Crianças são pessoas

Continuando o assunto da semana passada, resolvi escrever a partir da minha resposta a um dos comentários que apareceram no meu post “Tirania Infantil?”.


Nós vivemos em sociedade. Viver em sociedade significa viver em contato com outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade.

Crianças e suas mães são pessoas. E fazem parte da nossa sociedade. O que é ótimo, a menos que não tenhamos interesse na continuidade dela.

Algo que ilustra bem isso é o nosso atual sistema previdenciário, que é solidário. Ou seja, se você contribui hoje, o seu dinheiro é usado para custear as aposentadorias e demais benefícios que são pagos hoje; quando for a sua vez de receber, o seu benefício será custeado pelas pessoas que estejam trabalhando e recolhendo suas contribuições à previdência naquele momento.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora. Mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar – talvez até mesmo a sua sobrevivência – dependerá. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Mas o mais fácil é nos acomodarmos, responsabilizando apenas a mãe (nem mesmo o pai, olha só o machismo da coisa) pelo bem-estar da criança. O mais fácil é dar de ombros e mandar um “quem pariu Mateus que o embale”, o que é particularmente ridículo e profundamente hipócrita num país em que o aborto é criminalizado – sentir-se no direito de desamparar alguém por conta de uma escolha que ela na verdade foi privada de fazer.

Mas é só dizer isso que aparece alguma alma especial falando algo na linha do “ninguém mandou abrir as perninhas”. Fora o machismo de fazer vergonha a Jece Valadão, eu espero sinceramente que, por uma questão de coerência, quem pense dessa forma mesquinha tome para si mesme seu conselho e se abstenha de manter relações sexuais quando não estiver disposte a procriar. Até porque somente a completa abstenção tem eficácia contraceptiva comprovada de 100% sem riscos e efeitos colaterais – afinal, é muito bonito sair papagaiando que “hoje em dia só engravida quem quer” quando não se tem alergia a látex ou se convive bem com o D.I.U. ou os inúmeros problemas e riscos de saúde que a pílula anticoncepcional traz. Além disso, só para constar, a laqueadura (esterilização feminina) continua sendo tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples.

Enfim, essa visão da criança como uma ferramenta de tortura para mulheres que ousaram fazer sexo e, mais, a visão das mães como pessoas que “trazem problemas ao mundo” por suas “escolhas pessoais” em relação à maternidade é tão comum que acontece até, por exemplo, de recriminarem a mãe por usufruir da licença-maternidade, como se fosse culpa dela – e do bebê – a sobrecarga profissional que eventualmente resulte de sua ausência temporária ao trabalho. Veja só: ao invés de revoltar-se contra sua própria exploração, contra o sistema, contra sue empregadore, a pessoa prefere culpar outra pessoa tão explorada quanto ela.

Acontece até mesmo de feministas terem um posicionamento hostil com relação a crianças e mães, porque transferem para elas (e tudo o que envolva a maternidade) a raiva que sentem da expectativa machista de que, por de serem mulheres, desejem a maternidade e saibam tudo sobre ela e só se sintam plenamente realizadas tornando-se mães.

Eu entendo o ressentimento e reconheço a opressão, mas não acho que uma opressão justifique outra. Essa falta de sororidade e esse adultismo só fazem pisar ainda mais quem já está por baixo e em nada atingem o machismo que é o verdadeiro problema nesse caso.

É comum vermos pessoas falando que não gostam de crianças (ou mesmo que as odeiam, detestam, querem morram todas, etc.). Falando não, bradando, de peito estufado e voz confiante. Enquanto é socialmente inadmissível, hoje, alguém ostentar seu preconceito em relação a qualquer grupo oprimido – pessoas negras, idosas, LGBT, com deficiência, etc. – ninguém parece ter problemas se o preconceito é contra crianças. E, sim, é preconceito você “não gostar de crianças”. Você pode não saber lidar com elas, você pode não saber cuidar delas; já não gostar delas todas, assim, por princípio, só por serem crianças? Preconceito.

E vem a resposta indignada: “mas agora você vai querer cagar regra sobre o gostar alheio? Vai querer me forçar a gostar do que eu não gosto?”

Não. Não posso, e, menos ainda, quero, forçar qualquer pessoa a gostar ou desgostar de nada ou ninguém. O que eu quero é respeito. Para todo mundo. Se você tem preconceitos e não quer desconstruí-los, ok. A cabeça é sua, eu é que não quero entrar nela. Mas vá ter o seu preconceito lá no seu canto, sem incomodar ninguém. Afinal, assim como você tem o direito de gostar ou desgostar do que ou quem for, preconceituosamente ou não, as demais pessoas do mundo têm o direito de não se sentirem discriminadas, desrespeitadas, ofendidas e insultadas simplesmente por pertencerem a um determinado grupo.

Como você se sentiria se alguém declarasse na sua frente – ou até para você – que não gosta de quem é da sua etnia, de quem exerce a sua profissão, de quem tem a sua idade, de quem tem a sua orientação sexual, de quem tem a sua crença ou não crença religiosa? Você não sentiria raiva, medo, tristeza? Não se sentiria, no mínimo, hostilizade?

E por que se supõe que as crianças não sintam isso? Então crianças não têm sentimentos, nem dignidade? Não se ofendem? Não riem quando lhes fazem cócegas? Não sangram quando são espetadas?

Claro que sim. Elas são pessoas. Como eu e você.

Eu já viajei de ônibus e avião com crianças chorando, assim como já viajei de ônibus e avião com pessoas adultas fumando (sim, fumando), gritando, discutindo aos berros, dando chiliques. Mas nunca vi ninguém reclamar da balbúrdia das pessoas adultas da forma como tão unanimemente se reclama desse “insuportável incômodo” que é o choro de um bebê. E isso mesmo quando, evidentemente, a capacidade de uma pessoa adulta de se controlar é infinitamente maior que a capacidade de um bebê de se controlar (se é que cabe controle em relação à única forma que uma pessoa dessa idade tem de demonstrar qualquer tipo de desconforto).

Também já jantei em restaurantes onde havia pessoas adultas agindo de forma extremamente desagradável. Mas é das crianças que brincam e correm que as pessoas reclamam. Ninguém fala nada para as pessoas adultas que agem de forma inconveniente, mas basta uma criança abrir a boca para que alguém já se sinta no direito de olhar feio, ou fazer comentários desaforados e demais malcriações passivo-agressivas ou diretamente agressivas que lhe estejam ao alcance.

Por quê? Por que a nossa tolerância é tão menor com quem, na verdade, mereceria mais dela? Por que não implicamos com alguém do nosso tamanho?

Por covardia. Exigimos das crianças que ajam da forma como é mais conveniente para nós porque estamos na posição de forçá-las a isso, ou de constranger outra pessoa para que o faça, sem nem mesmo nos darmos ao trabalho de avaliar se é mesmo cabível a adequação que estamos demandando. Já em relação à pessoa adulta, via de regra engolimos tudo o que não seja proibido por lei (e até mesmo muitas coisas que, na verdade, o são, vide o caso dos fumantes em aviões e ônibus).

Não estou falando que choro de criança seja melodia celestial, nem estou dizendo que crianças nunca ajam de forma inaceitável (eu sou mãe, sei bem que isso não é verdade). O que eu estou tentando expor neste texto é a suprema hipocrisia adultista, que muitas vezes torna “inaceitáveis” os comportamentos infantis da criança enquanto tolera de pessoas adultas coisas muito piores.

A reflexão que estou fazendo aqui não é no sentido de “vamos deixar as crianças fazerem o que bem entenderem”, mas no sentido de parar de penalizar crianças por serem crianças. De parar de exigir delas (e de cobrar de mães e pais que o façam) um comportamento adulto enquanto negamos a elas a tolerância que teríamos com uma pessoa adulta.

Se o choro do bebê incomoda a você, saiba que a ele incomodam seus fogos e rojões, seus motores barulhentos que fazem fumaça fedorenta, seus gritos, suas baladas, seus aparelhos de som, seus perfumes excessivos, suas televisões, o ruído dos seus animais domésticos, seus cigarros, suas comidas de cheiro forte, suas buzinas, seus aspiradores de pó e demais eletrodomésticos, seus alarmes de carro e de casa e de relógio, suas sirenes, suas luzes, etc. E nem por isso ele te odeia a priori. Olha só. Como são grandes as pequenas pessoas, não?

Quando vamos sair das nossas bolhas adultocêntricas e adultistas e reconhecer que crianças têm tanto direito de ocupar o espaço quanto nós?


 

*Agradeço novamente às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)

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