Abortando

Eu tinha vinte anos e morava em Londres quando abortei.

Um dia me dei conta de que fazia tempo que não me sentia pré-menstrual, menstruada, pós-menstrual… fazia tempo que não sentia meu ciclo. Passei a mão pela minha barriga e pelos meus peitos, me sentindo estranha. E me dei conta.

Fiz um teste de farmácia para confirmar, mas eu já sabia. Sim, eu havia feito sexo sem proteção e sem o uso de qualquer contraceptivo ou anticoncepcional. Sim, irresponsável, sim, desmiolada. Sim tudo isso.

Fiquei surpresa e ao mesmo tempo não fiquei. Por algum motivo doentio, me achava estéril. Não me pergunte como, ou por quê. Só achava. Quando eu vi que estava grávida foi meio que como se eu finalmente percebesse o óbvio, o ridiculamente evidente. A minha loucura delirante. A minha culpa consciente. Ou seria meu dolo eventual?

Fui a um GP (general practicioner – tipo um postinho, só que melhor). Falei para ele que estava grávida. Ele me pediu para tirar a blusa, observou meus seios e daí palpou-os com mãos frias. Me perguntou quando eu havia menstruado pela última vez. Eu não me lembro do que respondi, se respondi, se eu sabia, se adivinhei, se inventei alguma coisa na hora. Mas lembro que ele tirou uma rodinha de papel de alguma gaveta, olhou ali e previu quando meu “bebê” iria nascer. Daí me deu os parabéns com uma voz mortiça e um olhar irônico.

“Eu quero abortar”, disse a ele.

Ele me disse “ok” e explicou o trâmite burocrático. Não me lembro bem, acho que ele tinha que fazer o pedido e daí eu ia lá e agendava, algo assim. Mary Stopes era o nome da clínica. Era caro, mas não era proibitivo. Eu consegui pagar com o que havia economizado do meu salário de garçonete. Custou cerca de quatrocentas libras, se não me engano.

Nas semanas que se passaram até o dia da cirurgia, eu me sentia muito bem fisicamente. Meus peitos começaram a produzir leite – eu demorei a me ligar. Vira e mexe eu estava com um ponto úmido na minha camisa logo em cima do mamilo e ficava me perguntando onde é que eu estava encostando que estava me molhando ali. Quando me caiu a ficha, achei engraçado aquilo. Eu nunca havia esperado que meu corpo funcionasse. Tinha certeza de que eu tinha algum defeito, sei lá.

Estava ansiosa, mas acho que, em algum lugar de mim, eu também estava orgulhosa. Eu era uma adulta, eu estava fazendo o certo, eu estava me virando sozinha. Sozinha. Aliás, melhor só que mal acompanhada, né? Ironicamente, a gravidez acidental me deu a oportunidade de me sentir madura, responsável. Uma mulher.

Eu sempre tinha sido a favor do aborto e esta era a prova do pudim. Nunca pensei de fato em ter o bebê. Cheguei a entreter a hipótese, mas sem nenhuma seriedade.

Deixei minha irmã mais velha avisada. Queria que alguém da família estivesse sabendo. Não era um segredo, eu tinha certeza de que todos em casa, aqui no Brasil, me apoiariam; teria sido muito mais difícil explicar a decisão de ter o bebê. Mas eu não queria que se preocupassem. Ou talvez também não quisesse ouvir abóboras por conta da cagada que eu havia feito antes de eu já ter solucionado a cagada por minha própria conta. Queria ligar só depois.

No dia do aborto, cheguei no Mary Stopes nervosa. O cara que tinha me engravidado me levou. Me irritei quando me disseram, no balcão, que não havia agendamento para mim, mas era só um mal-entendido. Logo a pendenga foi resolvida e eu entrei – ainda bem, porque já me aproximava das 12 semanas, prazo limite para a retirada do feto na Inglaterra.

Entrei, me encaminharam para o ultrassom. O médico me perguntou se eu realmente queria fazer aquilo. Me disse que meu filho era um menino. Até hoje me pergunto se a intenção dele ao dizer isso era me fazer mudar de ideia. Se ele realmente viu isso no ultrassom (é possível, mas era muito cedo). Se ele quis humanizar o bebê para mim porque talvez isso fosse me fazer mudar de ideia. Se ele queria só ver se eu realmente queria fazer o aborto. Mas eu me fechei. Não era um menino. Não era um bebê. Era uma semente que eu poderia deixar germinar se quisesse. Mas eu não queria. Troquei de roupa, pus o avental. Acho que foi assim, só depois do ultrassom, mas não lembro direito.

Entrei na sala, me prepararam. Quando agendei, tinha que escolher: eu poderia fazer a seco, poderia receber uma anestesia local ou poderia ir apagada. Tinha uma diferença de preço. Escolhi apagada. Na hora em que injetaram o remédio para que eu dormisse, senti medo e tive um acesso de pânico. Num átimo de segundo, olhei em volta, mas, antes que eu pudesse pedir uma palavra de conforto, tudo escureceu. A última coisa de que me lembro é de ver a agulha no meu braço enquanto ouvia ao mesmo tempo a minha pulsação bombando nos meus ouvidos e minha respiração funda e tremida, enquanto tentava me controlar.

A extração foi a vácuo. Já me disseram que é muito melhor e mais seguro que a curetagem. Na época eu não sabia, fiz porque era o que tinha à minha disposição.

Eu abri de volta os olhos, como se tivesse piscado, acordando num tumulto mental que me fez chutar a moça que segurava a minha perna (ela estava me tirando dos apoios – eu nem vi me colocarem nos apoios, quando me apagaram eu estava completamente deitada). Trêmula, me levantei com a ajuda das enfermeiras, desci da maca, sentei na cadeira de rodas, me levaram para um outro lugar, me deram um absorvente (estava sangrando como se estivesse menstruada), fiquei deitada um tempo numa maca, numa sala com outras mulheres, não sei se era para a anestesia passar completamente ou se tinha algum tempo mesmo de observação. Acho que um pouco dos dois.

Eu lembro que tive que tomar uns antibióticos e fiquei proibida de tomar banhos de imersão e fazer sexo com penetração, etc. por um tempo. Acho que me deram os antibióticos na saída do instituto, mas não tenho certeza.

Aliás, tem coisas de que me lembro com muita nitidez, como a cena da agulha no meu braço. Mas tem muita coisa que é enevoada. Por muito tempo achei que tinha dezoito anos quando fiz o aborto. Não sei por quê. A propósito, por muito tempo, achei que tinha dezoito anos. Como se me negasse a crescer. Agora me lembro de que, no dia do aborto, alguém com uma prancheta, alguém da clínica, digo, me perguntou a minha idade e eu disse dezoito e daí me corrigi. E a mulher me olhou com uma desconfiança, sei lá.

Bom, voltando ao assunto.

Lá fora o dia estava bonito e eu não estava mais grávida. Simples assim. Alívio. O cara que tinha me engravidado me levou para casa.

Há muitas coisas que eu poderia falar a respeito desse cara. Mas prefiro não fazê-lo. Primeiro porque eu não fiz o aborto porque o filho seria dele. Fiz o aborto porque o filho seria meu. E eu não queria ter um filho. Segundo porque não quero reforçar a ideia de que as circunstâncias pessoais da mulher que aborta são relevantes para justificar o aborto. Que é preciso justificar o aborto. Eu acho que o aborto é uma decisão que cabe à mulher e à mulher apenas.

Posso dizer, contudo, que foi essa gravidez e esse aborto que me mostraram o quanto eu não queria mais aquele relacionamento. O quanto eu queria distância daquele homem. Que me deram forças para me afastar, a despeito de toda uma programação psicológica para que eu ficasse, ou para que, mesmo indo, voltasse.

Acho legal dizer também que, muito tempo depois, grávida do meu segundo bebê, um menino, tive um descolamento de bolsa. Sangrei muito e por muito tempo tive a certeza de que o perderia. Achei até, mesmo sendo agnóstica, que estava sendo punida. Esse tipo de coisa é muito enraizada na gente. Essa coisa da culpa, do castigo, da punição divina, do carma.

Chorei e sofri. Eu tinha acabado de chegar às 12 semanas de gestação; ele ainda era só uma semente, assim como o menino que eu havia abortado tantos anos antes. Mas esta semente, ao contrário da outra, já era um bebê para mim. Ele já era o meu filho, já era uma pessoa. Assim como a minha menina já tinha sido a minha menina (embora ainda sem sexo definido) desde o primeiro momento em que eu vi aquele risquinho extra no teste de gravidez da farmácia. Porque essas eram as minhas crianças, crianças queridas e amadas desde antes de serem concebidas. Crianças esperadas, buscadas, alcançadas.

Meu filho, aquela semente, se enraizou de volta dentro de mim e nasceu saudável. E meu coração se apaziguou. Não consigo nem imaginar a dor das mulheres que de fato perdem seus filhos tão queridos. Me lembro bem do desespero quando senti o sangue descer. Morte. Luto. Dor. De como demorei a aceitar que estava tudo bem depois daquilo, só de medo de passar por isso novamente caso alguma coisa acontecesse de novo e em definitivo.

Conto isso porque tem algo que eu quero dizer, mas que é difícil de expressar e eu queria que ficasse claro: não, não é qualquer embrião que é um bebê. Não é qualquer feto que é um filho. Não para todo mundo, pelo menos. Nem sempre estamos gestando, ou carregando ume filhe, quando estamos grávidas.

Não sei como seria se eu estivesse em outro estágio da gestação. Se eu conseguiria abortar mesmo que já estivesse sentindo o feto se mexer, por exemplo. O fato é que eu sinto que não é que eu estivesse abstraindo quando não me conectei com o feto dentro de mim na minha primeira gravidez, quando não senti por ele o que depois senti peles mes filhes.

Eu sinto, pelo contrário, que nas outras duas gravidezes, meu amor dotou aqueles fetos da qualidade de bebês, de crianças, de filhes. Porque eu os queria, porque eu os amava, porque eu os desejava. Porque aquelas sementes eu queria que germinassem.

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