“Mas eu não abortaria”

Esta semana vi uma campanha no facebook para que mulheres postassem fotos de si mesmas grávidas, dizendo serem contra o aborto.

Muitas participaram, muitas outras participaram para dizer que, apesar de terem filhes, são favoráveis à legalização do aborto, ou pelo menos à descriminalização do aborto. Inúmeros posts foram feitos a respeito, nos mais diversos blogs.

Em meio a isso tudo, no grupo feminista de que participo, uma pessoa querida trouxe um debate muito interessante: a posição do “eu não faria, mas sou a favor” ou “sou a favor, mas não faria”. De onde vem a necessidade de dizer que não faria? Não seria, de certa forma, um julgamento moral, uma forma de dividir as mulheres em duas classes – as que fariam e as que não fariam?

Seria realmente empático da parte de alguém defender o direito ao aborto seguro enquanto ainda se condena essa prática como uma “atrocidade” ou “monstruosidade” ou “assassinato” ou algo assim?

Eu já abortei e, a mim, particularmente e pessoalmente, não me ofende alguém só dizer que não faria. Para mim, não é o mesmo que dizer “considero uma atrocidade, mas apoio o seu direito de cometê-la” ou “acho uma merda, mas ok outra pessoa fazer”, ou mesmo falar “eeeeeeu não faria” (assim, com uma entonação que deixa poucas dúvidas sobre o que a pessoa realmente acha de quem faz).

Um mero “eu não faria”, para mim, soa apenas como uma pessoa falando de si própria. Dizendo que ela, por uma miríade de motivos (que não se atêm aos religiosos, vide haver pessoas religiosas que abortam e pessoas sem religião que não abortam), acredita que não faria um aborto.

Digo “acredita” porque, como quem já engravidou – de propósito ou sem querer, desejada ou indesejadamente – sabe, engravidar muda muita coisa na gente. Eu já vi pessoas que sempre disseram que não queriam ter filhes e que abortariam se engravidassem resolverem ter a criança, assim como já vi pessoas que sempre juraram que nunca, jamais, nunquinha, de forma alguma, abortariam (bastante julgamento moral aí), depois de se verem grávidas, em pouco tempo passarem a pertencer a esse grupo de mulheres que antes elas tanto haviam julgado. Frise-se o plural em ambos os casos, porque não falo de uma mulher nem duas.

Mesmo assim, fica a pergunta do por que, do para quê. De onde vem a necessidade de a pessoa oferecer gratuitamente essa informação sobre si mesma, se é algo que trata apenas dela e não tem nada a ver com apoiar ou não a legalização do aborto?

Bom, primeiro, penso na pressão de outras pessoas – família, amiges, eventuais colegas de trabalho, ou pessoas que frequentem o mesmo lugar de culto religioso – especialmente se estamos falando de posicionamentos em TL de facebook. Essa pressão se torna ainda maior pelo fato de estarmos falando de algo que, infelizmente, ainda constitui um crime na nossa legislação. Não são poucas as pessoas que defendem a suprema baboseira de que o mero falar a respeito e defender a legalização seria um crime em si ( a “Incitação ao crime”, prevista no artigo 286 do Código Penal – “Incitar, publicamente, a prática de crime”), como forma de silenciar e censurar opiniões pró-legalização.

A pessoa que sucumbe a essa pressão tenta fugir da mesma reprovação moral de que nós, mulheres que abortam, sofremos. Eu acho, claro, que seria muito útil que ela desconstruísse isso. Útil para ela e para a coletividade em que ela está inserida. No entanto, não me sinto no direito de exigir essa desconstrução dela, porque penso ser algo que cada pessoa tem seu tempo – e seu desejo ou não – de fazer. Sinto que empurrar pessoas para que enfrentem essa repressão é tão injusto quanto, guardadas, claro, as devidas proporções, exigir que pessoas LGBT saiam do armário quando elas não se sentem prontas para fazê-lo. A pressão para elas é invencível naquele momento.

Todas as vezes em que eu falo sobre aborto há pessoas que me procuram com mensagens privadas de apoio. Muitas delas jamais abortaram e acreditam que não o fariam e mesmo assim empatizam tanto com a mulher que aborta que sentem a necessidade de manifestar isso de alguma forma. O fato de elas temerem sofrer represálias por conta desse posicionamento diminui a validade do acolhimento que elas se dispõem a prestar? Eu sinto que não.

Outro ponto é o valor argumentativo dessa assertiva. Dizer “eu não faria, mas defendo o direito de fazer” realça, para mim, a necessidade de não impormos a outras pessoas nossos próprios valores, crenças, vontades, etc. Frisa a desnecessidade de concordância com o ato para a aceitação dele.

A presença dessa declaração, muitas vezes, longe de ser uma forma de criar a distinção entre as mulheres que fariam e as mulheres que não fariam, é uma forma de lembrar a todes precisamente a irrelevância da posição pessoal de cada ume sobre si mesme quando se pensa numa criminalização que é aplicada a toda a coletividade. É uma forma de demarcar que a legalização obviamente não torna obrigatório o aborto, mas apenas o possibilita para quem o QUEIRA.

Há quem problematize (com muita propriedade) se não seria contraproducente tentar desfazer uma distinção através de uma fala que aparentemente a reafirma. Mas eu acredito que não, porque já vi discussões em que foi esse posicionamento que permitiu que a pessoa percebesse que falar de legalização do aborto não é, necessariamente, falar dela própria abortar ou não.

Um outro aspecto, não menos importante – aliás, o mais proeminente para mim nessa questão da empatia – é a necessidade da pessoa de reafirmar para si mesma valores que, talvez, sinta-se traindo ao defender a legalização do aborto. Porque ela pode ter convicções tão profundas quanto ao aborto ser algo fundamentalmente errado que lhe seja muito difícil conciliar isso com sua defesa do direito de outras pessoas decidirem sobre algo que envolve a autonomia que têm em relação a seus corpos. E falar isso talvez seja a forma que essa pessoa encontrou de ficar em paz com um posicionamento que ela sente ser contraditório ou incoerente. E eu respeito isso.

Eu, pessoalmente, não acredito que um feto seja uma criança, a menos que seja uma criança para a mulher em cujo corpo ele está. Eu penso que o que torna o feto um bebê é a mulher que o carrega vê-lo dessa forma: humanizá-lo, personalizá-lo. Não é algo baseado na ciência ou na religião, é quase uma forma de sentir. Afinal, eu já engravidei três vezes, mas em apenas duas senti que havia uma criança crescendo dentro de mim.

Daí, por pensar dessa forma, às vezes me esqueço de que muitas pessoas acreditam que há um bebê dentro de cada mulher grávida desde o momento em que ocorre a concepção. De que, quando eu falo em aborto, essas pessoas ouvem assassinato. E reagem, muitas vezes, com a mesma revolta com que eu reajo quando pessoas falam de seu “direito” de maltratar crianças.

Então eu tento manter isso em mente nas minhas interações com outras pessoas quando trato do assunto – que elas não necessariamente sentem e pensam como eu em relação a isso e que elas não precisam sentir e pensar como eu para me apoiarem no meu sentir e pensar e, inclusive, agir. Que, aliás, me parece uma grande demonstração da tolerância  que eu considero essencial à vida em sociedade que elas sejam capazes de colocar de lado convicções tão profundas e aceitarem o meu direito de praticar um ato que muitas vezes vai contra tudo em que elas acreditam.

A empatia, para mim, não está em não julgar, mas em colocar o meu julgamento de lado por um segundo e me colocar na posição da outra pessoa, tentar ver pela perspectiva dela o que se passa com ela, me despindo, naquele momento, das minhas próprias crenças, da minha forma de ver o mundo, e adotando as dela.

No meu entender, empatizar inclui aceitar que a pessoa pode pensar diferente. Que ela tem o tempo dela para desconstruir e o querer dela em relação a fazê-lo ou não. E que não é porque eu acho que ela deveria desconstruir que ela tem que desconstruir, já que, assim como eu acho que ela deveria desconstruir, ela também pode achar que quem deveria desconstruir sou eu. A moral de cada pessoa só cabe a ela própria trabalhar – ou não.

Por isso, não me incomoda que a pessoa tenha para si mesma que eu cometi uma atrocidade, uma monstruosidade, um assassinato. Não creio que alguém pense assim porque quer, simplesmente. Conheço casos de pessoas que veem o aborto como infanticídio e mesmo assim o fizeram, porque se viram forçadas a isso pelas circunstâncias em que estavam, e hoje ainda se odeiam por isso. Será que alguém faz isso por vontade? Será que alguém vive em conflito porque gosta de sofrer? Não acredito nisso. Me incomodaria sim se ela manifestasse esse julgamento de forma a me ferir com ele, se ela pretendesse me adequar à moral dela, me impor o sofrimento que ela sentiria no meu lugar.

Agora, obviamente, não é porque algo não me fere que não fere a qualquer outra mulher que tenha feito um aborto. A maioria delas se ressente e muito de ver a necessidade de outras pessoas de logo estabelecerem que não fariam um aborto, mesmo quando defendem sua legalização. E isso, só isso – saber que há alguém que, quando eu falo assim, se sente julgada e discriminada, ao invés de apoiada – para mim, como diria Lucys Santos, já seria motivo para evitar essa fala.

Além disso, o aborto é invariavelmente um tópico delicado para quem passou por ele. Especialmente por conta da ilegalidade, o tratamento (ou até não tratamento, que infelizmente acontece bastante) que mulheres recebem durante o procedimento muitas vezes é traumatizante. A sensação de desamparo, de frieza, o medo de morrer, o medo de ser descoberta, muitas vezes se somam a outros sentimentos comuns (embora nem sempre presentes) a respeito, de pesar, culpa, tristeza, reprovação moral, temor religioso, etc. São lembranças que frequentemente passam a assombrar a mulher que aborta para o resto da vida dela.

Me parece absolutamente irrazoável exigir que alguém que passou por tudo isso, alguém que está na posição de pessoa oprimida, aliás, ainda tenha empatia e compreensão quando as palavras de outres cutucam essa ferida, que tantas vezes sequer chegou a cicatrizar. Que muitas nunca tiveram a chance de elaborar, falar a respeito, por medo de serem presas.

O pior aspecto da criminalização, ao meu ver, é esse silêncio. É essa falta de franqueza, de diálogo. Não só porque haja mulheres sofrendo sozinhas enquanto precisam do nosso apoio, mas porque essa troca facilitaria a empatia tão necessária na compreensão da posição da outra pessoa e no respeito ao direito dela em relação ao seu próprio corpo. Porque é fácil ser contra um ato em abstrato, sem ter que olhar nos olhos de quem o comete. É fácil esquecer quem está ao redor do feto, do embrião, quando aquela pessoa não está diante de você.

Se, por um lado, não temos como mudar de fora a moral das pessoas, por outro, sinto que a legalização seria uma forma de estabelecer limites para que a moral pessoal de um indivíduo não extrapole a sua pessoa, impondo-se a outrem. Ao mesmo tempo, a legalidade abriria o caminho para a conversa que poderia suscitar o acolhimento que permite o apoio à outra pessoa mesmo quando os atos desta contrariam a nossa moral.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já tenham feito pelo menos um aborto. Mulheres solteiras, casadas, com filhes, sem filhes, com grana, sem grana. Olhe ao seu redor, para as mulheres que você ama. Uma delas (ou mais!) pode estar neste momento sofrendo muito com as suas palavras e você jamais saberá disso. Isso não é suficiente para que você reconsidere seu uso?

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Crianças são pessoas

Continuando o assunto da semana passada, resolvi escrever a partir da minha resposta a um dos comentários que apareceram no meu post “Tirania Infantil?”.


Nós vivemos em sociedade. Viver em sociedade significa viver em contato com outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade.

Crianças e suas mães são pessoas. E fazem parte da nossa sociedade. O que é ótimo, a menos que não tenhamos interesse na continuidade dela.

Algo que ilustra bem isso é o nosso atual sistema previdenciário, que é solidário. Ou seja, se você contribui hoje, o seu dinheiro é usado para custear as aposentadorias e demais benefícios que são pagos hoje; quando for a sua vez de receber, o seu benefício será custeado pelas pessoas que estejam trabalhando e recolhendo suas contribuições à previdência naquele momento.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora. Mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar – talvez até mesmo a sua sobrevivência – dependerá. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Mas o mais fácil é nos acomodarmos, responsabilizando apenas a mãe (nem mesmo o pai, olha só o machismo da coisa) pelo bem-estar da criança. O mais fácil é dar de ombros e mandar um “quem pariu Mateus que o embale”, o que é particularmente ridículo e profundamente hipócrita num país em que o aborto é criminalizado – sentir-se no direito de desamparar alguém por conta de uma escolha que ela na verdade foi privada de fazer.

Mas é só dizer isso que aparece alguma alma especial falando algo na linha do “ninguém mandou abrir as perninhas”. Fora o machismo de fazer vergonha a Jece Valadão, eu espero sinceramente que, por uma questão de coerência, quem pense dessa forma mesquinha tome para si mesme seu conselho e se abstenha de manter relações sexuais quando não estiver disposte a procriar. Até porque somente a completa abstenção tem eficácia contraceptiva comprovada de 100% sem riscos e efeitos colaterais – afinal, é muito bonito sair papagaiando que “hoje em dia só engravida quem quer” quando não se tem alergia a látex ou se convive bem com o D.I.U. ou os inúmeros problemas e riscos de saúde que a pílula anticoncepcional traz. Além disso, só para constar, a laqueadura (esterilização feminina) continua sendo tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples.

Enfim, essa visão da criança como uma ferramenta de tortura para mulheres que ousaram fazer sexo e, mais, a visão das mães como pessoas que “trazem problemas ao mundo” por suas “escolhas pessoais” em relação à maternidade é tão comum que acontece até, por exemplo, de recriminarem a mãe por usufruir da licença-maternidade, como se fosse culpa dela – e do bebê – a sobrecarga profissional que eventualmente resulte de sua ausência temporária ao trabalho. Veja só: ao invés de revoltar-se contra sua própria exploração, contra o sistema, contra sue empregadore, a pessoa prefere culpar outra pessoa tão explorada quanto ela.

Acontece até mesmo de feministas terem um posicionamento hostil com relação a crianças e mães, porque transferem para elas (e tudo o que envolva a maternidade) a raiva que sentem da expectativa machista de que, por de serem mulheres, desejem a maternidade e saibam tudo sobre ela e só se sintam plenamente realizadas tornando-se mães.

Eu entendo o ressentimento e reconheço a opressão, mas não acho que uma opressão justifique outra. Essa falta de sororidade e esse adultismo só fazem pisar ainda mais quem já está por baixo e em nada atingem o machismo que é o verdadeiro problema nesse caso.

É comum vermos pessoas falando que não gostam de crianças (ou mesmo que as odeiam, detestam, querem morram todas, etc.). Falando não, bradando, de peito estufado e voz confiante. Enquanto é socialmente inadmissível, hoje, alguém ostentar seu preconceito em relação a qualquer grupo oprimido – pessoas negras, idosas, LGBT, com deficiência, etc. – ninguém parece ter problemas se o preconceito é contra crianças. E, sim, é preconceito você “não gostar de crianças”. Você pode não saber lidar com elas, você pode não saber cuidar delas; já não gostar delas todas, assim, por princípio, só por serem crianças? Preconceito.

E vem a resposta indignada: “mas agora você vai querer cagar regra sobre o gostar alheio? Vai querer me forçar a gostar do que eu não gosto?”

Não. Não posso, e, menos ainda, quero, forçar qualquer pessoa a gostar ou desgostar de nada ou ninguém. O que eu quero é respeito. Para todo mundo. Se você tem preconceitos e não quer desconstruí-los, ok. A cabeça é sua, eu é que não quero entrar nela. Mas vá ter o seu preconceito lá no seu canto, sem incomodar ninguém. Afinal, assim como você tem o direito de gostar ou desgostar do que ou quem for, preconceituosamente ou não, as demais pessoas do mundo têm o direito de não se sentirem discriminadas, desrespeitadas, ofendidas e insultadas simplesmente por pertencerem a um determinado grupo.

Como você se sentiria se alguém declarasse na sua frente – ou até para você – que não gosta de quem é da sua etnia, de quem exerce a sua profissão, de quem tem a sua idade, de quem tem a sua orientação sexual, de quem tem a sua crença ou não crença religiosa? Você não sentiria raiva, medo, tristeza? Não se sentiria, no mínimo, hostilizade?

E por que se supõe que as crianças não sintam isso? Então crianças não têm sentimentos, nem dignidade? Não se ofendem? Não riem quando lhes fazem cócegas? Não sangram quando são espetadas?

Claro que sim. Elas são pessoas. Como eu e você.

Eu já viajei de ônibus e avião com crianças chorando, assim como já viajei de ônibus e avião com pessoas adultas fumando (sim, fumando), gritando, discutindo aos berros, dando chiliques. Mas nunca vi ninguém reclamar da balbúrdia das pessoas adultas da forma como tão unanimemente se reclama desse “insuportável incômodo” que é o choro de um bebê. E isso mesmo quando, evidentemente, a capacidade de uma pessoa adulta de se controlar é infinitamente maior que a capacidade de um bebê de se controlar (se é que cabe controle em relação à única forma que uma pessoa dessa idade tem de demonstrar qualquer tipo de desconforto).

Também já jantei em restaurantes onde havia pessoas adultas agindo de forma extremamente desagradável. Mas é das crianças que brincam e correm que as pessoas reclamam. Ninguém fala nada para as pessoas adultas que agem de forma inconveniente, mas basta uma criança abrir a boca para que alguém já se sinta no direito de olhar feio, ou fazer comentários desaforados e demais malcriações passivo-agressivas ou diretamente agressivas que lhe estejam ao alcance.

Por quê? Por que a nossa tolerância é tão menor com quem, na verdade, mereceria mais dela? Por que não implicamos com alguém do nosso tamanho?

Por covardia. Exigimos das crianças que ajam da forma como é mais conveniente para nós porque estamos na posição de forçá-las a isso, ou de constranger outra pessoa para que o faça, sem nem mesmo nos darmos ao trabalho de avaliar se é mesmo cabível a adequação que estamos demandando. Já em relação à pessoa adulta, via de regra engolimos tudo o que não seja proibido por lei (e até mesmo muitas coisas que, na verdade, o são, vide o caso dos fumantes em aviões e ônibus).

Não estou falando que choro de criança seja melodia celestial, nem estou dizendo que crianças nunca ajam de forma inaceitável (eu sou mãe, sei bem que isso não é verdade). O que eu estou tentando expor neste texto é a suprema hipocrisia adultista, que muitas vezes torna “inaceitáveis” os comportamentos infantis da criança enquanto tolera de pessoas adultas coisas muito piores.

A reflexão que estou fazendo aqui não é no sentido de “vamos deixar as crianças fazerem o que bem entenderem”, mas no sentido de parar de penalizar crianças por serem crianças. De parar de exigir delas (e de cobrar de mães e pais que o façam) um comportamento adulto enquanto negamos a elas a tolerância que teríamos com uma pessoa adulta.

Se o choro do bebê incomoda a você, saiba que a ele incomodam seus fogos e rojões, seus motores barulhentos que fazem fumaça fedorenta, seus gritos, suas baladas, seus aparelhos de som, seus perfumes excessivos, suas televisões, o ruído dos seus animais domésticos, seus cigarros, suas comidas de cheiro forte, suas buzinas, seus aspiradores de pó e demais eletrodomésticos, seus alarmes de carro e de casa e de relógio, suas sirenes, suas luzes, etc. E nem por isso ele te odeia a priori. Olha só. Como são grandes as pequenas pessoas, não?

Quando vamos sair das nossas bolhas adultocêntricas e adultistas e reconhecer que crianças têm tanto direito de ocupar o espaço quanto nós?


 

*Agradeço novamente às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)

Limites

limites

Imagem encontrada em http://brandondouglasmusic.com/

Um post meu do ano passado, chamado “Tirania Infantil?” tem recebido muitos acessos e muitos comentários indignados e ultrajados. Pessoas dizendo que eu estou arrumando desculpas para não educar, nem dar “limites” – porque, aparentemente, falar contra o adultismo e a violência, seja física, seja psíquica, que é praticada rotineiramente contra crianças e adolescentes, é defender a permissividade.

Esse maniqueísmo sempre me choca, mas nunca me surpreende. Afinal, de que outra forma se racionalizaria a adoção de medidas violentas que são não só desnecessárias e inúteis, mas prejudiciais às nossas crianças?

Muito mais fácil tratar o assunto como se só houvesse duas alternativas possíveis: ou a permissividade (que se prevê ominosamente que levará a criança a se tornar um monstro com o misterioso poder de tiranizar pessoas que detém poder quase absoluto sobre ela), ou o autoritarismo (que se supõe que a fará “se ajustar”).

Infelizmente, me parece que, para muita gente, educar ainda é sinônimo de violentar. Se não tem dor, humilhação e imposição, não há educação. Não há “limites”.

Claro, a maioria sequer reconhece que é isso o que está fazendo com a criança. Repete para si mesme e para o mundo que não há violência em só demonstrar carinho quando a criança faz o que lhe é mandado, reprimir demonstrações de carinho quando ela age de forma que se considera negativa, desdenhar da criança, debochar dela, manipulá-la. Até mesmo a violência verbal e física passam por “educação” por aí. Tem quem diga, por exemplo, que “bater para educar não é agredir”.

Pior, qualquer coisa que se assemelhe a ouvir a criança, pedir sua opinião sobre algo que lhe diga respeito, tentar compor vontades (ao invés de simplesmente impor a vontade adulta), é vista como “ser tiranizade” por ela. Afinal, na cabeça dessas pessoas, a esta cabe apenas abaixar a cabeça e obedecer. Ouvir, mas não falar.

São pessoas que estão tão imersas na lógica de OU dominar OU ser dominade, que não são capazes sequer de enxergar qualquer outra forma possível de se relacionar com outrem, menos ainda adotá-la.

E é chato né? Morrer com o mico na mão. Nunca chegar a sua vez. Nos trotes de escola, faculdade ou instituições militares, pessoas que já estão lá dentro (“veteranas”) praticam violências com quem acaba de chegar (“calouras”, “bichos”, “boys”, etc.), sob a premissa de que estas um dia serão, elas próprias, mais antigas ali e terão a chance de fazer o mesmo, ou seja, vingar-se em outras. Repassar as agressões, como se fazê-lo apagasse o que vivenciaram. O que aconteceria se essa cadeia fosse quebrada? Se as vítimas de um momento fossem impedidas de vitimizar em outro?

Eu entendo que nem sempre é fácil ter passado por uma opressão quando se era uma pessoa pequena e frágil – física e emocionalmente – e, depois de crescer, não ter a oportunidade de descontar isso em outra pessoa pequena e frágil. Nem se trata de algo que, na maioria das vezes, é feito de forma deliberada e consciente. Mas creio que seja difícil construir um mundo novo se não estamos dispostes a começar a demolir o velho, e isso inclui o que deveria ser o nosso ponto de partida: a opressão que nós mesmes estamos em posição de exercer.

E há mais em jogo que a mera sensação de “mas agora é minha vez”. Afinal, muitas dessas pessoas passaram por isso e “agradecem muito” a ses mães e pais pelo que lhes foi feito.

Elas aprenderam a entender a brutalidade como forma de amor, porque, do contrário, teriam que lidar com a falibilidade de ses cuidadores, o que já é assustador por si só, e ainda somada à sensação de injustiça e desamor que inevitavelmente emerge quando sofremos uma agressão por parte de alguém a quem amamos.

Além disso, como essas pessoas têm dificuldade de lidar com as coisas em termos que não sejam absolutos, a exemplo da questão permissividade X autoritarismo – lógico, já que foram criadas de forma binária, sendo sempre ou aprovadas ou reprovadas, ou recompensadas ou punidas, ou vencedoras ou perdedoras, ou dominantes ou dominadas – elas não conseguem olhar para o sofrimento pelo qual passaram enquanto cresciam sem sentir que estão invalidando toda a parte boa de suas infâncias, negando completamente seus pais e suas mães.

Por medo de se sentirem ingratas e culpadas, elas preferem simplesmente fingir que tudo se justificava, tudo foi bom, tudo foi lindo. Riem de suas feridas, chamam-se de bobas por sentirem dor, e sentem-se ridículas por ainda se magoarem, caso ses mães e pais (como tantes outres) continuem usando as mesmas táticas violentas com elas mesmo depois de elas crescerem.

Não raro falam que mereceram cada uma das violências a que foram submetidas; mesmo nos casos de mais extrema crueldade isso acontece, coisa que me lembra demais a mulher que passa por violência doméstica e diz que foi ela quem causou a agressão. Que foi ela que disse isto, que fez aquilo, que pensou aquilo outro. Como se as mãos que a seviciaram e a mente que optou por fazê-lo fossem dela própria. Como se houvesse alguma circunstância que justificasse agredir alguém a quem supostamente se ama, e, ainda por cima, menor e mais frágil.

Não à toa, são inúmeros os casos de pessoas que, como eu, depois de sobreviverem à violência doméstica e saírem de relacionamentos abusivos, descobriram que a raiz de sua sujeição a esse tipo de relação era justamente o condicionamento pelo qual passaram durante a sua infância, para que aceitassem a violência (física ou não) como parte de serem amadas. Muitas vezes, inclusive, como demonstração de amor, de cuidado. Que foram programadas por quem as educou, ainda que não intencionalmente, para tolerar o desrespeito e a agressão sem nem retrucar.

Porque, né, temos que “impor limites”. O que importa são os eles. E as regras. O foco é o comportamento, a ação. A parte de fora, a superfície. Não os motivos, o raciocínio ou o sentimento por detrás daquela forma de agir.

Ressalvo que há muitas pessoas perfeitamente antiadultistas que falam de limites em outro sentido, com uma conotação de respeito a outras pessoas. De mostrar às crianças onde a liberdade delas acaba e a de outras pessoas começa e convidá-las, aos poucos e na medida em que se desenvolvem, a fazer cada vez mais essa reflexão. E eu não tenho problemas com isso; pelo contrário, é o que eu mesma tento sempre fazer.

O meu problema é com o fetiche pelo limite como um fim em si mesmo. O limite cuja razão de ser é praticar o nosso poder sobre a criança, podando aqui e ali para exercício do nosso ego e satisfação da nossa gula de mandar, ou, na melhor das hipóteses, a nossa preguiça de pensar a respeito do que se desenrola diante de nós e avaliar caso a caso a forma como devemos agir. Preguiça de sairmos da nossa zona de conforto e nos perguntarmos se os limites realmente se aplicam àquele local, àquele momento, àquelas circunstâncias. Preguiça de abrir mão das soluções prontas e irrefletidas.

Meu problema são os limites que prestam à educação binária do sim ou não, do pode ou não pode, que não permitem conversa nem argumento; os limites adultistas que se fundamentam na suposta ordem das coisas, no “eu mando e você obedece”.

Limites assim são bastante convenientes para es adultes, já que, com eles, não precisamos pensar, transigir, conversar, entender e nos fazer entender. Podemos focar apenas no que acontece fora da criança. Não precisamos ensinar princípios, passar valores. Só “impor limites”.

Como eu já disse no meu texto “A Criança Má”, “Aparentemente, o que queremos criar não são pessoas íntegras, mas pessoas limitadas. E é bem isso o que sobra dessas crianças cuja “altivez” foi quebrada: pessoas limitadas. Limitadas a reproduzir a violência que sofrem, a obedecer quem lhes parece mais forte”. E a sentirem-se no direito de, de fato, tiranizar quem lhes pareça mais fraco.

É a educação pela covardia e para a covardia. Essa é a que tanto degusta a imposição de “limites”. A educação que diz “você vai se adequar ao que eu quiser, porque eu sou mais forte que você”. E a criança cresce querendo logo ser a pessoa mais forte para desforrar em outra, mais fraca que ela, tudo o que passou. Esperando a vez dela, como eu disse antes. Afinal, como diz a frase muito citada de Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

As pessoas adoram falar de bullying, mas poucas se mostram dispostas a analisar as origens dele dentro da própria família de quem o pratica, ou mesmo na atitude adultista de muites professores.

Preferem tratar do assunto como se toda a maldade tivesse origem espontânea dentro da criança e, muitas vezes, inclusive, como desastrosa solução para o caso, incentivam pais e mães a adotarem ainda mais das medidas autoritárias e violentas que, se não causaram o problema, certamente contribuíram grandemente para ele.

É como se as crianças e adolescentes vivessem num universo paralelo ao qual não se aplicassem as noções de justiça, igualdade e respeito pelas quais tanto lutamos entre pessoas adultas.

É mesmo assim tão difícil entender que crianças são pessoas?


*Agradeço às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)

Semana que vem falarei mais sobre o tema!