Gaslighting desde o berço

manipulação

No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

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Crianças são pessoas

Continuando o assunto da semana passada, resolvi escrever a partir da minha resposta a um dos comentários que apareceram no meu post “Tirania Infantil?”.


Nós vivemos em sociedade. Viver em sociedade significa viver em contato com outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade.

Crianças e suas mães são pessoas. E fazem parte da nossa sociedade. O que é ótimo, a menos que não tenhamos interesse na continuidade dela.

Algo que ilustra bem isso é o nosso atual sistema previdenciário, que é solidário. Ou seja, se você contribui hoje, o seu dinheiro é usado para custear as aposentadorias e demais benefícios que são pagos hoje; quando for a sua vez de receber, o seu benefício será custeado pelas pessoas que estejam trabalhando e recolhendo suas contribuições à previdência naquele momento.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora. Mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar – talvez até mesmo a sua sobrevivência – dependerá. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Mas o mais fácil é nos acomodarmos, responsabilizando apenas a mãe (nem mesmo o pai, olha só o machismo da coisa) pelo bem-estar da criança. O mais fácil é dar de ombros e mandar um “quem pariu Mateus que o embale”, o que é particularmente ridículo e profundamente hipócrita num país em que o aborto é criminalizado – sentir-se no direito de desamparar alguém por conta de uma escolha que ela na verdade foi privada de fazer.

Mas é só dizer isso que aparece alguma alma especial falando algo na linha do “ninguém mandou abrir as perninhas”. Fora o machismo de fazer vergonha a Jece Valadão, eu espero sinceramente que, por uma questão de coerência, quem pense dessa forma mesquinha tome para si mesme seu conselho e se abstenha de manter relações sexuais quando não estiver disposte a procriar. Até porque somente a completa abstenção tem eficácia contraceptiva comprovada de 100% sem riscos e efeitos colaterais – afinal, é muito bonito sair papagaiando que “hoje em dia só engravida quem quer” quando não se tem alergia a látex ou se convive bem com o D.I.U. ou os inúmeros problemas e riscos de saúde que a pílula anticoncepcional traz. Além disso, só para constar, a laqueadura (esterilização feminina) continua sendo tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples.

Enfim, essa visão da criança como uma ferramenta de tortura para mulheres que ousaram fazer sexo e, mais, a visão das mães como pessoas que “trazem problemas ao mundo” por suas “escolhas pessoais” em relação à maternidade é tão comum que acontece até, por exemplo, de recriminarem a mãe por usufruir da licença-maternidade, como se fosse culpa dela – e do bebê – a sobrecarga profissional que eventualmente resulte de sua ausência temporária ao trabalho. Veja só: ao invés de revoltar-se contra sua própria exploração, contra o sistema, contra sue empregadore, a pessoa prefere culpar outra pessoa tão explorada quanto ela.

Acontece até mesmo de feministas terem um posicionamento hostil com relação a crianças e mães, porque transferem para elas (e tudo o que envolva a maternidade) a raiva que sentem da expectativa machista de que, por de serem mulheres, desejem a maternidade e saibam tudo sobre ela e só se sintam plenamente realizadas tornando-se mães.

Eu entendo o ressentimento e reconheço a opressão, mas não acho que uma opressão justifique outra. Essa falta de sororidade e esse adultismo só fazem pisar ainda mais quem já está por baixo e em nada atingem o machismo que é o verdadeiro problema nesse caso.

É comum vermos pessoas falando que não gostam de crianças (ou mesmo que as odeiam, detestam, querem morram todas, etc.). Falando não, bradando, de peito estufado e voz confiante. Enquanto é socialmente inadmissível, hoje, alguém ostentar seu preconceito em relação a qualquer grupo oprimido – pessoas negras, idosas, LGBT, com deficiência, etc. – ninguém parece ter problemas se o preconceito é contra crianças. E, sim, é preconceito você “não gostar de crianças”. Você pode não saber lidar com elas, você pode não saber cuidar delas; já não gostar delas todas, assim, por princípio, só por serem crianças? Preconceito.

E vem a resposta indignada: “mas agora você vai querer cagar regra sobre o gostar alheio? Vai querer me forçar a gostar do que eu não gosto?”

Não. Não posso, e, menos ainda, quero, forçar qualquer pessoa a gostar ou desgostar de nada ou ninguém. O que eu quero é respeito. Para todo mundo. Se você tem preconceitos e não quer desconstruí-los, ok. A cabeça é sua, eu é que não quero entrar nela. Mas vá ter o seu preconceito lá no seu canto, sem incomodar ninguém. Afinal, assim como você tem o direito de gostar ou desgostar do que ou quem for, preconceituosamente ou não, as demais pessoas do mundo têm o direito de não se sentirem discriminadas, desrespeitadas, ofendidas e insultadas simplesmente por pertencerem a um determinado grupo.

Como você se sentiria se alguém declarasse na sua frente – ou até para você – que não gosta de quem é da sua etnia, de quem exerce a sua profissão, de quem tem a sua idade, de quem tem a sua orientação sexual, de quem tem a sua crença ou não crença religiosa? Você não sentiria raiva, medo, tristeza? Não se sentiria, no mínimo, hostilizade?

E por que se supõe que as crianças não sintam isso? Então crianças não têm sentimentos, nem dignidade? Não se ofendem? Não riem quando lhes fazem cócegas? Não sangram quando são espetadas?

Claro que sim. Elas são pessoas. Como eu e você.

Eu já viajei de ônibus e avião com crianças chorando, assim como já viajei de ônibus e avião com pessoas adultas fumando (sim, fumando), gritando, discutindo aos berros, dando chiliques. Mas nunca vi ninguém reclamar da balbúrdia das pessoas adultas da forma como tão unanimemente se reclama desse “insuportável incômodo” que é o choro de um bebê. E isso mesmo quando, evidentemente, a capacidade de uma pessoa adulta de se controlar é infinitamente maior que a capacidade de um bebê de se controlar (se é que cabe controle em relação à única forma que uma pessoa dessa idade tem de demonstrar qualquer tipo de desconforto).

Também já jantei em restaurantes onde havia pessoas adultas agindo de forma extremamente desagradável. Mas é das crianças que brincam e correm que as pessoas reclamam. Ninguém fala nada para as pessoas adultas que agem de forma inconveniente, mas basta uma criança abrir a boca para que alguém já se sinta no direito de olhar feio, ou fazer comentários desaforados e demais malcriações passivo-agressivas ou diretamente agressivas que lhe estejam ao alcance.

Por quê? Por que a nossa tolerância é tão menor com quem, na verdade, mereceria mais dela? Por que não implicamos com alguém do nosso tamanho?

Por covardia. Exigimos das crianças que ajam da forma como é mais conveniente para nós porque estamos na posição de forçá-las a isso, ou de constranger outra pessoa para que o faça, sem nem mesmo nos darmos ao trabalho de avaliar se é mesmo cabível a adequação que estamos demandando. Já em relação à pessoa adulta, via de regra engolimos tudo o que não seja proibido por lei (e até mesmo muitas coisas que, na verdade, o são, vide o caso dos fumantes em aviões e ônibus).

Não estou falando que choro de criança seja melodia celestial, nem estou dizendo que crianças nunca ajam de forma inaceitável (eu sou mãe, sei bem que isso não é verdade). O que eu estou tentando expor neste texto é a suprema hipocrisia adultista, que muitas vezes torna “inaceitáveis” os comportamentos infantis da criança enquanto tolera de pessoas adultas coisas muito piores.

A reflexão que estou fazendo aqui não é no sentido de “vamos deixar as crianças fazerem o que bem entenderem”, mas no sentido de parar de penalizar crianças por serem crianças. De parar de exigir delas (e de cobrar de mães e pais que o façam) um comportamento adulto enquanto negamos a elas a tolerância que teríamos com uma pessoa adulta.

Se o choro do bebê incomoda a você, saiba que a ele incomodam seus fogos e rojões, seus motores barulhentos que fazem fumaça fedorenta, seus gritos, suas baladas, seus aparelhos de som, seus perfumes excessivos, suas televisões, o ruído dos seus animais domésticos, seus cigarros, suas comidas de cheiro forte, suas buzinas, seus aspiradores de pó e demais eletrodomésticos, seus alarmes de carro e de casa e de relógio, suas sirenes, suas luzes, etc. E nem por isso ele te odeia a priori. Olha só. Como são grandes as pequenas pessoas, não?

Quando vamos sair das nossas bolhas adultocêntricas e adultistas e reconhecer que crianças têm tanto direito de ocupar o espaço quanto nós?


 

*Agradeço novamente às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)

Limites

limites

Imagem encontrada em http://brandondouglasmusic.com/

Um post meu do ano passado, chamado “Tirania Infantil?” tem recebido muitos acessos e muitos comentários indignados e ultrajados. Pessoas dizendo que eu estou arrumando desculpas para não educar, nem dar “limites” – porque, aparentemente, falar contra o adultismo e a violência, seja física, seja psíquica, que é praticada rotineiramente contra crianças e adolescentes, é defender a permissividade.

Esse maniqueísmo sempre me choca, mas nunca me surpreende. Afinal, de que outra forma se racionalizaria a adoção de medidas violentas que são não só desnecessárias e inúteis, mas prejudiciais às nossas crianças?

Muito mais fácil tratar o assunto como se só houvesse duas alternativas possíveis: ou a permissividade (que se prevê ominosamente que levará a criança a se tornar um monstro com o misterioso poder de tiranizar pessoas que detém poder quase absoluto sobre ela), ou o autoritarismo (que se supõe que a fará “se ajustar”).

Infelizmente, me parece que, para muita gente, educar ainda é sinônimo de violentar. Se não tem dor, humilhação e imposição, não há educação. Não há “limites”.

Claro, a maioria sequer reconhece que é isso o que está fazendo com a criança. Repete para si mesme e para o mundo que não há violência em só demonstrar carinho quando a criança faz o que lhe é mandado, reprimir demonstrações de carinho quando ela age de forma que se considera negativa, desdenhar da criança, debochar dela, manipulá-la. Até mesmo a violência verbal e física passam por “educação” por aí. Tem quem diga, por exemplo, que “bater para educar não é agredir”.

Pior, qualquer coisa que se assemelhe a ouvir a criança, pedir sua opinião sobre algo que lhe diga respeito, tentar compor vontades (ao invés de simplesmente impor a vontade adulta), é vista como “ser tiranizade” por ela. Afinal, na cabeça dessas pessoas, a esta cabe apenas abaixar a cabeça e obedecer. Ouvir, mas não falar.

São pessoas que estão tão imersas na lógica de OU dominar OU ser dominade, que não são capazes sequer de enxergar qualquer outra forma possível de se relacionar com outrem, menos ainda adotá-la.

E é chato né? Morrer com o mico na mão. Nunca chegar a sua vez. Nos trotes de escola, faculdade ou instituições militares, pessoas que já estão lá dentro (“veteranas”) praticam violências com quem acaba de chegar (“calouras”, “bichos”, “boys”, etc.), sob a premissa de que estas um dia serão, elas próprias, mais antigas ali e terão a chance de fazer o mesmo, ou seja, vingar-se em outras. Repassar as agressões, como se fazê-lo apagasse o que vivenciaram. O que aconteceria se essa cadeia fosse quebrada? Se as vítimas de um momento fossem impedidas de vitimizar em outro?

Eu entendo que nem sempre é fácil ter passado por uma opressão quando se era uma pessoa pequena e frágil – física e emocionalmente – e, depois de crescer, não ter a oportunidade de descontar isso em outra pessoa pequena e frágil. Nem se trata de algo que, na maioria das vezes, é feito de forma deliberada e consciente. Mas creio que seja difícil construir um mundo novo se não estamos dispostes a começar a demolir o velho, e isso inclui o que deveria ser o nosso ponto de partida: a opressão que nós mesmes estamos em posição de exercer.

E há mais em jogo que a mera sensação de “mas agora é minha vez”. Afinal, muitas dessas pessoas passaram por isso e “agradecem muito” a ses mães e pais pelo que lhes foi feito.

Elas aprenderam a entender a brutalidade como forma de amor, porque, do contrário, teriam que lidar com a falibilidade de ses cuidadores, o que já é assustador por si só, e ainda somada à sensação de injustiça e desamor que inevitavelmente emerge quando sofremos uma agressão por parte de alguém a quem amamos.

Além disso, como essas pessoas têm dificuldade de lidar com as coisas em termos que não sejam absolutos, a exemplo da questão permissividade X autoritarismo – lógico, já que foram criadas de forma binária, sendo sempre ou aprovadas ou reprovadas, ou recompensadas ou punidas, ou vencedoras ou perdedoras, ou dominantes ou dominadas – elas não conseguem olhar para o sofrimento pelo qual passaram enquanto cresciam sem sentir que estão invalidando toda a parte boa de suas infâncias, negando completamente seus pais e suas mães.

Por medo de se sentirem ingratas e culpadas, elas preferem simplesmente fingir que tudo se justificava, tudo foi bom, tudo foi lindo. Riem de suas feridas, chamam-se de bobas por sentirem dor, e sentem-se ridículas por ainda se magoarem, caso ses mães e pais (como tantes outres) continuem usando as mesmas táticas violentas com elas mesmo depois de elas crescerem.

Não raro falam que mereceram cada uma das violências a que foram submetidas; mesmo nos casos de mais extrema crueldade isso acontece, coisa que me lembra demais a mulher que passa por violência doméstica e diz que foi ela quem causou a agressão. Que foi ela que disse isto, que fez aquilo, que pensou aquilo outro. Como se as mãos que a seviciaram e a mente que optou por fazê-lo fossem dela própria. Como se houvesse alguma circunstância que justificasse agredir alguém a quem supostamente se ama, e, ainda por cima, menor e mais frágil.

Não à toa, são inúmeros os casos de pessoas que, como eu, depois de sobreviverem à violência doméstica e saírem de relacionamentos abusivos, descobriram que a raiz de sua sujeição a esse tipo de relação era justamente o condicionamento pelo qual passaram durante a sua infância, para que aceitassem a violência (física ou não) como parte de serem amadas. Muitas vezes, inclusive, como demonstração de amor, de cuidado. Que foram programadas por quem as educou, ainda que não intencionalmente, para tolerar o desrespeito e a agressão sem nem retrucar.

Porque, né, temos que “impor limites”. O que importa são os eles. E as regras. O foco é o comportamento, a ação. A parte de fora, a superfície. Não os motivos, o raciocínio ou o sentimento por detrás daquela forma de agir.

Ressalvo que há muitas pessoas perfeitamente antiadultistas que falam de limites em outro sentido, com uma conotação de respeito a outras pessoas. De mostrar às crianças onde a liberdade delas acaba e a de outras pessoas começa e convidá-las, aos poucos e na medida em que se desenvolvem, a fazer cada vez mais essa reflexão. E eu não tenho problemas com isso; pelo contrário, é o que eu mesma tento sempre fazer.

O meu problema é com o fetiche pelo limite como um fim em si mesmo. O limite cuja razão de ser é praticar o nosso poder sobre a criança, podando aqui e ali para exercício do nosso ego e satisfação da nossa gula de mandar, ou, na melhor das hipóteses, a nossa preguiça de pensar a respeito do que se desenrola diante de nós e avaliar caso a caso a forma como devemos agir. Preguiça de sairmos da nossa zona de conforto e nos perguntarmos se os limites realmente se aplicam àquele local, àquele momento, àquelas circunstâncias. Preguiça de abrir mão das soluções prontas e irrefletidas.

Meu problema são os limites que prestam à educação binária do sim ou não, do pode ou não pode, que não permitem conversa nem argumento; os limites adultistas que se fundamentam na suposta ordem das coisas, no “eu mando e você obedece”.

Limites assim são bastante convenientes para es adultes, já que, com eles, não precisamos pensar, transigir, conversar, entender e nos fazer entender. Podemos focar apenas no que acontece fora da criança. Não precisamos ensinar princípios, passar valores. Só “impor limites”.

Como eu já disse no meu texto “A Criança Má”, “Aparentemente, o que queremos criar não são pessoas íntegras, mas pessoas limitadas. E é bem isso o que sobra dessas crianças cuja “altivez” foi quebrada: pessoas limitadas. Limitadas a reproduzir a violência que sofrem, a obedecer quem lhes parece mais forte”. E a sentirem-se no direito de, de fato, tiranizar quem lhes pareça mais fraco.

É a educação pela covardia e para a covardia. Essa é a que tanto degusta a imposição de “limites”. A educação que diz “você vai se adequar ao que eu quiser, porque eu sou mais forte que você”. E a criança cresce querendo logo ser a pessoa mais forte para desforrar em outra, mais fraca que ela, tudo o que passou. Esperando a vez dela, como eu disse antes. Afinal, como diz a frase muito citada de Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

As pessoas adoram falar de bullying, mas poucas se mostram dispostas a analisar as origens dele dentro da própria família de quem o pratica, ou mesmo na atitude adultista de muites professores.

Preferem tratar do assunto como se toda a maldade tivesse origem espontânea dentro da criança e, muitas vezes, inclusive, como desastrosa solução para o caso, incentivam pais e mães a adotarem ainda mais das medidas autoritárias e violentas que, se não causaram o problema, certamente contribuíram grandemente para ele.

É como se as crianças e adolescentes vivessem num universo paralelo ao qual não se aplicassem as noções de justiça, igualdade e respeito pelas quais tanto lutamos entre pessoas adultas.

É mesmo assim tão difícil entender que crianças são pessoas?


*Agradeço às pessoas que comentaram no texto “Tirania Infantil” pela inspiração. =)

Semana que vem falarei mais sobre o tema!

Uma frente unida contra as crianças

choque

Foto de Levi Bianco. Disponível em https://www.flickr.com/photos/lbianco/6287661518/

O pai perde a paciência e grita com ela. Ela se assusta. Tantas vezes lhe disseram que não se grita, que gritar é desrespeito, que gritar não é certo. Ela então bronqueia com o pai. “Você gritou comigo.” Ao que o pai responde, prontamente “Gritei porque você não me escuta”.

A menina franze a testa, pensativa. Quando ela grita, ela está errada. Quando gritam com ela… ela está errada também. Ela está sempre errada, parece. Afinal, o pai justificou sua conduta com a conduta dela. Ele não pediu desculpas. Ele não reconheceu seu erro. Porque pai não erra. Pessoa adulta não erra. Só criança erra. Criança sempre erra.

Soa familiar? A maioria de nós já passou por isso. Muites, aliás, ainda passam, mesmo depois de crescer. É uma forma de gaslighting (lê-se “gaslaitim”) muito comum que se pratica com a criança. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção, ou nos fazer achar que estamos perdendo a cabeça. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. Agredir uma pessoa e “virar a mesa”, imputando a ela própria a responsabilidade pela agressão sofrida, portanto, é gaslighting.

Agora, imaginemos que a pessoa que, junto com esse pai, cria essa criança, está presenciando essa cena. Como ela deve agir? Ela deve interferir?

É muito comum que as pessoas achem e defendam que não se pode fazê-lo nunca, sob pena de desautorizar a outra pessoa adulta, ou gerar na criança uma sensação de insegurança, de não poder confiar nes adultes em sua vida.

Eu discordo dessa posição. E com muita veemência.

Primeiro porque a autoridade que temos perante nosses filhes não vem de nunca errarmos.

Não precisamos ser infalíveis para que nossa autoridade seja mantida. Não precisamos fingir perfeição sobre-humana para sermos dignes dela. Se entendermos a autoridade como algo que vem naturalmente da compreensão, por uma pessoa, de que outra pessoa está em posição de orientá-la e guiá-la seja em relação a algo específico, seja em relação à vida como um todo, pelo contrário, é a nossa humanidade que serve de exemplo para a humanidade das crianças nas nossas vidas. 

Elas verem que (1) todo mundo erra, e que (2) não é porque alguém erra às vezes que erra sempre, as ajudará a lidar com seus erros de forma construtiva. Aliás, a própria maneira como lidamos com nossos erros serve de modelo para elas. É a nossa chance de ajudá-las a vê-los como oportunidades de aprendizado e não de autodepreciação e flagelação.

Além disso, é perigoso para a autoestima de qualquer pessoa sentir-se a única pecadora num mundo de pessoas virtuosas. É muito acolhedor vermos que a imperfeição não mora só na gente.

Segundo, porque não consigo pensar em nada que cause mais insegurança numa criança que essa noção flutuante de “certo” e “errado”.

A criança, no começo de sua vida, depende de outras pessoas para saber o que é ou não aceito, o que é ou não bom. Com o tempo, aos poucos, ela internaliza isso e passa a, ela própria, balizar seu comportamento, refletindo e aplicando esses valores que ela aprendeu. Esse processo é muito dificultado quando não parece haver lógica naquilo que ela está absorvendo; por exemplo, quando um determinado comportamento só parece ser considerado errado quando vem dela. Com o tempo, para acomodar essa falta de lógica, ela poderá facilmente chegar à conclusão de que o problema não está no comportamento em si, mas nela própria, como pessoa, como ser.

É claro que, às vezes, não vale a pena intervir, ou não é o momento, ou não conseguimos, ou sequer sabemos como. Mas, às vezes, presenciamos desrespeitos que não podemos nos furtar a demarcar de alguma forma.

A criança depende de nós para entender que o que ela está sofrendo é uma injustiça. Ela depende de nós para absorver a noção de que, assim como lhe é exigido respeito, lhe é devido respeito. Ela precisa dessa validação da nossa parte.

Principalmente, ela depende de nós para defendê-la das pessoas que ela ama incondicional e desesperadamente, porque, muitas vezes, ela própria não é capaz de olhar para um pai, uma mãe, ou mesmo avô, avó, tio, tia e registrar que aquela pessoa que lhe é tão querida está agindo com ela de forma injusta. De que aquela pessoa, para quem o carinho dela erigiu um pedestal, está errando com ela e insistindo que não está. E aí, se as outras pessoas adultas que ela tem como referência estão ali em volta e presenciam a cena e se omitem, ela dificilmente conseguirá defender-se emocionalmente dessa violência sozinha – sim, porque é violência que o erro de outra pessoa nos seja imposto como acerto.

A tendência dela, assim, será a de recolher-se em sua incompreensão e culpar-se pelo ocorrido, sentindo-se errada e inadequada e merecedora do que quer que tenha sido feito com ela. Talvez um dia ela se torne uma pessoa cuja reação automática diante de uma grosseria seja encolher-se e culpar-se em silêncio, ou alguém que, para vencer essa reação automática, passe para o outro extremo, tornando-se uma pessoa excessivamente defensiva, reativa, agressiva, mesmo quando não haja de fato qualquer ofensa ou insulto.

Mas mais do que pensar em como isso pode ou não afetar uma criança no futuro, o motivo pelo qual devemos impedir que ela receba um tratamento injusto é simplesmente porque ele é injusto e ninguém merece ser tratado de forma injusta. E não vejo como podemos querer isso para alguém a quem amamos tão profundamente.

Todes nós erramos. Por vezes nós mesmes seremos as pessoas que estão sendo injustas. A questão é: o que você prefere que seja preservado? A sua imagem de infalibilidade ou a autoimagem da criança?

A minha escolha é clara. E é por conta dela que eu intercedo em favor da criança sempre que julgo necessário, e porque peço e espero que façam o mesmo comigo, quando é o caso (como já foi e muito mais vezes do que eu gostaria).

Claro que há coisas que devemos discutir em particular. Mas, além de tudo o que eu já expus acima, há um outro ponto que considero fundamental: o de que é importante que as crianças vejam que é possível discordar com respeito, que discordar em si não é uma ofensa e que, mesmo que as pessoas discordem ou até briguem, elas podem se entender conversando.

E é por isso que me incomoda a abordagem da “frente unida”, em que as pessoas adultas responsáveis pela criança nunca se contradizem diante dela e guardam suas discordâncias, especialmente em relação à sua educação, para quando ela não está por perto.

Quando es adultes formam uma frente unida, o que sobra são crianças excluídas. Porque não apenas elas são a parte mais fraca e frágil da relação familiar, mas as pessoas que ali detêm algum poder estão unidas de uma forma que, muitas vezes, parece ser contra elas.* Ao invés de fomentarmos a visão da família como uma coletividade, um todo, a polarizamos, gerando um antagonismo entre crianças e adultes. E esquecemos que, no fundo, estamos todes no mesmo time.


  • Alfie Kohn fala disso muito lindamente em seu livro “Unconditional Parenting“: “… it’s healthy for children to see that adults sometimes disagree, which helps to underscore that we’re human. Is also allows us to show them how people can resolve their disagreements respectfully – or, in some cases, how we can just learn to tolerate differences. These important life lessons are lost when both parents feel compelled to take the same position on every issue in front of the kids, not to mention the inherent disonesty of doing so.”

Criança não é personagem de RPG

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Tela do jogo Diablo III (da Blizzard Entertainment, 2012)

É muito comum as pessoas nos aconselharem a adotar com crianças determinadas práticas com o intuito de que, no futuro, elas sejam isso ou aquilo ou pensem assim ou assado.

Costumo discordar desse tipo de motivação. Tenho para mim que o nosso trabalho adulto em relação à criança não é construí-la, juntar nela os tijolinhos que nós achamos importantes, mas mostrar a elas a maior variedade possível de tijolinhos e permitir que ela se construa sozinha, nos atendo a dar exemplos e orientação de como ela pode fazer isso e estando sempre presentes caso ela queira a nossa ajuda.

Não gosto do “para que” algo lá na frente. Ser empática com esta criança “para que” ela tenha boa autoestima quando for adulta, ouvir as opiniões dela com atenção “para que” ela não se torne mais tarde uma pessoa que não tem coragem de falar. Se sou empática, é porque quero que essa criança diante de mim se sinta acolhida HOJE, quero fortalecer o nosso relacionamento HOJE. Se ouço seu ponto de vista, é porque quero saber o que ela pensa HOJE e quero que ela saiba que eu me importo em saber o que ela pensa HOJE.

Sinto que, mais que ações direcionadas para um determinado resultado lá adiante, é importante ouvir e respeitar a criança no agora.

Criança é pessoa, não é personagem de RPG ou de videogame, que a gente escolhe como vai ser, se vestir, falar e andar, e gasta pontos colocando nele tal nível da habilidade X ou fortalecendo o atributo Y, e daí sai o boneco do jeito que a gente queria, com tudo aquilo que a gente “aplicou” nele, para agir como a gente quer que ele aja, um mero fantoche nosso.

Com a criança você nunca sabe o que vai dar quando mostra um tijolinho para ela, o que ela vai fazer com aquilo, se vai descartar ou se vai usar, e, se vai usar, onde ela irá colocá-lo, o que ela irá construir com ele dentro ela, como ela irá incorporar aquilo à compreensão de mundo dela.

Você pode, inclusive, fazer algo com um intuito e obter o resultado contrário. Por exemplo, se você coloca seu filho numa aula de artes marciais para que ele seja “bem macho“, ele pode se sentir tão inadequado que pegue total repulsa pelo estereótipo de masculinidade que tanto lhe agrada; ou você pode colocar sua filha na aula de balé para que ela seja uma graciosa dama e ela ficar com ódio do estereótipo da menininha-moça ao qual era o seu objetivo que ela se enquadrasse.

Quando a gente tem filhes, a gente põe gente no mundo. A gente cria pessoas, não bonecos, não objetos sem vida própria. Nós não temos garantias sobre quem elas serão, o que elas pensarão, como elas se sentirão. E isso faz parte da graça, né? Se não queríamos isso, nos contentaríamos com um tamagotchi.

Crianças não são simples extensões nossas, não estão aqui para realizar nossos sonhos, para serem por nós o que nunca fomos, para terem por nós o que nunca tivemos, ou mesmo para darem continuidade à nossa reputação, para podermos contar vantagem para a vizinha, para “nos orgulharmos” delas.

Que egoísmo adultista é esse que educa as pessoas desde cedo para serem dependentes do orgulho materno e paterno?

Para mim, parte essencial de não apenas ser mãe e pai, mas de quebrar o ciclo, é aprender a se desapegar dessas expectativas para permitir que a criança crie suas próprias. E as satisfaça, ou não, ou as mude. Enfim, que ela seja realmente quem ELA quer ser. Que se sinta livre para sê-lo, mesmo que isso nos contrarie. Que saiba que será amada e respeitada, aliás, mesmo que nos contrarie. Que nosso amor não está condicionado à nossa concordância com as escolhas dela.

Hierarquia de opressões

Pyramid with Colors

Se você vê um homem negro sendo machista com uma mulher branca, você vai se omitir porque ele é negro e ela é branca?

Se você vê uma pessoa com deficiência sendo adultista com uma criança sem deficiência, você vai se omitir porque ela é uma pessoa com deficiência e a criança não?

Se você vê um homem gay sendo misógino, você vai se omitir porque ele é gay?

Se você vê uma mulher rica sendo elitista com um homem pobre, você vai se omitir porque ela é mulher e ele é homem?

Se você vê uma pessoa trans branca sendo racista com uma pessoa cis negra, você vai se omitir porque ela é trans e a outra é cis?

Muitas pessoas oprimidas também são, de certa forma, opressoras, assim como muitas pessoas opressoras também são, de certa forma, oprimidas. E muitas pessoas agem como se sofrer opressão fosse carta branca para oprimir.

Sim, há momentos em que quem sofre uma opressão irá, muito compreensivelmente, na minha opinião, reagir de forma violenta e agressiva e não é a isso que me refiro, a não ser que essa pessoa, a pretexto de reagir, passe ela própria a oprimir (por exemplo, uma mulher que foi atacada por um homem negro adotar um discurso racista, como se a agressão dele justificasse a dela). Estou falando de quando uma pessoa que é oprimida em um ou mais níveis pratica uma agressão contra alguém que ela está em posição de oprimir em um ou mais níveis.

E aí? Quem tem o trunfo? Quem tem “mais razão”? Qual é a pior opressão? Existe pior opressão, assim, em termos absolutos?

Para mim, mais importante que determinar “a pior opressão” é enxergar a opressão que eu estou em posição de exercer e cuidar para não fazê-lo. Até porque é esta a que eu posso desconstruir de forma mais imediata e eficaz e é esta que, a meu ver, eu tenho o maior dever de combater.

Seria, claro, muito confortável para mim me entrincheirar nos meus privilégios e me opor apenas aos que não me beneficiam, racionalizando e justificando aquilo que me é pessoalmente vantajoso ou indiferente. Minimizar a opressão praticada por algum grupo do qual eu faço parte (por exemplo, uma mulher branca de esquerda defender seu direito de dizer que quer “matar a mulher negra burguesa) ou mesmo relativizar meu pertencimento a um grupo opressor (por exemplo, quando um homem fala que sofre tanto quanto as mulheres com o machismo, por não ser o “homem ideal).

A partir do momento em que fazemos um recorte absoluto – “estou sempre com todes es operáries contra todes es patrões” ou “estou sempre com todas as mulheres contra todos os homens”, nós restringimos a nossa capacidade de empatizar. Nós alimentamos a noção maniqueísta e absurda de que só é realmente possível acolher alguém se concordamos com todos os seus atos e posicionamentos (o que, além de indesejável, é impossível) e continuamos agindo como se a solução para todos os problemas fosse dividir o mundo ao meio.

A tentação é grande, porque fazer isso facilita as coisas. Não temos que pensar, que refletir, que olhar para os nossos próprios rabos. Nem temos que, muitas vezes, nos indispor com nosses companheires de luta, e/ou com pessoas que amamos e admiramos.

Vem sendo comum, por exemplo, que críticas a eventuais atitudes problemáticas e opressoras dentro feminismo (como racismo, elitismo, transfobia, homofobia, etc.) sejam consideradas “falta de sororidade” por algumas militantes. É muito triste para mim ver a sororidade ser usada como ferramenta para amordaçar outras mulheres, já que me parece, como eu disse antes, que deveria ser o contrário. Que, quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade que me cabe ouvi-la e ampará-la e tentar entender essa crítica e seus fundamentos.

É fácil apontar e lutar contra a opressão cometida por “eles”. Me parece, no entanto, que o mundo só começa a mudar de verdade quando nos lembramos também da opressão cometida por nós.

Seu papai é noel? – Sobre adultismo natalino

Imagem de Haddon Sundblom


*Eu tenho um texto pronto sobre como criança não é personagem de RPG que eu queria muito linkar neste, mas, na correria do final de ano, ele acabou ficando em casa. Assim que sair eu coloco a referência.


Tem momento mais “família” que Natal? Casa cheia de gerações e gerações unidas por laços de sangue… e, muitas vezes, nada mais.

Digo nada mais porque, muitas vezes, o natal é a oportunidade que algumas pessoas covardes usam para aproveitarem-se da “santidade” do momento (ou seja, do fato de que nenhume filhe quer “estragar o natal da família brigando”), para cravar impunemente seus punhais adultistas no fígado de qualquer “criança” (leia-se: pessoa das gerações seguintes) que passa perto.

Pode ser que, muitas vezes, o que propicie tão despudorada encheção de saco seja o álcool que, muitas vezes, rega essas festas de fim de ano. Ou talvez, muitas vezes, esse álcool seja apenas uma desculpa, uma muleta etílica em que a pessoa grossa, crassa e bruta (ainda que de palavras aparentemente polidas) muitas vezes se apoia para se deliciar com o mal-estar que causa ao seu redor.

Muitas vezes, ainda há o estímulo do garoto-propaganda da festividade. Afinal, que dizer de um “Papai” de cabelos e barbas cuja brancura claramente evoca o peso de sua “respeitável e honorável” idade, que é bonachão, sorridente e evidentemente abonado, mas que só “presenteia” quem se comporta de acordo com as expectativas dele?

Supostamente é o momento do perdão, do amor, do carinho, da compaixão, da solidariedade. Mas, muitas vezes, isso é só no comercial da coca-cola e na novela que passa na TV. Porque, na família mesmo, muitas vezes, é dia de gritar com as crianças por elas serem crianças em volta da mesa decorada, esbravejar porque “ninguém ajuda em nada” (enquanto se faz questão de fazer tudo sozinhe e ridicularizar e criticar destrutivamente todo mundo que tenta fazer alguma coisa), falar mal de quem arrumou uma desculpa para não aparecer.

Muitas vezes, é o momento de salpicar implicâncias e aproveitar para servir, aqui e ali no meio da “felicidade” natalina, conversinhas (em tom de brincadeira ou não) sobre “a sua falta de rumo/ambição/vergonha na cara”, ou “quando vai arranjar um(a) namorado(a)” (sic), ou quando “vai largar daquele traste”, ou “quando vai me dar netos” (sic), ou “quando você vai voltar/começar a se cuidar?”, ou“quando você vai entender que tem que fazer faculdade de…/concurso para…/aula de…?” entre outros quitutes com esse mesmo tempero de “enquanto você não chegar aonde eu quero que você chegue, você, para mim, não terá chegado a lugar algum”, tudo recheado com doses cavalares de “depois de tudo o que eu investi em você” e “porque eu, na sua idade…”

É de causar indigestão até numa cabra, mas, mesmo assim, chega meia-noite e é só abraço e beijo e “feliz natal” e fingir que não doeu. Porque família é assim e escrotidão e passar mal fazem parte.

Só que não.

Desrespeito não faz parte. Ingerência não solicitada e cagação de regra não fazem parte. Falta de carinho não faz parte.

Não é porque alguém te trouxe ao mundo e/ou te criou que você tem o dever de aturar merda dessa pessoa para sempre. Eu, hoje, sendo mãe, entendo que esse tão alardeado “investimento” (estamos falando de empreendimentos ou de pessoas, afinal?) não é mais que a obrigação de qualquer pai, qualquer mãe. Que não é porque “tem tanta gente por aí que espanca e mata crianças” que então qualquer coisa que eu fizer que não seja isso já está bom.

Eu me dou hoje o presente de me afastar de quem me faz mal. Eu me dou hoje o presente de não me submeter a presenças tóxicas na minha vida. Eu me dou hoje o presente de não me forçar a sorrir quando me machucam. Eu me dou hoje o presente de não testemunhar pessoas que eu amo maltratando pessoas que eu amo.

Me dou hoje esse presente, como tento me dar esse presente todos os dias da minha vida. Digo tento porque sei bem que, muitas vezes, não é tão simples.

Muitas vezes, o nosso amor de criança, ainda vivo dentro de nós, a nossa vontade de ser amade, nos puxa de volta. E nos pegamos nos reaproximando e tendo que nos lembrar do quão cruéis essas pessoas podem ser para conseguirmos manter uma mínima distância saudável delas. E dói fazer isso, como dói apertar um calo para se manter acordade. E muitas vezes dói tanto que não conseguimos nos fazer fazer isso de novo. Muitas vezes, é um “dia especial” e a gente quer acreditar que pode abrir uma exceção.

Se há um presente que quero dar a mes filhes, este ano e todos os anos, é que de fato eles esperem ansiosamente pelo natal e todas as outras oportunidades de festa na nossa família. Que os sons e cheiros e cores natalinas provoquem neles não melancolia, culpa, temor e sensação de inadequação, mas o conforto da lembrança do meu amor por eles.

Feliz natal!