O ovo ou a galinha?

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Será que nós, seres humanos, somos mesmo podres? Ou será que somos apodrecidos pelo sistema em que vivemos?

Do meu ponto de vista, nós temos tanta natureza em nós quanto qualquer outro animal, mas, devido às nossas particularidades, nosso meio e nossa cultura formam e deformam essa nossa natureza, a ponto de não sabermos onde o que começa e o que termina.

Eu acredito que temos potencial tanto para a cooperação quanto para a competição dentro de nós. E que esses potenciais são como forças opostas que se equilibram como os dois pratos de uma balança de acordo com a nossa percepção do que é necessário para sobrevivermos. E como toda balança tem um fulcro, ou seja, um ponto de apoio, o fulcro da balança da nossa sobrevivência é a nossa sensação de segurança, de que nossas necessidades serão atendidas, de que iremos conseguir sobreviver.

Não sei o quanto você conhece de balanças e de como elas funcionam, por isso vou esclarecer o que segue para que o que direi depois não fique confuso: dependendo da posição do fulcro (ponto de apoio) na haste em que se apoiam os pratos da balança, se os braços dela não estiverem exatamente com o mesmo comprimento de cada lado, o peso de um lado, ao invés de igual, terá que ser maior ou menor para equilibrar o outro.

Pois bem. Na minha opinião, a escassez (real ou percebida) do nosso meio tem o poder de deslocar o fulcro da balança da nossa sobrevivência. Quanto maior a escassez, menor a nossa disposição para cooperar, maior a competitividade, e o sentimento de “salve-se quem puder” para que tentemos nos sentir seguros. Quanto menor a escassez, mais somos capazes de cooperar, de enxergar uns aos outros não como adversários, mas como aliados; maior a serenidade e a disposição para a tolerância. E a segurança vem fácil.

O desespero gerado pela escassez nos impede de agir segundo o que há de melhor em nós, bem como de ver o que há de melhor nos outros.

O capitalismo forja a escassez e a mantém artificialmente, porque sem ela ele não existiria. Ele se apoia no consumo e você não consome aquilo que não lhe falta, que não lhe é escasso. Mesmo que a falta em si, a necessidade que a gera, seja absolutamente artificial. Aliás, o capitalismo vive de inventar necessidades que não existem – você “precisa” de um carro novo, de um celular de última geração, de um sapato de grife, sob pena de pagar com sua própria existência (“não ser ninguém”). Somos induzidos a enxergar as coisas que nos rodeiam não como coisas necessárias, úteis, luxuosas, o que seja, mas troféus na competição pelo “mais ter”, extensões do nosso ser, demarcações territoriais. Como se ter essas coisas fosse exercer a nossa própria personalidade.

Ou seja, se a escassez é o que acirra a competitividade e inibe a cooperação livre, e o capitalismo exacerba, se não causa, a escassez, então a melhor forma de acabar com o clima de guerra de “quem pode mais, chora menos” e com a normatização da atitude predatória como algo que simplesmente faz parte da nossa natureza parece ser mudar o sistema econômico na marra. E é o que muita gente defende – empurrar à força o fulcro da balança de sobrevivência das pessoas.

Pessoalmente, eu não acredito que isso dê certo. Eu acho que mudar o sistema econômico sem mudar a mentalidade das pessoas é inútil. Teríamos uma revolução sangrenta que quebra tudo e nos traz amanhã o extremo oposto do hoje e daí estaríamos de volta no ontem já no dia seguinte. Foi o que aconteceu das outras vezes – ou que ainda está acontecendo. Uma revolução que ou acaba e volta ao que era antes ou similar, ou nunca acaba, porque seus efeitos não se mantêm sozinhos.

E isso acontece, a meu ver, porque no coração da nossa sociedade ainda se mantém a cobiça pela posição de opressor e não o desejo pelo fim da opressão. E isso não tem como ser mudado de fora para dentro. Pode ser contido, na base do burro com uma cenoura diante do nariz e um chicote sobre o seu lombo, mas, tão logo não haja cenoura ou chicote, acabará a “mudança”. Porque dentro das pessoas, nada mudou.

Mesmo entre os socialistas, é comum a noção de cooperar como dividir, como dar parte do que é seu hoje prevendo o dia em que não se terá e se dependerá da disposição de outra pessoa para dividir “de volta”. Mas isso não é cooperação. Isso não é pensar na coletividade, é pensar no próprio umbigo. É o socialismo pensado e “compreendido” por individualistas.

E o cara que sabe que nunca nada vai lhe faltar? Ou que acredita piamente nisso? Esse cara, então, jamais irá dividir a não ser que se tome dele. E, daí, como assegurar que quem toma dele vai querer dividir? É possível – provável, aliás – que essa outra pessoa também chegue à conclusão de que nunca nada vai lhe faltar e inclusive tome precauções para que dele não tomem nada.

Por isso, não concordo com essa visão. Para mim, cooperar é somar, não dividir. É perceber-se como parte do todo e o todo como parte de si. Ver-se no outro, qualquer outro, sempre que outro apareça diante de si e, assim, não ver sentido em ter tanto enquanto o outro tem tão pouco. É empatizar. E compartilhar, não pensando num futuro de privação, mas agradecendo pelo presente de abundância, que permite essa dádiva.

Esse próprio conceito, aliás, de dádiva, de doação, de dar sem esperar nada em troca, nem mesmo a gratidão, nem mesmo que a pessoa use “corretamente” o que se dá, ou que em troca aceite a sua ingerência ou ouça seus conselhos ou admoestações, é ainda alienígena e muito difícil mesmo para quem busca praticá-lo, tão acostumados que estamos ao pagamento, ao toma-lá-dá-cá de um jeito ou de outro.

O sistema atual foi criado pela mente pouco evoluída de outra época e está superado. Se trabalharmos para mudar a mentalidade das pessoas, o sistema econômico (e o sistema político opressor que o mantém e é mantido por ele) acompanharia essa mudança. E creio que mudaria, em sua maior parte, pacifica e lenta e progressivamente.

Acredito numa mudança econômica e política que virá de dentro para fora do indivíduo, de baixo para cima da sociedade, até derreter a pirâmide de classes e ficar todo mundo junto brincando na mesma poça, todos iguais, convivendo pacificamente debaixo do mesmo sol.

Acredito, assim, não tanto numa revolução quanto numa evolução mesmo, num dia em que todos perceberemos que seria melhor que todo mundo tivesse do que uns e outros terem o bastante para poderem desperdiçar. E que, nesse dia, dizer isso não nos fará de esquerda, de direita, de cima ou de baixo. Nos fará humanos, apenas, a falar obviedades.

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3 comentários sobre “O ovo ou a galinha?

  1. Cara Letícia! Tive a oportunidade de descobrir você e seu blog hoje, e o prazer de já ter lido pelo menos uma dezena dos seus artigos (no geral muito bem hiperlinkados e sempre muito bem escritos!). Após nova leitura do artigo, ‘O ovo ou a galinha?’, ocorreu-me que a estratégia que você acredita ser a mais acertada parece remeter a um idealismo “hegeliano” mais que a um materialismo “marxiano”. Refiro-me mais precisamente à ideia de que o pensamento determina a realidade em oposição à ideia de que a realidade é quem determina o pensamento. Dito isto, gostaria de saber, caso você esteja confortável com esses conceitos a que me referi, o que você pensa sobre a articulação entre os mesmos ou, em outras palavras, como você compreende os conceitos de “idealismo hegeliano” e de “materialismo marxiano”. Minha posição, já lhe adianto, é a de que a mudança de mentalidades dar-se-á justamente pela mudança incremental da realidade concreta, mais que por meio da aplicação de teorias (a dita “educação”) que, após bem difundidas em número suficiente de cérebros, levaria a uma mudança necessária e inevitável da realidade concreta. Instituições, lógicas e interesses não se deixam alterar com a mesma qualidade humana, pois são quase-autômatos que, por sua vez, precisam de reduzido número de cérebros para continuar funcionando. Ou seja: esse “estado ideal” de cérebros devidamente informados e sensibilizados para gerar a desejada mudança, talvez, nunca venha a existir. Um beijo e obrigado pela oportunidade do diálogo fraterno.

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    • Oi, Leandro! Obrigada pelo seu comentário e pelas suas palavras.
      Então, eu teria que estudar muito mais Marx e Hegel para me sentir confortável em debater especificamente sobre as teorias deles com você.
      Agora, sobre a reflexão proposta: sabe quando eu falei, ali em cima, da cultura e da natureza, como coisas interligadas, a questão da fita de Moebius, quando a gente não sabe onde o que termina e o que começa? Eu me sinto muito da mesma forma em relação à mentalidade e a realidade. O meu ponto não é o de dizer que a realidade não influencia a mentalidade das pessoas, mas que somente atuar de forma autoritária na realidade das pessoas não produzirá a mudança de mentalidade necessária para manter a nova ordem. A não ser que não se pretenda jamais que ocorra uma autogestão. É a isso que me refiro quando digo que a revolução deveria vir de dentro para fora e de baixo para cima.
      Eu costumo, aliás, falar algo análogo em relação ao uso da força (não num contexto de defesa, bem entendido): que não vejo nada de revolucionário nele. Porque aquilo que eu consigo por meio do uso da força, eu perco por meio do uso da força, e quando eu uso a força, eu legitimo o uso da força por parte de outras pessoas. Se o que eu quero é justamente criar uma realidade em que a força não seja a base das relações humanas, não faz sentido que eu me utilize justamente dela para isso.
      Sobre as instituições, elas são instituídas por pessoas. Lógicas e interesses existem dentro de pessoas. Pessoas, aliás, formam os governos que por vezes alteram, de fora para dentro e de cima para baixo, as instituições e os comportamentos que resultam das lógicas e interesses. Ou seja, até mesmo para agir assim, mesmo dentro do vanguardismo, é necessária uma mudança de mentalidade – ainda de algumas poucas pessoas “iluminadas”. O meu problema com o vanguardismo é que eu não acredito na permanência das mudanças que ele pode trazer, precisamente porque ele não tem como mudar a mentalidade das pessoas, ou seja o comportamento delas irá se alterar somente enquanto houver um “grande irmão” as observando – ainda que introjetado nelas, um dogma, um preceito moral – e não porque elas compreendam a necessidade dessa alteração.
      Por fim, sim, eu criei um cenário idílico, com todes brincando sob o mesmo sol, mas foi uma ilustração mesmo, não porque eu confie num estado ideal por assim dizer. Eu acredito que vai rolando um contágio, uma influência e uma confluência e as pessoas vão indo, mudando suas formas de pensar e de agir e essas pessoas que mudaram e mudam se tornam mais e mais numerosas e a mudança vai se tornando cada vez mais profunda e que a realidade vai, aos poucos, refletir essas mudanças, incorporá-las, de forma dialética, no encontro de cada ponto da antiga realidade com cada ponto da nova realidade e de cada nova realidade que vá surgindo a cada momento, num contínuo processo evolutivo em que nós JÁ estamos inserides, sabe? A revolução já está aqui. E nós já fazemos parte dela.
      Esse é o meu ponto.

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