Perdi

***Originalmente publicado na Revista Fórum em 9 de setembro de 2015

perdi

Quando eu era criança, eu costumava fantasiar com enterros; que pessoas queridas haviam morrido e eu estava lá, presenciando seus funerais. Eu chorava e chorava. Esse choro me trazia alívio e eu me sentia culpada por isso. Mas não conseguia parar.

O que eu não tinha condições de saber, naquela época, era que isso não era algo que eu fazia por masoquismo ou morbidez. Era um mecanismo catártico, digamos assim, uma forma de eu colocar para fora tristezas que eu não conseguia acessar de outro jeito.

Quando a gente cresce ouvindo que “não precisa chorar” toda vez que chora, acaba internalizando a ideia de que nossas lágrimas nunca são legítimas, nunca são válidas. E daí paramos de nos permitir sentir, paramos de nos permitir chorar.

Eu sempre tive dificuldade de chorar em público. Chega a ser um bloqueio mesmo, às vezes. De eu querer muito, sentir muita vontade, e não conseguir. Talvez parte disso seja medo de que apareça alguém para “me dar motivo de verdade para chorar”, ou para me desmascarar, como se eu não tivesse o direito de estar triste.

Ao inventar para mim essas mortes absurdamente tristes, ainda que sabendo que eram falsas, ainda que apenas temporariamente, eu me dava licença para soltar os soluços presos no meu peito. Era como assistir a um drama, só que feito por mim para mim, com os elementos específicos de que eu precisava para chorar.

Claro que, como era um choro indireto, chorado por subterfúgios, o alívio, apesar de imediato, era efêmero. Acho que a gente não tem como realmente esvaziar um conteúdo emocional sem tocar nele de fato. Para que eu conseguisse liberar as minhas mágoas contidas, eu teria que, antes, reconhecê-las, me permitir senti-las e daí chorar por elas de verdade, e não apenas derramar o excesso de tensão acumulada em mim por conta delas.

De qualquer forma, ironicamente, em funerais reais, eu não chorava. Desde cedo a lição para mim foi a de que era falta de educação chorar pela morte de alguém. Era falta de respeito com quem estava sofrendo “de verdade”. Era querer chamar a atenção. Era falso e grosseiro. Era piorar as coisas para as pessoas que estavam “precisando de força”. Como se o simples sofrer junto e chorar junto, ao invés de acolher, fosse aumentar a dor de alguém.

Eu enterrei dois avôs sem luto. Sacrifiquei uma gata de dez anos, depois de um tratamento excruciante e fracassado, sem luto. Chorei um pouquinho aqui e ali, até fiquei triste, mas não passei pelo luto. Foi tudo um grande “bola para frente” e “levanta e sacode a poeira” e “a vida continua”.

Afinal, que utilidade tem o luto, né? Para que isso?

Uma psiquiatra, Elisabeth Kubler-Ross, estudando as reações de pacientes que descobriam estarem em estado terminal, elaborou essa coisa que é bastante conhecida hoje em dia, das cinco fases do luto. Já ouviu falar? Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Ou seja, fingir que não está acontecendo, sentir revolta porque está acontecendo, querer negociar de alguma forma para aquilo não acontecer, ou para compensar o que está acontecendo, ficar deprimide com o que está acontecendo e, finalmente, simplesmente aceitar que o que está acontecendo está acontecendo. Algo assim.

Nem todo mundo passa por todos os estágios sempre, e algumas pessoas ficam, às vezes, entrevadas em algum. E eu acho que eu parei no da negação.

Um amigo meu morreu ano passado.

Não é que eu não tenha ficado triste. Eu inclusive fui, com outres amiges, prestar minhas homenagens a ele no cemitério. É que o tipo de tristeza que eu senti foi, hoje vejo, incompatível com a situação. E, quando eu digo “incompatível com a situação”, não estou me referindo ao seria esperado socialmente de mim, mas àquilo que eu conheço de mim, ao tanto que eu gostava dele, etc. Mas eu não me dei conta disso na época.

Na época, eu disse para mim para eu largar de besteira porque já era de se esperar (ele tinha uma tendência autodestrutiva fortíssima que era pública e notória). Eu disse para mim que, de certa forma, era o que ele queria e que não fazia sentido sofrer por alguém que escolheu ir embora (como se eu não soubesse que sentir não precisa fazer sentido). Eu disse para mim que estava brigada com ele.

Eu recontei para mim cuidadosamente todas as histórias das vezes em que ele fez algo que me desagradou e irritou. E daí senti raiva dele. E essa raiva abafou a minha dor.

Sucesso. Luto evitado.

Engraçado que, agora, olhando, isso parece tão óbvio. Tão evidente. Crianças fazem isso. Aliás, todo mundo faz isso, adultes também. Ficar com raiva de quem está distante para minimizar o sofrimento da distância. É um clássico da negação. Mas eu não via. De dentro, a gente dificilmente vê.

E eu assim me fiz de besta. Por um ano.

Acontece que, outro dia, morreu uma amiga minha. E, desde o momento em que eu recebi a notícia, eu chorei. E chorei. E chorei. E continuo chorando.

Indo para o velório, em outra cidade, aos prantos, perguntei para o meu marido, que dirigia ao meu lado: “por quê? Por que estou tão triste? Não era como se a gente se visse todos os dias…”

E ele me respondeu apenas: “ela era sua amiga. Claro que você está triste.”

Aquilo fez um “clic” na minha cabeça. Ela era minha amiga. Claro que eu estou triste. Foi como se, de repente, eu tivesse obtido permissão para chorar. Eu não precisava mais me esconder, ou sentir que eu deveria estar me escondendo, para isso.

Mesmo se eu não a tivesse visto há anos, mesmo que eu nunca mais fosse vê-la, como eu não ficaria triste com o fato de que eu nunca mais poderia vê-la, de que ninguém nunca mais iria vê-la? Uma pessoa maravilhosa, que eu adorava, deixou de existir. Como não ficar triste com isso?

Mas foi só quando eu falei com minha outra amiga, ela falando de sua própria negação, que eu entendi que não era só uma deslegitimação dos meus próprios sentimentos o que eu estava fazendo. Era negação. Eu estava deslegitimando aqueles sentimentos para não senti-los. Ou melhor, para não tomar conhecimento deles, para não lidar com eles, já que não temos como deixar de sentir o que sentimos.

E foi só ainda mais tarde, quando eu comecei a traçar paralelos com a morte do meu amigo no ano passado e, para minha surpresa, comecei a chorar por ele também, que me dei conta de que o que se passou, naquela ocasião, também foi uma negação.

E então me lembrei do meu avô. E do meu outro avô. E da minha gata. E da tia que morreu há algum tempo. E do tio que se foi mais há pouco. A represa havia se partido e um mar de lágrimas irrompeu de mim, num dilúvio que ainda agora me mantém flutuando, confusa, entristecida, mas aliviada.

Houve um momento em que eu tentei fazer dessa epifania uma compensação, um motivo, um sentido para a morte prematura de uma pessoa tão querida, mas compreendi logo que era besteira querer encontrar um sentido em algo que não tem sentido. Algo que, infelizmente, simplesmente é.

E eu finalmente entendi a importância do velório, do serviço funeral, enquanto explicava para minha filha pequena o que estávamos fazendo ali. Estávamos nos despedindo. Não por quem morreu, porque essa pessoa já não estava mais aqui; por nós. Para registrarmos, para nós e outres que amavam aquela pessoa tão querida o quanto ela ia deixar saudade. O quanto sentíamos que ela não estivesse mais conosco.

No caminho de volta para casa, fortuitamente cruzamos com uma queima de fogos, em cima do Conjunto Nacional, no meio da Paulista. Foi um espetáculo lindo e inesperado, um presente, uma dádiva de luzes e cores e pessoas desconhecidas assistindo e aplaudindo juntas, unidas por aquela alegria jovial, descomplicada, franca. E eu sorri, mesmo triste, pensando em como aquilo era perfeito para dizer adeus à minha amiga.

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Acolhimento

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 05/04/2015.

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento

Asfixia emocional

Sufocar

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir.

No processo de aprender a ser a melhor mãe que eu poderia ser, eu aprendi a acolher. A empatizar. E isso mudou a minha vida.

Esse acolhimento me surpreendeu ao iluminar partes de mim que antes eu mantinha no escuro. Me peguei, de repente, abraçando uma menininha triste e assustada que eu encontrei num canto, escondida sob camadas e camadas de raiva. Uma menininha de cuja existência eu havia me esquecido por completo, que a vergonha de sentir, de chorar, tinha me feito enxotar da memória.

Depois de dar voz à dor que ela sentia, um pequeno milagre aconteceu: comecei a sentir também a dor dentro de outras pessoas. Minha percepção do mundo e de quem estava ao meu redor mudou. Subitamente, éramos todes crianças tristes e assustadas, tentando sobreviver ao que não queríamos lembrar.

Hoje eu entendo. Como podemos nos abrir para os sentimentos de outras pessoas, como podemos nos dispor a sentir com elas o que elas sentem, e não apenas entender o que elas pensam, sem que tenhamos antes abraçado os nossos próprios sentimentos negados, reprimidos, silenciados?

Como reconhecer em você o que há em mim se eu não suporto antes me olhar no espelho?

Se estamos tentando não sentir, não conseguimos lidar com o sentimento de outrem, porque a dor lá fora nos faz recordar da dor aqui dentro. Incomodades, queremos que aquilo acabe logo, mas, por mais que queiramos, não temos como fazer alguém parar de sofrer (o que nos faz sentir, ainda por cima, impotentes). É aí que podemos optar por agir egoísta e pragmaticamente sobre aquilo que efetivamente está sob o nosso controle; não o sofrimento em si, mas a demonstração dele para nós – o choro, as lamúrias, os lamentos que se desenvolvem diante dos nossos olhos e ao alcance dos nossos ouvidos.

É por isso que nossas palavras de conforto mais comuns frequentemente carregam, no fundo, a conotação de “pare com isso”: “não foi nada”, “não chore” ou “vai passar”, por exemplo. Todas elas, ao invés de realmente oferecerem um ombro, apenas impõem o fim da exposição daquela dor diante da gente. No fundo, quando confortamos alguém dessa forma, só quem se conforta somos nós.

E como reage a pessoa cujo sofrimento incomoda a quem está à sua volta, ou a quem ela ama? Fugindo para poder sofrer em paz, talvez, ou, mais provavelmente, engolindo seus sentimentos e corroendo-se aos poucos, por medo de afastar as outras pessoas.

É isso que acontece com a criança. Para ela, a ideia de viver distante do amor de seus pais é simplesmente excruciante; o medo do abandono é absoluto e avassalador. Qualquer coisa lhe parecerá melhor que isso.

Não creio que seja o intuito de nenhum pai ou mãe que eu conheço desamparar ses filhes num momento de angústia. No entanto, frequentemente, a impressão que passamos às crianças infelizmente não é essa. “Seu sofrimento me incomoda. Pare ou eu vou embora” é a lição que a criança aprende com cada noite passada chorando sozinha no berço, com cada explosão emocional à qual, por birra adulta, viram-lhe as costas, com cada ameaça de violência por sentir que ela recebe – como “vou te dar motivo para chorar”, ou “se você disser de novo que me odeia, vou embora”, ou “se você disser que odeia o seu irmãozinho, vai ficar de castigo”. Com cada machucado e tombo e susto tratados com “já passou”.

Ah, “já passou”. Eu poderia escrever uma tese sobre esse já passou. Duas palavrinhas tão pequenininhas e tanto autoritarismo, tanto silenciamento, tanto adultismo nelas. Tanto gaslighting*. Desde quando se pode, de fora de alguém, determinar quando o sofrimento dessa pessoa acaba ou não? Se a pretensão em si já é absurda, dar voz a ela é uma crueldade. Mas mesmo mães pais muito carinhoses e bem intencionades continuam reproduzindo essa fala, pois tanto a escutaram ao longo de suas próprias infâncias que não se dão conta do quão violenta ela é.

Essa frase, como as que eu citei acima e tantas outras, é um bolo de alfinetes recoberto por algodão. Parece doçura, parece carinho, parece apoio, mas, no fundo, é só uma ordem muito egocêntrica e autoindulgente emanada da pessoa adulta direto para o coração da criança: “cale-se!”

É assim que internalizamos a noção de que só merecemos e recebemos amor quando estamos felizes e somos agradáveis. Não é à toa que tantas pessoas cometem suicídio “inesperadamente”, sem ter dado mostras da profundidade da depressão em que se encontravam. Até o final, elas têm a sensação de que precisam manter a qualquer custo a fachada da felicidade ou se verão completamente sozinhas naquela escuridão.

É uma lição que, na maioria das vezes, levamos para o resto das nossas vidas, acarretando não só falta de autoconhecimento, mas também o desprezo, deslegitimação e invalidação de nossos próprios sentimentos. Muitas vezes nos orgulhamos dessa repressão e ostentamos como medalhas as neuroses que ela nos causa, como se fossem mostras de força. “Estou cada vez melhor, melhor e melhor”, murmuramos rangendo os dentes para os nossos botões inquietos.

Mais do que isso, como dito, por termos aprendido desde cedo a não sentir, aprendemos também a não tolerar o sentimento de outrem, a não ser que seja algo feliz e bonito e sorridente, que não seja desagradável para ninguém. Não apenas evitamos chorar, como passamos também a considerar fraca e inconveniente a pessoa que chora. Nos afastamos (quem sabe até com repugnância) de quem “escolhe” sofrer e falar de coisas ruins e, se um dia nos tornamos mães e pais, o nosso impulso será o de reproduzir esse silenciamento também com nosses filhes (além de todas as outras pessoas ao nosso redor), que, por sua vez, um dia crescerão e darão continuidade ao ciclo tóxico do recalque.

Podemos passar nossas vidas tentando construir uma nova realidade para nós, mas nada de fato mudará enquanto mantivermos nossas caixas-pretas sentimentais intocadas e seu conteúdo inalterado. O mundo lá fora não terá salvação enquanto o mundo aqui dentro não for tido como digno de ser salvo, enquanto o que se passa nele sequer for ouvido ou considerado.

Quando vejo um certo tipo de ira, invariavelmente me pergunto se ela não seria um cobertor pesado com que se abafam os soluços de uma criança que há anos chora sozinha, sufocando lentamente longe da luz do acolhimento.

______________

*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.

Uma prece.

woman praying silhoutte

Se eu posso, como mãe, desejar alguma coisa e alguma linda criatura me atender – seja fada que bate asas de purpurina, seja um deus em que não acredito ou um orixá que eu desconheço…

Eu desejo que mes filhes confiem em mim.

Que o meu colo seja sempre um porto seguro para eles.

Que no momento da dor, do medo, do erro, do arrependimento, da vergonha, eles jamais deixem de me procurar por receio do que eu vá fazer com eles, ou com outras pessoas, ou do que aquilo vá fazer comigo.

Que eles nunca tenham medo de me partir ao meio com sua tristeza.

Ó, deusa, santos, elementais, espíritos que talvez caminhem na Terra e todos os anjos que por aqui pairarem, ouçam o meu pedido desesperado e sincero e comovam-se com ele: que nunca uma das minhas crianças, seja qual for a sua idade, chore sozinha escondida de mim.

Eu sei que para viver de verdade a gente tem que se arriscar a sofrer; por isso, eu me resigno, eu me conformo, eu aceito que elas sofrerão. Eu tento.

Mas eu imploro, eu rogo, com meus infiéis joelhos fincados no chão e a minha alma nas minhas mãos, que eu tenha forças para ver suas lágrimas sem tentar enxugá-las, que eu tenha coragem de ouvir seus lamentos sem querer silenciá-los, que eu tenha serenidade para empatizar com elas sem roubar-lhes o protagonismo.

Que elas jamais sintam que, para mim, suas angústias são um fardo ou suas aflições são um incômodo.

Que elas sempre saibam que eu preferiria mil vezes morrer chorando e segurando a mão delas a seguir vivendo sem saber que, quando as luzes se apagam e ninguém está vendo, elas silenciosamente choram até dormir.

Amém.

O choro e o colo

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Lendo este ótimo post do blog Eu Mamãe, me lembrei do episódio que segue.

Eu estava esperando o elevador enquanto tentava acalmar meu filho que, então com apenas alguns meses, chorava inconsolavelmente no meu colo. Uma moça  chegou e, vendo a minha situação, disse, solidariamente: “ai, é o fim quando a gente dá colo e mesmo assim eles continuam chorando, né?”

Sinceramente grata pelo apoio, sorri apressadamente para ela e voltei a focar minha atenção no menino.

Achei muito bonita a atitude dessa pessoa, de me reconfortar, de me mostrar, caso eu estivesse constrangida por estar com uma criança que chorava alto, que ela entendia e não estava incomodada. Ela foi uma fofa, para dizer o mínimo.

Mas a verdade é que não concordo com o que ela disse. Aliás, não é nem que não concorde com o que ela disse; é que eu encaro isso de uma forma completamente diferente.

Meu bebê chora porque está incomodado com alguma coisa e essa é a maneira dele de me mostrar isso. Eu não quero que o choro acabe, simplesmente. Eu quero que o incômodo que está causando o choro acabe. E sei que nem sempre isso é possível. E aceito isso. Esse, para mim, é o cerne da questão.

Quando eu pego uma criança no colo, não é para que ela pare de chorar. É para que ela se sinta acolhida, digna de amor e amada, mesmo quando não está feliz, não está sorrindo, não está cheia dos lindos guuuus e gaaas que encantam a toda a gente.

Se isso for suficiente para que ela fique menos incomodada, que bom. Mas, se não for, valeu o carinho, a atenção. Saber que ela sabe que eu estou aqui com ela para o que der e vier.

O que não quer dizer que eu considere o choro agradável. Não é e é biologicamente feito para não ser, para ser algo que não dá para ignorar. Nem quer dizer que eu nunca me sinta frustrada ou irritada quando o choro se prolonga e eu sou confrontada com o fato de que não há nada que eu possa fazer, que eu não tenho poder algum sobre aquele mal-estar.

É só que, quando eu dou colo, minha expectativa não é por fim ao choro. Pelo menos não diretamente ou necessariamente. E vejo que isso me ajuda a lidar com o chorar das crianças – e com o meu! E o de outras pessoas também. Porque aprendo a legitimar as lágrimas ao invés de inibi-las. Por mais difícil que seja ver alguém chorar.

E é difícil. Ver uma pessoa chorando é ver as nossas próprias lágrimas no rosto de outre. Não é à toa que a empatia é algo tão mais raro do que deveria ser. Não é fácil sentir com outra pessoa algo que não se quer sentir por si só. E quando a pessoa que chora é alguém a quem amamos, então, é ainda mais difícil de tolerar. Porque ver alguém que amamos chorar é contemplar nossa própria falibilidade e impotência, nossa incapacidade de acolchoar o mundo com nosso amor. E isso não é só triste; é muito assustador.

Daí que, a partir dessa minha postura ao lidar com o choro des mees filhes, ao invés de dizer “não foi nada”, ou “já passou”, aprendi a perguntar “machucou?” ou “está doendo?” e me abrir para ouvir a resposta, ainda que ela me perturbe. Ainda que ela doa em mim.

A gente é educade para fazer as pessoas pararem de chorar, como se parar de chorar fosse parar de sofrer. E não é. É sofrer ainda mais, porque tem que sofrer escondido para não incomodar ninguém.

Vamos romper esse ciclo. Vamos aprender a abraçar as pessoas que choram não para silenciá-las, mas para acolhê-las, validar seus sentimentos. Mesmo que eles não sejam confortáveis ou convenientes para nós.