Eu hoje fui à praia

praia

Pela primeira vez em meses.

E, pela primeira vez em anos – décadas, na verdade – eu me diverti na praia.

Não me incomodaram tanto o protetor solar grudento, a areia piniquenta, os eventuais lixos que encontrei aqui e ali. E eu que sempre acreditei, do fundo do meu coração, que fossem esses os motivos muito, muito, muito lógicos e sensatos para eu não gostar tanto assim de praia.

Ou de piscina. Porque eu arrematei o banho de mar com um banho de piscina e, olha só, nem me incomodei com o cheiro do cloro, ou com os azulejos escorregadios que antes me davam meio que nojo. Aliás, nada me deu nojo, aquele nojo de arrepiar e dar vontade de ir embora que eu tinha antes. E agora me pergunto se nada me deu nojo porque eu não tenho mais nojo de mim.

E eu nunca estive tão gorda na minha vida!

Isso é chocante, porque eu já estive sarada. Assim como já estive magra demais para o meu biotipo, uma magreza conquistada à custa da perda de muita massa muscular através de regimes obscenos.

Aliás, quantos regimes! E dietas e reeducações alimentares e mentalizações e mantras. E nutricionistas e fórmulas mágicas e viver contando calorias, em função de quanto entra e quanto sai, me medindo pelos números que apareciam na balança, na fita métrica, na bioimpedância.

E os exercícios? Eu trocava minha compulsão por comer por compulsão por fazer exercícios. O objeto era outro, mas o problema continuava lá, embora invisível para as pessoas que só veem problema e desequilíbrio quando ele se manifesta na forma de gordura.

E tudo isso para nada, porque nunca estava bom, porque nunca estaria bom. E não apenas por conta dos meus traços ligeiramente asiáticos, meus ombros largos demais, minhas pernas curtas demais, meus peitos pequenos demais… mas porque o “bom” era simplesmente inatingível.

Eu me lembro de, ainda criança, usar maiô porque tinha raiva das “gordurinhas” que se formavam na minha cintura pueril em torno da calcinha do biquíni. Raiva. De mim. Do meu corpo. Como se ele me traísse, como se ele fosse meu inimigo.

Eu era uma criança vigorosamente atlética, praticamente músculo puro. Não apenas era absurdo e doentio que essa preocupação sequer figurasse na minha mente infantil, mas se tratava de uma percepção já totalmente distorcida.

Eu não tinha sequer menstruado, e já vivia obcecada com a minha barriga, que eu estava sempre “encolhendo”, a ponto de isso afetar a minha respiração.

A apreensão constante em relação ao que estava fazendo dobrinhas, o que estava apertando e mostrando furinhos de celulite, o que estava sobrando, o que estava faltando, o que podia ser melhorado, o que não tinha como ser melhorado, o nariz assim, os pés assado, os peitos isso, a bunda aquilo… era como um ruído de fundo, uma estática que sempre acompanhou a trilha sonora da minha vida, acinzentando as minhas cores, embaçando os meus óculos. Eu me detestava tanto, me sentia tão inadequada, que, ao olhar no espelho, via apenas feiura. Apenas erro.

É só hoje, olhando para as minhas fotos de antes, que eu enxergo o tamanho da minha (des)ilusão.

(Ainda?) Não acho meu corpo bonito, nem vou fingir que, no meu âmago, não preferiria estar magra. Estar magra, para mim, ainda parece ser melhor para dormir, para me movimentar, para achar roupas que me sirvam, para caber em assentos de transportes públicos, etc.

É só que não sinto mais vergonha de mim, do meu corpo. Não sinto mais raiva e repulsa quando me vejo passar em um espelho. Nem me escondo mais dos espelhos. Não sinto que tenho que me desculpar toda vez que como algo na frente de alguém. Nem me sinto mais reprovada, ou como uma pessoa em dívida com o mundo por não se encaixar nos padrões impossíveis de beleza que ele me impõe. Não sinto mais que meu valor como pessoa é inversamente proporcional ao meu peso.

Como eu disse antes, eu nunca estive tão gorda na minha vida. E nunca me aceitei tanto. Nunca me senti tão confortável dentro da minha própria pele, mais serena em relação a quem eu sou.

Mais do que asas, o feminismo nos dá novos olhos. E de repente a gente se vê diante de um mundo que parece que nunca viu antes. Que, na realidade, não parece nem mais bonito, nem mais feio; só mais verdadeiro.

Eu hoje brinquei na praia com a leveza de uma criança pequena.

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