Mais sobre a proteção

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O post anterior rendeu muito papo.

Lulu Anders, que colaborou comigo para fazer aquele texto, discutindo essa repercussão, escreveu algo que me representa tanto, que eu achei tão lindo, que resolvi inaugurar uma seção de Guest Posts, só para poder trazer para cá a manifestação dela, com a devida permissão dela e algumas mínimas alterações minhas.

“Eu acho que a atitude do pai diante do filho mexe com um caminhão de certezas e verdades que carregamos com convicção e que usamos para atropelar quem ameaça nos desestabilizar com a perspectiva do novo.

O que mais me assustou nesse vídeo foi a coerência daquela imagem com a visão corriqueira de que, sim, devemos proteger, nem que seja socando e humilhando, para que a pessoa protegida não seja socada e humilhada pelo mundo, pela vida, “pela polícia”, como dizem tantos.

São a família e o Estado o mesmo leviatã, dominando e amedrontando com a ameaça do caos. Família e Estado equiparados, iguais. E igualmente perversos e cegos pelo próprio poder.

O que levou aquele menino até ali? Será que ele não queria mudar o mundo para realizar seu eu oprimido? Será que viver segundo o que se lhe impõe é insuportável e, na sua idade, ainda ele ainda não está devidamente domado após sucessivos “banhos de realidade”? Que realidade? A história esta aí para mostrar que a realidade se faz e refaz e desfaz o tempo todo.

Se eu amar e respeitar uma pessoa, ouvindo-a quando ela quer e precisa, será que ela não me ouviria também? Será que exclamaria, no meio de uma situação como a vista, “você não fala comigo”?

A pessoa jovem deseja mudar o mundo que a trata com injustiça e crueldade. Insurgir-se contra tiranias como essa é a forma como ela se mantém sã em uma sociedade doente. Mas é um duelo de Davi contra Golias. E quando lhe quebram a espinha, ela não raro adoece. E ganha um diagnóstico para justificar seu desejo pelo extraordinário. Pelo extra-ordinário. Pelo novo.

É sinal de saúde e maturidade se adequar a uma sociedade doente?

Esse pai (e, para que fique claro, agora já falamos de um arquétipo de pai, de uma forma de criar e educar) quer proteger o filho de quê? Das frustrações por não conseguir mudar o mundo? E as frustrações por nunca ter tentado, não doem uma vida toda?

Por que não nos abrirmos para que nossas crianças realizem suas potências e pisem em nossas verdades, para que descubramos juntas um mundo novo? Por que não protegê-las da iniquidade, ao invés de protegê-las de seus sonhos?

Podemos querer defendê-las do mal, mas de que valeria isso se lhes sufocássemos o espírito, se as amordaçássemos e acorrentássemos numa realidade que repudiam?

Não queremos que se machuquem, queremos que vivam, que estejam saudáveis. Mas para isso não podemos nós próprios nos tornar quem cala, viola, humilha.

Não seriam muitas vezes as pessoas que defendem esse cerceamento de alma as mesmas que reclamam da juventude apática, modorrenta, sem iniciativa?

De que vale uma vida sensata, mas sem sentido?

Digamos, então: “Vou com você, meu amor. Já que você quer um mundo melhor, já que esse é o seu sonho, eu, que te amo, vou com você até o fim. Permita-me fazer-lhe companhia nesse engajamento. E cuide-se, pois, sem você, eu morreria.”

Quando você traz ao mundo uma pessoa revolucionária, é inútil tentar segurar o vento. Amemos e cuidemos e ouçamos e respeitemos. Sejamos dignos de acompanhá-la em sua luta.

Proteger não é prender em grilhões ou cortar asas. Proteger é um processo de cuidado, atenção e respeito, que habilita o sujeito a ser livre e feliz, como a mãe pássaro que encoraja seus filhotes para o vôo.

Dói a liberdade do outro, né? Dói ver nosso maior amor cair na vida sem garantias. Dói muito. Mas amar é aprender e essa dor é a parte mais dura de nosso aprendizado.

Eu quero aprender. Quero ter o coração aberto e a mente iluminada para o enorme aprendizado de acompanhar o crescimento de alguém. Que eu possa, com meu amor, criar vida. E que eu tenha coragem e dignidade para ver meu filhote voar sem o desejo mórbido de cortar-lhe as asas.”

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