O serviço que vale mais e o serviço que vale menos

chef

Vamos supor que eu vá para uma escola de gastronomia. Me formo e descubro um talento. Daí, sem grana, peço para meus pais montarem um restaurante para mim e, não podendo pagar nenhum empregado e não tendo como cuidar de tudo sozinha, pergunto às minhas irmãs se querem trabalhar comigo, lidando com a parte menos qualificada do trabalho.

Elas topam e abrimos o restaurante.

Pergunto: como distribuiremos os lucros?

O restaurante não existiria sem uma chef. Também não poderia existir sem estabelecimento próprio. Mas também não seria viável sem alguém que ficasse responsável por servir os fregueses, lidar com o caixa, administrar o estoque.

Verdade que eu suei a camisa para me tornar chef. Investi dinheiro e tempo nisso. Mas a minha recompensa é… trabalhar como chef. Afinal, é algo que eu gosto de fazer (ou não teria escolhido como profissão).

Verdade que meus pais investiram dinheiro ganho com o suor deles para adquirirmos o estabelecimento. Mas a recompensa deles é… não terem que fazer nada além disso. Além, é claro, de ajudar suas filhas a se tornarem financeiramente independentes.

Ou seja, os ganhos deveriam ser distribuídos entre todos igualmente, já que todos são essenciais ao funcionamento do restaurante, independentemente do trabalho que é realizado, se é especializado, se é manual, se é braçal, se é investidor, etc.

Não seria justo eu me aproveitar do fato de que minhas irmãs não têm uma formação específica para vilificar o trabalho delas (que é, como eu disse, necessário para mim e para a sobrevivência do meu negócio) me apropriando de parte do que lhes caberia, simplesmente porque “sem mim elas não teriam essa oportunidade”. Porque a verdade é que, sem elas, eu também não teria essa oportunidade.

Por outro lado, dizer que eu preciso receber mais para me sentir estimulada a ser chef esvaziaria de sentido a minha escolha profissional, que então teria ocorrido só pelo dinheiro.

Extrapolando isso para fora da família, me pergunto: sem es lixeires, es faxineires, es garis, es mineires, es operáries, es recepcionistes, es caixas de supermercado, es serventes de pedreire… etc. etc. etc… o mundo funcionaria bem? Não. O desperdício dos cargos desnecessários só existe lá no topo. Na base, normalmente se tem o mínimo do mínimo de empregados, sobrecarregados para que nenhum outro tenha que ser contratado.

Mas abundam as pessoas dispostas a fazer esses serviços, porque abundam as pessoas sem qualificação ou capital para fazer qualquer outra coisa. E já que a lógica do sistema é a lei da oferta e da procura, o suor humano se converte em bem – e, neste caso, um bem depreciado. A força de trabalho barateia tanto que até mesmo atos de higiene pessoal passam a poder ser terceirizados.

Extorquides, os trabalhadores ficam com o serviço que sobrou, o que ninguém escolheria se tivesse como escolher.

E assim quem passa fome continua passando fome e o trabalho honesto é tratado como motivo de vergonha diante des “doutores” do mundo.

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