Flutuando

Foto de participante do curso curtindo o amanhecer. Tirada por Alam Kenji Minowa. 

“Para você, que gosta de gatos” dizia a legenda da pessoa que me mandou o vídeo. Era um vídeo sobre como se comportavam os gatos em gravidade zero. Que nem em uma estação espacial.

Acontece que gatos, como se sabe, têm um sistema interno muito interessante que lhes permite quase sempre cair de pé. Se você solta o gato no ar, mesmo que ele esteja com os pés para cima, ele rapidamente identifica onde é em cima, onde é embaixo e gira o corpo, primeiro a metade dianteira, depois a traseira e voalá. Aterrisagem leve e perfeita, com as quatro patas lindamente cravadas no chão.

E em gravidade zero?

Em gravidade zero, não há em cima, não há embaixo. Não há cair. Daí que o gato fica se torcendo desesperadamente para um lado e para o outro, tentando identificar o “chão”.

Eu não gostei do vídeo, achei enervante, angustiante. Mas muitas pessoas – como a que o enviou para mim, suponho – acham aquilo engraçado, fofo. Se você quiser ver, eis o link.

Este texto, no entanto, não é sobre o sofrimento dos animais em experimentos conduzidos por seres humanos (apesar de eu ser solidária à causa), mas para falar sobre um curso que eu fiz em fevereiro passado, chamado “Seminário As One“, oferecido pela Vila Yamaguishi, em Jaguariúna.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Me dê um segundo que eu já chego lá.

O seminário são oito dias de imersão em grupo (de preferência um grupo de pessoas que não se conheçam entre si), em um sítio, sem contato com o mundo exterior (nem mesmo por celular), refletindo intensamente sobre questões simples, mas fundamentais da nossa existência.

Basicamente, conduzimos, de forma científica, uma pesquisa em torno do zero (no sentido de esvaziamento das nossas presunções, pré-concepções, preconceitos, dogmas, etc.) através do reconhecimento e temporária suspensão de tudo aquilo que não é esse zero.

(E, ah, como tem coisa que não é o zero… é de cair o cu da bunda, como se diz no sul.)

A premissa já é muito interessante, mas o método, a forma como essa investigação ocorre, também é completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha vivenciado. Os “zeladores” – como são chamadas as pessoas de lá que nos acompanham durante o curso – muito pouco falam. E, quando falam, normalmente é na forma de perguntas. O que acaba acontecendo é que, apesar de haver uma orientação básica em uma direção, quem anda são os integrantes do grupo, com suas próprias pernas… e o caminho leva cada pessoa, ao mesmo tempo, para dentro e para fora de si mesma.

A furiosa (em intensidade e, em alguns momentos, humor) pensação é interrompida somente para alimentação, banheiro e higiene pessoal e do ambiente. Ah, e alguns minutinhos de leves exercícios para começar o dia. É puxado, uma maratona cerebral mesmo – ainda que sobre assuntos que não sejam só intelectuais. Até eu, que me considero uma pessoa bastante racional, porque vejo que muito do meu processamento das coisas passa pela minha cabeça e, especificamente, pela sua articulação em palavras, fiquei em algumas horas com uma vontade louca de, sei lá, fazer uma ciranda, uma pintura, dançar…

E, no entanto… “Dá vontade de sair para dar uma volta”, uma colega comentou num dado momento. Um dos zeladores levantou as sobrancelhas: “Ué, e por que você não vai?” Não era uma pergunta retórica. Algo que é vivido no seminário, desde o momento de chegada até o momento de partida, é que não existe obrigação. Existe escolha. Eu posso não gostar das escolhas que tenho ao meu dispor, mas isso não faz da minha escolha menos escolha.

E foi com pequenos detalhes assim que, nessa busca, eu fui perdendo meu chão… meu em cima, meu embaixo, meu norte, meu sul. O que enfim traz à baila os gatos em gravidade zero. Porque, de repente, me peguei agradecida por ter visto o tal vídeo, mesmo que não tenha gostado dele, porque me trouxe acolhimento encontrar a imagem perfeita para ilustrar o furacão de sentimentos dentro de mim – e de tantas outras pessoas, aparentemente.

Eu passei uma vida toda aprendendo a designar um céu e uma terra; desenvolvendo esse hábito a partir de uma necessidade de segurança, de não querer me machucar, de querer cair de pé. E agora eu estava vendo que, no fundo, nunca houve céu nem terra, mas apenas escolhas minhas de ir em uma direção ou em outra, baseadas na minha forma de ver a vida e o mundo e eu mesma. E que, por hábito, por medo, eu agora, tendo me privado dos meus eixos de costume, me contorcia, procurando alguma base de sustentação.

Essa ideia me permitiu colocar de lado o meu desespero para fazer eu mesma o experimento de simplesmente me deixar flutuar. E então perceber que não estava caindo. Porque a sensação da queda – e seu impacto – vinham da mesma ilusão que me trazia segurança, ou seja, a ideia de que havia direções certas e erradas para eu seguir.

Naquele momento, desvencilhada dessa ilusão, eu tomava consciência de que era livre para flutuar.

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***Você pode ler mais sobre a minha experiência no Seminário As One na página de depoimentos, aqui.

***Você pode encontrar mais informações sobre os próximos seminários, custos etc., aqui.

Pintura da artista Bronwin Schuster, encontrada em https://www.boredpanda.com/cats-in-space-bronwyn-schuster/

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