Uma frente unida contra as crianças

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Foto de Levi Bianco. Disponível em https://www.flickr.com/photos/lbianco/6287661518/

O pai perde a paciência e grita com ela. Ela se assusta. Tantas vezes lhe disseram que não se grita, que gritar é desrespeito, que gritar não é certo. Ela então bronqueia com o pai. “Você gritou comigo.” Ao que o pai responde, prontamente “Gritei porque você não me escuta”.

A menina franze a testa, pensativa. Quando ela grita, ela está errada. Quando gritam com ela… ela está errada também. Ela está sempre errada, parece. Afinal, o pai justificou sua conduta com a conduta dela. Ele não pediu desculpas. Ele não reconheceu seu erro. Porque pai não erra. Pessoa adulta não erra. Só criança erra. Criança sempre erra.

Soa familiar? A maioria de nós já passou por isso. Muites, aliás, ainda passam, mesmo depois de crescer. É uma forma de gaslighting (lê-se “gaslaitim”) muito comum que se pratica com a criança. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção, ou nos fazer achar que estamos perdendo a cabeça. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. Agredir uma pessoa e “virar a mesa”, imputando a ela própria a responsabilidade pela agressão sofrida, portanto, é gaslighting.

Agora, imaginemos que a pessoa que, junto com esse pai, cria essa criança, está presenciando essa cena. Como ela deve agir? Ela deve interferir?

É muito comum que as pessoas achem e defendam que não se pode fazê-lo nunca, sob pena de desautorizar a outra pessoa adulta, ou gerar na criança uma sensação de insegurança, de não poder confiar nes adultes em sua vida.

Eu discordo dessa posição. E com muita veemência.

Primeiro porque a autoridade que temos perante nosses filhes não vem de nunca errarmos.

Não precisamos ser infalíveis para que nossa autoridade seja mantida. Não precisamos fingir perfeição sobre-humana para sermos dignes dela. Se entendermos a autoridade como algo que vem naturalmente da compreensão, por uma pessoa, de que outra pessoa está em posição de orientá-la e guiá-la seja em relação a algo específico, seja em relação à vida como um todo, pelo contrário, é a nossa humanidade que serve de exemplo para a humanidade das crianças nas nossas vidas. 

Elas verem que (1) todo mundo erra, e que (2) não é porque alguém erra às vezes que erra sempre, as ajudará a lidar com seus erros de forma construtiva. Aliás, a própria maneira como lidamos com nossos erros serve de modelo para elas. É a nossa chance de ajudá-las a vê-los como oportunidades de aprendizado e não de autodepreciação e flagelação.

Além disso, é perigoso para a autoestima de qualquer pessoa sentir-se a única pecadora num mundo de pessoas virtuosas. É muito acolhedor vermos que a imperfeição não mora só na gente.

Segundo, porque não consigo pensar em nada que cause mais insegurança numa criança que essa noção flutuante de “certo” e “errado”.

A criança, no começo de sua vida, depende de outras pessoas para saber o que é ou não aceito, o que é ou não bom. Com o tempo, aos poucos, ela internaliza isso e passa a, ela própria, balizar seu comportamento, refletindo e aplicando esses valores que ela aprendeu. Esse processo é muito dificultado quando não parece haver lógica naquilo que ela está absorvendo; por exemplo, quando um determinado comportamento só parece ser considerado errado quando vem dela. Com o tempo, para acomodar essa falta de lógica, ela poderá facilmente chegar à conclusão de que o problema não está no comportamento em si, mas nela própria, como pessoa, como ser.

É claro que, às vezes, não vale a pena intervir, ou não é o momento, ou não conseguimos, ou sequer sabemos como. Mas, às vezes, presenciamos desrespeitos que não podemos nos furtar a demarcar de alguma forma.

A criança depende de nós para entender que o que ela está sofrendo é uma injustiça. Ela depende de nós para absorver a noção de que, assim como lhe é exigido respeito, lhe é devido respeito. Ela precisa dessa validação da nossa parte.

Principalmente, ela depende de nós para defendê-la das pessoas que ela ama incondicional e desesperadamente, porque, muitas vezes, ela própria não é capaz de olhar para um pai, uma mãe, ou mesmo avô, avó, tio, tia e registrar que aquela pessoa que lhe é tão querida está agindo com ela de forma injusta. De que aquela pessoa, para quem o carinho dela erigiu um pedestal, está errando com ela e insistindo que não está. E aí, se as outras pessoas adultas que ela tem como referência estão ali em volta e presenciam a cena e se omitem, ela dificilmente conseguirá defender-se emocionalmente dessa violência sozinha – sim, porque é violência que o erro de outra pessoa nos seja imposto como acerto.

A tendência dela, assim, será a de recolher-se em sua incompreensão e culpar-se pelo ocorrido, sentindo-se errada e inadequada e merecedora do que quer que tenha sido feito com ela. Talvez um dia ela se torne uma pessoa cuja reação automática diante de uma grosseria seja encolher-se e culpar-se em silêncio, ou alguém que, para vencer essa reação automática, passe para o outro extremo, tornando-se uma pessoa excessivamente defensiva, reativa, agressiva, mesmo quando não haja de fato qualquer ofensa ou insulto.

Mas mais do que pensar em como isso pode ou não afetar uma criança no futuro, o motivo pelo qual devemos impedir que ela receba um tratamento injusto é simplesmente porque ele é injusto e ninguém merece ser tratado de forma injusta. E não vejo como podemos querer isso para alguém a quem amamos tão profundamente.

Todes nós erramos. Por vezes nós mesmes seremos as pessoas que estão sendo injustas. A questão é: o que você prefere que seja preservado? A sua imagem de infalibilidade ou a autoimagem da criança?

A minha escolha é clara. E é por conta dela que eu intercedo em favor da criança sempre que julgo necessário, e porque peço e espero que façam o mesmo comigo, quando é o caso (como já foi e muito mais vezes do que eu gostaria).

Claro que há coisas que devemos discutir em particular. Mas, além de tudo o que eu já expus acima, há um outro ponto que considero fundamental: o de que é importante que as crianças vejam que é possível discordar com respeito, que discordar em si não é uma ofensa e que, mesmo que as pessoas discordem ou até briguem, elas podem se entender conversando.

E é por isso que me incomoda a abordagem da “frente unida”, em que as pessoas adultas responsáveis pela criança nunca se contradizem diante dela e guardam suas discordâncias, especialmente em relação à sua educação, para quando ela não está por perto.

Quando es adultes formam uma frente unida, o que sobra são crianças excluídas. Porque não apenas elas são a parte mais fraca e frágil da relação familiar, mas as pessoas que ali detêm algum poder estão unidas de uma forma que, muitas vezes, parece ser contra elas.* Ao invés de fomentarmos a visão da família como uma coletividade, um todo, a polarizamos, gerando um antagonismo entre crianças e adultes. E esquecemos que, no fundo, estamos todes no mesmo time.


  • Alfie Kohn fala disso muito lindamente em seu livro “Unconditional Parenting“: “… it’s healthy for children to see that adults sometimes disagree, which helps to underscore that we’re human. Is also allows us to show them how people can resolve their disagreements respectfully – or, in some cases, how we can just learn to tolerate differences. These important life lessons are lost when both parents feel compelled to take the same position on every issue in front of the kids, not to mention the inherent disonesty of doing so.”

Criança não é personagem de RPG

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Tela do jogo Diablo III (da Blizzard Entertainment, 2012)

É muito comum as pessoas nos aconselharem a adotar com crianças determinadas práticas com o intuito de que, no futuro, elas sejam isso ou aquilo ou pensem assim ou assado.

Costumo discordar desse tipo de motivação. Tenho para mim que o nosso trabalho adulto em relação à criança não é construí-la, juntar nela os tijolinhos que nós achamos importantes, mas mostrar a elas a maior variedade possível de tijolinhos e permitir que ela se construa sozinha, nos atendo a dar exemplos e orientação de como ela pode fazer isso e estando sempre presentes caso ela queira a nossa ajuda.

Não gosto do “para que” algo lá na frente. Ser empática com esta criança “para que” ela tenha boa autoestima quando for adulta, ouvir as opiniões dela com atenção “para que” ela não se torne mais tarde uma pessoa que não tem coragem de falar. Se sou empática, é porque quero que essa criança diante de mim se sinta acolhida HOJE, quero fortalecer o nosso relacionamento HOJE. Se ouço seu ponto de vista, é porque quero saber o que ela pensa HOJE e quero que ela saiba que eu me importo em saber o que ela pensa HOJE.

Sinto que, mais que ações direcionadas para um determinado resultado lá adiante, é importante ouvir e respeitar a criança no agora.

Criança é pessoa, não é personagem de RPG ou de videogame, que a gente escolhe como vai ser, se vestir, falar e andar, e gasta pontos colocando nele tal nível da habilidade X ou fortalecendo o atributo Y, e daí sai o boneco do jeito que a gente queria, com tudo aquilo que a gente “aplicou” nele, para agir como a gente quer que ele aja, um mero fantoche nosso.

Com a criança você nunca sabe o que vai dar quando mostra um tijolinho para ela, o que ela vai fazer com aquilo, se vai descartar ou se vai usar, e, se vai usar, onde ela irá colocá-lo, o que ela irá construir com ele dentro ela, como ela irá incorporar aquilo à compreensão de mundo dela.

Você pode, inclusive, fazer algo com um intuito e obter o resultado contrário. Por exemplo, se você coloca seu filho numa aula de artes marciais para que ele seja “bem macho“, ele pode se sentir tão inadequado que pegue total repulsa pelo estereótipo de masculinidade que tanto lhe agrada; ou você pode colocar sua filha na aula de balé para que ela seja uma graciosa dama e ela ficar com ódio do estereótipo da menininha-moça ao qual era o seu objetivo que ela se enquadrasse.

Quando a gente tem filhes, a gente põe gente no mundo. A gente cria pessoas, não bonecos, não objetos sem vida própria. Nós não temos garantias sobre quem elas serão, o que elas pensarão, como elas se sentirão. E isso faz parte da graça, né? Se não queríamos isso, nos contentaríamos com um tamagotchi.

Crianças não são simples extensões nossas, não estão aqui para realizar nossos sonhos, para serem por nós o que nunca fomos, para terem por nós o que nunca tivemos, ou mesmo para darem continuidade à nossa reputação, para podermos contar vantagem para a vizinha, para “nos orgulharmos” delas.

Que egoísmo adultista é esse que educa as pessoas desde cedo para serem dependentes do orgulho materno e paterno?

Para mim, parte essencial de não apenas ser mãe e pai, mas de quebrar o ciclo, é aprender a se desapegar dessas expectativas para permitir que a criança crie suas próprias. E as satisfaça, ou não, ou as mude. Enfim, que ela seja realmente quem ELA quer ser. Que se sinta livre para sê-lo, mesmo que isso nos contrarie. Que saiba que será amada e respeitada, aliás, mesmo que nos contrarie. Que nosso amor não está condicionado à nossa concordância com as escolhas dela.

Hierarquia de opressões

Pyramid with Colors

Se você vê um homem negro sendo machista com uma mulher branca, você vai se omitir porque ele é negro e ela é branca?

Se você vê uma pessoa com deficiência sendo adultista com uma criança sem deficiência, você vai se omitir porque ela é uma pessoa com deficiência e a criança não?

Se você vê um homem gay sendo misógino, você vai se omitir porque ele é gay?

Se você vê uma mulher rica sendo elitista com um homem pobre, você vai se omitir porque ela é mulher e ele é homem?

Se você vê uma pessoa trans branca sendo racista com uma pessoa cis negra, você vai se omitir porque ela é trans e a outra é cis?

Muitas pessoas oprimidas também são, de certa forma, opressoras, assim como muitas pessoas opressoras também são, de certa forma, oprimidas. E muitas pessoas agem como se sofrer opressão fosse carta branca para oprimir.

Sim, há momentos em que quem sofre uma opressão irá, muito compreensivelmente, na minha opinião, reagir de forma violenta e agressiva e não é a isso que me refiro, a não ser que essa pessoa, a pretexto de reagir, passe ela própria a oprimir (por exemplo, uma mulher que foi atacada por um homem negro adotar um discurso racista, como se a agressão dele justificasse a dela). Estou falando de quando uma pessoa que é oprimida em um ou mais níveis pratica uma agressão contra alguém que ela está em posição de oprimir em um ou mais níveis.

E aí? Quem tem o trunfo? Quem tem “mais razão”? Qual é a pior opressão? Existe pior opressão, assim, em termos absolutos?

Para mim, mais importante que determinar “a pior opressão” é enxergar a opressão que eu estou em posição de exercer e cuidar para não fazê-lo. Até porque é esta a que eu posso desconstruir de forma mais imediata e eficaz e é esta que, a meu ver, eu tenho o maior dever de combater.

Seria, claro, muito confortável para mim me entrincheirar nos meus privilégios e me opor apenas aos que não me beneficiam, racionalizando e justificando aquilo que me é pessoalmente vantajoso ou indiferente. Minimizar a opressão praticada por algum grupo do qual eu faço parte (por exemplo, uma mulher branca de esquerda defender seu direito de dizer que quer “matar a mulher negra burguesa) ou mesmo relativizar meu pertencimento a um grupo opressor (por exemplo, quando um homem fala que sofre tanto quanto as mulheres com o machismo, por não ser o “homem ideal).

A partir do momento em que fazemos um recorte absoluto – “estou sempre com todes es operáries contra todes es patrões” ou “estou sempre com todas as mulheres contra todos os homens”, nós restringimos a nossa capacidade de empatizar. Nós alimentamos a noção maniqueísta e absurda de que só é realmente possível acolher alguém se concordamos com todos os seus atos e posicionamentos (o que, além de indesejável, é impossível) e continuamos agindo como se a solução para todos os problemas fosse dividir o mundo ao meio.

A tentação é grande, porque fazer isso facilita as coisas. Não temos que pensar, que refletir, que olhar para os nossos próprios rabos. Nem temos que, muitas vezes, nos indispor com nosses companheires de luta, e/ou com pessoas que amamos e admiramos.

Vem sendo comum, por exemplo, que críticas a eventuais atitudes problemáticas e opressoras dentro feminismo (como racismo, elitismo, transfobia, homofobia, etc.) sejam consideradas “falta de sororidade” por algumas militantes. É muito triste para mim ver a sororidade ser usada como ferramenta para amordaçar outras mulheres, já que me parece, como eu disse antes, que deveria ser o contrário. Que, quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade que me cabe ouvi-la e ampará-la e tentar entender essa crítica e seus fundamentos.

É fácil apontar e lutar contra a opressão cometida por “eles”. Me parece, no entanto, que o mundo só começa a mudar de verdade quando nos lembramos também da opressão cometida por nós.