O homem ideal?

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***Contém linguagem sexualmente explícita

Ele é firme, ele é justo, ele nunca chora. Chorar é a humilhação dos fracos (“Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és!”). E ele é muito forte. É o mais forte de todos.

Honrado, jamais busca resolver seus conflitos com sua descomunal força física, mas, quando é forçado a usá-la, sobrepuja a todos os seus adversários. Nunca perdeu uma briga, física ou verbal. Nunca precisou de um golpe baixo, um arranhão, uma mordida, um puxão de cabelo, de orelha. Afinal, isso é para as mulheres e quem se equipara a elas.

Ele é fera em todos os esportes, é sempre o mais rápido, o mais forte, o mais ágil. Ganha todos os jogos e ganha todas as mulheres, troféus que ele usa para demonstrar sua superioridade em relação aos outros homens. Ele nunca perde. Nunca. Se parece que ele perdeu é porque o jogo ainda não acabou.

Sua pica mede 30cm de comprimento, 5cm de diâmetro e vibra como as asas de um besouro mágico sobre um saco escrotal com bolas de 100 g cada uma. Suas cuecas e calças têm que ser feitas sob medida. Mas, no final, essa rola toda é quase desnecessária, já que mulheres gozam ao menor toque de seus dedos e às vezes até mesmo sob o seu mero olhar. Todas se abrem para ele como flores orvalhadas numa linda manhã de verão. Ninguém, absolutamente ninguém, é melhor do que ele na cama. Ou no sofá, ou na rede, ou na grama, ou no telhado. E ele está sempre em ponto de bala esteja onde estiver, seja quando for, seja como for. Ele é capaz de fazer sexo ininterruptamente, meter dúzias de vezes sem tirar, satisfazer dezenas de mulheres de uma só vez e tudo isso sem jamais se cansar.

Todas as mulheres que ele possui são atraentes, fogosas e eram todas virgens antes dele. Todas o amam loucamente, têm crises de ciúmes constantes, ameaçam se matar, brigam entre si. Nunca ninguém fica com ele só por sexo, elas sempre se apaixonam no final. Nenhuma mulher jamais consegue discutir com ele sem acabar se entregando aos seus encantos. Ele é o domador de todas as megeras, o pau dele é uma varinha mágica do amor.

Elas fazem tudo por ele, de modo que ele mal tem que escovar os próprios dentes, limpar a própria bunda. Ainda bem, porque ele não é capaz de lavar um copo, de fazer um miojo lendo as instruções do pacotinho. Óbvio, já que estas estão num nível muito inferior ao intelecto avantajado dele, assim como todos os manuais de instrução e os mapas. Mesmo porque, ele é um desbravador, um aventureiro, e sabe que o melhor jeito de conhecer os caminhos é se perder neles. Seguir mapas é para os indefesos, não para heróis como ele. Se ele acabar no meio do mato ou cercado por malfeitores, ele é plenamente capaz de se virar sozinho.

Se alguma de suas inúmeras mulheres o traísse (coisa que jamais aconteceria, isso é só mesmo uma hipótese muito impossível sendo levantada por questões teóricas) ele a largaria imediatamente. E ela se mataria de arrependimento e pela vergonha da desonra, já que teria cometido esse crime sem sentir prazer algum, numa tentativa vã de se vingar dele por ter tantas outras mulheres.

Ele tem o corpo musculoso, mas não malha, não faz ginástica, não vai à academia. Quando muito, pratica lutas. É magro, apesar de ser capaz de comer como um ogro, especialmente carne, muita carne, vermelha e malpassada, e tomar muita cerveja em goles sôfregos, acompanhada de vodka, uísque e outros destilados, tudo de excelente qualidade. Mas ele não é alcoólatra. Alcoolismo é para os frágeis, ele tem de tudo, não precisa do álcool como muleta para nada.

Ele é assertivo, confiante, fala sempre sem gaguejar, com perfeição, de forma franca e direta. Todos sempre querem saber sua opinião e suas piadas são sempre engraçadíssimas. Ele é brilhante e profundamente culto, apesar de estudar muito pouco, já que está sempre na balada, com mulheres, praticando esportes ou tomando cerveja com os amigos – que ele tem às pencas e todos o admiram e o seguem sem pestanejar.

Não há quem resista à sua lábia; ele é muito influente. Por isso ele tem sempre os melhores empregos e trabalhos, nunca tem chefes ou superiores, especialmente que sejam mais jovens ou da mesma idade que ele (ou mulheres, claro), ganha rios de dinheiro e só anda de carrão, dirigindo sempre com muita velocidade, afinal, ele pode pagar multas e pessoas para assumirem seus eventuais pontos na carteira. Esperar no trânsito é para os beta.

Ele está sempre por cima das mudanças tecnológicas e sabe mexer em todos os aparelhos eletrônicos com a mesma maestria com que mexe em mulheres. Não há segredos da informática que estejam além de suas aptidões. Afinal, ser ultrapassado tecnologicamente é ficar velho. E ficar velho é ficar impotente, é para os homens menores, os menos homens, esses que não são garanhões orgulhosos como ele é. De velhice, nele, no máximo, no máximo, leves cãs que adornam suas másculas têmporas.

Aliás, ele também mexe com sucesso em todos os motores que encontra (especialmente os de veículos) e todos os eletrodomésticos; ninguém conserta qualquer coisa numa casa melhor do que ele. Nenhuma de suas mulheres perde tempo chamando outros homens, homens-serviçais, para fazer o que ele faz melhor. Não é à toa que em filmes pornô há o clichê dos encanadores e consertadores de coisas, já qualquer homem de verdade (como ele) sabe que há uma estreita ligação entre a potência sexual e a capacidade de fazer o trabalho do macho da casa. Está tudo lá, naquele poderoso cromossomo Y.

Aliás, ele já carregou pessoas para fora de casas em chamas, salvando-as em seus musculosos braços; já desceu de árvores com gatinhos brancos e felpudos; já liquidou sozinho hordas de bandidos muito maus. E tudo isso com muito sarcasmo e uma expressão blasé em seu rosto (ele tem muito estilo). A polícia, o corpo de bombeiros e até mesmo as forças armadas tiveram que reconhecer seus feitos, declarando-o membro honorário de suas fileiras.

E é por isso que ele é tão amado, tão admirado, tão invejado. O líder nato.

Eis o homem ideal do patriarcado.

Eu às vezes tenho pena de todos os homens que não são esse homem. Mas costumo ter muito mais pena de todas as mulheres e crianças que têm que conviver com a frustração de todos esses homens.

Queima!

torches_and_pitchforks

Muitas vezes, quando vejo alguém criticar a aparência de outra pessoa, eu ouço ao fundo a sanha beata que aponta para a pecadora: “Vergonha! Como assim?! como assim…”

“… você se acha bonita?”

“… você se acha gostosa?

“… você sai de saia com essas coxas gordas?

“… você sai de saia com essas pernas finas?

“… você usa fio dental com essa bunda caída?”

“… você vai à praia com toda essa celulite?”

“… você não vai colocar silicone?”

“… você não se depila?”

“… você não pinta o cabelo?”

“… você não aplica botox?”

“… você não usa maquiagem?”

O que não é dito, mas está aí nas entrelinhas, é:  “Enquanto eu estou aqui…”

“… permanentemente de dieta ou me sentindo culpade por burlar a dieta?”

“… passando calor, dor e desconforto para não mostrar as partes de mim que não são “aceitáveis”?”

“… com vontade de vestir uma burca toda vez que me sinto abaixo do padrão de beleza?”

“… arriscando a minha vida com procedimentos dolorosos para me aproximar ou me manter no padrão?”

“Desse jeito, vai parecer que o meu sofrimento é desnecessário e eu não sou superior a ninguém por passar por ele. Como assim?”

Sobre pais e bullies

pais e bullies

Hell’s Kitchen. Reality show em que cozinheiros competem entre si, com eliminações a cada episódio até que reste apenas um, a quem caberá o prêmio de se tornar chef executivo de algum dos restaurantes de Gordon Ramsay, chef inglês célebre tanto por seus feitos culinários quanto por seu temperamento explosivo e a generosidade com que distribui insultos ao seu redor.

Chega a ser impressionante como a estrela do show – o próprio Ramsay – pode, truculenta e arbitrariamente, falar e fazer o que quiser aos participantes, que, via de regra, aceitam tudo resignadamente. Mas não parece ser só o prêmio o que os motiva a tamanha docilidade; eles de fato parecem buscar a aprovação, o respeito e a aceitação de Ramsay (o que raramente conseguem). Os competidores se derretem ao ouvir dos lábios do famoso chef qualquer coisa que se passe remotamente por um elogio, e sofrem intensamente quando se tornam o foco de suas ofensas – o que, aliás, pode acontecer independentemente de mérito passado; um único e trivial erro pode render toda uma noite de exposição e humilhação. Nos bastidores, eles expõem lacrimosamente seus sentimentos, sendo muito frequente a vergonha por “ter decepcionado chef Ramsay”.

Em momentos de confraternização com os aspirantes a chef, no entanto, o mesmo homem exibe uma doçura que, não fossem as suas diatribes gravadas e amplamente testemunhadas, não seríamos capazes de acreditar que possivelmente viriam dele. É como se fossem duas pessoas diferentes, o furioso, ultrajante e intimidador Ramsay no restaurante durante a competição e o dócil, atencioso e agradável Ramsay de fora dela.

Interessantíssimo, além de extremamente bem dirigido e soberbamente atuado, o filme “A Hora Mais Escura” (“Zero Dark Thirty”, de 2012, dirigido por Kathryn Bigelow) mostra algo incomodamente semelhante. No filme são mostradas práticas de ‘interrogatório’ de suspeitos num campo de concentração americano. Depois de ser brutalizado, torturado, humilhado, cagado, ao prisioneiro é subitamente oferecido o “privilégio” de um banho, roupas limpas, e uma refeição digna (pelo tratamento de rotina ele seria alimentado por meio de um funil metido em sua garganta, pelo qual se despejaria alguma lavagem).

E ali, desperto do pesadelo da tortura para a bênção dos pequenos confortos do mínimo de dignidade de sua pessoa humana, suas lealdades repentinamente mudam. O torturador é um cara legal, que só quer que aquele sofrimento acabe. Não lhe traz nenhum prazer degradar o interrogado daquela forma, mas ele não tem nenhuma alternativa se este não lhe der as informações de que precisa. “Eu quero ser legal, eu quero te ajudar. Me ajude a te ajudar” é a mensagem.

Em 1973, um grupo de reféns num assalto a banco em Estocolmo chocou o mundo ao demonstrar lealdade – até carinho – em relação aos seus captores. Em seu esforço de sobrevivência durante o cativeiro, haviam passado a vê-los não como o motivo por estarem naquela situação, mas como pessoas cuja “benevolência” os havia mantido vivos. Aparentemente, ao assumirem como seus os objetivos e valores de seus sequestradores, deslocaram para si a responsabilidade pelo que lhes ocorresse (“se eu me portar conforme o esperado, ficarei bem”), e passaram a sentir-se mais seguras, mais no controle, menos vítimas. Cunhou-se a partir daí o termo “Síndrome de Estocolmo” para definir casos semelhantes, e especula-se até mesmo que ela tenha um papel importante no treinamento militar, por exemplo.

É hoje moda falar sobre bullying. Mas fala-se muito como se fosse um fenômeno espontâneo, que partiria da própria criança. Já há quem fale do bullying cometido pelo professor em relação ao aluno, mas ainda é raro que se veja a correlação entre o bullying sofrido dentro de casa, no âmbito da própria família e o bullying que acontece fora dela, perpetrado pela criança.

Ora, bullying pode ser basicamente definido como atos reiterados de violência física ou emocional, ocorridos no âmbito de uma relação desigual de poder. Que nome se dá então, à atitude de um pai ou uma mãe que constantemente batem, xingam e/ou gritam com seus filhos? Educação? Criação? Por quê?

Trata-se de uma relação obviamente desigual de poder (não apenas físico), em que ocorrem reiteradamente atos de violência física ou emocional. Por que, então, imagina-se que os nefastos efeitos físicos e psicológicos do bullying (que, aliás, muitas vezes se estendem por toda a vida do indivíduo) não seriam sentidos pela vítima desse tratamento? Por que se imagina que os ganhos em termos de uma suposta “disciplina” e “obediência” (leia-se “conformação de comportamento por medo”, seja de medo de punição, seja de não ser amado) compensariam esses outros efeitos?

Como solução para o bullying propõe-se conscientizar as “testemunhas silenciosas” (as outras crianças que o veem ocorrer sem fazer nada) e os bullys quanto às consequências de seus atos para a vítima e para a sociedade como um todo. Nada se fala de revisitar o bullying que já tradicionalmente ocorre dentro de casa, ou de se conscientizar as “testemunhas silenciosas” adultas de que impedir que um pai bata no filho não é “se meter na criação dos outros”; é impedir um abuso que não deveria ocorrer nunca, jamais.

Quando se é rotineiramente maltratado física ou emocionalmente por alguém maior e mais forte do que você, qual é a diferença entre ele ser seu pai ou outra criança ou adolescente?

Na verdade, há uma diferença. A diferença é que você ama seus pais. Que você desesperadamente quer sua aprovação, aceitação e respeito. Seu amor. Só que isso, longe de tornar a situação melhor, a torna muito, muito pior. Porque não é só que você está nas mãos de um bully. Você ama seu bully. E isso torna cada humilhação sofrida ainda mais dolorosa, mais desesperadora, na medida em que se tende a voltar a raiva pela agressão contra si mesmo e não contra o agressor ou agressora.

Aliás, confusa, a criança os defende. Já que sua compreensão de mundo depende de tudo o que seus pais fazem ser “bom” e “certo”, a consequência lógica é a de que ela própria é “má” e “errada”. Não ocorre a ela o horror do tratamento violento que ela recebe. Ela que fez o que não devia, que falou o que não devia… muito como ocorre com a mulher de quem popularmente se diz que “gosta de apanhar”, a desproporcionalidade e absurdidade da reação de quem a agride não lhe é sequer compreensível. Lidar com a sensação de desamor que essa noção lhe traria é simplesmente insuportável naquele momento.

Não raro, na tentativa de não sentir esse desamor, ela abafa todos os seus sentimentos a respeito, classificando-os como “bobagem”, dizendo para si mesma que seu sofrimento é ilegítimo, que “não é motivo para chorar”, que “não é nada demais”.

 E, claro, se você dá a essa criança ou adolescente (ou adulto) a oportunidade de “virar a mesa”, de assumir, ela própria, o papel de seus pais bullies, de extravasar seus sentimentos de inadequação e humilhação ao impô-los a outras pessoas, se você lhe oferece uma válvula de escape para todo o ódio e ressentimento que ela não se permite sentir de seus pais, ela raramente irá rejeitá-la.

Eu não conheço Gordon Ramsay. Nunca li sua biografia. Mas não me admiro ao ouvir que seu pai era um homem violento e cruel.

Tiro no pé não mata

Suponhamos que uma pessoa dê um tiro em seu próprio pé. A ferida não é fatal, mas ela tem que ir para o hospital. No caminho, um cara bate deliberadamente no carro que a transportava para lá e ela morre. Suicídio?

É verdade que ela só estava naquele carro, naquela hora, naquele lugar, porque deu um tiro no pé. Sim, ela participou da cadeia de eventos que culminou em sua morte. Mas não foi o tiro que, de fato, a matou. Fosse só pelo tiro, ela teria chegado ao hospital, sido atendida e saído da história viva. O que foi determinante para que ela morresse foi a atitude do cara que bateu no carro em que ela estava.

Claro que é válido questionar por que motivos uma pessoa atira no próprio pé, ou possui uma arma, etc; são questões que devem ser entendidas e saneadas. Mas, se a sociedade quiser evitar que mais casos como esse ocorram, ela deve se focar em coibir comportamentos como os desse indivíduo, que são o que de fato os causam. Afinal, não tendo acesso à vítima em questão, o cidadão simplesmente encontraria outra.

Dito assim, parece óbvio. Mas vejamos outras situações que eu considero similares, mas que costumam ser tratadas de uma forma muito diferente:

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente a atenção e aprovação dos homens ao seu redor (tiro no pé). Eventualmente, acaba sobrando sozinha com um “amigo” que a estupra, se aproveitando do fato de que ela não consegue dizer “não” expressamente, apesar de sua recusa ser clara e seu desagrado ser evidente (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente parceiros dominadores, agressivos, violentos (tiro no pé). Entra num relacionamento com um homem particularmente abusivo que a espanca (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a comportar-se de forma autodestrutiva, como embriagar-se até desmaiar em festas e baladas (tiro no pé). Eventualmente, é estuprada por um homem que se aproveita de seu estado de embriaguez (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a não questionar as autoridades com que se depara, especialmente se forem homens. Um dia, engravida e coloca-se nas mãos de um mau médico obstetra, não buscando informações que a protegeriam (tiro no pé). O tal médico a força (juntamente com seu bebê) a passar por uma cesariana desnecessária e indesejada, ou por um parto violento e traumático, cheio de intervenções desnecessárias (cara que bate no carro).

O que todas essas situações têm em comum? Bom, primeiro, são casos de violência de gênero. Sim, podem ocorrer com homens também. Só que a quantidade de homens que passa por esse nível de abuso e violência em situações semelhantes é ínfima em comparação.

Em segundo lugar, todas as vítimas retratadas são antes vítimas do machismo e misoginia do ambiente em que cresceram e vivem. Todas elas, em resposta a esse ambiente, desenvolveram comportamentos “tiro no pé” que as colocaram, digamos assim, em carros propícios a sofrerem batidas.

Em terceiro lugar, e o mais relevante para o que se pretende aqui ilustrar, são todos casos em que a vítima tem alguma participação na cadeia de eventos que culmina com a violência que é praticada contra ela. Mas, a exemplo do caso do tiro no pé, a participação delas NÃO É DETERMINANTE para o que lhes ocorre ao final.

Não haveria estupro se não houvesse o estuprador. Não haveria violência doméstica se não houvesse o agressor. Não haveria violência obstétrica se não houvesse o mau profissional do ramo. Como já foi dito, se o cara não consegue vitimar uma, ele simplesmente vai e encontra outra.

No caso de um assalto não se diria que a culpa é da pessoa que foi assaltada, apesar de ela, como ocorre nos exemplos dados, ter participado da cadeia de eventos que levou a que ele ocorresse (estando no local onde ele ocorreu, dando mostras de que tinha o que ser roubado, não sendo suficientemente vigilante, por exemplo). Mas muito se ouve que a mulher não pode se fazer de vítima, que mereceu, que “estava pedindo”. Outros ainda dizem que a mulher “tem que tomar o controle da situação”, parar de “esperar que alguém a salve”. Como se ela fosse ter poder de, já estando dentro de uma situação de agressão, repeli-la só com a força de sua vontade.

Ela pode ter dado um tiro no pé, mas não se violentou. O controle que ela poderia ter da situação acaba quando ela entra na casa do amigo mal-intencionado, quando ela toma a primeira pancada, quando ela perde a consciência depois de beber demais, quando ela dá entrada no hospital para parir. O que acontece a partir daí não está sob o controle dela e sugerir que estivesse é onerá-la com uma responsabilidade que cabe a outro indivíduo – ao indivíduo que, no controle real daquela situação, OPTOU por agir com brutalidade.

É válido questionar – e entender – o que levou a vítima à situação em que ocorreu a violência que ela sofreu. Por parte da própria vítima, para que consiga escapar de novamente encontrar-se ali, e por parte da sociedade, para que compreendamos a importância de desconstruir o machismo e a misoginia que geram os padrões de comportamento que colocam mulheres nessas situações. Mas, para diminuir a incidência desse tipo de violência, não adianta diminuir a disponibilidade de presas. Tem-se que focar nos predadores.

Uma coisa é reconhecer que há uma bagagem emocional que cria uma vulnerabilidade em relação a esse tipo de agressão. Outra coisa, muito diferente, é essa mesma bagagem emocional ser utilizada para justificar os atos dos agressores e para colocar culpa nas vítimas, perante a sociedade e a si mesmas, uma manipulação que transforma em principal e determinante o que, na verdade é só concorrente e facilitador para o resultado final.

Olhando-se no espelho, a mulher sente vergonha pela violência que ela SOFREU. É forçada ao silêncio e à negação, um processo muitas vezes ainda mais doloroso do aquilo por que ela já passou. Chega a inventar desculpas para seu agressor, defendê-lo (“eu não me fiz entender”, “eu que fiquei com ele” ou “eu que provoquei”, “eu não lembro de nada, talvez eu tenha consentido”, “ele estava só fazendo o trabalho dele, quem sou eu para julgar, não estudei medicina”), ou ouvir essas mesmas desculpas e defesas (não raro acompanhadas de acusações e ameaças) das pessoas que deveriam dar-lhe apoio, talvez até mesmo sua família, quando tenta romper esse silêncio.

Por que tanta falta de apoio à vítima, tanto apoio ao agressor?

Porque não se quer culpar a quem de direito. Ou porque sequer se vê o ato dele como algo culpável, porque se entende que estupro só é estupro se a mulher é “de bem” e está sóbria, gritando e chutando; violência doméstica só é violência doméstica se nunca houve um grito, um palavrão, uma única atitude abusiva por parte do parceiro (ou pior! Se a mulher estava de boca fechada, a casa limpa, a roupa lavada, a comida na mesa e a testa do agressor livre de quaisquer cornos, imaginários ou não); violência obstétrica é invenção de gente desocupada que quer se meter no trabalho dos outros. Porque se costuma pensar que todos esses agressores estavam só fazendo que lhes era “natural” diante das circunstâncias.

Porque se parte do princípio bizarro de que podridão humana e natureza humana são a mesma coisa.