Anarquismo, libertarismo e liberalismo

O Dicionário Houaiss define liberalismo da seguinte forma:

Liberalismo

Como aqui, no Brasil, a maior parte das pessoas que defende o (neo)liberalismo econômico se autodenomina simplesmente “liberal”, quando se fala em “liberalismo”, normalmente se entende que a pessoa está falando de liberalismo econômico, ou seja, “preferência por mercados competitivos, pelo livre jogo das forças econômicas no regime de livre concorrência e pela repulsa a qualquer forma de intervenção do Estado na vida econômica, em obediência o princípio de que a lei da oferta e da procura é a única que deve influir sobre a produção, o consumo e o mecanismo dos preços”. Algo que se opõe ao dirigismo.

Isso causa dificuldade na tradução e compreensão de textos do inglês, já que, nesse idioma, a palavra liberal continua sendo usada em seu sentido clássico, ou seja, para denominar a “doutrina cujas origens remontam ao pensamento de Locke (1632-1704), baseada na defesa intransigente da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra ingerências excessivas e atitudes coercitivas do poder estatal”. Algo que se contrapõe ao fascismo, à tirania do Estado.

Aprofunda, ainda, essa dificuldade, o fato de que a palavra libertarianism, criada precisamente para evitar a confusão com liberalismo econômico, ou seja, para denominar as ideias que repudiassem o governo de uma pessoa por outra, defendessem a liberdade de escolha e opinião, a associação voluntária, e a autonomia do indivíduo* (uma definição muito ampla, que naturalmente inclui posicionamentos tão plurais e distintos quanto o anarquismo e o liberalismo econômico), passou a ser usada, nos Estados Unidos, para designar as ideias de pessoas, digamos, anti-socialistas ou anti-comunistas raivosas (tipo os Olavos de Carvalho e Reinaldos Azevedo do mundo).

Isso aconteceu, me parece, porque Leonard E. Read (1898 – 1983) que se dizia criador e disseminador do termo, deplorava o comunismo e o socialismo, por entender, especialmente diante dos exemplos práticos disponíveis (a União Soviética e a República Popular da China), que estariam necessariamente associadod ao dirigismo estatal e à autocracia (que ele repudiava). Um equívoco, diga-se de passagem, muito comum até hoje, infelizmente.

Daí que, enquanto aqui no Brasil (e, imagino, em boa parte do mundo fora dos EUA), libertarianismo ou libertarismo (palavras que sequer constam do dicionário citado acima) significam algo próximo do liberalismo clássico, nos EUA significam algo próximo do liberalismo econômico. E liberalismo, que aqui significa liberalismo econômico, nos EUA significa algo próximo do liberalismo clássico. Ou seja, não apenas são falsos cognatos, mas trocados. Muito confuso.

O anarquismo é libertário, mas não liberal. É um libertarismo socialista: repudia o governo de uma pessoa por outra e defende a liberdade de escolha e opinião, a associação voluntária, e a autonomia do indivíduo*, mas também a abolição do capital (e, com ele, o livre-mercado tão caro aos liberais), além, claro, da propriedade privada. E é um socialismo libertário, porque rejeita a ingerência estatal e especialmente a autocracia como forma de revolução.

 

*Favor não confundir autonomia do indivíduo com individualismo. Apesar de existirem correntes individualistas no anarquismo ele com certeza não se resume a elas.

2 comentários sobre “Anarquismo, libertarismo e liberalismo

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