Feminismo é amor

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Sim. Para mim, feminismo é amor.

É comum que a palavra feminismo seja associada à raiva, à luta. E faz sentido que seja. Mas, para mim, o que o feminismo promove é algo anterior a isso. Mais profundo que isso.

Eu já sentia raiva antes do feminismo. Essa raiva vinha do fato de que muitas necessidades muito básicas minhas – de liberdade, de segurança, de respeito, de cuidado, de justiça – não estavam sendo atendidas em inúmeras das minhas interações. E do medo de que jamais o fossem. E da sensação de impotência diante disso.

Eu sempre fui a “arrogante”, a “briguenta” (leia-se: mulher assertiva). Então eu achava que não tinha raiva represada. Que comigo era bateu-tomou, que eu resolvia as coisas na hora e deu.

Mas daí eu conheci o feminismo. E me dei conta de todas as violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido.

Quando eu falo das “violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido”, estou me referindo a todos aqueles atos que eu me senti muito mal de receber; que, na minha percepção, negavam a minha humanidade. E que eu por tanto tempo fingi que tudo bem eles terem acontecido, dizendo para mim que era o jeito que as coisas eram. Que fazia parte. E fiz de conta que nem doeu tanto assim. Eu contava sobre alguns em tom de piada, aliás, rindo aquele riso vazio, oco, que a gente ri sem alegria.

Por quê? Porque eu sentia vergonha de ter sofrido com aquilo. No fundo, eu achava que eu deveria ter algo em mim para merecer ser tratada daquela forma. E, se não era algo que eu tinha feito, então talvez fosse algo em quem eu era. Que aquele era o meu lugar no mundo.

Não passava pela minha cabeça me revoltar contra isso. Eu teria me revoltado, se fosse a história de outra pessoa – como tantas vezes de fato me revoltei por outrem, uma revolta que só ia até o ponto em que eu não me reconhecia na outra pessoa. Porque, se eu olhasse para ela e visse a mim mesma, não conseguia mais empatizar com ela.

E isso, por quê?

Porque eu não me amava. Eu não sei dizer se realmente me odiei, assim, em absoluto, em algum momento. Senti, sim, muito ódio de mim muitas vezes. Ódio do meu corpo, do meu rosto, meu nariz. Ódio do meu jeito de ser. Da minha voz. Eu acho que nunca quis ser outra pessoa, mas eu sei que quis ser uma versão diferente de mim mesma. Uma versão que, na minha cabeça, pudesse receber amor, cuidado, respeito. Porque eu achava que o jeito de receber essas coisas era mudar a mim mesma. Que tinha algo de fundamentalmente errado comigo para eu não tê-las.

O que o feminismo fez foi me mostrar que não.

Pela primeira vez entretive a noção de que eu não era um ser estruturalmente inadequado, que merecesse passar por aquelas coisas, lidar com aquelas coisas e suas tantas outras manifestações no dia a dia. De que, talvez, eu fosse digna de defesa. De cuidado. Por mim mesma.

Por mim mesma.

E, assim, aos poucos, eu comecei a sentir mais amor por mim. Comecei a me aceitar mais como sou, a cada dia em que sou. Comecei a ser capaz de empatizar mais comigo mesma à medida em que me via espelhada nas outras mulheres com quem empatizava. E comecei a (re)conhecer as mulheres ao meu redor, sem a crença interior tóxicas de que fossem minhas inimigas, sem querer me vingar de mim mesma nelas.

E, desse amor, a revolta nasceu. A raiva aflorou. Tanta raiva. E me dei conta de que muita raiva que eu sentia e achava que era de outras coisas, no fundo vinha disso. Porque as coisas que a gente esconde da gente não vão embora. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – e funciona assim dentro da nossa cabeça também, a meu ver. Toda aquela raiva que estava dentro de mim, contida, guardada, escondida, na verdade estava o tempo todo borbulhando e eclodindo em cada ocasião que tinha oportunidade de fazê-lo.

E, sim, houve momentos em que eu fiquei muito pouco tolerante com o que percebesse como violência – agora que eu finalmente via o meu balde cheio, qualquer gota me fazia transbordar… e eu me permitia transbordar. Mas ver o balde cheio foi o que me ajudou a esvaziá-lo. Ainda tem muita coisa lá dentro, claro. Mas tem bastante que já evaporou.

Ao me permitir sentir a minha raiva, o feminismo me libertou dela. Antes, eu era mais dela; hoje, é ela é mais minha. E eu me sinto mais capaz de escolher a forma como vou lidar com ela.

O mesmo amor que me faz levantar contra quem age de forma a ferir quem eu amo, hoje me faz levantar por mim mesma, seja com raiva ou não.

E amar a mim mesma me permite hoje amar a outras pessoas com muito mais aceitação e entrega, o que me traz muito mais satisfação nas minhas interações.

É por isso que, para mim, feminismo, em seu aspecto mais básico, mais fundamental, é amor.

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Quem (não) é a vítima?

***Publicado originalmente em Revista Fórum, em 25 de outubro de 2017.

****Aviso de conteúdo sensível – caso de Goiás****

Eu sofri bullying e abuso sexual na escola entre 13 e 14 anos. Já falei sobre isso antes.

Se eu tivesse uma arma à minha disposição, talvez tivesse matado alguém. Talvez tivesse me matado. Talvez ambos.

Não estou dizendo que isso seria justo, certo, bom. Estou apenas constatando um fato que se torna mais e mais evidente quando converso dentro de mim com aquela menina deprimida e desesperada e, como é típico da idade, impulsiva.

E quando lembro das pessoas que eram minhas colegas e da forma como elas agiram, e consigo enxergar o quanto, no fundo, elas eram muito como eu, agradeço pelo fato de que eu nunca tive uma arma de fogo à minha disposição.

O bullying não acontece porque crianças e adolescentes são cruéis e é isso que fazem, ou porque é essa a natureza humana. Esse comportamento é aprendido e se trata de uma emulação, uma transferência.

Filhotes de animais brincam simulando atividades dos animais adultos. Corças brincam de saltar, correr, esquivar-se. Leõezinhos brincam de caçar. Crianças humanas brincam de casinha, de trabalhar, de falar ao telefone… e fazem bullying.

Isso não se refere só à educação dentro de casa, ou vinda da mãe (ao contrário do que afirma o machismo desbragado de alguns comentários a respeito) mas fora de casa também. Somos parte de uma sociedade que muitas vezes parece baseada na ideia de marginalizar e agredir pessoas que fujam de uma determinada norma ou padrão. O assédio moral – bullying de gente grande – é recorrente em ambientes de trabalho e redes sociais.

Muito se diz de ensinar respeito às crianças. Pouco se fala do quanto desse aprendizado é absorvido através da própria pele. Ainda menos se dialoga sobre o impacto que o nosso exemplo, o exemplo que nós, pessoas adultas da sociedade, damos, tem sobre esse aprendizado.

E quase nada se fala sobre a necessidade de transformar os ambientes de convivência e as interações de forma que seja possível que as pessoas de todas as idades encontrem acolhimento e legitimação para suas aflições. Para que tenhamos empatia, suporte e apoio para lidar com elas, para que encontremos outras formas de dar-lhes vazão que não incluam obliterar a existência alheia para que nos sintamos em segurança… ou mesmo violentar sistematicamente outra pessoa ou grupo de pessoas nesse intuito.

Um menino abriu fogo contra sua sala de aula. Atirou em seis adolescentes, matando dois deles. Um menino que vinha sofrendo bullying naquele espaço, por parte do grupo de pessoas que se reunia ali.

E, se isso é triste, mais triste ainda é o nosso impulso de, diante de uma tragédia assim, tentar identificar agressores e vítimas. Como se algo tão complexo pudesse ser dividido assim, de forma maniqueísta, simplista.

Na perspectiva branca e preta da lei, feita para dividir o mundo entre o que está dentro e fora dela, isso é facilitado. Mas eu não estou falando da lei.

Ouvi pessoas usando o caso para advertir contra forçar quem sofre bullying a se virar sozinho, e ouvi pessoas usando o caso para advertir contra a educação que poupa a criança de lidar com frustrações. Ouvi pessoas falando que o menino que atirou estava fazendo sua justiça torta contra quem o atormentava diariamente, e e ouvi pessoas falando que o menino que atirou é quem atormentava aes demais, constantemente ameaçando colegas com as armas dos pais policiais.

Eu não vejo bullies e atiradores. Procurei e não encontrei. Vejo meninos e meninas em uma situação que escalou de forma trágica e inesperada. Vejo três vidas perdidas, de um jeito ou de outro, vidas de pessoas feitas de muito mais do que só o que aparece na estreiteza de rótulos como esses.

O que fica para mim não é uma linha divisória que coloca um de um lado e outres de outro, mas o quanto as linhas que nos dividem – a todas as pessoas, não só àquelas envolvidas neste caso – são ilusórias.

O que fica é a tristeza da percepção de que são elas, essas linhas ilusórias, que são o problema. E não os meninos e meninas que agem e reagem sob a orientação delas.

Freixo, Priscila e Isadora

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 29 de julho de 2017.

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 Foto: Luiza Marangoni (de http://www.srzd.com/brasil/priscila-soares-e-marcelo-freixo-o-machismo-oculto-e-o-explicito/)

Nesta semana, Priscila Soares (vulgo “ex-mulher de Freixo”, segundo a maior parte da mídia) denunciou, por meio das redes sociais, o machismo que sofreu durante sua relação com um dos políticos atualmente mais proeminentes da esquerda dita mais à esquerda: Marcelo Freixo, PSOL.

Como exposto por Maria Elisa Maximo, do Catarinas, “Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.”

É sempre infeliz quando a postura majoritária da esquerda nos coloca em posição de encontrar lucidez nos prepostos mais delirantes da direita. Pois eu li e, mesmo tampando o nariz, me vi obrigada a concordar com Rodrigo Constantino, que propôs uma reflexão sobre como essa denúncia teria sido recebida se seu alvo fosse, por exemplo, o homem que adoramos odiar: Jair Bolsonaro.

Nós esperamos machismo das figurinhas da direita. Mas o que fazemos quando nos deparamos com o machismo da esquerda? O que fazemos quando pessoas a quem admiramos se mostram menos que perfeitas?

Problematizamos? Desconstruímos?

Ou chamamos de “linchamento”, justificamos, racionalizamos e varremos para debaixo do tapete para manter a incolumidade de nossos ídolos?

É muito complicado ver que as pessoas que fazem apontamentos e levantam questionamentos que são tão importantes são tão frequentemente tratadas como se fossem elas próprias o problema. Como se estivessem “fazendo o jogo da direita” ou “dividindo/enfraquecendo o movimento”.

Isadora Freixo, filha de 19 anos do político, compreensivelmente veio a público defender a imagem do pai. Expondo memórias dolorosas de seu relacionamento com Priscila, minou sua credibilidade (se é que isso ainda precisava ser feito, já que a moça já mal estava sendo ouvida), fazendo uso da alegoria da “mulher rejeitada” e fez alusão ao histórico de depressão desta. Ou seja, sem perceber, corroborou as alegações feitas por Priscila em relação ao gaslighting que esta vinha sofrendo.

Contudo, é uma situação complicada. O que Isadora descreve de sua relação com Priscila, assim como os detalhes fornecidos por esta de sua relação com Freixo, não é mera “lavação de roupa suja em público”. São as evidências que corroboram o apontamento (ou acusação, como se costuma chamar) das opressões sofridas no âmbito dessas relações. No caso de Priscila, o machismo, nomeado claramente. No caso de Isadora, o adultismo, que, para esta, como para a maioria das pessoas, infelizmente segue inominado.

Priscila nunca foi filha de Freixo. Isadora nunca foi companheira dele. Mais que isso, Priscila nunca foi Isadora e Isadora nunca foi Priscila. Óbvio, né? Pois é. Mas a decorrência dessa obviedade é menos óbvia. Ambas tiveram com ele tipos de convivência distintos, não só pelo tipo de relação, mas porque são pessoas diversas e, logo, as relações que formam, ainda que com o mesmo cara, serão diversas. Resumindo: a perspectiva de uma não invalida a da outra.

Isadora, assim como Priscila, tem o direito de expor seu ponto de vista. O problema, a meu ver, está em contrapor esses pontos de vista como se apenas um deles pudesse prevalecer. Como se só houvesse espaço para o reconhecimento de uma dor. Uma forma de opressão.

Fazer isso é, na minha opinião, usar o sofrimento de uma pessoa para apagar o da outra, quando, infelizmente, o que não falta é espaço para todo mundo sofrer, ao mesmo tempo, ainda que por motivos diferentes.

E foi por isso que me incomodou tanto o artigo publicado por esta Revista Fórum a respeito dessa questão. Porque, ao lê-lo, eu tive exatamente essa sensação, a de que rolou um: se precisamos falar de flores, então vamos falar de flores, mas vamos antes tecer toda uma crítica às flores, para que, quando estas finalmente aparecerem, elas já sejam vistas com outros olhos.

E isso me parece silenciamento – e não só silenciamento, mas, o que é pior, um silenciamento que finge não ser silenciamento. Afinal, não é que não houve oportunidade de falar, né? É só que a gente vai fazer o possível para que ninguém escute.

E tem mais. Sempre me deixa um gosto amargo na boca quando, diante de uma situação em que se discute o comportamento de um homem, a discussão se desloca para as mulheres que o “defendem” ou o “atacam”, tirando de foco, tcharam… o homem em si. E isso é, para mim, muito machista. Porque agora se atacam as honras e as credibilidades das mulheres, uma é uma louca ciumenta, a outra é uma fedelha ciumenta e por aí vamos.

A crítica ao machismo de Freixo (ou mesmo a outras incoerências deste) não precisa apagar suas virtudes, nem aquilo que ele construiu ou constrói de bom para quem gosta dele. Pelo contrário, é algo que pode ser muito produtivo e benéfico se conseguirmos ter a maturidade de ouvir com orelhas de quem quer aprender e evoluir.

É difícil não cair no maniqueísmo de “ah, ele é machista, logo, não presta”, ou “ah, ela é adultista, logo, não presta”. As pessoas não se resumem a um só aspecto, um só comportamento. Não é porque alguém falou ou fez algo problemático que agora se tem um compromisso de odiar essa pessoa. Fãs do Freixo podem continuar fãs do Freixo sem passar paninho para ele. Quem se solidariza com Priscila pode continuar a se solidarizar sem passar paninho para ela.

Pessoas pisam na bola. Erram. Mas podem aprender com seus erros.

É só que fica difícil a gente aprender com erro quando, ao invés de assumir esse erro, a gente finge que não foi erro, ou que até que faz sentido, no contexto, ou que nem foi tão ruim assim, ou que, na verdade, veja bem… e assim vamos na desresponsabilização. E ninguém consegue ser a tal da mudança que quer ver no mundo.

Confiando

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 1 de março de 2017.

confiando

Há mais ou menos um mês, eu, junto com a minha família, entrei num barco.

No fluxo, o barco balançou, chacoalhou, rodopiou. E eu enjoei, vomitei, chorei.

Senti saudades da terra firme de onde eu vinha antes.

Senti vergonha da minha dificuldade de me manter de pé ali dentro.

Senti raiva do barco, das pessoas nele.

Senti medo de não saber para onde estava indo, ou quem eu seria quando chegasse lá.

Senti tristeza de perceber que já não tinha mais como voltar.

Acima de tudo, porém, senti alegria. Alegria de estar viva. De estar me aventurando. De estar tão bem acompanhada nesta jornada. De estar aprendendo e descobrindo um mundo novo, fluido; escorregadio, mas cheio de possibilidades que a solidez de tantas certezas tendem a matar.

Alegria de aceitar e me soltar e me entregar e me descobrir, de repente, flutuando, leve. Livre.

Há mais ou menos um mês, eu conheci Ita Gabert e Barbara Stutzel. E elas me apresentaram uma Letícia que eu ainda não conhecia.

No começo, me senti estranha, deslocada, inadequada: eu, criatura das pedras, no meio de tanta gente do mato, quase todo mundo com alguma experiência em ecovila, permacultura, anos e anos de prática de vegetarianismo ou veganismo ou algo próximo… e eu pensando comigo se não era o caso de contrabandear, sei lá, um salame, para um momento de desespero.

De repente, eu, que nunca tinha sequer acampado na vida, estava lá, olhando embaixo das camas antes de deitar, para ver se não havia alguma criatura peçonhenta por ali. Cuidando para não deixar crianças sozinhas em lugares ermos, porque estava rolando um papo de onça na região. Sentada num assento sobre um balde, lendo nas simpáticas instruções da parede que “um pote de serragem costuma bastar” para cobrir meu cocô ali dentro – o resultado óbvio tendo sido uma prisão de ventre de quatro dias.

O curso – “O Segredo da Confiança” – não era sobre cagar na serragem, nem sobre aprender a conviver com outros animais, ou passar dias sem comer carne. Mas, sem esse curso, eu acredito que não teria conseguido fazer qualquer dessas coisas agora, e não só por uma questão de falta de oportunidade. Eu creio que não teria me permitido fazer qualquer dessas coisas.

Ita e Barbara são alemãs; moram em comunidades intencionais em seu país há décadas. Seu curso é um compartilhamento, de forma dinâmica e prática, do que sabem sobre a vivência e convivência comunitária e, especialmente, sobre como lidar com conflitos dentro de coletividades de forma a promover coesão e crescimento individual e conjunto.

O cerne do curso é o Fórum ZEGG (link só em inglês por enquanto), uma ferramenta que serve para promover transparência e visibilidade dentro da comunidade. O Fórum não tem pretensões terapêuticas ou de resolução de conflitos, embora muitas vezes resultem processos terapêuticos e conflitos sejam resolvidos, simplesmente pelo trabalho de transparência e visibilidade que ele proporciona.

O formato em si é bastante simples: integrantes se dispõem sentades em um círculo e alguém entra nele para falar de si (sentimentos e necessidades vivas naquele momento) com o apoio de duas pessoas que ficam no papel de facilitadoras do processo, fazendo perguntas e sugestões de falas e ações que a pessoa que está no centro pode ou não aceitar (mantendo, portanto, sua responsabilidade sobre si mesma).

No entanto, alguma coisa a mais acontece ali dentro. Talvez seja a segurança proporcionada pela escuta empática e atenta das pessoas ali presentes, talvez seja o prévio entendimento de que o que é trazido nunca é exclusivo de quem se expõe, mas sempre um fragmento de uma humanidade comum a todo o grupo e, assim, uma pista para que cada indivíduo ali se conheça melhor de alguma forma. Seja como for, o fato é que se abre ali um campo com uma energia diferente, muito similar à que vivenciei nas constelações sistêmicas de que participei; e experimentar esse campo é incrível.

As muitas horas do curso incluíram, além da prática do fórum, dinâmicas para que as pessoas se conhecessem melhor (a si mesmas e umas às outras) e tarefas lúdicas a serem cumpridas em grupo, além de muita cantoria e dança. Demorei para me tocar que havia um desenho aí para que nós, integrantes do grupo, formássemos uma comunidade, ainda que temporária, e que tivéssemos a chance de convivermos o suficiente para que desentendimentos começassem a surgir. Porque não adianta só falarmos sobre lidar com conflitos, né?

Eu trouxe ao Fórum o meu incômodo com o banheiro seco quase que como piada, embora fosse algo sério, que afetava meu humor e minha (enfezada) presença. Eu queria muito usar o banheiro, porque queria ver como era, mas, quando chegava lá… nada. Me sentia como se estivesse broxando e a comparação me parecia hilariante.

Mas, claro, essa parte era só o bandeide.

No fundo, havia o meu corpo manifestando minha dificuldade de me desapegar das minhas crenças em relação ao que eu podia ou não ser, fazer. Havia um medo meu de não dar conta daquelas mudanças todas, especialmente sabendo que não tinha mais como voltar atrás – não em paz, pelo menos. E uma desculpa para eu me manter na minha zona de conforto, confirmando para mim que eu não funcionaria fora dela.

Colocar as nossas tralhas emocionais para fora é tão salutar e necessário para o nosso bem-estar quanto defecar. E, assim como acontece com nossos dejetos, o que pode se tornar até tóxico se retido dentro de nós, se torna adubo que alimenta o ciclo da vida quando posto para fora.

Comecei falando dos meus intestinos, rindo, terminei falando das minhas entranhas, chorando. E naquela noite, como se por mágica, nasceu de mim uma Letícia capaz de cagar num balde com serragem.

Vida. Nova vida.

Esse foi apenas um dos meus momentos no Fórum. Houve muitos outros, igualmente profundos e transformadores, inclusive durante falas de outras pessoas. Foi uma experiência revolucionária e tão fantástica que, assim como me encho de gratidão por ter tido a oportunidade de vivê-la, me encho de tristeza por saber que ela está atualmente praticamente restrita a quem pode pagar por ela, pela necessidade de cobrir o custo das passagens de Ita e Barbara (que vêm da Alemanha) e do alojamento e alimentação nas ecovilas onde ocorrem os módulos. Ressalvo aqui o esforço considerável que tem sido feito no sentido de não impedir o acesso de quem tem interesse, mas não tem grana.

Eu gostaria de levar o Fórum para fora desses espaços privilegiados. Porque falta o recorte de raça, de classe, de região. Porque o Fórum, para mim, faz parte da revolução da qual eu quero fazer parte – uma revolução feita pela conexão, pela cooperação, por mudanças que ocorrem não por força, medo ou vergonha, mas porque mudar passou a fazer sentido, simplesmente. E eu gostaria que mais pessoas tivessem acesso a isso, se quiserem.

Então eu vim aqui mostrar. Chamar. Pedir. Porque quanto mais gente se interessar pelo Fórum, maior a probabilidade de conseguirmos fazer uma formação de facilitadores de Fórum aqui no Brasil, o que nos possibilitaria disseminá-lo com a nossa cara e as nossas cores, e com um custo mais baixo ou mesmo em modelos de economia alternativa, corresponsabilização financeira, etc.

Ita Gabert oferecerá a palestra vivencial “Comunicação e Transparência em Grupos” na Umapaz, em São Paulo, no dia 13 de março, das 19 às 21hs; havendo procura por essa palestra, ela conduzirá, também nesse mesmo espaço, de 1 e 2 de abril, o curso vivencial “O Segredo da Confiança”. Ambos os eventos serão gratuitos; ótimas oportunidades de colocar os pezinhos na água e ver se dá para encarar.

Bora lá?

Confiando

**** Conheça também a página do curso no face, “Semente da Confiança“.

Atualização: a data do curso vivencial da Ita mudou para 1 e 2 de abril (antes estava 7 e 8). daí alterei aqui para constar.

Ode à raiva

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 6 de fevereiro de 2017.

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Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Acho que, na superfície, a emoção com que eu estou mais familiarizada é a raiva. Essa que, para tantas pessoas, é a marca da involução. Eu gosto da minha raiva. Ela é parte de mim e minha aliada, porque me dá clareza quanto ao que eu queria que fosse e não está sendo e me ajuda a agir de forma a mudar isso. Ela nasceu da necessidade. Do perigo daquilo que me parecia a morte e do medo que veio desse perigo.

No fundo, creio, o que eu sinto com mais frequência é medo. Ou vergonha. Ou medo de sentir vergonha, vergonha de sentir medo ou até medo de sentir medo. Só que, como tenho medo de que todo esse medo e essa vergonha me absorvam, me engulam (porque são emoções que me incomodam muito mais), não passo muito tempo de papo com eles; assim que dão as caras, eu chamo a raiva, meu leão-de-chácara emocional, para tirá-los da minha frente.

E daí, quando ela chega, tenho dificuldade de não permitir que ela se espalhe e tome conta de mim. Que me cubra e me possua.

Ela é tão sedutora! Tão brilhante, tão gloriosa, tão linda. Ela me faz sentir grande, poderosa, desinibida. Temida e destemida.

É tão melhor do que me sentir vulnerável. Fraca. Impotente. Assustada.

Minha raiva avança. Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Ao contrário da minha tristeza, que contempla, suspirante; ou do meu medo, que se retrai, vacilante; ou da minha vergonha, encolhida, autoflagelante…

A minha raiva avança.

Ela me impele, às vezes tão subitamente que eu só me dou conta depois, quando já estou lá adiante. O mais mínimo fôlego que eu lhe dê faz com que exploda como uma labareda, esquentando meu corpo para a ação, estufando meu peito, erguendo a minha cabeça, afiando a minha língua, enchendo meus músculos de sangue e meus olhos de brilho orgulhoso.

Quando estou dentro dela, é como se eu me tornasse um estupendo e estúpido cavalo feito de fogo, os olhos tapados para tudo o mais ao meu redor, galopando furiosamente em frente até o meu corpo se exaurir, o resto de mim reduzido a assistir, em transe, àquele espetáculo de luz e sombras, muitas vezes mais horrorizante que belo, mas sempre hipnotizante.

Ela já salvou a minha vida e quase me matou tantas vezes, de tantas formas diferentes… ela me consome e some, me abandonando nos escombros do incêndio que se passou, o medo e a vergonha a me espreitarem, agora sozinha, em cada canto da escuridão.

Mas eu gosto da minha raiva. Num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada, ela é o que tantas vezes me ajudou a escapar do segundo caso em direção ao primeiro. E me fez companhia quando eu não consegui – embora seja uma companhia um tanto destrutiva essa raiva enjaulada, que não tem para onde ir nem como agir, que se bate e debate e me bate, recusando-se a ceder lugar à tristeza, ao luto, à aceitação daquilo que nem eu nem ela temos como mudar.

Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

É só que faz um tempo que eu não quero mais viver num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada.

Quero, por exemplo, conseguir ouvir as mensagens que me incomodam, apesar de elas me incomodarem – quem sabe tem alguma coisa importante nelas? – e fica difícil de ouvir qualquer coisa com a balbúrdia da minha raiva rolando.

Quero também enxergar o mundo à minha volta; ver o quadro todo, não só sair de A e ir para B em uma linha reta. Porque vai que tem outros caminhos que eu possa pegar, outras trilhas que eu possa abrir. Outras formas de viajar. Outros lugares em que chegar. Que não envolvam brigar para estar em cima ou me deixar ficar por baixo.

Eu gosto da minha raiva. Agradeço à minha raiva. Sem dúvida, foi também ela que me trouxe até aqui, que fez de mim quem eu sou. E eu gosto de quem eu sou.

Mas eu não quero mais ser passageira – nem dela, nem de ninguém.

Vou colocar um banquinho do meu lado, e aprender a ensiná-la a sentar ali para me contar o que ela tem a me dizer. Um banquinho, aliás, onde o medo e a vergonha também poderão se sentar e conversar comigo um pouco mais, para a gente se conhecer melhor. Quero que eles todos possam me abraçar, mas quero algum espaço para que não me envolvam por completo. Afinal, eu não pertenço a eles; eles pertencem a mim.

Não vai ser fácil, nem indolor; e eu vou, muitas vezes, falhar… mas eu sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

E agora eu entendo que há bravura na vulnerabilidade e força no medo. E que a gente pode mudar de planos no meio da nossa jornada. Porque a guerra… é cansativa. E solitária.

E quando eu estiver sumindo dentro das minhas emoções, há pessoas que podem me ajudar a voltar à superfície e colocá-las de volta no banquinho ao meu lado.

Eu só preciso lembrar de pedir.

O terrorismo machista

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 3 de janeiro de 2017.

*****AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: violência doméstica, violência contra criança, chacina de Campinas, terrorismo machista.*****

Terrorism

Aconteceu na virada do ano, em Campinas. O cara, inconformado com o regime restrito de suas visitas ao filho, matou doze pessoas, dentre elas a própria criança.

O menino foi o último a ser morto, antes de o próprio atirador cometer suicídio; é de arrepiar os cabelos imaginar uma criança de oito anos assistindo ao seu pai atirar em quinze pessoas, matando imediatamente onze, dentre as quais sua mãe.

Na carta que o cara escreveu “para o filho” (uso as aspas porque ele próprio sabia que a criança jamais a leria, ou seja, a carta foi para nós mesmo), ele fala como se fazer isso fosse em benefício deste. Eu acho chocante esse nível de falta de empatia com a criança. De adultismo. Me lembrou aquele papo de “ah, ele é um bom pai, mas um péssimo marido“.

Isso sem nem entrar no “detalhe” de que ele matou o menino também.

Não é possível falar a respeito sem pensar no ditado “jogar o bebê fora com a água do banho”. Mas daí a gente rapidamente se dá conta de que o “bebê”, isto é, aquilo de que esse cara estava tentando cuidar ali, não era o filho dele. Se fosse, o desfecho teria sido outro.

Eu vi um pessoal classificando o ocorrido como “terrorismo da ultradireita”. Porque a carta falava mal da Dilma. Porque a carta descia o pau nas feministas e nas “vadias”. Porque a carta falava como se ser preso fosse ir para uma colônia de férias sustentada pelo dinheiro público. Dentre outros pontos que costumamos ver nos discursos da direita.

Mas eu discordo dessa análise.

Eu imagino os mesmos atos e uma carta que falasse de “matar a vadia burguesa”. De “sistema machista que acha que apenas a mulher tem condições de cuidar de criança”. De “não vou preso porque não quero meu corpo sob a jurisdição do Estado”.

Desde que existem ideologias, existem as pessoas que se utilizam delas para justificar atos pessoais seus. E não estou apenas falando das pessoas que deturpam ideais, como ocorreu na ditadura soviética, ou na inquisição medieval. Estou falando do cara que, em meio à ditadura militar brasileira, denuncia alguém como terrorista, não porque ela seja comunista, por “dever cívico”, mas porque ela ocupa um cargo numa instituição que ele próprio quer ocupar, ou teve um caso com a esposa dele.

Estou falando inclusive da pessoa que faz isso enquanto se ilude e delira que está fazendo isso imparcialmente, por dever cívico sim, que o resto é só coincidência.

O que aconteceu no reveillon em Campinas foi um ato de terrorismo machista. Assim como a chacina do Realengo. Assim como a chacina de Santa Barbara, nos EUA. Terrorismo machista. E adultista, neste caso, quero evidenciar, para que não se perca a reificação, a objetificação, a desumanização da criança que atos desse tipo demonstram.

Terrorismo. No sentido de ato praticado com o intuito de aterrorizar, de forma a compelir pessoas a agirem ou deixarem de agir de determinadas formas. No caso, mulheres a deixarem de se proteger de homens abusivos, deixarem de proteger suas crianças de homens abusivos, deixarem de buscar afastarem-se de homens abusivos. E aceitarem que o abuso masculino e paterno faz parte da vida, e que temos que suportá-lo, senão…

Mesmo quando não ocorrem mortes, mesmo quando não há notícias nos jornais, toda vez que uma mulher é exemplarmente punida por proteger ou defender a si mesma ou outrem de violência machista e adultista, isso é feito para mandar um recado a todas as outras mulheres: “é isso o que acontece com as vadias”.

(E nós sabemos quem são as vadias, né? Todas nós somos, já fomos ou seremos vadias para algum, alguns ou muitos homens em algum momento das nossas vidas. Porque o critério que separa a vadia da “mulher de bem” na cabeça de um homem assim é “fazer o que eu quero que ela faça”.)

E por que é tão importante para mim diferenciar o terrorismo machista do terrorismo da ultradireita, já que esta é tão ostensivamente machista?

Porque a misoginia, o adultismo e o machismo – e inclusive o terrorismo machista – não é exclusividade da direita.

É terrorismo o ostracismo da moça que ousou denunciar o esquerdomacho desconstruidão como abusivo em seu grupo social. É terrorismo o assédio moral à funcionária que ousou não engolir as piadinhas machistas do chefe. É terrorismo a perseguição à mulher que ousa falar de feminismo em seu blog. É terrorismo a recusa de orientação na pós-graduação à acadêmica que ousou não deixar quieto o assédio sexual que sofreu do professor. É terrorismo a recusa de trabalhar com a modelo que denunciou o estupro pelo fotógrafo badalado.

E tudo isso rola independentemente de sigla de partido, se há partido ou não, se a ideologia é de cá, de lá, de cima, de baixo. Porque o que a direita e a esquerda têm em comum é sua dificuldade de reconhecer e desconstruir as opressões identitárias que as habitam, dentre elas o machismo.

Por exemplo, entre quem culpou a mãe do menino pela chacina esteve não apenas a ultra direita que acha que mulheres são, por princípio, vadias que merecem ser tratadas com violência. Apareceu também gente de “esquerda” que acha que ela foi irresponsável porque “ela teve a chance de pedir uma medida restritiva e não o fez”. Porque ela fez diversos boletins de ocorrência, mas não quis dar continuidade processual a eles. Porque “faltou empoderamento” para ela. Porque não adianta o Estado prover os meios para que a mulher se proteja, a mulher tem que querer se proteger. E blablablás afins.

(Como se medida restritiva fosse encantamento que te protege magicamente, ao invés de um pedaço de papel que diz que você pode pedir socorro se essa pessoa se aproximar de você. Você pode. Se você vai conseguir, se o socorro vai aparecer, etc., são outros quinhentos. E como se, também, processar o cara criminalmente fosse de alguma forma proteger a essa mulher – e sua família. Ele dificilmente seria preso, já que injúria, ameaça e mesmo agressão sem lesão corporal são crimes que dificilmente são puníveis com prisão hoje em dia; continuaria solto, só que ainda mais revoltado – coisa que ela tinha razão de temer – e ela estaria processando criminalmente o pai do filho dela, algo que seria desgastante não só para ela, mas para o filho dela também.)

Voltando ao assunto. Me irrita demais ver gente dita de esquerda que chama de pós-modernismo, de “desvio do foco real” falar sobre feminismo, sobre antiadultismo e a luta contra outras opressões identitárias, subitamente garrar nessa paixão toda de defender mulheres e crianças dos “monstros que a direita cria”, sem a menor disposição de olhar para si próprie e ver o que tem de semelhante com esse monstro.

Sim, porque esse papo de monstro existe, principalmente, para duas finalidades. A primeira é para desumanizar o “monstro” e tornar possível que ele seja tratado de forma desumana. A segunda é distanciar o “monstro” da gente. E a gente se sentir a salvo de praticar monstruosidades, porque, né, não somos monstros, então não temos nem que pensar sobre isso. Só que não.

Tanto há monstros na esquerda que eles são capazes de usar uma tragédia como essa como alavanca política. E isso não é só hipocrisia e oportunismo. É token, machismo e adultismo também.

Cultivando o estupro

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 7 de junho de 2016.

pelo fim da cultura do estupro

Os acontecimentos recentes no Rio reacenderam o debate sobre cultura do estupro. Afinal, como é possível que trinta e três homens “façam sexo” com uma moça desacordada e postem vídeos se gabando disso, como se não entendessem que praticaram um crime?

Como é possível que a vítima de tamanha brutalidade seja tão selvagemente atacada por parte da opinião pública, como se estivesse mentindo ou fosse merecedora daquela violência?

Se considerarmos como estupro “qualquer ato sexual sem consentimento”, “cultura do estupro” quer dizer tudo (seja na política, nas ações, na mídia, nas conversas do dia-a-dia, nas redes sociais, etc.) que cria ou colabora para criar uma atmosfera em que a importância do consentimento para o ato sexual é diminuída. Tudo, portanto, o que nos leva a ver como um ato sexual “normal” o que, na verdade, é estupro, ou que nos leva a relativizar o estupro, mesmo quando o reconhecemos como tal.

Isso gera um ambiente em que o estupro é visto como natural, justificado, compreensível e escusável, estimulando sua ocorrência.

“Ah, mas então não existe essa cultura do estupro, porque todo mundo abomina o estupro”. É o que parece, né? Só que as pessoas abominam só o que elas entendem como estupro – e o que elas entendem como estupro representa uma parcela ínfima dos estupros que de fato ocorrem.

Para a maioria, o estupro só é estupro se: a moça (de preferência branca, de preferência rica), usando roupas não “provocantes” (que palavra interessante), é atacada por uma pessoa (de preferência negra, de preferência pobre) desconhecida (porque, se ela conhece o cara, ela que deu trela), na rua (porque se for em casa é “assunto deles/de família”), num horário “decente” (de dia ou não muito tarde da noite), e no caminho para ou de algum lugar também “decente” (que não esteja destinado à diversão: igreja, padaria, trabalho…). Ah, e só se ela  reagir. Porque se ela tiver medo e ficar quieta, ela “deixou acontecer”, ou “estava querendo”.

Essa é a relativização do consentimento. Essa é a cultura do estupro. A ideia de que, dependendo das circunstâncias, você diz sim mesmo quando diz não. Que, se você veste uma determinada roupa, age de uma determinada forma, está em um determinado lugar, etc. você está, de antemão, consentindo.

Aliás, na cultura do estupro, não existe não consentir. Porque “não” quer dizer “insista”. Não dizer “não” (mesmo bêbada ou dopada, por exemplo) é dizer “sim”. E dizer “sim” em um dado momento é dizer “sim” para tudo o que vier depois dele.

A cultura do estupro parte de três premissas básicas, a meu ver.

Primeiro, a de que o estupro é uma forma de sexo. Que é motivado por tesão. E isso, mesmo quando se sabe que até mesmo mulheres cobertas da cabeça aos pés são estupradas, que muitos homens são estuprados em presídios, por homens que não são homossexuais. A maior parte das pessoas ignora o fato de que o estupro é, na verdade, um ato de violência, de subjugação e dominação, e que o ataque sexual é só a via de manifestação disso.

É só imaginar o nível de desprezo que uma pessoa tem que sentir por outra para usar seu corpo como um objeto masturbatório, uma boneca inflável, enquanto ela está inconsciente, ou chora, pede para parar ou, ainda, simplesmente não parece estar participando do ato, ou querendo que ele aconteça.

E isso nos leva à segunda premissa: a de que a função da mulher é agradar ao homem e seus próprios desejos não são relevantes. Assim, mulheres são objetos, não sujeitos, sexuais. E o tesão e o prazer da mulher são irrelevantes, ou só relevantes na medida em que satisfazem ao ego do homem ou incrementam a experiência sexual deste. Isso faz com que pareça normal e super ok uma mulher fazer sexo mesmo sem querer fazer sexo. Afinal, que empatia é possível com um objeto?

Quando a vontade da mulher em relação ao ato sexual é apagada, seu estupro automaticamente deixa de parecer estupro.

A terceira premissa é essa ideia tão simples e tão comum de que homens são incapazes de controlar seus impulsos sexuais. Que, como animais, não são capazes de discernimento e de escolha em relação a sexo, e não são capazes de resistir à oportunidade de sexo (mesmo que sem consentimento, ou seja, estupro).

Juntando esse tripé (o estupro é sexo, mulheres são objetos sexuais e homens são incapazes de autocontrole), temos a construção da noção de que, quando o estupro ocorre, é porque a vítima o “provocou” de alguma forma. É o que chamamos de culpabilização da vítima – quando a vítima é tratada como se fosse culpa dela a violência que ela sofreu. Como quem cutuca a onça com a vara curta e sofre as consequências “naturais” disso.

Só que homens não são onças – ou não deveriam andar soltos por aí. Homens são responsáveis por seus atos e são capazes de escolher praticá-los ou não.

Mesmo que uma mulher de fato queira a atenção masculina, mesmo que ela queira ser vista, queira flertar ou fazer sexo, ela certamente não quer, nem merece, ser estuprada.

Mesmo que uma mulher tenha feito sexo com mil homens, ela pode não querer fazer com este ou aquele. Mesmo que uma mulher esteja num relacionamento com um homem, ela pode não querer fazer sexo com ele. Mesmo que uma mulher esteja fazendo sexo com um homem, ela pode não querer fazer isto ou aquilo. Mesmo que uma mulher esteja fazendo sexo grupal com dezenas de pessoas, ela pode escolher o que quer fazer e com quem. Mesmo que uma mulher seja uma prostituta, ela pode não querer este ou aquele cliente, ou não permitir este ou aquele ato.

Porque sexo sem consentimento é estupro. E, se uma mulher – ou qualquer pessoa, na verdade – não quer o ato sexual que está ocorrendo com ela, se ele acontece contra a vontade dela ou quando ela não tem como declarar sua vontade a respeito, independentemente das demais circunstâncias envolvidas, ela está sendo estuprada.

Ela poderia estar com roupas curtas, no beco mais violento da cidade, às três da manhã; ela não seria estuprada se o estuprador não a atacasse. Por outro lado, se ela não estivesse ali, ele provavelmente encontraria outra mulher para atacar. Porque o estupro ocorre não pela presença da vítima, mas pela escolha do estuprador de cometer o estupro.

Repito: o estupro só acontece porque o estuprador escolhe cometê-lo.

Não é um fato simples, óbvio e inegável? Dá até vergonha de escrever tamanho acacianismo. Então por que as pessoas tão facilmente o perdem de vista?

Para mim, parece ser por medo.

Homens aderem à cultura do estupro porque têm medo de olhar para si mesmos e verem estupradores em potencial. Eles querem acreditar que o estupro está só lá fora, que é algo que “monstros” fazem, não homens “bons” como eles e seus amigos.

Mulheres aderem à cultura do estupro porque têm medo de olhar para si mesmas e verem vítimas em potencial. Elas querem acreditar que o estupro está só lá fora, que é algo que só acontece com mulheres que “merecem”.

Homens querem acreditar que não oferecem perigo. Mulheres querem acreditar que estão fora de perigo. E, assim, os estupros ocorrem e todo mundo faz de conta que não foi nada. E eles continuam a ocorrer.

Isso é a cultura do estupro.