Relato de parto: Helena

Helena nasceu no dia 11 de julho de 2011, na Maternidade de Campinas. Minha primeira filha, meu primeiro bebê.
E meu primeiro parto, depois de cerca de quarenta e duas horas de indução – trinta e seis de misoprostol e seis de ocitocina.
Eu e meu marido batalhamos muito pela possibilidade de parir naturalmente, pelo “privilégio” de tentar fazê-lo. Passei a gravidez toda estudando, pesquisando, procurando, assistindo a documentários. Quando eu finalmente juntei informação suficiente para saber o que eu queria, nos vimos forçados a antecipar nossa mudança de volta para São Paulo (de Pelotas/RS para Campinas/SP), em busca de uma infra-estrutura menos intervencionista.
E pagamos por isso o preço de não podermos ficar juntos o tempo todo, já que o Igor continuou trabalhando lá. Foi difícil, mas valeu a pena. Passei de um obstetra que falava que nos partos “que ele fazia” tinha que ter lavagem intestinal e episiotomia, para a Mari (Dra. Mariana Simões), obstetra dos sonhos, que já na primeira consulta corrigiu: “Não sou eu que faço parto, Letícia. Quem vai ‘fazer’ o seu parto é você. Eu vou estar lá só para ajudar se você precisar de mim”. Lavagem? Só se eu quisesse. Episiotomia? Nem se eu quisesse.
Mantivemos nossos planos mesmo quando descobrimos que nossa filha estava pélvica. Aliás, olha a sorte que eu dei: eu acordei um dia, me mijei e achei que tinha estourado a bolsa (depois é que eu vi que não, não tem como confundir as duas coisas, ou pelo menos no meu caso eu não teria). Corremos para o hospital e, no ultrassom que a Mari mandou fazer só por precaução, descobrimos que a minha macaquinha estava lá, sentadinha, toda contente. A primeira de muitas peripécias!
Se não fosse esse ultrassom, a surpresinha teria virado um susto para a hora do parto…
Fiz exercícios de inversão, acupuntura e moxabustão, mentalizações, meditações, hipnose, conversa com o bebê e… nada. Helena se agitava, tentava se virar, chegava a ficar transversa… mas não conseguia dar a tal cambalhota. Me dava muita aflição, muita angústia aquela situação, como se ela quisesse mas não conseguisse e estivesse sofrendo lá dentro e – será que ela não ia virar? E se ela não virasse, eu ia bancar um parto natural de bebê pélvico? Para isso teria que trocar de obstetra, a Mari não fazia normal pélvico. E eu ia me desesperando aos poucos, mesmo querendo não surtar, mesmo querendo ficar calma, ser paciente.
Chegamos à 38ª semana e eu tinha pouco líquido amniótico, ou seja, estava começando a realmente faltar espaço para ela virar. Assim, fomos (de comitiva, eu, meu marido, minha irmã mais nova e minha super doula – Dorothe Kolkena, primeira pessoa deste mundo de parto humanizado que eu conheci e por quem já me apaixonei logo de cara) para Sampa fazer uma manobra de versão cefálica externa com a Dra. Andrea Campos que (uhuuuu!) foi bem sucedida logo na primeira tentativa, super light, sem anestesia, sem hospital, só uma massagem mais vigorosa na barriga acompanhada de acupuntura e pronto. A Helena realmente já queria virar, só precisava de ajuda. Foi incrível, emocionante, lindo, e valeu inclusive para conhecer a Dra. Andrea Campos, que é uma pessoa maravilhosa.
Mas era só o começo. Minha gestação, que até então fora extremamente sussa, encaminhava-se rapidamente para um final deveras turbulento. A Mari saiu de férias e eu fui fazer a minha consulta de acompanhamento com a back up dela, a Dra. Carla Polido, de São Carlos (outra mulher fantástica). Minha pressão estava 12 por 8. Para a maior parte das pessoas, nada demais… mas eu estranhei; minha pressão sempre havia sido, no máximo, 11 por 7. Na gravidez, aliás, tinha estado normalmente abaixo disso.
Não lembro se cheguei a mencionar para a Dra. Carla o meu estranhamento, mas fiquei com aquilo meio que entalado. Já há algum tempo (muito antes de eu sequer pensar em engravidar), eu incluí num projeto meu uma personagem que morre de eclâmpsia. Eu fiz pesquisa e tudo o mais. Esse foi, aliás, um dos motivos de eu ter deixado esse projeto de lado durante a minha gravidez… para não ficar pensando besteira. Mas mesmo assim, toda vez que alguém media a minha pressão, eu ficava cabreira e, claro, assim que ela mostrou alguma variação, eu fiquei preocupada. Psicossomático? Hum.
A Mari voltou, a 40ª semana chegou… e nada de parto. Equipe humanizada, bebê cefálico saudável… e nada de parto.
Para falar a verdade, eu não estava preocupada com isso. Eu sempre achei que fosse passar das 40 semanas. Aliás, todo mundo achava eu ia passar das 40 semanas. Eu era apaixonada por aquela barriga, aquela sensação de bebezinho lá dentro. E eu no fundo quis passar. Queria chegar nas 42. Aliás, eu não sabia que passar das 40 era tão tenso… eu achava que era chegar nas 42 e aí pensar em induzir. Daí descobri que, na verdade, a idéia é já ir tentando induções naturais antes (descolamento de bolsa, chás etc.) para dar tempo de ver se funciona. Isso foi meio que um choque e eu não sei nem se isso não ajudou também a minha pressão a aumentar.
Era o que eu mais temia. Às 41 semanas de gestação, minha pressão foi a 16 por 10. Até hoje não sabemos se foi mesmo pré-eclâmpsia ou se era só a pressão, mas o fato é que não pudemos esperar mais. A Mari me internou com remédio para baixar pressão e começou a indução, preparando o colo do meu útero com Misoprostol. Ela explicou que, como o meu colo ainda estava muito posterior e muito fechado, se ela me colocasse direto na ocitocina eu teria contrações, mas o bebê não conseguiria sair – acho que é como se você ficasse empurrando uma pessoa contra uma porta trancada – e ela entraria em sofrimento, o que nos levaria a uma cesárea desnecessária, a clássica cascata de intervenções.
Fiquei, é claro, frustrada e apreensiva com a perspectiva do tal “manejo ativo” do meu trabalho de parto. Por mais que a gente diga que não há nada de errado em fazer uso da tecnologia quando ela é necessária, no fundo, no fundo, eu não estava preparada para o caso de ela ser necessária. Eu achava que estava, tinha todos os argumentos racionais para estar… mas o emocional da gente é outra coisa.
E eu sentia tanta culpa! Por fazer minha filha passar pelas contrações artificiais da indução, por colocá-la em risco de ter que nascer pela via cirúrgica. Sentia que havia falhado, que meu ganho de peso havia colocado o meu bebê numa situação de risco e desconforto, que eu a havia privado da escolha de quando nascer.
A Mari, muito paciente, além de obstetra foi psicóloga, confidente, amiga.
Eu tive os próximos dois dias para trabalhar essas questões, enquanto as contrações causadas pelo Misoprostol aumentavam. Por conta das dores intermitentes, eu já não conseguia dormir. Acontecia de as pessoas virem me visitar e eu cochilar por alguns segundos enquanto elas falavam comigo. Daí a dor voltava e eu acordava.
Achei que ia conseguir entrar em trabalho de parto sem precisar da ocitocina. Falei com a Mari, ela fez um toque e me disse (dava para ver que ela estava fazendo um puta esforço para não me desapontar) que não, que essas contrações não eram trabalho de parto, era só a abertura do colo do meu útero mesmo, porque em apenas alguns dias estava ocorrendo um processo que normalmente levaria uma semana ou até mais.
Ela me disse, inclusive, que as contrações “de verdade” seriam diferentes. E agora eu me pergunto se são e não sei dizer, hahaha. Não lembro. Só sei que, claro, a intensidade das contrações do trabalho de parto é muito maior.
Na manhã do terceiro dia, a Mari enfim me pôs no soro com ocitocina, mas em doses baixíssimas. Supercuidadosa. Chegou até a trazer um chazinho especial, que ela mesma fez, para ajudar, mas eu não tomei muito, porque o efeito em mim era muito forte, fazia as contrações se emendarem, uma tortura.
Foi meter o soro no meu braço e a minha bolsa estourou. (Hum? Ah, então é assim… hahaha).
Àquela altura, eu já tinha feito as pazes com a indução. Na verdade, o grande catalisador de todo esse processo emocional-psicológico-filosófico foi o sono e a dor. Eu já estava tão cansada que nem me lembrava do resto – eu só queria minha filha, queria ir para casa, queria sair daquele hospital, queria paz e sossego. Fora o remédio da pressão, que me deixava meio pancada.
Minha mãe e a minha irmã mais nova tinham vindo me visitar cedo e foram ficando. Foi coisa de minutos entre meterem o soro no meu braço e a presença delas começar a me incomodar. É que o bicho começou a pegar muito, mas muito rápido (a indução funciona assim) e eu queria vocalizar, mas estava inibida porque não queria que elas se assustassem.
Minha mãe percebeu minha inquietação e me perguntou se eu preferia que elas fossem embora. Com algum pesar, eu disse que sim. Foi uma sensação estranha – não é que eu não as quisesse por perto, mas eu não conseguia me soltar com elas ali.
Assim que elas saíram, eu deixei escapar, aliviada, o meu primeiro gemido de dor. Veio outro e mais outro. Era estranhamente liberador. Era primeira vez em que eu ouvia a dor pura (sem medo, surpresa ou irritação, só dor) sair de mim na forma de som. E um som tão livre, tão sem formato! Era quase como escutar uma cor. Amarelo brilhante, rosa claro, azul. Engraçado que não fosse vermelho, seria de se esperar vermelho, não?
Mas a minha voz soava estranha para mim e a intensidade nela meio que me assustava, me mantinha “alerta”. Lembrei do que a Dra. Carla me disse numa consulta, que emitir sons graves ao invés de agudos ajudava a relaxar o períneo e, relembrando minhas idas ao Morumbi, comecei a vocalizar sempre OOOOOOOO… como um mantra. Quanto mais forte a dor, mais alto eu cantava.
Daí eu me concentrava naquele som, morava nele, me transformava nele, e isso me ajudava a abstrair, vivenciar a dor de outra forma. Eu não lutava contra ela, eu a aceitava, trabalhava com ela.
A Dorothe, minha doula, estava sempre lá, do meu lado, me apoiava, me lembrava de relaxar os músculos do rosto e do corpo, respirar fundo e devagar, me soltar, me entregar.
Também estava lá o Igor, meu companheiro de todas as horas, para todas as coisas, mas eu, perdida no meio daquilo tudo, não o via, só sentia. Ele era a compressa de água quente nas minhas costas, a mão na minha, as palavras nos meus ouvidos, os beijos na minha cabeça, os braços ao meu redor. Eu jamais teria sido capaz de fazer isso sem ele – e eu não me refiro só ao bebê em si. =)
Havia momentos entre as contrações em que eu conversava como se nada estivesse acontecendo; em outros, apesar de a contração em si já ter terminado, ficava um “rabinho” chato que emendava na próxima. A sensação me fazia pensar num carro andando com freio de mão meio puxado. Eu acho que eu cheguei a comentar isso com o pessoal. Não sei se isso é normal ou se é coisa da indução.
Como todo mundo diz, as contrações são ondas, com começo, meio e fim; umas são mais altas, outras mais baixas, umas mais bruscas, outras de intensificação mais gradual.
Quando ficava difícil eu me concentrava na vibração da minha própria voz e me abraçava à certeza de que dali a só mais alguns segundos e eu estaria de novo no vale, descansando antes da próxima subida.
Durante as contrações em si, falar – ou mesmo ouvir, quer dizer, prestar atenção no que outros diziam – era um suplício. Era impossível me concentrar em “ir” quando minha cabeça tinha que ficar. Eu lembro que a Mari me perguntou se eu tinha aprendido o lance da vocalização no livro da Ina Mae. Eu fui responder que eu já tinha ouvido muito falar desse livro, mas não tinha lido, que li tantos, mas esse, que é o mais famoso, não li… mas saiu tudo confuso, nem lembro direito do que eu disse, eu só lembro da cara de ponto de interrogação da Mari e de eu pensando “ah, não, não é isso, como é que eu explico…” e aí a contração começou a apertar de novo e eu desencanei.
Ficar em posição para o cardiotoco, então! Ninguém merece… Mas valia a pena para ouvir o coraçãozinho da Helena – minha heroína! – sempre firme, sempre forte, como um cavalinho, a galope rápido, vindo para mim.
As contrações se aceleraram e se intensificaram mais. Vi do quarto a Dorothe no banheiro, inflando e começando a encher de água a banheira que a doula do casal do quarto do lado (a Daniela, hoje também ativista) emprestou para a gente. Eu mal podia esperar a hora de entrar nela.
Eu estava entre cinco e sete centímetros de dilatação quando fui para a banheira. A água estava beeeem quente, eu tive que entrar aos poucos. Eu falei para a Dorothe que estava quente demais e ela me disse para entrar devagarzinho, que precisava estar quente para fazer efeito. Eu confiei. Assim que minha bunda submergiu, meu mundo mudou. Era como se uma parte das contrações tivesse se dissolvido – elas ficaram tão mais suaves! A sensação era outra. Eu não tenho palavras para expressar a minha gratidão pelas pessoas que possibilitaram que aquela banheira surgisse na minha vida, hahaha.
A partir daí as coisas ficaram cada vez mais confusas. A uma certa altura eu vi a Dorothe e a Mari passando para lá e para cá… mas agora elas estavam de roupinha e touca azul… daí me liguei que elas haviam trocado de roupa porque estava chegando a hora e isso significava que eu teria que sair da banheira. Fiquei mortificada. Eu não queria sair dali por nada neste mundo.
O Igor pediu para entrar na banheira junto comigo. Expliquei que ele ia ficar com nojo – eventualmente iria ter sangue, cocô e líquido amniótico na água… mas ele disse que isso era besteira, entrou atrás de mim e ficou me abraçando. Fiquei tão orgulhosa dele e tão feliz de ele estar ali comigo! Parecia até que eu estava em um daqueles tantos vídeos de parto que eu assisti.
Começaram a vir contrações muito fortes, acompanhadas de uma vontade louca de empurrar e de repente eu já não conseguia mais manter o OOOO contínuo que eu cantava antes. Saía uma coisa louca, animal, tipo Tiamat, o Dragão. Só que agora esse barulho não me assustava mais – era como se eu saísse de mim com ele, como se aquele descontrole me libertasse.
Eu ainda fecho o olho e procuro aquela sensação dentro de mim às vezes. Foi um dos momentos mais fantásticos da minha vida. E o mais legal é que foi atrás desse momento que eu fui quando fiz minha opção. Não só porque eu estava certa de que seria o melhor para a Helena, mas porque eu queria sentir aquilo. E não me decepcionei. A gente se descasca de tudo, não tem nem como explicar. O que sobra no final é só a fêmea fundamental, parindo, parindo como tantas outras fêmeas no mundo e junto com tantas outras fêmeas no mundo, como se fôssemos uma só, bichos e humanos de tantas formas e cores, uma irmandade louca.
A Mari apareceu, fez um toque e disse, “Letícia, você está com dilatação total, pode fazer força…”
E aí eu, pirando, ainda pensei comigo “ué, mas se eu empurrar, ela vai nascer aqui… será que a Mari entendeu que a Helena vai nascer aqui? Será que pode isso?” Só depois fui me ligar que naquele momento já era tarde para eu sair da piscina e ir para o centro obstétrico. Que a intenção era eu parir ali mesmo na piscina, um parto na água, como eu sempre quis e nunca achei que pudesse ter, já que nenhum hospital permitia.
A Dorothe surgiu na minha frente, segurou no meu rosto, me olhou nos olhos e disse algo como “partolândia total…” e por um momento eu saí de mim, me olhei e pensei “é mesmo? Então é isso? Que interessante…”, mas não sei se disse nada, não durou muito, eu já estava lá de volta.
Tem uma foto minha pirando na banheira – eu estou horrível, parecendo uma baleia encalhada de barriga para cima com uma touca de banho vermelha na cabeça. Mas por algum motivo eu gosto daquela foto. Estranho, né?
A Mari apareceu de novo para ver os batimentos da Helena e eu pensei por um momento “que merda! E se ela resolver fazer uma cesárea em mim agora?” E não é que uma parte de mim ponderou que talvez isso não fosse tão má ideia? Em minha defesa, naquele ponto eu já estava tão exausta que nem estava pensando direito, só queria que acabasse logo. Estava entrando numas de “ah, faz para mim…”
Mas passou.
Aí o Igor estava me abraçando, e agora nós estávamos sozinhos e eu estava empurrando sem querer empurrar, sem muita convicção, porque toda vez que eu empurrava, parecia que não era hora, que ela ainda não estava na saída, não sei. Era meio que como quando você está com uma senhora prisão de ventre, quando você sente que está cheia mas não adianta fazer força, porque não tem peristaltismo para te ajudar. Acho que eu achei que ia ser que nem fazer cocô mesmo, que grande parte da força que eu faria seria involuntária, que eu tinha que esperar o meu corpo empurrar o bebê até um pedaço do caminho e eu empurraria o resto. Mas não é assim. Ou pelo menos não foi para mim.
As pessoas entravam e me sugeriam outras posições, e me davam o banco, e me tiravam o banco, falavam para eu sentar, ficar de quatro, ficar de cócoras, uma bagunça. E eu estava irritada, só queria ficar na minha, já nem estava ouvindo mais direito. Começou a me dar um calor insuportável. Pedi para tirar o soro do braço, mas não podia ainda, ai que saco! Continuei empurrando aos poucos, fazendo força meio que sem fazer.
A Mari apareceu de novo e falou para eu tocar e sentir a cabecinha da Helena e eu obedeci e tinha uma coisa tão fofinha lá dentro! Que medo de furar a cabeça dela, meu deus! Deram óleo para o Igor passar em mim, para evitar lacerações. Ele sentiu a cabecinha dela lá dentro também e disse a mesma coisa – “mas é molinho!”
E as contrações vindo cada vez mais fortes e eu pensando “putaqueopariu! Eu vou ter uma filha, eu vou ter um bebê, não tem mais volta!” E aí pensando “putaqueopariu! E agora é que eu penso nisso?!” Hahaha…
E daí toquei o foda-se e fiz uma puta força, mais força do que nunca na minha vida, mais força do que eu achei que tinha para fazer, tipo ou vai ou racha, e comecei a sentir a Helena descendo. E disse para a Dorothe “ah, então era isso que era para eu fazer o tempo todo? Eu estava vacilando, achando que não era para empurrar tanto, não sei por quê…” O engraçado é que todo mundo me disse o tempo todo que era para eu fazer uma puta força – “uma forçona”, disse a Mari, delicadinha, lady que é, hehe – e eu não tinha me ligado que era toda aquela força. Céus…
Fiz mais “uma forçona” e senti o períneo ardendo – acho que cheguei a comentar com a Dorothe que era diferente do epi-no, que era parecido, mas diferente, que eu achava que ia rasgar, que esse tal de epi-no era uma fraude, hahaha – e de repente tinha a maior galera dentro do banheiro – a Mari, a Dorothe, a Ana Paula… – eu nem tinha me ligado que elas tinham entrado… e eu pus a mão e senti a orelhinha da minha filhinha!
A Mari pediu permissão para a Alessandra, uma das enfermeiras da Maternidade, assistir ao resto do parto e eu disse que sim, mas nem a vi entrar.
Alguém falou para mim que, na próxima contração, minha filha sairia. E cadê essa contração que não vinha, meu deus? Eu ansiosa para ver a minha menina, com medo de ela sufocar (eu sei que não tem nada a ver, mas fiquei com medo, sei lá, é irracional)…
A Mari disse que ia ver se tinha circular de cordão… e eu perguntei “e aí, tem?” e ela “não tem mais…”, hahaha, e eu “mas que menina sapeca, até outro dia não tinha nada, como é que ela conseguiu…” e daí me perdi de novo e não sei o que mais conversamos.
Veio mais uma contração e a Helena finalmente nasceu.
O Igor, que a esta altura estava na minha frente, pescou nossa menininha e a entregou para mim… a cabeça, as mãozinhas e os pezinhos estavam roxinhos e o resto era branco… parecia uma gatinha siamesa. Que medo! Eu perguntei para a Ana Paula, nossa neonatologista, se estava tudo bem e ela me disse que sim. Eu aproveitei para falar oi, porque só agora me dava conta de que sequer a havia cumprimentado.
Eram 15h59min.
Todo mundo estava sorrindo e nos dando parabéns, e eu enfim vi a Alessandra, que estava emocionada.
Heleninha abriu os olhos e olhou para mim… e começou a chorar. Alguma coisa se apertou dentro do meu peito e nunca mais se desapertou de volta. Ah, que coisa mais linda e pequenininha! Que olhos pretíssimos… Eu disse que sabia que ia me arrepender de dizer isso, mas que aquele choro era a coisa mais gostosa que eu já tinha ouvido na vida (e era mesmo, sem brincadeira, que loucura!). Ana Paula deu a dica de colocá-la mais para dentro da água. A Helena se aquietou, mas continuou chutando forte. Então eram esses os pezinhos que me chutavam por dentro. Muito prazer.
Mas não foi só alegria que eu senti. Eu me enchi dum desespero que demorou coisa de uma semana para passar. Talvez fosse o sono e o cansaço acumulados, sei lá, mas o fato é que eu tinha medo, pavor, terror, de eu ou outra pessoa machucar a Helena, de ela sentir dor, de um dia ela sentir dor, no corpo, na alma, de todas as dores que ela com certeza vai sentir na vida, que fazem parte da vida, que eu não tenho como evitar que ela sinta.
Minha vontade era de colocar ela de volta dentro de mim. Lá ela estava segura, protegida, agasalhada, acolchoada do mundo. Agora, eu tinha perdido o controle – não sobre ela, o problema não era ela. Eram as outras pessoas. Eu não tinha mais como garantir a segurança dela. Eu não podia dormir, eu não podia piscar. Minha pressão demorou para voltar ao normal e eu ficava com medo de ter que ser hospitalizada e não poder dar o peito para ela, de não poder cuidar dela, estar junto dela, protegê-la.
Esse momento terrível passou, graças a deus.
Eu o incluo neste relato por dois motivos: primeiro porque eu tenho a mais firme convicção de que isso foi um fator que contribuiu muito para impedir a minha entrada natural em trabalho de parto no tempo usual, a despeito dos meus esforços para trabalhar também essa questão racionalmente durante a gravidez; e segundo, porque eu queria que se alguém que lesse isto tivesse essa sensação escrota no pós-parto, soubesse que passa, que vai passar, que é difícil e horrível mas que vai, sim, ficar tudo bem logo mais.
Converse a respeito com todo mundo que parar para te ouvir – quanto mais você fala, mais você processa racionalmente os seus sentimentos e se distancia do “trauma”. Peça ajuda. Chore. Respire fundo. E acredite: vai passar. Foi isso que a Dorothe e a Mari me disseram e que me ajudou muito.
A cada dia, sua confiança na sua própria capacidade de cuidar do seu bebê aumenta e o seu bebê também fica mais forte, mais durinho, menos vulnerável. E você começa a se acostumar com o fato de que aqueles dedinhos do pé que parecem grãozinhos de romã vão ser pisados eventualmente e provavelmente um dia (ou vários) amassados dentro de algo lindo, mas desconfortável. E que isso faz parte da vida. Ela vai ter que aprender sozinha onde o sapato aperta e o máximo que você vai poder fazer é ficar por perto, com o seu ombro e um par de chinelinhos para se um dia ela precisar. E a gente sabe disso, a gente sabe disso antes mesmo de engravidar, mas… saber, pensar, é tão diferente de sentir!
Enfim, voltando ao assunto, o pessoal todo saiu para a gente poder se curtir um pouquinho… e o pouquinho se esticou um monte, porque o cordão levou quarenta e cinco minutos para parar de pulsar. Quarenta e cinco minutos da nossa nova família, juntinha, na banheira.
Igor cortou o cordão (que é muito mais duro do que parece) e a Ana Paula pegou a nossa pequena para pesar e medir ali dentro do quarto mesmo, o que foi ótimo. No processo, Helena fez seu primeiro cocô, um montão de mecônio. Ana Paula brincou: “ô, nenê, esperou a gente sair da banheira para fazer cocô?”
Ela pesava 3,410 kg e media 50 cm.
Eu saí da banheira com a ajuda da Dorothe e da Mari, e deitei na cama para a saída da placenta. Demorou, mesmo com todo o resto da ocitocina que tinha sobrado sendo aplicado de uma só vez. A Mari vinha de vez em quando e dava uma puxadinha no cordão (dava a maior aflição), mas nada.
Daí eu pus a Helena no peito, e ela pegou – a gente já tinha tentado antes, mas com o cordão ainda pulsando ela nem quis saber, eu cheguei a ficar preocupada. Foi como mágica. Senti umas contraçõezinhas, empurrei e saiu um tanto de coisa e eu pensei “nossa quanta coisa, quanto sangue”. Chamei a Mari.
Ela: “Ah, começou a sair? Faz força”
E eu: “como assim ‘começou’”?
Daí eu fiz força mesmo e a placenta de fato saiu. Meu… glamour zero. Não doeu, mas era gigante. E sangue de filme de terror.
No final, nem precisei levar ponto, tive só uma escoriaçãozinha, que fechou sozinha. Bacana, né? O epi-no valeu a pena. E eu que pensei tão mal dele!
O pessoal hoje brinca e comenta da minha sorte, porque eu escapei de umas trocentas cesáreas. E é verdade mesmo. Se eu tivesse ficado em Pelotas, com aquele médico que declarou para mim, na maior candura, que me induziria se eu não parisse em até quatro horas (!) depois do início do trabalho de parto, eu com certeza teria acabado na faca. Se a Helena não tivesse “aceitado” a versão cefálica externa, ou se as condições não favorecessem a manobra, eu também provavelmente acabaria na faca, pois seria muito difícil – ainda que não impossível – para mim bancar um parto natural pélvico assim, de cara. Quando eu passei das 40 semanas, se eu estivesse com um obstetra intervencionista, eu com certeza teria sido induzida direto e também provavelmente acabaria na faca, já que o colo do meu útero estava ainda bem trancado. Quando passei das 41 semanas, então, nem se fala… Quando a Mari constatou que minha pressão estava aumentando, a maior parte dos outros médicos já teria me mandado direto para o centro cirúrgico. São pelo menos cinco encruzilhadas em que, se eu já não estivesse com uma bússola, eu poderia ter acabado no lugar errado.
Bom, noves fora… por ironia do destino, foi justamente uma intervenção o que possibilitou que nós tivéssemos um parto na água apesar de não termos tido coragem de fazer um parto domiciliar. Se eu não tivesse sido induzida, eu teria feito o meu trabalho de parto em casa e o expulsivo na Maternidade o que significa que, mesmo que eu pudesse ainda ter tido acesso à banheira inflável que nos foi emprestada eu teria necessariamente que sair dela na hora de parir em si. Por isso, de certa forma o final meio que compensou o começo.
Claro, não foi o parto que eu queria – com contrações de aumento gradual e natural, no aconchego do meu lar e uma transferência para o hospital só no finalzinho, num estado mental e físico descansado (bom, pelo menos mais descansado do que eu estava). Mas mesmo com a tensão, o sono, o cansaço, as contrações artificiais, foi uma experiência gratificante, bonita, emocionante… e me deixou muito orgulhosa.
Orgulhosa da minha filhinha, forte, que permitiu que a mamãe trabalhasse o parto até o fim, sem se estressar; orgulhosa do maridão, que pariu junto comigo, companheiro até o último minuto, sem pestanejar; orgulhosa da equipe que eu escolhi, que nunca deixou a desejar e superou as minhas expectativas a todo momento; e orgulhosa de mim, por ter propiciado aquele cenário e por ter conseguido passar por tudo aquilo sem a necessidade de maiores intervenções.
Valeu!

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