O corpo da mãe

corpo

Assim que eu pisei dentro do círculo, pensei que tinha feito merda. Porque o que estava vindo não era o que eu achava que iria vir e estava tão forte, tão intenso. Será que eu estava preparada para o que estava atrás da porta que eu estava prestes a abrir?

Eu estava num ‘fórum’ ou ‘círculo de confiança’, uma prática que está começando a se difundir no Brasil, voltada à promoção de transparência, confiança e gestão emocional em coletividades. Já falei a respeito antes.

Aquele círculo, em particular, era temático, ou seja, tinha um tema preestabelecido e as pessoas podiam ir entrando, se quisessem, para discorrer sobre aquele assunto na sua vida naquele momento, diante dos olhares empáticos e sustentadores des demais participantes do círculo.

O tema da sessão era, simplesmente: meu corpo.

Eu não queria entrar. Eu pensei e pensei e não achei muito o que falar disso naquela hora. A coisa mais viva dentro de mim a esse respeito me parecia ser o esporão no calcâneo que me causava dores ao caminhar e me impedia de correr já há quase seis meses.

Assim que o centro foi aberto, no entanto, eu senti algo que aprendi ser, em mim, o “chamado” do campo do fórum, o sinal de que é hora de eu entrar: o coração batendo acelerado, as pernas inquietas, a vontade de levantar.

Eu não queria entrar. Meu calcanhar não parecia lá tão importante naquele momento.

Minha pulsação ficou ainda mais pesada, veio para meus ouvidos, minha garganta.

Esperei ainda alguns segundos, talvez por covardia de antecipar que não seria tão simples, talvez  por medo de monopolizar o tempo disponível. Então fiquei tentando conter tudo aquilo, a pretexto de ver se não tinha mais alguém que quisesse entrar primeiro, me sentindo uma garrafa de coca-cola recém-chacoalhada.

Mas o tempo passou e ninguém me salvou; eu já não tinha mais como conter aquela erupção.

Me ergui, meio a contragosto, uma parte de mim brigando e querendo ficar sentada. Tive uma troca de olhares com a facilitadora, em que tive a impressão de que ela percebeu o meu conflito interno e checava se eu estava presente, consciente, responsável por mim.

Sim, eu estava – estava na chuva e já disposta a me encharcar.

Dei meu primeiro passo e já não me lembrava mais o que eu queria dizer. Meu corpo inteiro se eletrizou, como se atingido por um raio. Eu estava tremendo, minhas mãos formigavam, minhas pernas estavam bambas, mas eu caminhava em passos, enérgicos, largos, fazendo círculos dentro do círculo, procurando dentro de mim as palavras. A cada movimento, eu sentia chegando até mim o cuidado, o respeito, a segurança das pessoas que, sentadas, me observavam em silêncio.

As lágrimas começaram a correr grossas, viscosas, quase, pelo meu rosto e, de repente, da minha boca saiu:

“Eu sou mulher?”

E, logo em seguida, com mais dor, mais lágrimas:

“Eu sou mulher! … Mas… eu sou mulher?”

Um segundo de silêncio e de novo irrompeu de mim:

“Este corpo, é de mulher?”

Agora eu girava em mim e girava no círculo, rotação e translação, sem lua, sem sol, sem rumo preciso, sem saber onde queria chegar, mas sabendo que queria chegar.

Mais uma contração e eu expeli:

“Se este corpo não é de mulher então é de quê?”

Um soluço fundo socou meu peito.

“Quem eu sou?”

Parei, chorando muito, de olhos fechados.

A facilitadora me chamou, me guiando para que eu não me perdesse em mim. “Para quem você está perguntando, Naomi?”

Eu ali era Naomi, não Letícia. Não podia ser Letícia, porque seríamos duas Letícias e isso causaria confusão. E o meu nome de criança, meu nome japonês, meu nome secreto, meu nome de dentro da família, dito ali, enquanto eu chorava, aberta, exposta, foi como um carinho de mãe depois de um susto grande. Me veio um suspiro de alívio lá de dentro da alma.

Um segundo depois, me lembrei das minhas colegas de balé caçoando de mim, cantando “Naomi, ‘não-é-hómi’, mas parece…” e a vergonha me invadiu rápido, me fez temer ser ridícula.

Olhei em volta, buscando o cuidado, o carinho do círculo. A reafirmação de que eu poderia deixar vir, deixar nascer, que o que viesse seria aceito, seria bem-vindo. Que aquele meu presente para mim e para o grupo era desejado.

Senti o amor chegando até mim, me segurando em pé, me amparando na minha pesquisa de mim. Outro afago de mãe, outro suspiro. Eu não estava sozinha.

Respirei fundo, foquei na pergunta; como ela chamava a razão, a emoção que me agarrava aliviou um pouco a pressão sobre o meu corpo, meu pescoço. Minha voz se desembargou.

“Não sei. Para alguém que possa me responder.” Aqui uma pontada de raiva, como uma irritação sem um alvo particular, uma frustração de quem não encontra o caminho que parece que está perto, mas não vem. Uma tristeza que não queria ser tristeza, que não queria aceitar. Impaciência? Talvez.

“E quem você acha que pode responder isso?” Ela me perguntou então, com um sorriso suave, curioso, reassegurador.

Eu ri pequeno.

“Eu”.

Ela me perguntou se eu gostava do meu corpo, do que ele me proporcionava.

Eu comecei a dizer que sim, que gostava do meu corpo, e então a co-facilitadora me perguntou se eu me importaria de mostrar mais desse corpo de que tanto falávamos.

Eu estava usando uma jaqueta enorme e pesada. Tirei. Não me contentei e tirei também a camisa, ficando só de sutiã. Teria tirado mais, mas senti frio. Eu me sentia segura ali; se quisesse poderia ficar totalmente nua. Na verdade, já estava.

Completei então me acariciando, agradecendo ao meu corpo, relembrando coisas e sensações que ele me trazia – movimento, conquista, prazer. A alegria me deixou leve e fez brotar de mim:

“Meu corpo me deu uma filha e um filho. E fez leite para eles.”

As lágrimas voltaram, agora mais fluidas. De repente me senti muito só. Só eu.

Era a primeira vez que eu ficava sem as crianças por tanto tempo. Meu marido foi com elas visitar a mãe dele e eu tive “férias” por um mês inteiro. Há seis anos e meio eu não ficava sozinha só comigo, sem qualquer preocupação imediata na minha cabeça que não fosse o meu próprio bem-estar. Há seis anos e meio meu corpo não era só meu, mas dividido com crianças que queriam colo, que queriam peito.

E o tempo de peito estava chegando ao fim. Depois de seis anos e meio.

Era uma delícia agridoce estar só comigo e eu estava desfrutando dela ao máximo em cada segundo. Mas foi só naquele instante que eu me dei conta de que estava atravessando uma crise de identidade por conta disso. E a profundidade dela.

De repente, me veio o grito:

“Mãe?”

“MÃE?!”

“MÃÃÃEEE!!!”

E a resposta, em seguida, melancólica, serena, aceitando a verdade:

“Não tem mais mãe. A mãe agora sou eu.”

(Eu ainda tenho mãe. Não era sobre ter a mãe. Era sobre ser adulta. Sobre ser responsável não só por mim, mas por outras duas pequenas pessoas também.)

Era o fim de uma era. O fim de uma eu.

O fim de uma eu muito querida, que trouxe tantas coisas novas, tanta mudança, tanta revolução para mim e, por tabela, para quem estava ao meu redor. E o começo de uma nova eu, com tanta promessa e esperança de ainda mais aventuras.

Mas uma precisava morrer para a outra poder nascer. E como eu iria fazer a transição de uma vida para a outra? Como eu iria conciliar as atividades dessa nova eu com a minha maternidade, essa nova maternidade dessa nova mãe que eu agora era? E quem era ela?

Meu corpo agora voltava a ser só meu. Mas que corpo era esse, agora?

Seis anos e meio.

Eu agora voltava a ter tempo para mim. Mas quem era a pessoa que eu ia encontrar nesse retorno para mim?

Seis anos e meio.

Será que eu ia gostar dela? Será que ela ia gostar de mim? Será que ela iria conseguir cuidar das crianças – dentro e fora de mim?

Aquele círculo me mostrou – melhor dizendo, me ajudou a ver – que viver o luto era o que abriria caminho para a minha celebração.

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