Quem será que limpa a casa da empregada?

Este é um guest post de autoria da Cris Matos, publicado originalmente na Revista Fórum em 29/06/2015.

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Nasci no dia 23 de julho de 1994 em João Pessoa-PB às 5h20 da manhã. Minha mãe vem de uma família muito pobre em uma cidade muito pequena da Paraíba. É uma mulher que não se declara negra, mas nunca foi lida como branca. Sofreu algumas formas de racismo, principalmente quando ainda tinha um black power com cabelos crespos, ou carregava no colo a filha branca de cabelos claros.

Eu sou essa criança; apesar do nariz largo e os lábios grossos como da minha mãe, sou branca como meu pai. Meu pai (ausente toda vida) é um homem branco de olhos verdes, escolarizado, que trabalhou por anos em um cargo alto em uma grande empresa automotiva e por coisa de quatro anos não tinha o dobro da idade da minha mãe.

Pouco sei sobre ele, e depois de quase 21 anos isso não faz tanta diferença. Eu quero falar da minha mãe. Ela eu sei quem é, e ela me importa falar quem é. Não posso falar por ela, apesar de muitas opressões que ela sofreu e sofre terem respingado em mim e fazerem diferença em quem eu sou hoje.

Podem me chamar de Cris, sou filha de uma empregada doméstica.

Após meu pai nos abandonar, eu e minha mãe viemos para São Paulo. Ela tinha 26 anos e eu 2 anos e 9 meses. Viemos com a patroa dela, com a esperança de um emprego e uma vida melhor.

Não foi bem isso que aconteceu. Poucos meses depois ela foi demitida. Moramos de favor por um tempo, e assim que minha mãe se restabeleceu ela passou a carregar toda uma família nas costas.

Minha mãe lê e escreve muito mal. Quase não teve acesso à escola, e o pouco que teve era precário. Meu avô trabalhava em um parque carpindo, minha avó cuidava de mim e meu tio menor de idade também trabalhava. Minha mãe era a única que sabia ler, e era quem mais ganhava para por comida em casa.

Eu quase não via minha mãe, ela saia muito cedo e chegava muito tarde. Tenho poucas lembranças de passeios que fiz com ela, mas lembro bem dela contando dos filhos de suas patroas, o que faziam, o que deixavam de fazer. De quando ia levá-los e buscá-los na escola, ou da viagem que fizeram à praia.

Eu, que nasci em uma casa de frente pra praia de Tambaú, nunca tive oportunidade de conhecer o mar, muito menos com a minha mãe. A patroa tinha ciúmes da minha mãe com os filhos dela, e eu também.

Meus passeios eram com a minha avó, devo dizer que talvez essa seja a parte mais feliz de toda minha infância, eu brincava a tarde toda no parque em que meu avô trabalhava. É um parque em uma área até que mais “rica” de São Paulo. Eu estava lá diversas vezes por semana, às vezes dia sim dia não, às vezes só não ia no domingo que minha mãe estava de folga.

Lá, eu fazia muitos amigos que iam com babás, quase nunca alguém com o pai, de fim semana tinha vários avós, mães, famílias completas…

Minha mãe só pôde me levar em um parque quando não tinha mais graça.

Conforme os anos passavam, via minha mãe chegar cansada em casa, estressada. Eu quase não via TV nessa época e não era porque minha mãe achava que me prejudicava. Era porque só tinhamos uma e, após fazer o jantar – que quando ela chegava tarde era miojo – ela queria deitar e assistir TV. Óbvio que eu chorava porque queria ver as Meninas Superpoderosas, mas não tinha conversa.

Hoje eu a entendo. Minha mãe às vezes se lamentava de não poder comprar mais uma TV, ficava com dó de eu não poder assistir. E deixava os filhos da patroa às vezes verem TV quando não podia porque “que frescura de fazer mal, tem várias TVs na casa, se não tivesse ia querer que assistissem”.

Mas todo domingo de manhã assistíamos juntas a alguns desenhos. Sonhava também em me dar um computador, os filhos da patroa tinham, ela se preocupava em saber que quem não soubesse mexer no computador teria dificuldade de estar no mercado de trabalho. Ganhei um computador com 15 anos de idade.

Minha mãe ouvia a patroa falar sobre criança ser criança, sobre a pressão para uma criança já ir sendo moldada para o mercado de trabalho, e me perguntava todos dias qual seria minha profissão. Eu não tinha muito tempo de sonhar, minha mãe me dizia: “mas isso não dá futuro! Você não pode ser todas essas coisas ao mesmo tempo, tem que escolher algo que te dê futuro.”

Minha mãe engravidou e isso mudou minha vida. As nossas vidas.

Eu tinha quase 8 anos quando minha irmã nasceu. Minha mãe foi demitida, ela não podia pagar para olharem duas crianças, não saía a vaga da creche. A nova patroa, com o tempo, deixou minha mãe nos levar para lá. E se antes eu não tinha como, agora eu passava o dia na frente da TV e minha irmã ficava no carrinho comendo os pés ou um brinquedo ou qualquer coisa que deixasse minha mãe terminar o serviço. Quando acabavam as férias eu ia para a escola e minha mãe levava somente minha irmã. Uma vizinha esquentava o meu almoço e eu ficava dentro de um quarto de pensão comendo nuggets requentado com ketchup e na frente da TV, não tinha mais ninguém em casa para querer assistir.

Minha mãe trocou de emprego algumas outras vezes até a vaga na creche sair, meu padrasto começou a se mostrar violento. Passamos fome. Minha mãe vivia sobrecarregada e é aqui onde o meu direito a uma infância saudável acaba. Eu quase não via minha mãe, e quando via meu padrasto estava do outro lado tentando matá-la ou bater nela.

Ele ficou desempregado. Minha mãe tinha que pegar várias faxinas além do serviço que já fazia para dar conta de tudo. Ela não tinha tempo de limpar nossa casa, mas eu tinha. Eu fazia tudo o que todos os adultos deveriam fazer. Todos os dias.

Eu me sentia pressionada, triste, apanharia se não fizesse. Eu ia para escola e, na volta, tinha que limpar tudo de todo mundo. Pode parecer pouco porque era só um quarto, mas eu não queria fazer aquilo, eu queria brincar e aquilo era a minha obrigação. Eu nasci com essa obrigação, como mulher e como a filha mais velha de uma empregada doméstica.

Mas não se enganem em achar que se eu fosse homem não teria que fazer, talvez se tivesse uma irmã mais velha ou de idade aproximada não, mas meu primo também perdeu a infância cuidando de três irmãos pequenos e limpando a sujeira da família, porque o pai puxava uma carroça e a mãe limpava chão.

Enquanto a patroa contratava minha mãe porque julgava necessário não perder tempo limpando a casa, para curtir os filhos aos fins de semana ou qualquer que seja lá o que ela precisava curtir, minha mãe trabalhava para por comida na mesa, não tinha tempo de limpar a própria casa, eu a limpava. E quando ela tinha um tempo ou pegava mais uma faxina, ia lavar nossa roupa ou fazer uma faxina pesada na nossa casa, pois minha irmã vivia com bronquite e eu era uma criança, nunca ia limpar nada direito.

Quanto tempo eu e milhares de outras crianças filhas de empregadas perderam de sua infância para que uma mulher de classe média tivesse a casa limpa e mais tempo em sua vida? Não sei, poucas não foram. Nem são. Mas, certamente, se minha mãe tivesse opção, não teria feito isso comigo.

Eu não culpo a minha mãe. Apesar de já ter sentido muito ódio de ter passado por tudo isso, hoje vejo que ela é uma vítima que fez outras vítimas. As patroas dela, que eram pessoas “boazinhas”, me diziam que eu tinha que ajudar, me diziam que eu estava errada, que eu tinha que limpar sim. Mas quantos dos filhos e netos delas precisavam fazer isso se tinha a minha mãe lá até para recolher o papel de merda que eles deixavam cair no chão? Quantas delas mesmas precisavam fazer o que eu com oito anos de idade tinha que fazer para ajudar minha mãe? Nenhum deles.

Essas mesmas pessoas que já faziam minha mãe me explorar, que os filhos e netos chegavam com carro do ano mas não podiam aumentar R$100,00 no salário dela, não perderam também a oportunidade de me explorar diretamente.

Na minha vida eu só fui a dois passeios desses caros que tem na escola. Minha mãe nunca podia pagar. Uma vez eu chorei porque queria ir ao circo, o ingresso custava R$5,00, mas se eu fosse não teria dinheiro para feira. Em um desses passeios, que era ao finado Playcenter e eu queria muito ir, minha irmã acabou ficando muito doente. Minha mãe ia ao hospital todos os dias com ela e eu, com 11 anos de idade, fui lá limpar tudo para as senhorinhas tão coitadas que precisavam de ajuda tendo familiares saudáveis, com carro e disponibilidade.

Me davam dois reais, três, quatro, e eu comecei a falar que juntaria para o meu passeio. Eles poderiam me dar esse passeio, não que fosse uma obrigação, mas eles não tinham o direito de se aproveitar do desejo de uma criança. Consegui ir ao passeio, foi legal, mas me dói saber que para ter esse passeio passei por uma coisa que os filhos dessas pessoas jamais passariam em nenhuma situação.

Demorei 5 anos para perceber que isso era uma violência. A percebi quando, anos mais tarde, o filho de uma dessas senhoras, que já faleceram (e minha mãe mantém um certo contato, um laço de amizade), me propôs, aos 16 anos, ir lá fazer faxina na casa da filha dele que acabava de ter um bebê.

Eu não fui, eu não precisei e minha mãe não deixaria. Ela me disse com uma certa felicidade na voz que eu não era mulher para isso. Eu estava terminando o ensino médio e minha mãe disse com orgulho a esse senhor que eu havia passado em oitavo lugar em um curso técnico público.

Minha mãe trocou de emprego, saia às 20h30 e chegava só no outro dia às 7 da manhã. Para se livrar e nos livrar de um relacionamento abusivo.

Deixou de dormir para trabalhar à noite limpando um hotel e ganhar mais, mesmo deixando duas meninas menores de idade em uma casinha na favela, mesmo saindo com o coração na mão, rezando para todos os santos do qual é devota, ela foi porque isso era menos pior e mais rentável do que limpar a casa dos outros. Porque assim ela conseguiu comprar uma casa na favela e pagar os R$ 500,00 de material que eu gastava por semestre no curso técnico, que era público.

Minha mãe querida, minha mãe sofrida, minha mãe que tanto vi reclamar de ter que limpar a sujeira dos outros e ganhar pouco – “tá vendo isso aqui? Estude para não ter que fazer! Trabalho, trabalho e não ganho nada, não me sobra nem pra comer uma pizza, tomar um sorvete…” –, minha mãe que vi contar discriminações que sofria e nem entendia porque estava incomodada, minha mãe que EU VI ser discriminada, por sua cor, por ser mãe e solteira, por ter duas filhas que não eram do mesmo pai e da mesma cor, por apanhar do marido (que agora é ex, graças à Deusa), por limpar a sujeira dos outros.

Minha mãe que me machucou porque foi tão machucada a vida toda, porque acreditou de verdade que era o melhor para mim (ou para nós), minha mãe que tanto se orgulha do que faz, que AMA trabalhar, que diz com satisfação que limpa bem, que gostam do que ela faz, que elogiam seu capricho e agilidade, se culpou a vida toda por não ter estudado mais, por não ser “alguém na vida”, sonhou em saber inglês, sonhou ser advogada.

Eu não tive a infância que muitas crianças têm, eu tive a infância que nenhuma criança deve ter. Às vezes não tinha o que comer, e se tinha não era sempre do melhor ou mais saudável; não tive pai, tive uma mãe pouco presente, tive uma mãe que cometeu diversas violências contra mim porque diversas violências foram cometidas contra ela.

Minha mãe limpou até túmulo de gente rica, literalmente, sem ter onde cair morta, para termos o que comer, para pagar as contas e para comprar remédio. Perguntavam se ela não tinha medo. Ela dizia que não: o fantasma de que ela tinha medo provavelmente era não ter o que por na mesa.

Se hoje você pode ler meu texto razoavelmente bem escrito é porque, apesar de todas violências que passei com a minha mãe, ela fez das tripas coração para eu não ser como ela, para que eu não precise nunca fazer o que ela faz. Ela me criou dizendo isso. Desde que eu me entendo por gente, não existe um dia na minha vida que eu não me lembre de ter ouvido isso da minha mãe.

Empregadas domésticas nunca sonharam com isso, nunca sonharam em limpar a sujeira dos outros, não sonharam com essa profissão. Tampouco é o que querem para seus filhos. Aos trancos e barrancos, fazendo das tripas coração, com cada gota de suor e sangue, debaixo de chuva ou de sol essas mulheres lutam para salvar seus filhos da fome, do frio, e da dor de não serem “alguém na vida”.


 

Cris Matos é técnica em modelagem de vestuário e mãe da Clara, de 27 meses.

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Mais sobre a proteção

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O post anterior rendeu muito papo.

Lulu Anders, que colaborou comigo para fazer aquele texto, discutindo essa repercussão, escreveu algo que me representa tanto, que eu achei tão lindo, que resolvi inaugurar uma seção de Guest Posts, só para poder trazer para cá a manifestação dela, com a devida permissão dela e algumas mínimas alterações minhas.

“Eu acho que a atitude do pai diante do filho mexe com um caminhão de certezas e verdades que carregamos com convicção e que usamos para atropelar quem ameaça nos desestabilizar com a perspectiva do novo.

O que mais me assustou nesse vídeo foi a coerência daquela imagem com a visão corriqueira de que, sim, devemos proteger, nem que seja socando e humilhando, para que a pessoa protegida não seja socada e humilhada pelo mundo, pela vida, “pela polícia”, como dizem tantos.

São a família e o Estado o mesmo leviatã, dominando e amedrontando com a ameaça do caos. Família e Estado equiparados, iguais. E igualmente perversos e cegos pelo próprio poder.

O que levou aquele menino até ali? Será que ele não queria mudar o mundo para realizar seu eu oprimido? Será que viver segundo o que se lhe impõe é insuportável e, na sua idade, ainda ele ainda não está devidamente domado após sucessivos “banhos de realidade”? Que realidade? A história esta aí para mostrar que a realidade se faz e refaz e desfaz o tempo todo.

Se eu amar e respeitar uma pessoa, ouvindo-a quando ela quer e precisa, será que ela não me ouviria também? Será que exclamaria, no meio de uma situação como a vista, “você não fala comigo”?

A pessoa jovem deseja mudar o mundo que a trata com injustiça e crueldade. Insurgir-se contra tiranias como essa é a forma como ela se mantém sã em uma sociedade doente. Mas é um duelo de Davi contra Golias. E quando lhe quebram a espinha, ela não raro adoece. E ganha um diagnóstico para justificar seu desejo pelo extraordinário. Pelo extra-ordinário. Pelo novo.

É sinal de saúde e maturidade se adequar a uma sociedade doente?

Esse pai (e, para que fique claro, agora já falamos de um arquétipo de pai, de uma forma de criar e educar) quer proteger o filho de quê? Das frustrações por não conseguir mudar o mundo? E as frustrações por nunca ter tentado, não doem uma vida toda?

Por que não nos abrirmos para que nossas crianças realizem suas potências e pisem em nossas verdades, para que descubramos juntas um mundo novo? Por que não protegê-las da iniquidade, ao invés de protegê-las de seus sonhos?

Podemos querer defendê-las do mal, mas de que valeria isso se lhes sufocássemos o espírito, se as amordaçássemos e acorrentássemos numa realidade que repudiam?

Não queremos que se machuquem, queremos que vivam, que estejam saudáveis. Mas para isso não podemos nós próprios nos tornar quem cala, viola, humilha.

Não seriam muitas vezes as pessoas que defendem esse cerceamento de alma as mesmas que reclamam da juventude apática, modorrenta, sem iniciativa?

De que vale uma vida sensata, mas sem sentido?

Digamos, então: “Vou com você, meu amor. Já que você quer um mundo melhor, já que esse é o seu sonho, eu, que te amo, vou com você até o fim. Permita-me fazer-lhe companhia nesse engajamento. E cuide-se, pois, sem você, eu morreria.”

Quando você traz ao mundo uma pessoa revolucionária, é inútil tentar segurar o vento. Amemos e cuidemos e ouçamos e respeitemos. Sejamos dignos de acompanhá-la em sua luta.

Proteger não é prender em grilhões ou cortar asas. Proteger é um processo de cuidado, atenção e respeito, que habilita o sujeito a ser livre e feliz, como a mãe pássaro que encoraja seus filhotes para o vôo.

Dói a liberdade do outro, né? Dói ver nosso maior amor cair na vida sem garantias. Dói muito. Mas amar é aprender e essa dor é a parte mais dura de nosso aprendizado.

Eu quero aprender. Quero ter o coração aberto e a mente iluminada para o enorme aprendizado de acompanhar o crescimento de alguém. Que eu possa, com meu amor, criar vida. E que eu tenha coragem e dignidade para ver meu filhote voar sem o desejo mórbido de cortar-lhe as asas.”