estímulo do garoto-propaganda da festividade. Afinal, que dizer de um “Papai” de cabelos e barbas cuja brancura claramente evoca o peso de sua “respeitável e honorável” idade, que é bonachão, sorridente e evidentemente abonado, mas que só “presenteia” quem se comporta de acordo com as expectativas dele?

Supostamente é o momento do perdão, do amor, do carinho, da compaixão, da solidariedade. Mas, muitas vezes, isso é só no comercial da coca-cola e na novela que passa na TV. Porque, na família mesmo, muitas vezes, é dia de gritar com as crianças por elas serem crianças em volta da mesa decorada, esbravejar porque “ninguém ajuda em nada” (enquanto se faz questão de fazer tudo sozinhe e ridicularizar e criticar destrutivamente todo mundo que tenta fazer alguma coisa), falar mal de quem arrumou uma desculpa para não aparecer.

Muitas vezes, é o momento de salpicar implicâncias e aproveitar para servir, aqui e ali no meio da “felicidade” natalina, conversinhas (em tom de brincadeira ou não) sobre “a sua falta de rumo/ambição/vergonha na cara”, ou “quando vai arranjar um(a) namorado(a)” (sic), ou quando “vai largar daquele traste”, ou “quando vai me dar netos” (sic), ou “quando você vai voltar/começar a se cuidar?”, ou“quando você vai entender que tem que fazer faculdade de…/concurso para…/aula de…?” entre outros quitutes com esse mesmo tempero de “enquanto você não chegar aonde eu quero que você chegue, você, para mim, não terá chegado a lugar algum”, tudo recheado com doses cavalares de “depois de tudo o que eu investi em você” e “porque eu, na sua idade…”

É de causar indigestão até numa cabra, mas, mesmo assim, chega meia-noite e é só abraço e beijo e “feliz natal” e fingir que não doeu. Porque família é assim e escrotidão e passar mal fazem parte.

Só que não.

Desrespeito não faz parte. Ingerência não solicitada e cagação de regra não fazem parte. Falta de carinho não faz parte.

Não é porque alguém te trouxe ao mundo e/ou te criou que você tem o dever de aturar merda dessa pessoa para sempre. Eu, hoje, sendo mãe, entendo que esse tão alardeado “investimento” (estamos falando de empreendimentos ou de pessoas, afinal?) não é mais que a obrigação de qualquer pai, qualquer mãe. Que não é porque “tem tanta gente por aí que espanca e mata crianças” que então qualquer coisa que eu fizer que não seja isso já está bom.

Eu me dou hoje o presente de me afastar de quem me faz mal. Eu me dou hoje o presente de não me submeter a presenças tóxicas na minha vida. Eu me dou hoje o presente de não me forçar a sorrir quando me machucam. Eu me dou hoje o presente de não testemunhar pessoas que eu amo maltratando pessoas que eu amo.

Me dou hoje esse presente, como tento me dar esse presente todos os dias da minha vida. Digo tento porque sei bem que, muitas vezes, não é tão simples.

Muitas vezes, o nosso amor de criança, ainda vivo dentro de nós, a nossa vontade de ser amade, nos puxa de volta. E nos pegamos nos reaproximando e tendo que nos lembrar do quão cruéis essas pessoas podem ser para conseguirmos manter uma mínima distância saudável delas. E dói fazer isso, como dói apertar um calo para se manter acordade. E muitas vezes dói tanto que não conseguimos nos fazer fazer isso de novo. Muitas vezes, é um “dia especial” e a gente quer acreditar que pode abrir uma exceção.

Se há um presente que quero dar a mes filhes, este ano e todos os anos, é que de fato eles esperem ansiosamente pelo natal e todas as outras oportunidades de festa na nossa família. Que os sons e cheiros e cores natalinas provoquem neles não melancolia, culpa, temor e sensação de inadequação, mas o conforto da lembrança do meu amor por eles.

Feliz natal!

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Eu hoje fui à praia

praia

Pela primeira vez em meses.

E, pela primeira vez em anos – décadas, na verdade – eu me diverti na praia.

Não me incomodaram tanto o protetor solar grudento, a areia piniquenta, os eventuais lixos que encontrei aqui e ali. E eu que sempre acreditei, do fundo do meu coração, que fossem esses os motivos muito, muito, muito lógicos e sensatos para eu não gostar tanto assim de praia.

Ou de piscina. Porque eu arrematei o banho de mar com um banho de piscina e, olha só, nem me incomodei com o cheiro do cloro, ou com os azulejos escorregadios que antes me davam meio que nojo. Aliás, nada me deu nojo, aquele nojo de arrepiar e dar vontade de ir embora que eu tinha antes. E agora me pergunto se nada me deu nojo porque eu não tenho mais nojo de mim.

E eu nunca estive tão gorda na minha vida!

Isso é chocante, porque eu já estive sarada. Assim como já estive magra demais para o meu biotipo, uma magreza conquistada à custa da perda de muita massa muscular através de regimes obscenos.

Aliás, quantos regimes! E dietas e reeducações alimentares e mentalizações e mantras. E nutricionistas e fórmulas mágicas e viver contando calorias, em função de quanto entra e quanto sai, me medindo pelos números que apareciam na balança, na fita métrica, na bioimpedância.

E os exercícios? Eu trocava minha compulsão por comer por compulsão por fazer exercícios. O objeto era outro, mas o problema continuava lá, embora invisível para as pessoas que só veem problema e desequilíbrio quando ele se manifesta na forma de gordura.

E tudo isso para nada, porque nunca estava bom, porque nunca estaria bom. E não apenas por conta dos meus traços ligeiramente asiáticos, meus ombros largos demais, minhas pernas curtas demais, meus peitos pequenos demais… mas porque o “bom” era simplesmente inatingível.

Eu me lembro de, ainda criança, usar maiô porque tinha raiva das “gordurinhas” que se formavam na minha cintura pueril em torno da calcinha do biquíni. Raiva. De mim. Do meu corpo. Como se ele me traísse, como se ele fosse meu inimigo.

Eu era uma criança vigorosamente atlética, praticamente músculo puro. Não apenas era absurdo e doentio que essa preocupação sequer figurasse na minha mente infantil, mas se tratava de uma percepção já totalmente distorcida.

Eu não tinha sequer menstruado, e já vivia obcecada com a minha barriga, que eu estava sempre “encolhendo”, a ponto de isso afetar a minha respiração.

A apreensão constante em relação ao que estava fazendo dobrinhas, o que estava apertando e mostrando furinhos de celulite, o que estava sobrando, o que estava faltando, o que podia ser melhorado, o que não tinha como ser melhorado, o nariz assim, os pés assado, os peitos isso, a bunda aquilo… era como um ruído de fundo, uma estática que sempre acompanhou a trilha sonora da minha vida, acinzentando as minhas cores, embaçando os meus óculos. Eu me detestava tanto, me sentia tão inadequada, que, ao olhar no espelho, via apenas feiura. Apenas erro.

É só hoje, olhando para as minhas fotos de antes, que eu enxergo o tamanho da minha (des)ilusão.

(Ainda?) Não acho meu corpo bonito, nem vou fingir que, no meu âmago, não preferiria estar magra. Estar magra, para mim, ainda parece ser melhor para dormir, para me movimentar, para achar roupas que me sirvam, para caber em assentos de transportes públicos, etc.

É só que não sinto mais vergonha de mim, do meu corpo. Não sinto mais raiva e repulsa quando me vejo passar em um espelho. Nem me escondo mais dos espelhos. Não sinto que tenho que me desculpar toda vez que como algo na frente de alguém. Nem me sinto mais reprovada, ou como uma pessoa em dívida com o mundo por não se encaixar nos padrões impossíveis de beleza que ele me impõe. Não sinto mais que meu valor como pessoa é inversamente proporcional ao meu peso.

Como eu disse antes, eu nunca estive tão gorda na minha vida. E nunca me aceitei tanto. Nunca me senti tão confortável dentro da minha própria pele, mais serena em relação a quem eu sou.

Mais do que asas, o feminismo nos dá novos olhos. E de repente a gente se vê diante de um mundo que parece que nunca viu antes. Que, na realidade, não parece nem mais bonito, nem mais feio; só mais verdadeiro.

Eu hoje brinquei na praia com a leveza de uma criança pequena.

Aproveitando o caso Bolsonaro para fazer um glossário

bolsonaro

*Os recentes (e não tão recentes) acontecimentos envolvendo o já infame Deputado Jair Bolsonaro e a Deputada Maria do Rosário são tão repletos de machismo que vi neles a oportunidade de, finalmente, atender aos pedidos de que eu fizesse um glossário. Não ficou completo, claro, faltou muita coisa, mas deu para cobrir uns termos bem comuns no feminismo, acho que pode ser útil. Enfim, segue abaixo, com todo o meu carinho, a limonada que eu fiz, com pedrinhas de gelo e muito açúcar. ❤

Obs.: Vou destacar os termos em si em vermelho, sublinhado, com um link em cada um para um texto com mais detalhes a respeito as definições básicas em azul. Observações que considero importantes serão destacadas em verde.


TW ou Trigger Warning (lê-se “tríguer wórnim”): é um aviso de que o que se segue contém alguma passagem que pode causar mal-estar e incômodo, a fim de que, ciente disso, a pessoa possa optar por não aprofundar o contato com aquele material, ou fazê-lo mais tarde, num lugar e momento em que se sinta mais à vontade para lidar com os sentimentos que o assunto pode trazer. Normalmente vem acompanhado de uma explicação sobre o que há ali que se acredita ser capaz de acionar gatilhos emocionais. Neste caso, por exemplo:


TW: Violência verbal e física praticada contra mulher com a conivência das pessoas presentes


As imagens (veja aqui) falam por si mesmas. Para qualquer pessoa com um pingo de noção, o que o vídeo mostra é um covarde usando seu tamanho, sua força física e masculinidade para tentar calar uma mulher que nada fazia além de debater com ele muito civilizadamente. Um homem desequilibrado, que responde às críticas feitas por uma mulher inventando ofensas que ela não proferiu nem deixou implícitas e usando isso como justificativa para as agressões praticadas por ele próprio.

Ele, no entanto, grita: “tá na fita, meu deus do céu! Tá na fita!”

Por quê? Porque seus olhinhos porcinos não veem naquelas cenas o que nós vemos. Porque ele, na cabeça dele, acha que tem o direito de agir daquela forma. Que tem o direito de destratar mulheres que não “sabem o seu lugar” (supostamente abaixo dele e bem caladas).

Cá no feminismo chamamos isso de entitlement (lê-se “entáitou-ment”), neste caso, masculino – a atitude presunçosa e prepotente de quem arvora para si o direito de oprimir outra pessoa, de quem defende seus privilégios (veja definição logo abaixo) como se estes lhe fossem de fato devidos e não algo que ele deveria tentar desconstruir. Essa postura abarca também coisas como essa história de friendzone (“frendzoun”) – um cara ficar ofendido quando uma mulher não quer fazer sexo com ele apesar de ele ser “tão legal” com ela  ou horrores como a chacina cometida por Elliot Rodgers este ano, um cara que saiu matando gente porque as mulheres tiveram “a ousadia” de não se interessar por ele e ele resolveu fazê-las pagar por isso.

Privilégio, nesse sentido, nós usamos para falar de um benefício de que alguém usufrui por participar de um segmento de pessoas que a sociedade privilegia em detrimento de outros. Esse é o segmento que é considerado “o normal”, “a regra”, pautando o ponto de vista a partir do qual as coisas são feitas e pensadas. Por exemplo, é um privilégio heterossexual poder demonstrar carinho em público sem ter medo de sofrer uma agressão, é privilégio das pessoas sem deficiência que os estabelecimentos todos sejam imediatamente acessíveis a elas, é privilégio branco estudar a cultura de seus ancestrais como se fosse a única que realmente vale a pena estudar, e por aí vai. Um privilégio muito comum é o de não representar. Porque uma mulher, uma pessoa negra, uma lésbica, uma pessoa trans, etc. sempre são considerades como se falassem e agissem por todas as mulheres, pessoas negras, lésbicas, trans, etc.

O privilégio de gênero, de que aqui falo especificamente, é o privilégio que os homens têm em nossa sociedade só por serem homens, como, por exemplo, poder ter uma vida sexual ativa e ser exaltado (e não execrado) por isso, ou não viver com medo de ser estuprado, ou ninguém esperar favores sexuais seus em troca de qualquer coisa que faça por você, ou as pessoas não esperarem doçura e obediência e deferência de você.

Vale a pena observar, ainda, que privilégio não é algo que se tem porque se quer, é algo que se tem porque “o mundo é assim” (e ainda não mudou). Não é uma questão de culpa – não temos culpa de ter privilégios; ninguém escolhe ser branco, ser hétero, ser homem. Mas é uma questão de responsabilidade. De entender que, se fazemos parte de um grupo que é considerado “o normal”, temos privilégios que muitas vezes sequer somos capazes de enxergar, de tão habituades que estamos a eles. E daí, a partir desse entendimento, fazer força para ver e desconstruir esses privilégios, ao invés de seguir usufruindo deles e reafirmando-os como se fossem direito nosso (entitlement).

Ou seja, a postura do deputado foi um verdadeiro show de entitlement, por não só praticar a violência, mas defender sua prática como direito seu.

Para justificar seus atos, ele brada aos quatro ventos que ela disse que ele era estuprador, coisa que ela não fez, como comprova o vídeo. Ela disse apenas que ele era responsável pela violência a que se referia em sua entrevista. E ela está certa em dizer isso, porque ele alimenta a cultura do estupro, a cultura que banaliza e estimula o estupro, que é justamente formada por palavras e posturas como as dele, que o legitimam, que dão a entender que não é nada demais, que é objeto de piada, que a culpa é da vítima ou que cabe à vítima evitá-lo, que a falta de consentimento é irrelevante ou que consentimento em si é um conceito “relativo”, etc.

Transformar o ponto de vista efetivamente arguido pela deputada em “você me chamou de estuprador” é o que a gente chama de falácia do espantalho: quando você distorce um argumento até ele ficar quase irreconhecível (faz um espantalho) e daí ataca essa distorção (bate no espantalho), mostrando-a absurda (claro que é absurda, é um espantalho) e dando com isso a impressão de que o argumento original é absurdo também. Ou, no caso, nem bate no espantalho, usa-o para justificar suas atitudes desequilibradas.

O que nos traz ao próximo item do glossário: gaslighting (“gaslaitim”). Eu falo muito disso aqui no blog. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. No caso que comentamos, isso fica claro porque, apesar de tudo o que ele fez, ele não se cansa de dizer que, na verdade, ela que é a agressora.

Se fosse o contrário, ela estaria sendo amplamente ridicularizada como uma “mulherzinha histérica incapaz de diálogo”. Isso porque, devido à nossa fama de sermos irracionais e exageradas, parece que nunca estamos legitimadas a reagir à violência que os homens, por sua vez, se sentem muito frequentemente legitimados a praticar conosco.

Amparado numa mentira, o homem vocifera com o dedo fálico em riste diante do rosto da mulher, brandindo-o como uma arma, uma ameaça. Dispara, sem piscar ou hesitar: “Eu não te estupro porque você não merece”. Assim, com naturalidade, como se para ele a violência sexual fosse algo tão corriqueiro quanto a lama em que ele chafurda todos os dias. Tal frase deixa claro não apenas que, na opinião dele, há mulheres que de fato merecem ser estupradas, mas que, se ele estivesse diante de uma mulher que ele julgasse merecer isso, ele estaria disposto a incumbir-se dessa “missão”.

Mais tarde ele “esclareceu” que disse que ela não merece ser estuprada porque é “feia demais”. Ou seja, a intenção dele ao dizer isso era de fato a ameaça do estupro corretivo: um crime que vitima especificamente mulheres lésbicas, assim “punidas” por não se fazerem sexualmente disponíveis aos homens, mas que vem sendo ampliado para ameaçar mulheres que incomodam o domínio masculino, a exemplo do ocorrido com Anita Sarkeesian e Alanah Pearce. O recado, aparentemente, era “olha, você passou dos limites, mulher, se você fosse mais atraente para mim eu te estupraria para te ensinar uma lição”.

Não é à toa que ele ouve no vácuo  acusações de ser estuprador. Talvez elas venham ressoando cacofonicamente de seu inconsciente. Freud ajudaria muito, se ainda fosse vivo e não tivesse ele próprio algumas inclinações um tanto preocupantes no sentido do machismo.

Fico me perguntando se esse homem teria usado essa mesma linha “argumentativa” se estivesse dialogando com um outro homem. Aliás, fica a dica desse bom teste para ver se as suas posturas ou palavras são machistas. Se, quando você se pergunta: “eu faria ou falaria isso se estivesse lidando com um homem?”, a resposta é não, vale a pena repensar. Pode ser que não seja nada, pode ser que seja tudo.

Mas ele foi além. Homem bem macho que é, habituado ao espalhafato preconceituoso pelo qual nunca sofre quaisquer consequências, agrediu fisicamente a mulher que o interpelava, ameaçando-a com “vou te dar outra”, enquanto empurrava o peito dela com a mão. Não fosse a intervenção de outros homens – que só apareceram depois do pedido de socorro dela, um deles aparentemente sorrindo, espero de coração que por constrangimento – sabe-se lá o que ele teria se sentido no direito (entitlement) de fazer com ela pelo simples fato de ela ter a “insolência” de expor a incoerência das ideias dele.

Assim que se viu amparado por um igual, no melhor estilo “me segura, me segura”, largou logo um “vagabunda” (palavreado cotidiano dele, certamente) para ela, que, consternada, apenas conseguia se fazer repetir “o que é isso?”

Isso, no caso, é o que nós chamamos de slut-shaming (slãt-cheimim), que é o ato de incutir nas mulheres a noção de que é vergonhoso para elas que exerçam sua sexualidade, seja reprovando qualquer demonstração disso (coisas como “ela não se dá o respeito” ou “ela é vulgar”), ou mesmo transformando isso em um xingamento (vagabunda, vadia, piranha, vaca, galinha, rodada, arrombada), ainda que ele venha a ser usado para agredir mulheres por motivos que nada têm a ver com sua vida sexual, porque, mesmo nesses casos, isso funciona como um lembrete a todas de que o valor de uma mulher perante a sociedade machista cai a cada vez que ela faz sexo. O que é impressionante é que, assim como a maioria das mulheres já sofreu alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida, a maioria das mulheres também já praticou alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida. Isso acontece não porque “as próprias mulheres são o problema”, ao contrário do que muitos machistas gostam de afirmar, mas porque essa é uma noção que se faz tão presente nas nossas vidas desde a nossa mais tenra infância, que se torna algo introjetado, cuja desconstrução dificilmente ocorre sem um esforço consciente nesse sentido.

Mais tarde no vídeo aparecem cenas em que essa mulher, num ato de sororidade, de reconhecimento das outras mulheres como suas irmãs na vivência do machismo que nos oprime a todas, invocando a união que devemos ter diante desse tipo de violência, diz com todas as letras a verdade que deveríamos ver escrita em letras garrafais em todos os muros de todas as casas de todas as ruas pelas quais passamos em nossas vidas enquanto somos assediadas por homens que se julgam no direito (entitlement) de nos apreciar como se fôssemos objetos para seu consumo: “Nenhuma mulher é vagabunda”.

Ela não se retraiu, ela não se encolheu, ela manteve a cabeça erguida, ainda que visivelmente chocada com a violência descarada que se desenrolava despudoradamente diante das câmeras e com a conivência e apatia des presentes, que precisaram ser chamados, convocados, para que enfim tomassem uma atitude.

Ao final, ele, o homem, o bully, gritou, em tom jocoso e vitorioso “Chora, agora! Chora!” enquanto ela, a mulher, a vítima, deixava o recinto visivelmente abalada.

E tem gente, para meu completo horror, que fala que não houve nada demais, porque ele “nem bateu nela de verdade”. Bom, primeiro que a ameaça de violência já é uma violência. Especialmente a ameaça de uma violência que ocorre durante uma discussão ou debate – um murro na mesa, um grito, uma aproximação súbita com postura ameaçadora – porque é algo que se faz para inibir a outra pessoa de dar continuidade ao seu lado da conversa por medo de sofrer uma agressão. É uma estratégia covarde de pessoas autoritárias, que gostam de encerrar a discussão no grito ou na porrada, mesmo quando estão erradas. Segundo que ele chegou a tocar nela. Pode não lhe ter causado nenhum ferimento, mas foi uma invasão brutal do espaço físico dela e a intenção de intimidá-la e agredi-la era muito clara. Torno a dizer que me parece que ela teve sorte de não estar a sós com ele naquele momento.

Depois disso, ela saiu de cena, e ele retomou a entrevista (a)normalmente, como se nada tivesse acontecido. Agredir mulheres verbal e fisicamente, aparentemente, não movem sequer um fio de cabelo em sua fronte. Nada demais, só mais um dia de trabalho.

Isso tudo aconteceu em 2003 e, como costuma ocorrer, nenhuma medida foi tomada contra ele.

Mas eis que, mais de dez anos depois, na última terça-feira, o próprio homem fez questão de requentar o assunto, com a boca cheia de um orgulho que eu simplesmente não consigo entender. O entitlement desse cara é de tirar a gente do sério.

A deputada a quem ele agredira havia acabado de fazer um discurso rechaçando a violência da ditadura e exaltando o trabalho da comissão da verdade. E esse homem, que um dia já usou uma farda, ofendeu-se até o tutano de seus ossinhos fascistas, e abriu sua fala, que se seguiu à dela, relembrando de forma completamente medonha o episódio: “Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir!”

É marcante o tom de comando, de ordem. De quem está acostumado a ser obedecido, sob pena de detesto pensar em quê. A cereja no bolo é ver o que se passou, toda aquela agressão, inclusive física, dele, reduzida ao que parece ser um papinho acalorado. Mais gaslighting.

Entrevistado, ele explica que ele não é agressivo, que ele sim luta contra o estupro, que estuprador é psicopata (estuprador é monstro, coisa que ele não é, logo, não pode ser estuprador, claro), que dizer que não estupraria Maria do Rosário foi uma ironia… isso é o que a gente chama de mansplaining (méns-pleinim) ou homexplicanismo. Quando um homem vem cagar regras em cima de uma mulher, ou seja, explicar, em tom professoral e condescendente, coisas óbvias, ou que ela já sabe, ou falar de coisas de que ele sequer entende, porque parte do princípio de que, só por ser homem, ele naturalmente merece ser levado mais a sério e sabe mais do que qualquer mulher sobre o que quer que seja. Pode ou não ao mesmo tempo ser ou vir acompanhado de gaslighting (“Por que você está irritada? Estou só conversando com você, expondo meu ponto de vista”). Eu já vi homens homexplicando para mulheres que a dor da cólica menstrual nem era tão intensa assim. Pois é.

E podemos aproveitar o ensejo para explicar o conceito de falsa simetria. Falsa simetria é quando duas coisas parecem ser (ou são expostas como se fossem) iguais ou semelhantes, mas na verdade não são. Muitas vezes isso fica evidente quando analisamos o contexto em que elas ocorrem. Por exemplo, muitas pessoas diriam que “ah, mas tem um monte de mulheres que cagam regras”. Sim, mas a questão é que o homem, quando age dessa forma em relação a uma mulher, age com todo o amparo e peso de uma cultura machista, que consistentemente valoriza e privilegia a fala do homem em detrimento da fala da mulher. É por isso que vemos tantos homens fazerem isso e não serem rechaçados, enquanto suas interlocutoras, que foram criadas para suportar esse tipo de atitude, começam a duvidar de si mesmas mesmo quando sabem que sabem do que estão falando. Chega a dar tristeza de ver.

Mas, enfim, esse cidadão machista, não contente com a sujeira que já fizera há tanto tempo, veio novamente, em sua fixação anal de fazer federem todos os ambientes de que participa, demonstrar aos homúnculos seus aprendizes a velha arte de como desvalorizar a fala de uma mulher: ao invés de atacar o conteúdo, fale da pessoa dela, da aparência dela, da sexualidade e da vida sexual dela, des filhes dela, de companheire dela; ameace-a com violências que, por ser muito macho, poderia praticar com ela, por ela ser mulher.

E seus seguidores aprendem tão bem que na própria defesa do mestre pelas redes sociais saem fazendo exatamente isso com as mulheres que ousam questionar as falas estapafúrdias dele.

É isso que é o tal argumento ad hominem. Quando, ao invés de rebater o que uma pessoa disse, alguém ataca a própria pessoa, com a intenção de, por tabela, desqualificar o argumento ou mesmo tirar o foco dele. É interessante que muitos homens digam que as mulheres estão usando essa falácia quando elas apontam que eles estão homexplicando alguma coisa. É outra falsa simetria. Apontar homexplicanismo não é desvalorizar a opinião do cara porque ele é homem. É denunciar um comportamento nocivo e machista. O problema não é ele ser homem. O problema é ele usar sua posição de homem para fazer prevalecer sua cagação de regras.

Mas, enfim, voltando ao caso do deputado, a ideia por detrás das provocações feitas por ele mais uma vez é claramente a de intimidar, ridicularizar e silenciar a mulher. Transformar o gênero dela em uma fragilidade e usar isso para desvalorizar suas posições políticas, apoiado numa cultura que “naturaliza”, normatiza, o machismo a ponto de tornar piada a indignação diante dele. Usufruir do que a gente chama de privilégio de gênero.

Por fim, como podemos ver em inúmeras falas dele, o deputado em questão tokeniza o estupro e as vítimas de estupro constantemente. Tokenizar, ou fazer token é usar uma opressão, uma causa ou pessoas de um grupo que sofre uma opressão para “justificar, defender, explicar o seu ponto de vista” (vide texto do link). Por exemplo, quando uma pessoa branca diz algo racista, mas daí se defende dizendo que não é racista porque é parente de pessoas negras. E é isso que esse cara faz quando nutre avidamente a cultura que perpetua o estupro na nossa sociedade ao mesmo tempo em que usa esse crime como pilar de seu discurso vazio de “lei e ordem”, de redução da maioridade penal, etc. Repudia o estupro, mas fala como se houvesse mulheres que considera o merecerem. Repudia o estupro, mas o usa em insultos e piadas, como forma chocar e intimidar mulheres. Repudia o estupro mas dá a entender que estupraria.

Talvez esse homem não tenha consciência disso – é o caso de muites – mas o que diminui índices criminais não é a severidade da pena, mas a sua certeza. Não adianta prever pena de morte, tortura e mutilação se todo mundo sabe que pode fazer à vontade que não dá nada. Ele próprio deveria saber disso, já que conhece por dentro essa lógica: por que outro motivo continuaria a agir com sua truculência característica, senão porque se crê absolutamente inatingível nela? De tanto fazer e ficar por isso mesmo, ele já sedimentou que é seu direito agir dessa forma. Entitlement. De novo.


***Agradecimentos à Lígia Birindelli Amenda, por ter me lembrado de adicionar o slut-shaming ao glossário!

O consumismo infantil e a culpa

*Texto feito para o blog do MILC (Movimento Infância Livre de Consumismo)

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Ilustração da Coluna Mamatraca/Uol

 

É triste ver como funciona a (falta de) lógica por detrás da defesa da publicidade dirigida ao público infantil.

Como eu já disse antes, não faz o menor sentido ficar bradando que a publicidade tem que ser dirigida às crianças porque os produtos são para elas e, ao mesmo tempo, que cabe a pais e mães “impor limites” ao consumo delas. Ora, se é esse o nosso papel, então por que não vir falar conosco? Por que ir falar direto com as crianças? Me admira a cara de pau de fazer de conta que elas não estão sendo usadas como ferramenta de pressão. De responder a críticas com um simplista “basta dizer não”.

Ser mãe e pai na nossa sociedade é, muitas vezes, viver correndo atrás do próprio rabo. Trabalhar para sustentar família, cuidar da casa para manter um ambiente (minimamente!) saudável para todes e, no tempo que sobra depois disso, tentar dar às crianças todo amor, carinho e atenção que elas precisam de nós enquanto, exaustes e ansioses por um momento a sós, esperamos que elas durmam.

É fácil se perder nessa rotina tresloucada. Esquecer o que realmente importa e tratar os meios como fins em si mesmos.

Quem nunca esperou de si, como mãe ou pai, mais do que foi capaz de dar? Quem nunca teve que lidar com seus próprios limites ou, mais frustrantemente, com limites impostos ou potencializados pelas suas circunstâncias pessoais? Quem nunca errou?
E quem nunca, por decorrência disso, sentiu culpa?

A culpa, pelo menos em alguma medida, me parece ser uma constante da mater/paternidade. E a culpa não é um sentimento cômodo, nem feliz.

Podemos desconstruir essa culpa. Considerar o que está além do nosso controle e nos perdoar; considerar o que podemos mudar e efetivamente fazer diferente; considerar o que, na verdade, é uma imposição cultural opressiva (“mulher TEM QUE dar conta de tudo ao mesmo tempo”, por exemplo) e lutar contra isso.

Mas essa desconstrução exige reflexão e refletir toma tempo. Tempo que muitas vezes não se tem ou não se crê ter, porque se está muito atarefade correndo, como eu disse, atrás do próprio rabo, sem poder parar para respirar, constantemente bombardeade por mensagens diversas que, no fundo, têm sempre um mesmo significado: continue correndo. Correndo. Consumindo.

“Você vai se sentir melhor se comer isto”, “vão gostar mais de você se vestir aquilo”, “você será finalmente feliz se tiver aquilo outro”.

Você consome mais, você precisa de mais dinheiro, você trabalha mais, você se sente pior, você consome mais. O consumo é a anfetamina que o capitalismo usa para manter as pessoas correndo em suas rodinhas, ocupadas demais para roerem suas gaiolas. Ocupadas demais para se lembrarem de seus porquês.

E fica a criança, ali, parada na frente da TV, esperando alguma pessoa que ela ama e que a ama, mas está presa na rodinha, ter tempo para ela.

Ela vê passar o anúncio de um brinquedo, vê ali sorrisos, quem sabe um pai ou mãe brincando junto. Felicidade. Presença. Algo ali é o que ela precisa. Algo ali faz falta para ela. Deve ser… o brinquedo, claro.

E então ela vai e pede o brinquedo. A pessoa adulta ouve nas entrelinhas daquele pedido: “algo me falta!”, e já sente cutucar a lança venenosa da culpa. Algo falta para a criança que ela ama tanto. O que falta? Será mesmo que é o brinquedo?

Pensar nisso dói demais. Talvez ainda mais se a pessoa já foi um dia uma criança para quem algo faltou. E do mal-estar surge, como sempre, a ânsia pelo alívio, pela droga, pelo consumo. Não há tempo para pensar. Corra! Continue correndo! Continue comprando!

E pronto. Toma aqui o seu brinquedo, criança, agora você está feliz. Eu não preciso segurar a sua mão e te ouvir, não preciso repensar as minhas atitudes, não preciso rever a forma como me relaciono com você, não preciso reavaliar a minha vida, não preciso parar de correr. Pegue o seu presente e fique feliz. Não te falta nada.

A criança olha para o que ganhou, o coração em saltos com aquela “prova de amor”, aquele luxo, e brinca feliz… até o objeto perder a novidade. E daí ela olha em volta e se vê sozinha de novo. Chega o frio devorador do vazio. Ela pega o brinquedo, tentando se aquecer de volta com aquela euforia de antes, mas ela já passou. Não está mais lá. Porque ela nunca esteve lá. Mas isso ninguém conta para a gente nos comerciais coloridos e cheios de dentes.

E agora? A resposta é rápida, especialmente para quem aprende pelo exemplo e aprende rápido. Correr. Consumir. Pedir outro brinquedo, para de novo ter aquela prova de amor, aquela atenção em forma de coisa. Aquele calor, ainda que efêmero. Dura pouco, mas é tão bom!

Se uma pessoa adulta não é capaz de resistir ao canto da sereia consumista, como se pode culpar uma criança por isso? Então, não contentes em manipulá-las, vamos agora culpá-las por não resistirem à nossa manipulação, chamando-as de tiranas, aproveitadoras, manipuladoras, elas próprias? E tudo isso enquanto ganhamos dinheiro explorando-as, instrumentalizando-as, usando-as para forçar as pessoas adultas em sua vida a consumirem? É de fazer corar essa falta de escrúpulos e é ainda mais repugnante quando se pretende fingir ser esse um discurso isento de interesses pessoais em lucros milionários.

Cabe-nos, claro, como mães e pais, tentar parar e refletir. É verdade. Cabe-nos lutar contra o impulso de continuar correndo, sem olhar para os lados, sem ver ou ouvir nada que não sejam as nossas patinhas batendo no metal e a roda girando e girando. Isso pode e deve ser problematizado e é, a meu ver, uma problematização muito bem-vinda. Mas não vamos usá-la para culpabilizar quem está sendo explorade e exculpar quem está explorando. Não vamos nos distrair do fato de que há alguém que intencionalmente se alimenta de tudo isso. Que há alguém que torpe e calculadamente procura esse impulso, o estimula e daí se aproveita dele.

Então se um traficante de drogas se infiltra numa reunião do Narcóticos Anônimos procurando clientes para aliciar, ele está só “fazendo uso de uma oportunidade de mercado”? “Fazendo o seu trabalho”? Não seria essa atitude absolutamente repugnante e moralmente reprovável? E por que, quando o vício é outro, ela é admissível?

A culpa pelo consumismo infantil não é des pais e menos ainda das crianças. A culpa é de quem lucra em cima da culpa. A culpa é de quem se alimenta do vazio dentro das pessoas, sejam elas de qualquer idade. A culpa é de quem faz da dor humana um bom negócio.

Braços demais – o mito da mulher multifuncional

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Essa é a imagem da deusa do patriarcado capitalista: uma mulher com diversos braços, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

Não basta ser mulher. Tem que ser supermãe, mulherão, esposa perfeita, dona de casa impecável, profissional ultraeficiente. Desde pequenas, somos expostas figuras como essa ou às ideias que remetem a ela e nos é ensinado que esse é o ideal a ser alcançado.

Tem que ser mãe. E ser mãe mesmo sem apoio de ninguém, menos ainda do pai da criança – talvez, aliás, ele seja tão inútil ou nocivo que se prefira até mesmo que ele fique longe. Mas a mulher tem que ser mãe, senão ela não é mulher “de verdade”. Não está “realizada”. E não é só mãe, tem que ser a melhor mãe. Supermãe. Tem que amar mais as crianças do que a si mesma (só não mais que ao maridão, né?), tem que viver sorrindo e falando docemente, tem que ter as crianças mais bem-comportadas, mais bem-vestidas, mais estudiosas e mais limpinhas do mundo.

mulher_faztudoTem que ser mulherão. Ser “gostosa”, bonita e perfumada o tempo todo. Tem que faxinar a casa toda e ainda cheirar a sabonete e ter as mãos suaves como algodão. Tem que “se cuidar”, né? Não pode “relaxar”, não pode engordar, não pode deixar de usar maquiagem, tratar cabelos, pele, unhas. Tem que ser bonita até fazendo cocô.

Tem que ser esposa. Porque uma mulher sem marido é como um peixe sem uma bicicleta água. E não basta casar, tem que “segurar seu homem”, e para segurar o seu homem, ela tem que ser perfeita. Não pode incomodar o maridinho, esse ser tão frágil, com seus problemas do dia-a-dia; quando ELE chega em casa é para descansar, porque ele sim trabalha duro, não é como ela, que praticamente não faz nada o dia inteiro. Tem que ser compreensiva com as “necessidades” dele e estar sempre sorrindo e pronta para fazer sexo olímpico de todas as formas que ELE quiser, porque, né, senão ele vai “procurar lá fora”. E aí você pode até “perder seu homem”. Que vergonha (para você).

Tem que ser dona de casa. Mas tem que ser impecável mesmo. A casa tem que estar brilhando, reluzindo, ofuscando “azinimiga”. Cada coisa no seu lugar, nem mesmo um grão de poeira no chão, nenhuma roupa por lavar, nenhum brinquedo espalhado. E, de novo, tudo isso sem deixar as mãos calejarem, sem ficar fedendo a produto de limpeza e SOZINHA. Porque homem não tem jeito para essas coisas, sabe? E, mesmo que tivesse, não se pode atribulá-los com esse tipo de tarefa, porque eles se aborrecem. E não devemos jamais correr o risco de aborrecê-los.

mulher faz tudo 2Tem que ser profissional. Porque, né, mulher que não trabalha está se aproveitando do marido, é vagabunda encostada em homem. Caçadora de pensão. Então ela tem que trabalhar, e muito, mesmo ganhando menos que os homens que fazem o mesmo que ela faz; tem que ser ultraeficiente, na verdade, trabalhar mais que eles, porque tem que se provar o tempo todo, a menos que queira que insinuem que está ali por ter concedido favores sexuais. Muitas vezes ela inclusive agrega tarefas como fazer cafezinho, atender telefone e ser bibelô de escritório, afinal, esses são “papéis femininos”. Homens não são capazes de dominar a complicada ciência de fazer passar água quente por pó de café, ou atender a um telefonema. Além disso, ela tem que ficar de olho na concorrência, já que “não existe amizade entre mulheres”.

Mas não basta exigir tudo isso da mulher. Tem que incutir nela a ideia de que ELA é quem quer isso tudo para si. De que o valor dela é diretamente proporcional à sua proximidade desse paradigma impossível. Que essa sobrecarga, essa martirização, esse moedor de carne feminina, é uma espécie de calvário, algo que lhe enobrece o espírito e a torna uma pessoa melhor. Que todas as outras mulheres são suas adversárias e que é só preenchendo todos esses requisitos o tempo todo que ela vai ganhar das outras. E que ela tem que ganhar das outras. Sempre.

Kali01-282Na religião hindu há uma deusa que se parece com essa imagem – é, aliás, a referência para muitas das versões dela. Kali, segundo a Wikipédia, “É considerada uma manifestação da deusa Parvati, a esposa de Xiva. Aprecia sacrifícios sangrentos e é representada manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios de seus filhos”.

Muito menos assustadora, à primeira vista, é a imagem da deusa do patriarcado capitalista. Ela também aprecia sacrifícios de sangue, desde que não menstrual, e suor, de preferência sem cheiro, e lágrimas, desde que sem manchar a maquiagem. Mas muitas vezes é representada sorrindo, olha só.

Porque show deve continuar.

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***Meus agradecimentos a Lulu Anders, que também colaborou no post “Despir para Proteger”, por ter me provocado pela primeira vez a reflexão sobre esse tipo de gravura.