Críticas

Foto: Jo Yong-Hak / Reuters

Recentemente, a entrevista da candidata à presidência pelo PCdoB, Manuela D’Avila, no programa Roda Viva reacendeu a discussão sobre a tendência, numa cultura machista, de que mulheres sejam mais interrompidas e tenham suas falas menos consideradas que homens.

É incrível a diferença de tratamento entre as falas de homens e mulheres na sociedade e ainda mais incrível o quanto ela passa despercebida no dia-a-dia. É a tal “cegueira do privilégio” – a gente tende a achar, por exemplo, que o nível de dificuldade que outras pessoas enfrentam para fazer algo é o mesmo que o nosso. E não é, como o episódio demonstrou. Para uma mulher falar em público, ela precisa estar muito melhor preparada que um homem, precisa estar disposta a lidar com muito mais resistência e uma resistência muito mais agressiva do que aquela que um homem encontraria nas mesmas condições. Ela precisa ter resiliência para processar muito mais críticas e rejeições do que um homem.

E, claro, isso não se aplica só a privilégio de gênero. Se aplica a todas as esferas em que há opressão estrutural. Eu me lembro de uma situação em que uma pessoa que tinha transtorno bipolar pedia à outra que assumisse um compromisso por escrito, enquanto esta outra, revoltada e magoada, não entendia porque sua palavra não bastava. Faltava a esta a compreensão da vulnerabilidade de alguém que sofre de um transtorno mental, no sentido de sua credibilidade ser diminuída pelo preconceito capacitista em torno da doença a ponto de ela própria, sem um papel escrito e assinado em mãos, poder ser levada a duvidar de si mesma.

Então, é provável que, quanto menos privilégios você tiver na nossa sociedade, mais (e piores) críticas você terá enfrentado durante a sua vida. E é provável, além disso, que, porque essa relação entre privilégio e crítica é invisibilizada, tratada como não se existisse, você esteja mais vulnerável a essas críticas, porque nunca vai faltar gente para dizer que se você recebe mais críticas, é porque você “merece” mais críticas. Que o problema é você e não a opressão estrutural que se está fazendo de conta que não existe.

E isso me lembra de um tema sobre o qual eu venho refletindo há algum tempo, especialmente com o apoio dos Círculos da Confiança (grupos de prática de Fórum Brasil, algo de que já falei aqui e aqui): o tal “feedback” (o retorno, a opinião alheia sobre você, o que você faz, a crítica, basicamente, seja ela positiva ou negativa) e as muitas formas que já observei em mim de reagir a ele. Gostaria de exemplificar e explicar algumas aqui.

Vamos fazer de conta, para ilustrar, que eu sou chef de cozinha; que eu considere que tenho um dom para cozinhar, que é o que faço bem, que é a minha missão na vida, que o prazer que eu sinto cozinhando e vendo pessoas se deliciarem com o que eu faço é o que traz sentido à minha vida.

Daí, vem uma pessoa, come algo que eu preparei e diz:

“Nossa, que merda!”

Momento para absorver o choque.

Uma reação que me vem muito é a defensiva: “merda é você!”

Depois de anos e anos de porrada e muitos sapos de diversos tamanhos e variável toxicidade engolidos, a gente às vezes fica calejada e aprende a devolver a patada de imediato sem nem pensar, no reflexo mesmo. Dentro de mim, uma turba enfurecida me diz (e não exatamente sem motivo) que essa pessoa não tem consideração, nem educação, que absurdo, imagina, falar assim desse jeito, que desnecessário, nem deve ser verdade, vai ver ficou com inveja, imagina que ela iria falar assim se eu fosse um homem, etc.

Quando isso acontece, eu me fecho totalmente para a crítica da outra pessoa. Ataco a pessoa de quem ela partiu para me fazer acreditar que ela e a opinião dela não merecem a minha atenção porque, no fundo, eu sinto medo do que pode estar por detrás daquelas palavras.

Medo porque, se eu me permitir dar atenção a essa fala, eu posso, num dia particularmente ruim, ter uma outra reação, a de achar que eu sou uma merda. Que eu não faço nada certo – claro que ficou uma merda, como eu pude ser tão sem-noção de achar que qualquer coisa que eu fizesse pudesse ser boa? Que vergonha, meu deus, que horror, nunca mais vou cozinhar na minha vida, vou me enfiar num buraco e sumir!

Acho que, como cozinhar nessa história é a minha paixão, posso acabar me identificando com o que cozinho a ponto de ter dificuldade de separar o meu trabalho (algo que é mutável) do meu ser (no sentido de algo que eu não tenho como mudar a meu respeito), e acabar entendendo a valoração do meu trabalho como uma valoração de mim como um todo.

Também posso reagir pensando que o que eu faço é uma merda. Parece com o item anterior, mas é um pouco diferente, justamente porque não tem tanto a ver com quem eu sou, mas com a minha ideia da minha competência, do meu talento, da minha habilidade, do meu conhecimento para fazer o que eu faço. É como se houvesse em mim uma represa contendo a minha sensação de inadequação e a minha insegurança fosse um furo na muralha de contenção dessa represa e daí essa crítica fizesse a água jorrar por esse furo e ele se alargar até arrebentar o muro e tudo aquilo vir abaixo…

Já num dia bom, a minha reação pode ser a de lembrar que essa pessoa só pode falar daquilo que ela comeu. Ou seja, não apenas ela não está necessariamente falando de mim, mas também talvez nem esteja falando de toda a minha produção culinária, mas só desse prato que ela provou. É aquele prato que está uma merda. E quem sabe, dessa distância mais segura, em que a frase que foi dita não tem como me destruir como chef ou como ser humano, eu já posso ter a presença de perguntar “por quê?” e ouvir a resposta com uma curiosidade real. Ao invés de me sentir impotente e incapaz, apesar de um tanto mexida, eu adotaria, assim, uma postura de resolução de problemas, mais produtiva.

Talvez eu descubra que tem a ver com os ingredientes que usei naquele dia, ou com o gosto pessoal daquele indivíduo em particular. E talvez realmente a pessoa não tenha gostado do jeito que eu faço. E então posso refletir e fazer uma escolha informada sobre como agir com base nessa informação. Se vou querer atingir um novo segmento de mercado, se há mais coisas que eu posso e quero aprender. Se quero experimentar fazer diferente para atrair mais pessoas, ou pessoas diferentes.

Agora, num dia particularmente fantástico, costuma ser bem mais fácil para mim lembrar que uma opinião (inclusive a minha) é apenas uma opinião – e não uma verdade absoluta. E daí não existe ameaça na percepção da outra pessoa, tem só a informação que está sendo oferecida e o que quer que seja dito que eu não tenha como aproveitar bate no meu escudo de maravilhosidade intrínseca e vira aura de luz.

Nesse estado de graça, eu posso traduzir a mensagem por um simples “Essa pessoa aparentemente não gostou do prato que ela comeu.”

E como antes, posso perguntar o porquê e recolher mais dados que me podem ser úteis e fazer novas escolhas com base neles. Mas uma das escolhas que aparece muito nesse lugar iluminado é a de dizer “sinto muito, é o que eu tenho para o momento” e ficar em paz, na aceitação pura de mim, da outra pessoa, da minha culinária, do mundo e os passarinhos cantam, um arco-íris surge no céu e o sol sorri para nós de lá de cima.

E o que tudo isso tem a ver?

É que, às vezes, quando alguém nos faz uma crítica – e, como dito, críticas são algo tanto mais frequente quanto menor a quantidade de privilégios que se tem – temos a sensação de que estão tacando lama na gente.

Nós não controlamos o que outras pessoas fazem, assim como não controlamos o que elas pensam, nem o que sentimos diante disso – as feridas antigas cutucadas, os traumas reativados. Mas está sob o nosso controle a forma como agimos por isso.

Olhar para a gente, observar a forma como nos sentimos e como tendemos a reagir nessas situações nos ajuda a ter mais consciência dentro delas. E isso amplia nossa capacidade de escolha. Por exemplo, podemos garimpar a lama para ver se tem algo valioso ali no meio, uma informação que de fato nos ajude a viver melhor, fazer melhor o que queremos fazer. E talvez não encontremos nada de nosso proveito ali no meio e possamos desconsiderar o que foi dito com a segurança de que aquilo não nos serve. E podemos também, claro, decidir que vamos passar longe da lama e pronto, se isso é algo que conseguimos fazer em paz.

Se alguém resolver me criticar, seja da forma como for, pelo motivo que for (inclusive por preconceito) eu não tenho como mudar isso. À parte de militância, diálogo e ação possíveis, eu continuo fazendo parte de uma sociedade em que eu, neste momento, sofrerei mais críticas do que, no mínimo, metade da população mundial sofreria no meu lugar.

Mas eu posso trabalhar em mim a maneira como recebo essas críticas, para que, naquilo que for possível naquele momento, ainda que a intenção de quem as emite seja tóxica e destrutiva, elas não necessariamente me atinjam dessa forma.

Posso, ainda, além disso, quando eu própria for fazer uma crítica, observar o que me move a fazê-la e me indagar se eu a faria ainda que a pessoa criticada fosse outra pessoa, com privilégios que esta não possui.

Mais que isso, posso ter o cuidado de entregar o “ouro” que eu acredito que estou oferecendo com o mínimo de lama possível para facilitar o garimpo da outra pessoa, caso esta opte por fazê-lo (e caso eu realmente tenha a intenção de oferecer a ela algo que considero que lhe possa ser significativo e valioso).

Anúncios

O corpo da mãe

corpo

Assim que eu pisei dentro do círculo, pensei que tinha feito merda. Porque o que estava vindo não era o que eu achava que iria vir e estava tão forte, tão intenso. Será que eu estava preparada para o que estava atrás da porta que eu estava prestes a abrir?

Eu estava num ‘fórum’ ou ‘círculo de confiança’, uma prática que está começando a se difundir no Brasil, voltada à promoção de transparência, confiança e gestão emocional em coletividades. Já falei a respeito antes.

Aquele círculo, em particular, era temático, ou seja, tinha um tema preestabelecido e as pessoas podiam ir entrando, se quisessem, para discorrer sobre aquele assunto na sua vida naquele momento, diante dos olhares empáticos e sustentadores des demais participantes do círculo.

O tema da sessão era, simplesmente: meu corpo.

Eu não queria entrar. Eu pensei e pensei e não achei muito o que falar disso naquela hora. A coisa mais viva dentro de mim a esse respeito me parecia ser o esporão no calcâneo que me causava dores ao caminhar e me impedia de correr já há quase seis meses.

Assim que o centro foi aberto, no entanto, eu senti algo que aprendi ser, em mim, o “chamado” do campo do fórum, o sinal de que é hora de eu entrar: o coração batendo acelerado, as pernas inquietas, a vontade de levantar.

Eu não queria entrar. Meu calcanhar não parecia lá tão importante naquele momento.

Minha pulsação ficou ainda mais pesada, veio para meus ouvidos, minha garganta.

Esperei ainda alguns segundos, talvez por covardia de antecipar que não seria tão simples, talvez  por medo de monopolizar o tempo disponível. Então fiquei tentando conter tudo aquilo, a pretexto de ver se não tinha mais alguém que quisesse entrar primeiro, me sentindo uma garrafa de coca-cola recém-chacoalhada.

Mas o tempo passou e ninguém me salvou; eu já não tinha mais como conter aquela erupção.

Me ergui, meio a contragosto, uma parte de mim brigando e querendo ficar sentada. Tive uma troca de olhares com a facilitadora, em que tive a impressão de que ela percebeu o meu conflito interno e checava se eu estava presente, consciente, responsável por mim.

Sim, eu estava – estava na chuva e já disposta a me encharcar.

Dei meu primeiro passo e já não me lembrava mais o que eu queria dizer. Meu corpo inteiro se eletrizou, como se atingido por um raio. Eu estava tremendo, minhas mãos formigavam, minhas pernas estavam bambas, mas eu caminhava em passos, enérgicos, largos, fazendo círculos dentro do círculo, procurando dentro de mim as palavras. A cada movimento, eu sentia chegando até mim o cuidado, o respeito, a segurança das pessoas que, sentadas, me observavam em silêncio.

As lágrimas começaram a correr grossas, viscosas, quase, pelo meu rosto e, de repente, da minha boca saiu:

“Eu sou mulher?”

E, logo em seguida, com mais dor, mais lágrimas:

“Eu sou mulher! … Mas… eu sou mulher?”

Um segundo de silêncio e de novo irrompeu de mim:

“Este corpo, é de mulher?”

Agora eu girava em mim e girava no círculo, rotação e translação, sem lua, sem sol, sem rumo preciso, sem saber onde queria chegar, mas sabendo que queria chegar.

Mais uma contração e eu expeli:

“Se este corpo não é de mulher então é de quê?”

Um soluço fundo socou meu peito.

“Quem eu sou?”

Parei, chorando muito, de olhos fechados.

A facilitadora me chamou, me guiando para que eu não me perdesse em mim. “Para quem você está perguntando, Naomi?”

Eu ali era Naomi, não Letícia. Não podia ser Letícia, porque seríamos duas Letícias e isso causaria confusão. E o meu nome de criança, meu nome japonês, meu nome secreto, meu nome de dentro da família, dito ali, enquanto eu chorava, aberta, exposta, foi como um carinho de mãe depois de um susto grande. Me veio um suspiro de alívio lá de dentro da alma.

Um segundo depois, me lembrei das minhas colegas de balé caçoando de mim, cantando “Naomi, ‘não-é-hómi’, mas parece…” e a vergonha me invadiu rápido, me fez temer ser ridícula.

Olhei em volta, buscando o cuidado, o carinho do círculo. A reafirmação de que eu poderia deixar vir, deixar nascer, que o que viesse seria aceito, seria bem-vindo. Que aquele meu presente para mim e para o grupo era desejado.

Senti o amor chegando até mim, me segurando em pé, me amparando na minha pesquisa de mim. Outro afago de mãe, outro suspiro. Eu não estava sozinha.

Respirei fundo, foquei na pergunta; como ela chamava a razão, a emoção que me agarrava aliviou um pouco a pressão sobre o meu corpo, meu pescoço. Minha voz se desembargou.

“Não sei. Para alguém que possa me responder.” Aqui uma pontada de raiva, como uma irritação sem um alvo particular, uma frustração de quem não encontra o caminho que parece que está perto, mas não vem. Uma tristeza que não queria ser tristeza, que não queria aceitar. Impaciência? Talvez.

“E quem você acha que pode responder isso?” Ela me perguntou então, com um sorriso suave, curioso, reassegurador.

Eu ri pequeno.

“Eu”.

Ela me perguntou se eu gostava do meu corpo, do que ele me proporcionava.

Eu comecei a dizer que sim, que gostava do meu corpo, e então a co-facilitadora me perguntou se eu me importaria de mostrar mais desse corpo de que tanto falávamos.

Eu estava usando uma jaqueta enorme e pesada. Tirei. Não me contentei e tirei também a camisa, ficando só de sutiã. Teria tirado mais, mas senti frio. Eu me sentia segura ali; se quisesse poderia ficar totalmente nua. Na verdade, já estava.

Completei então me acariciando, agradecendo ao meu corpo, relembrando coisas e sensações que ele me trazia – movimento, conquista, prazer. A alegria me deixou leve e fez brotar de mim:

“Meu corpo me deu uma filha e um filho. E fez leite para eles.”

As lágrimas voltaram, agora mais fluidas. De repente me senti muito só. Só eu.

Era a primeira vez que eu ficava sem as crianças por tanto tempo. Meu marido foi com elas visitar a mãe dele e eu tive “férias” por um mês inteiro. Há seis anos e meio eu não ficava sozinha só comigo, sem qualquer preocupação imediata na minha cabeça que não fosse o meu próprio bem-estar. Há seis anos e meio meu corpo não era só meu, mas dividido com crianças que queriam colo, que queriam peito.

E o tempo de peito estava chegando ao fim. Depois de seis anos e meio.

Era uma delícia agridoce estar só comigo e eu estava desfrutando dela ao máximo em cada segundo. Mas foi só naquele instante que eu me dei conta de que estava atravessando uma crise de identidade por conta disso. E a profundidade dela.

De repente, me veio o grito:

“Mãe?”

“MÃE?!”

“MÃÃÃEEE!!!”

E a resposta, em seguida, melancólica, serena, aceitando a verdade:

“Não tem mais mãe. A mãe agora sou eu.”

(Eu ainda tenho mãe. Não era sobre ter a mãe. Era sobre ser adulta. Sobre ser responsável não só por mim, mas por outras duas pequenas pessoas também.)

Era o fim de uma era. O fim de uma eu.

O fim de uma eu muito querida, que trouxe tantas coisas novas, tanta mudança, tanta revolução para mim e, por tabela, para quem estava ao meu redor. E o começo de uma nova eu, com tanta promessa e esperança de ainda mais aventuras.

Mas uma precisava morrer para a outra poder nascer. E como eu iria fazer a transição de uma vida para a outra? Como eu iria conciliar as atividades dessa nova eu com a minha maternidade, essa nova maternidade dessa nova mãe que eu agora era? E quem era ela?

Meu corpo agora voltava a ser só meu. Mas que corpo era esse, agora?

Seis anos e meio.

Eu agora voltava a ter tempo para mim. Mas quem era a pessoa que eu ia encontrar nesse retorno para mim?

Seis anos e meio.

Será que eu ia gostar dela? Será que ela ia gostar de mim? Será que ela iria conseguir cuidar das crianças – dentro e fora de mim?

Aquele círculo me mostrou – melhor dizendo, me ajudou a ver – que viver o luto era o que abriria caminho para a minha celebração.

Flutuando

Foto de participante do curso curtindo o amanhecer. Tirada por Alam Kenji Minowa. 

“Para você, que gosta de gatos” dizia a legenda da pessoa que me mandou o vídeo. Era um vídeo sobre como se comportavam os gatos em gravidade zero. Que nem em uma estação espacial.

Acontece que gatos, como se sabe, têm um sistema interno muito interessante que lhes permite quase sempre cair de pé. Se você solta o gato no ar, mesmo que ele esteja com os pés para cima, ele rapidamente identifica onde é em cima, onde é embaixo e gira o corpo, primeiro a metade dianteira, depois a traseira e voalá. Aterrisagem leve e perfeita, com as quatro patas lindamente cravadas no chão.

E em gravidade zero?

Em gravidade zero, não há em cima, não há embaixo. Não há cair. Daí que o gato fica se torcendo desesperadamente para um lado e para o outro, tentando identificar o “chão”.

Eu não gostei do vídeo, achei enervante, angustiante. Mas muitas pessoas – como a que o enviou para mim, suponho – acham aquilo engraçado, fofo. Se você quiser ver, eis o link.

Este texto, no entanto, não é sobre o sofrimento dos animais em experimentos conduzidos por seres humanos (apesar de eu ser solidária à causa), mas para falar sobre um curso que eu fiz em fevereiro passado, chamado “Seminário As One“, oferecido pela Vila Yamaguishi, em Jaguariúna.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Me dê um segundo que eu já chego lá.

O seminário são oito dias de imersão em grupo (de preferência um grupo de pessoas que não se conheçam entre si), em um sítio, sem contato com o mundo exterior (nem mesmo por celular), refletindo intensamente sobre questões simples, mas fundamentais da nossa existência.

Basicamente, conduzimos, de forma científica, uma pesquisa em torno do zero (no sentido de esvaziamento das nossas presunções, pré-concepções, preconceitos, dogmas, etc.) através do reconhecimento e temporária suspensão de tudo aquilo que não é esse zero.

(E, ah, como tem coisa que não é o zero… é de cair o cu da bunda, como se diz no sul.)

A premissa já é muito interessante, mas o método, a forma como essa investigação ocorre, também é completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha vivenciado. Os “zeladores” – como são chamadas as pessoas de lá que nos acompanham durante o curso – muito pouco falam. E, quando falam, normalmente é na forma de perguntas. O que acaba acontecendo é que, apesar de haver uma orientação básica em uma direção, quem anda são os integrantes do grupo, com suas próprias pernas… e o caminho leva cada pessoa, ao mesmo tempo, para dentro e para fora de si mesma.

A furiosa (em intensidade e, em alguns momentos, humor) pensação é interrompida somente para alimentação, banheiro e higiene pessoal e do ambiente. Ah, e alguns minutinhos de leves exercícios para começar o dia. É puxado, uma maratona cerebral mesmo – ainda que sobre assuntos que não sejam só intelectuais. Até eu, que me considero uma pessoa bastante racional, porque vejo que muito do meu processamento das coisas passa pela minha cabeça e, especificamente, pela sua articulação em palavras, fiquei em algumas horas com uma vontade louca de, sei lá, fazer uma ciranda, uma pintura, dançar…

E, no entanto… “Dá vontade de sair para dar uma volta”, uma colega comentou num dado momento. Um dos zeladores levantou as sobrancelhas: “Ué, e por que você não vai?” Não era uma pergunta retórica. Algo que é vivido no seminário, desde o momento de chegada até o momento de partida, é que não existe obrigação. Existe escolha. Eu posso não gostar das escolhas que tenho ao meu dispor, mas isso não faz da minha escolha menos escolha.

E foi com pequenos detalhes assim que, nessa busca, eu fui perdendo meu chão… meu em cima, meu embaixo, meu norte, meu sul. O que enfim traz à baila os gatos em gravidade zero. Porque, de repente, me peguei agradecida por ter visto o tal vídeo, mesmo que não tenha gostado dele, porque me trouxe acolhimento encontrar a imagem perfeita para ilustrar o furacão de sentimentos dentro de mim – e de tantas outras pessoas, aparentemente.

Eu passei uma vida toda aprendendo a designar um céu e uma terra; desenvolvendo esse hábito a partir de uma necessidade de segurança, de não querer me machucar, de querer cair de pé. E agora eu estava vendo que, no fundo, nunca houve céu nem terra, mas apenas escolhas minhas de ir em uma direção ou em outra, baseadas na minha forma de ver a vida e o mundo e eu mesma. E que, por hábito, por medo, eu agora, tendo me privado dos meus eixos de costume, me contorcia, procurando alguma base de sustentação.

Essa ideia me permitiu colocar de lado o meu desespero para fazer eu mesma o experimento de simplesmente me deixar flutuar. E então perceber que não estava caindo. Porque a sensação da queda – e seu impacto – vinham da mesma ilusão que me trazia segurança, ou seja, a ideia de que havia direções certas e erradas para eu seguir.

Naquele momento, desvencilhada dessa ilusão, eu tomava consciência de que era livre para flutuar.

________________

***Você pode ler mais sobre a minha experiência no Seminário As One na página de depoimentos, aqui.

***Você pode encontrar mais informações sobre os próximos seminários, custos etc., aqui.

Pintura da artista Bronwin Schuster, encontrada em https://www.boredpanda.com/cats-in-space-bronwyn-schuster/

A mãe e a depressão

***Originalmente publicado em 30 de setembro de 2015

Cena do filme "Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra"

Cena do filme “Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra”

As pessoas que te conhecem te perguntam o que é que você tem. Porque está claro para elas que alguma coisa você tem.

E isso antes mesmo de você saber que tinha alguma coisa. Ou querer saber. Querer reconhecer. Mas a nossa cara a gente só olha de manhã, no espelho, ou de relance, aqui e ali. Acaba que passam batidos para nós os nossos olhos caídos, sem brilho, a nossa boca murcha, a nossa face solta. O nosso sorriso escasso e sem leveza.

Lembro daquela fala do personagem de Geoffrey Rush, Capitão Barbossa, em Piratas do Caribe, descrevendo como era a maldição do Pérola Negra: “A bebida não satisfazia, a comida virava cinzas em nossas bocas, e nem a companhia no mundo diminuía ou extinguia nossa lascívia” (“The drink would not satisfy, food turned to ash in our mouths, nor the company in the world would harm or slake our lust“). A primeira vez em que a ouvi, pensei comigo que a maldição do Pérola Negra era a depressão.

Está tudo bem. E daí não está mais. O mundo é o mesmo. E daí não é mais. Mas é. Como pode?

Nada para lá fora, mesmo quando a gente para aqui dentro. A velocidade interna e a externa entram em descompasso e a gente se desequilibra. É um abismo; temos vertigem.

Sentimos menos as coisas boas, sentimos mais as coisas ruins. Uma anestesia seletiva, que distorce a nossa percepção. Acabar o papel higiênico é uma calamidade. Quebrar um copo é uma tragédia. O sinal que fecha na hora de a gente passar é uma catástrofe. Tudo, não importa quão pequeno possa ser, para nós se transforma num símbolo, num sinal, uma prova de que nada dá certo, que não fazemos nada certo. Que não cabemos mais.

Coisas que sempre fizemos com prazer começam a nos cansar de um jeito estranho, que dá muita preguiça, muito sono.

A gente luta contra essa exaustão como quem se debate em lama. E esse esforço gera um desgaste que dissolve a nossa mente, a nossa atenção, a nossa presença, resultando em erros, errinhos, errões, que vão se somando gerando um círculo vicioso de mal-estar corrosivo.

Corpo e mente pedem descanso. Pedem deite. Pedem fique.

Mas quem é mãe, cadê deitar, cadê ficar? Não pode deitar e ficar nem quando está doente do corpo, que dirá doente da cabeça, que é coisa que não se enxerga, que a gente aprende desde cedo que é frescura? Cadê tempo, jeito, coragem de se respeitar? Cadê?

Não tem.

Daí vem angústia e ansiedade de ter que sair, ter que interagir, ter que funcionar.

Seria bom tudo isso, mas no nosso tempo. Não tendo que. Ter que só torna as coisas piores.

E daí a gente levanta da cama com os pés de chumbo cinzentos como os óculos que de repente grudaram nos nossos olhos e amorteceram a nossa vida, brigando, tentando a cada passo fazer aquela neblina se dissipar por força de vontade. Afinal é o que dizem, né? Que é só querer.

Devemos estar querendo errado. Só pode ser.

E mesmo que não queiramos esconder sentimentos das crianças, chega uma hora em que elas começam a cuidar da gente, ao invés de a gente cuidar delas. E o custo disso, emocionalmente, é algo que só de se pensar em impor a ume filhe já traz uma culpa monstro que piora bastante as coisas.

Então a gente não esconde. Mas para de mostrar. Ou tenta. Guarda para quando está sozinha. Ou sozinha de criança, e chora copiosamente no supermercado, diante de pessoas sem importância nas nossas vidas.

Não consigo lembrar de uma época em que o cachorro da depressão (e por favor veja a animação no link, porque vale a pena) não estivesse ao meu lado de alguma forma. Às vezes mais evidente, latindo, rosnando e cagando por todo lado. Às vezes fora da minha vista, mas no canto do meu olho aqui e ali. Dormindo, quem sabe. Mas lá.

Houve um tempo em que eu achei que era eu. Eu era assim. Mais tarde, quando descobri o poder de falar de verdade, de estar vulnerável, de me conectar, me descobri por debaixo daquilo tudo, me resgatei daquela água gelada.

Só que agora eu desacostumei. Não quero mais entrar lá. Não quero mais sentir aquele frio. Eu sei que ele está vindo, tremo só de pensar.

Me desespera a maresia das minhas lágrimas enquanto eu congelo aos poucos. E fico imaginando se vou conseguir me manter à tona desta vez. Se vai passar desta vez. Ou se eu vou passar antes.

Racionalmente eu sei que é besteira. Mas quando a festa acaba, o povo some e a noite esfria, eu sobro com meus pensamentos e eles deixam de ser tão racionais. O casaco na cadeira vira monstro; o sol que se pôs ameaça nunca mais levantar. E a depressão parece que vem e desta vez vai ficar. E eu vou ter que viver assim. Ou não viver.

É muito frustrante passar por isso de novo, quando ousei acreditar que nunca mais iria acontecer. É muito terrível passar por isso na maternidade, com pessoas às vezes tão jovens dependendo da gente, especialmente quando a gente se culpa tanto até mesmo pelo que não tem como controlar.

Pelo menos, desta vez, meu ferramental é outro. Eu hoje sou capaz de legitimar meus sentimentos e pedir ajuda. Que é, no final, o mais importante.

Eu hoje sei que isto não é como eu sou, é como eu estou. E que vai passar.

Né?

Uma boneca quebrada

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 5 de setembro de 2015

Captura de tela de 2015-09-04 19:42:33

Ninguém queria brincar com ela.

Era suja. Estava quebrada.

Desde quando? Quem sabe dizer?

Quando a pegavam para brincar, era sem respeito, sem carinho, com desprezo. Puxavam seus membros, arrancavam seus cabelos, arranhavam seus olhos, rasgavam suas roupas, desfaziam suas costuras.

E ela ia quebrando mais e mais, desbotando mais e mais, se desintegrando mais e mais.

Depois de um tempo, de tão quebrada que estava, ela começou a machucar quem a tocasse. E isso afastou ainda mais as brincadeiras boas e aumentou ainda mais a frequência das brincadeiras que feriam, que machucavam.

E riam dela enquanto a machucavam, enquanto a torciam e distorciam e a colocavam em posições ridículas, absurdas. Riam dela e dos barulhos estranhos que ela fazia enquanto mexiam nela. Riam dela enquanto faziam com ela tudo o que queriam fazer com quem não era ela.

Riam dela, de sua sujeira, de seu estado. Riam dela.

Quando a usavam, era como se ela fosse tudo a ser odiado, destroçado, rasgado ao meio, batido e pisado. Quando a usavam, a raiva do mundo passava. Ela era um saco de pancadas, um objeto descartável em que canalizar toda fúria e ímpeto destrutivo e maldade que não se quer admitir que se tem.

Ela falava, aliás. Ela dizia “Você é um monstro. Eu te odeio. Todo mundo te odeia. Olha para você”. Ela dizia isso com os olhos frios e mortos brilhando de crueldade.

Mas só se estivesse na frente do espelho. Ela estava quebrada, afinal.

Eu hoje fui à praia

praia

Pela primeira vez em meses.

E, pela primeira vez em anos – décadas, na verdade – eu me diverti na praia.

Não me incomodaram tanto o protetor solar grudento, a areia piniquenta, os eventuais lixos que encontrei aqui e ali. E eu que sempre acreditei, do fundo do meu coração, que fossem esses os motivos muito, muito, muito lógicos e sensatos para eu não gostar tanto assim de praia.

Ou de piscina. Porque eu arrematei o banho de mar com um banho de piscina e, olha só, nem me incomodei com o cheiro do cloro, ou com os azulejos escorregadios que antes me davam meio que nojo. Aliás, nada me deu nojo, aquele nojo de arrepiar e dar vontade de ir embora que eu tinha antes. E agora me pergunto se nada me deu nojo porque eu não tenho mais nojo de mim.

E eu nunca estive tão gorda na minha vida!

Isso é chocante, porque eu já estive sarada. Assim como já estive magra demais para o meu biotipo, uma magreza conquistada à custa da perda de muita massa muscular através de regimes obscenos.

Aliás, quantos regimes! E dietas e reeducações alimentares e mentalizações e mantras. E nutricionistas e fórmulas mágicas e viver contando calorias, em função de quanto entra e quanto sai, me medindo pelos números que apareciam na balança, na fita métrica, na bioimpedância.

E os exercícios? Eu trocava minha compulsão por comer por compulsão por fazer exercícios. O objeto era outro, mas o problema continuava lá, embora invisível para as pessoas que só veem problema e desequilíbrio quando ele se manifesta na forma de gordura.

E tudo isso para nada, porque nunca estava bom, porque nunca estaria bom. E não apenas por conta dos meus traços ligeiramente asiáticos, meus ombros largos demais, minhas pernas curtas demais, meus peitos pequenos demais… mas porque o “bom” era simplesmente inatingível.

Eu me lembro de, ainda criança, usar maiô porque tinha raiva das “gordurinhas” que se formavam na minha cintura pueril em torno da calcinha do biquíni. Raiva. De mim. Do meu corpo. Como se ele me traísse, como se ele fosse meu inimigo.

Eu era uma criança vigorosamente atlética, praticamente músculo puro. Não apenas era absurdo e doentio que essa preocupação sequer figurasse na minha mente infantil, mas se tratava de uma percepção já totalmente distorcida.

Eu não tinha sequer menstruado, e já vivia obcecada com a minha barriga, que eu estava sempre “encolhendo”, a ponto de isso afetar a minha respiração.

A apreensão constante em relação ao que estava fazendo dobrinhas, o que estava apertando e mostrando furinhos de celulite, o que estava sobrando, o que estava faltando, o que podia ser melhorado, o que não tinha como ser melhorado, o nariz assim, os pés assado, os peitos isso, a bunda aquilo… era como um ruído de fundo, uma estática que sempre acompanhou a trilha sonora da minha vida, acinzentando as minhas cores, embaçando os meus óculos. Eu me detestava tanto, me sentia tão inadequada, que, ao olhar no espelho, via apenas feiura. Apenas erro.

É só hoje, olhando para as minhas fotos de antes, que eu enxergo o tamanho da minha (des)ilusão.

(Ainda?) Não acho meu corpo bonito, nem vou fingir que, no meu âmago, não preferiria estar magra. Estar magra, para mim, ainda parece ser melhor para dormir, para me movimentar, para achar roupas que me sirvam, para caber em assentos de transportes públicos, etc.

É só que não sinto mais vergonha de mim, do meu corpo. Não sinto mais raiva e repulsa quando me vejo passar em um espelho. Nem me escondo mais dos espelhos. Não sinto que tenho que me desculpar toda vez que como algo na frente de alguém. Nem me sinto mais reprovada, ou como uma pessoa em dívida com o mundo por não se encaixar nos padrões impossíveis de beleza que ele me impõe. Não sinto mais que meu valor como pessoa é inversamente proporcional ao meu peso.

Como eu disse antes, eu nunca estive tão gorda na minha vida. E nunca me aceitei tanto. Nunca me senti tão confortável dentro da minha própria pele, mais serena em relação a quem eu sou.

Mais do que asas, o feminismo nos dá novos olhos. E de repente a gente se vê diante de um mundo que parece que nunca viu antes. Que, na realidade, não parece nem mais bonito, nem mais feio; só mais verdadeiro.

Eu hoje brinquei na praia com a leveza de uma criança pequena.

Aproveitando o caso Bolsonaro para fazer um glossário

bolsonaro

*Os recentes (e não tão recentes) acontecimentos envolvendo o já infame Deputado Jair Bolsonaro e a Deputada Maria do Rosário são tão repletos de machismo que vi neles a oportunidade de, finalmente, atender aos pedidos de que eu fizesse um glossário. Não ficou completo, claro, faltou muita coisa, mas deu para cobrir uns termos bem comuns no feminismo, acho que pode ser útil. Enfim, segue abaixo, com todo o meu carinho, a limonada que eu fiz, com pedrinhas de gelo e muito açúcar. ❤

Obs.: Vou destacar os termos em si em vermelho, sublinhado, com um link em cada um para um texto com mais detalhes a respeito as definições básicas em azul. Observações que considero importantes serão destacadas em verde.


TW ou Trigger Warning (lê-se “tríguer wórnim”): é um aviso de que o que se segue contém alguma passagem que pode causar mal-estar e incômodo, a fim de que, ciente disso, a pessoa possa optar por não aprofundar o contato com aquele material, ou fazê-lo mais tarde, num lugar e momento em que se sinta mais à vontade para lidar com os sentimentos que o assunto pode trazer. Normalmente vem acompanhado de uma explicação sobre o que há ali que se acredita ser capaz de acionar gatilhos emocionais. Neste caso, por exemplo:


TW: Violência verbal e física praticada contra mulher com a conivência das pessoas presentes


As imagens (veja aqui) falam por si mesmas. Para qualquer pessoa com um pingo de noção, o que o vídeo mostra é um covarde usando seu tamanho, sua força física e masculinidade para tentar calar uma mulher que nada fazia além de debater com ele muito civilizadamente. Um homem desequilibrado, que responde às críticas feitas por uma mulher inventando ofensas que ela não proferiu nem deixou implícitas e usando isso como justificativa para as agressões praticadas por ele próprio.

Ele, no entanto, grita: “tá na fita, meu deus do céu! Tá na fita!”

Por quê? Porque seus olhinhos porcinos não veem naquelas cenas o que nós vemos. Porque ele, na cabeça dele, acha que tem o direito de agir daquela forma. Que tem o direito de destratar mulheres que não “sabem o seu lugar” (supostamente abaixo dele e bem caladas).

Cá no feminismo chamamos isso de entitlement (lê-se “entáitou-ment”), neste caso, masculino – a atitude presunçosa e prepotente de quem arvora para si o direito de oprimir outra pessoa, de quem defende seus privilégios (veja definição logo abaixo) como se estes lhe fossem de fato devidos e não algo que ele deveria tentar desconstruir. Essa postura abarca também coisas como essa história de friendzone (“frendzoun”) – um cara ficar ofendido quando uma mulher não quer fazer sexo com ele apesar de ele ser “tão legal” com ela  ou horrores como a chacina cometida por Elliot Rodgers este ano, um cara que saiu matando gente porque as mulheres tiveram “a ousadia” de não se interessar por ele e ele resolveu fazê-las pagar por isso.

Privilégio, nesse sentido, nós usamos para falar de um benefício de que alguém usufrui por participar de um segmento de pessoas que a sociedade privilegia em detrimento de outros. Esse é o segmento que é considerado “o normal”, “a regra”, pautando o ponto de vista a partir do qual as coisas são feitas e pensadas. Por exemplo, é um privilégio heterossexual poder demonstrar carinho em público sem ter medo de sofrer uma agressão, é privilégio das pessoas sem deficiência que os estabelecimentos todos sejam imediatamente acessíveis a elas, é privilégio branco estudar a cultura de seus ancestrais como se fosse a única que realmente vale a pena estudar, e por aí vai. Um privilégio muito comum é o de não representar. Porque uma mulher, uma pessoa negra, uma lésbica, uma pessoa trans, etc. sempre são considerades como se falassem e agissem por todas as mulheres, pessoas negras, lésbicas, trans, etc.

O privilégio de gênero, de que aqui falo especificamente, é o privilégio que os homens têm em nossa sociedade só por serem homens, como, por exemplo, poder ter uma vida sexual ativa e ser exaltado (e não execrado) por isso, ou não viver com medo de ser estuprado, ou ninguém esperar favores sexuais seus em troca de qualquer coisa que faça por você, ou as pessoas não esperarem doçura e obediência e deferência de você.

Vale a pena observar, ainda, que privilégio não é algo que se tem porque se quer, é algo que se tem porque “o mundo é assim” (e ainda não mudou). Não é uma questão de culpa – não temos culpa de ter privilégios; ninguém escolhe ser branco, ser hétero, ser homem. Mas é uma questão de responsabilidade. De entender que, se fazemos parte de um grupo que é considerado “o normal”, temos privilégios que muitas vezes sequer somos capazes de enxergar, de tão habituades que estamos a eles. E daí, a partir desse entendimento, fazer força para ver e desconstruir esses privilégios, ao invés de seguir usufruindo deles e reafirmando-os como se fossem direito nosso (entitlement).

Ou seja, a postura do deputado foi um verdadeiro show de entitlement, por não só praticar a violência, mas defender sua prática como direito seu.

Para justificar seus atos, ele brada aos quatro ventos que ela disse que ele era estuprador, coisa que ela não fez, como comprova o vídeo. Ela disse apenas que ele era responsável pela violência a que se referia em sua entrevista. E ela está certa em dizer isso, porque ele alimenta a cultura do estupro, a cultura que banaliza e estimula o estupro, que é justamente formada por palavras e posturas como as dele, que o legitimam, que dão a entender que não é nada demais, que é objeto de piada, que a culpa é da vítima ou que cabe à vítima evitá-lo, que a falta de consentimento é irrelevante ou que consentimento em si é um conceito “relativo”, etc.

Transformar o ponto de vista efetivamente arguido pela deputada em “você me chamou de estuprador” é o que a gente chama de falácia do espantalho: quando você distorce um argumento até ele ficar quase irreconhecível (faz um espantalho) e daí ataca essa distorção (bate no espantalho), mostrando-a absurda (claro que é absurda, é um espantalho) e dando com isso a impressão de que o argumento original é absurdo também. Ou, no caso, nem bate no espantalho, usa-o para justificar suas atitudes desequilibradas.

O que nos traz ao próximo item do glossário: gaslighting (“gaslaitim”). Eu falo muito disso aqui no blog. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. No caso que comentamos, isso fica claro porque, apesar de tudo o que ele fez, ele não se cansa de dizer que, na verdade, ela que é a agressora.

Se fosse o contrário, ela estaria sendo amplamente ridicularizada como uma “mulherzinha histérica incapaz de diálogo”. Isso porque, devido à nossa fama de sermos irracionais e exageradas, parece que nunca estamos legitimadas a reagir à violência que os homens, por sua vez, se sentem muito frequentemente legitimados a praticar conosco.

Amparado numa mentira, o homem vocifera com o dedo fálico em riste diante do rosto da mulher, brandindo-o como uma arma, uma ameaça. Dispara, sem piscar ou hesitar: “Eu não te estupro porque você não merece”. Assim, com naturalidade, como se para ele a violência sexual fosse algo tão corriqueiro quanto a lama em que ele chafurda todos os dias. Tal frase deixa claro não apenas que, na opinião dele, há mulheres que de fato merecem ser estupradas, mas que, se ele estivesse diante de uma mulher que ele julgasse merecer isso, ele estaria disposto a incumbir-se dessa “missão”.

Mais tarde ele “esclareceu” que disse que ela não merece ser estuprada porque é “feia demais”. Ou seja, a intenção dele ao dizer isso era de fato a ameaça do estupro corretivo: um crime que vitima especificamente mulheres lésbicas, assim “punidas” por não se fazerem sexualmente disponíveis aos homens, mas que vem sendo ampliado para ameaçar mulheres que incomodam o domínio masculino, a exemplo do ocorrido com Anita Sarkeesian e Alanah Pearce. O recado, aparentemente, era “olha, você passou dos limites, mulher, se você fosse mais atraente para mim eu te estupraria para te ensinar uma lição”.

Não é à toa que ele ouve no vácuo  acusações de ser estuprador. Talvez elas venham ressoando cacofonicamente de seu inconsciente. Freud ajudaria muito, se ainda fosse vivo e não tivesse ele próprio algumas inclinações um tanto preocupantes no sentido do machismo.

Fico me perguntando se esse homem teria usado essa mesma linha “argumentativa” se estivesse dialogando com um outro homem. Aliás, fica a dica desse bom teste para ver se as suas posturas ou palavras são machistas. Se, quando você se pergunta: “eu faria ou falaria isso se estivesse lidando com um homem?”, a resposta é não, vale a pena repensar. Pode ser que não seja nada, pode ser que seja tudo.

Mas ele foi além. Homem bem macho que é, habituado ao espalhafato preconceituoso pelo qual nunca sofre quaisquer consequências, agrediu fisicamente a mulher que o interpelava, ameaçando-a com “vou te dar outra”, enquanto empurrava o peito dela com a mão. Não fosse a intervenção de outros homens – que só apareceram depois do pedido de socorro dela, um deles aparentemente sorrindo, espero de coração que por constrangimento – sabe-se lá o que ele teria se sentido no direito (entitlement) de fazer com ela pelo simples fato de ela ter a “insolência” de expor a incoerência das ideias dele.

Assim que se viu amparado por um igual, no melhor estilo “me segura, me segura”, largou logo um “vagabunda” (palavreado cotidiano dele, certamente) para ela, que, consternada, apenas conseguia se fazer repetir “o que é isso?”

Isso, no caso, é o que nós chamamos de slut-shaming (slãt-cheimim), que é o ato de incutir nas mulheres a noção de que é vergonhoso para elas que exerçam sua sexualidade, seja reprovando qualquer demonstração disso (coisas como “ela não se dá o respeito” ou “ela é vulgar”), ou mesmo transformando isso em um xingamento (vagabunda, vadia, piranha, vaca, galinha, rodada, arrombada), ainda que ele venha a ser usado para agredir mulheres por motivos que nada têm a ver com sua vida sexual, porque, mesmo nesses casos, isso funciona como um lembrete a todas de que o valor de uma mulher perante a sociedade machista cai a cada vez que ela faz sexo. O que é impressionante é que, assim como a maioria das mulheres já sofreu alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida, a maioria das mulheres também já praticou alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida. Isso acontece não porque “as próprias mulheres são o problema”, ao contrário do que muitos machistas gostam de afirmar, mas porque essa é uma noção que se faz tão presente nas nossas vidas desde a nossa mais tenra infância, que se torna algo introjetado, cuja desconstrução dificilmente ocorre sem um esforço consciente nesse sentido.

Mais tarde no vídeo aparecem cenas em que essa mulher, num ato de sororidade, de reconhecimento das outras mulheres como suas irmãs na vivência do machismo que nos oprime a todas, invocando a união que devemos ter diante desse tipo de violência, diz com todas as letras a verdade que deveríamos ver escrita em letras garrafais em todos os muros de todas as casas de todas as ruas pelas quais passamos em nossas vidas enquanto somos assediadas por homens que se julgam no direito (entitlement) de nos apreciar como se fôssemos objetos para seu consumo: “Nenhuma mulher é vagabunda”.

Ela não se retraiu, ela não se encolheu, ela manteve a cabeça erguida, ainda que visivelmente chocada com a violência descarada que se desenrolava despudoradamente diante das câmeras e com a conivência e apatia des presentes, que precisaram ser chamados, convocados, para que enfim tomassem uma atitude.

Ao final, ele, o homem, o bully, gritou, em tom jocoso e vitorioso “Chora, agora! Chora!” enquanto ela, a mulher, a vítima, deixava o recinto visivelmente abalada.

E tem gente, para meu completo horror, que fala que não houve nada demais, porque ele “nem bateu nela de verdade”. Bom, primeiro que a ameaça de violência já é uma violência. Especialmente a ameaça de uma violência que ocorre durante uma discussão ou debate – um murro na mesa, um grito, uma aproximação súbita com postura ameaçadora – porque é algo que se faz para inibir a outra pessoa de dar continuidade ao seu lado da conversa por medo de sofrer uma agressão. É uma estratégia covarde de pessoas autoritárias, que gostam de encerrar a discussão no grito ou na porrada, mesmo quando estão erradas. Segundo que ele chegou a tocar nela. Pode não lhe ter causado nenhum ferimento, mas foi uma invasão brutal do espaço físico dela e a intenção de intimidá-la e agredi-la era muito clara. Torno a dizer que me parece que ela teve sorte de não estar a sós com ele naquele momento.

Depois disso, ela saiu de cena, e ele retomou a entrevista (a)normalmente, como se nada tivesse acontecido. Agredir mulheres verbal e fisicamente, aparentemente, não movem sequer um fio de cabelo em sua fronte. Nada demais, só mais um dia de trabalho.

Isso tudo aconteceu em 2003 e, como costuma ocorrer, nenhuma medida foi tomada contra ele.

Mas eis que, mais de dez anos depois, na última terça-feira, o próprio homem fez questão de requentar o assunto, com a boca cheia de um orgulho que eu simplesmente não consigo entender. O entitlement desse cara é de tirar a gente do sério.

A deputada a quem ele agredira havia acabado de fazer um discurso rechaçando a violência da ditadura e exaltando o trabalho da comissão da verdade. E esse homem, que um dia já usou uma farda, ofendeu-se até o tutano de seus ossinhos fascistas, e abriu sua fala, que se seguiu à dela, relembrando de forma completamente medonha o episódio: “Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir!”

É marcante o tom de comando, de ordem. De quem está acostumado a ser obedecido, sob pena de detesto pensar em quê. A cereja no bolo é ver o que se passou, toda aquela agressão, inclusive física, dele, reduzida ao que parece ser um papinho acalorado. Mais gaslighting.

Entrevistado, ele explica que ele não é agressivo, que ele sim luta contra o estupro, que estuprador é psicopata (estuprador é monstro, coisa que ele não é, logo, não pode ser estuprador, claro), que dizer que não estupraria Maria do Rosário foi uma ironia… isso é o que a gente chama de mansplaining (méns-pleinim) ou homexplicanismo. Quando um homem vem cagar regras em cima de uma mulher, ou seja, explicar, em tom professoral e condescendente, coisas óbvias, ou que ela já sabe, ou falar de coisas de que ele sequer entende, porque parte do princípio de que, só por ser homem, ele naturalmente merece ser levado mais a sério e sabe mais do que qualquer mulher sobre o que quer que seja. Pode ou não ao mesmo tempo ser ou vir acompanhado de gaslighting (“Por que você está irritada? Estou só conversando com você, expondo meu ponto de vista”). Eu já vi homens homexplicando para mulheres que a dor da cólica menstrual nem era tão intensa assim. Pois é.

E podemos aproveitar o ensejo para explicar o conceito de falsa simetria. Falsa simetria é quando duas coisas parecem ser (ou são expostas como se fossem) iguais ou semelhantes, mas na verdade não são. Muitas vezes isso fica evidente quando analisamos o contexto em que elas ocorrem. Por exemplo, muitas pessoas diriam que “ah, mas tem um monte de mulheres que cagam regras”. Sim, mas a questão é que o homem, quando age dessa forma em relação a uma mulher, age com todo o amparo e peso de uma cultura machista, que consistentemente valoriza e privilegia a fala do homem em detrimento da fala da mulher. É por isso que vemos tantos homens fazerem isso e não serem rechaçados, enquanto suas interlocutoras, que foram criadas para suportar esse tipo de atitude, começam a duvidar de si mesmas mesmo quando sabem que sabem do que estão falando. Chega a dar tristeza de ver.

Mas, enfim, esse cidadão machista, não contente com a sujeira que já fizera há tanto tempo, veio novamente, em sua fixação anal de fazer federem todos os ambientes de que participa, demonstrar aos homúnculos seus aprendizes a velha arte de como desvalorizar a fala de uma mulher: ao invés de atacar o conteúdo, fale da pessoa dela, da aparência dela, da sexualidade e da vida sexual dela, des filhes dela, de companheire dela; ameace-a com violências que, por ser muito macho, poderia praticar com ela, por ela ser mulher.

E seus seguidores aprendem tão bem que na própria defesa do mestre pelas redes sociais saem fazendo exatamente isso com as mulheres que ousam questionar as falas estapafúrdias dele.

É isso que é o tal argumento ad hominem. Quando, ao invés de rebater o que uma pessoa disse, alguém ataca a própria pessoa, com a intenção de, por tabela, desqualificar o argumento ou mesmo tirar o foco dele. É interessante que muitos homens digam que as mulheres estão usando essa falácia quando elas apontam que eles estão homexplicando alguma coisa. É outra falsa simetria. Apontar homexplicanismo não é desvalorizar a opinião do cara porque ele é homem. É denunciar um comportamento nocivo e machista. O problema não é ele ser homem. O problema é ele usar sua posição de homem para fazer prevalecer sua cagação de regras.

Mas, enfim, voltando ao caso do deputado, a ideia por detrás das provocações feitas por ele mais uma vez é claramente a de intimidar, ridicularizar e silenciar a mulher. Transformar o gênero dela em uma fragilidade e usar isso para desvalorizar suas posições políticas, apoiado numa cultura que “naturaliza”, normatiza, o machismo a ponto de tornar piada a indignação diante dele. Usufruir do que a gente chama de privilégio de gênero.

Por fim, como podemos ver em inúmeras falas dele, o deputado em questão tokeniza o estupro e as vítimas de estupro constantemente. Tokenizar, ou fazer token é usar uma opressão, uma causa ou pessoas de um grupo que sofre uma opressão para “justificar, defender, explicar o seu ponto de vista” (vide texto do link). Por exemplo, quando uma pessoa branca diz algo racista, mas daí se defende dizendo que não é racista porque é parente de pessoas negras. E é isso que esse cara faz quando nutre avidamente a cultura que perpetua o estupro na nossa sociedade ao mesmo tempo em que usa esse crime como pilar de seu discurso vazio de “lei e ordem”, de redução da maioridade penal, etc. Repudia o estupro, mas fala como se houvesse mulheres que considera o merecerem. Repudia o estupro, mas o usa em insultos e piadas, como forma chocar e intimidar mulheres. Repudia o estupro mas dá a entender que estupraria.

Talvez esse homem não tenha consciência disso – é o caso de muites – mas o que diminui índices criminais não é a severidade da pena, mas a sua certeza. Não adianta prever pena de morte, tortura e mutilação se todo mundo sabe que pode fazer à vontade que não dá nada. Ele próprio deveria saber disso, já que conhece por dentro essa lógica: por que outro motivo continuaria a agir com sua truculência característica, senão porque se crê absolutamente inatingível nela? De tanto fazer e ficar por isso mesmo, ele já sedimentou que é seu direito agir dessa forma. Entitlement. De novo.


***Agradecimentos à Lígia Birindelli Amenda, por ter me lembrado de adicionar o slut-shaming ao glossário!