Quem (não) é a vítima?

***Publicado originalmente em Revista Fórum, em 25 de outubro de 2017.

****Aviso de conteúdo sensível – caso de Goiás****

Eu sofri bullying e abuso sexual na escola entre 13 e 14 anos. Já falei sobre isso antes.

Se eu tivesse uma arma à minha disposição, talvez tivesse matado alguém. Talvez tivesse me matado. Talvez ambos.

Não estou dizendo que isso seria justo, certo, bom. Estou apenas constatando um fato que se torna mais e mais evidente quando converso dentro de mim com aquela menina deprimida e desesperada e, como é típico da idade, impulsiva.

E quando lembro das pessoas que eram minhas colegas e da forma como elas agiram, e consigo enxergar o quanto, no fundo, elas eram muito como eu, agradeço pelo fato de que eu nunca tive uma arma de fogo à minha disposição.

O bullying não acontece porque crianças e adolescentes são cruéis e é isso que fazem, ou porque é essa a natureza humana. Esse comportamento é aprendido e se trata de uma emulação, uma transferência.

Filhotes de animais brincam simulando atividades dos animais adultos. Corças brincam de saltar, correr, esquivar-se. Leõezinhos brincam de caçar. Crianças humanas brincam de casinha, de trabalhar, de falar ao telefone… e fazem bullying.

Isso não se refere só à educação dentro de casa, ou vinda da mãe (ao contrário do que afirma o machismo desbragado de alguns comentários a respeito) mas fora de casa também. Somos parte de uma sociedade que muitas vezes parece baseada na ideia de marginalizar e agredir pessoas que fujam de uma determinada norma ou padrão. O assédio moral – bullying de gente grande – é recorrente em ambientes de trabalho e redes sociais.

Muito se diz de ensinar respeito às crianças. Pouco se fala do quanto desse aprendizado é absorvido através da própria pele. Ainda menos se dialoga sobre o impacto que o nosso exemplo, o exemplo que nós, pessoas adultas da sociedade, damos, tem sobre esse aprendizado.

E quase nada se fala sobre a necessidade de transformar os ambientes de convivência e as interações de forma que seja possível que as pessoas de todas as idades encontrem acolhimento e legitimação para suas aflições. Para que tenhamos empatia, suporte e apoio para lidar com elas, para que encontremos outras formas de dar-lhes vazão que não incluam obliterar a existência alheia para que nos sintamos em segurança… ou mesmo violentar sistematicamente outra pessoa ou grupo de pessoas nesse intuito.

Um menino abriu fogo contra sua sala de aula. Atirou em seis adolescentes, matando dois deles. Um menino que vinha sofrendo bullying naquele espaço, por parte do grupo de pessoas que se reunia ali.

E, se isso é triste, mais triste ainda é o nosso impulso de, diante de uma tragédia assim, tentar identificar agressores e vítimas. Como se algo tão complexo pudesse ser dividido assim, de forma maniqueísta, simplista.

Na perspectiva branca e preta da lei, feita para dividir o mundo entre o que está dentro e fora dela, isso é facilitado. Mas eu não estou falando da lei.

Ouvi pessoas usando o caso para advertir contra forçar quem sofre bullying a se virar sozinho, e ouvi pessoas usando o caso para advertir contra a educação que poupa a criança de lidar com frustrações. Ouvi pessoas falando que o menino que atirou estava fazendo sua justiça torta contra quem o atormentava diariamente, e e ouvi pessoas falando que o menino que atirou é quem atormentava aes demais, constantemente ameaçando colegas com as armas dos pais policiais.

Eu não vejo bullies e atiradores. Procurei e não encontrei. Vejo meninos e meninas em uma situação que escalou de forma trágica e inesperada. Vejo três vidas perdidas, de um jeito ou de outro, vidas de pessoas feitas de muito mais do que só o que aparece na estreiteza de rótulos como esses.

O que fica para mim não é uma linha divisória que coloca um de um lado e outres de outro, mas o quanto as linhas que nos dividem – a todas as pessoas, não só àquelas envolvidas neste caso – são ilusórias.

O que fica é a tristeza da percepção de que são elas, essas linhas ilusórias, que são o problema. E não os meninos e meninas que agem e reagem sob a orientação delas.

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Freixo, Priscila e Isadora

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 29 de julho de 2017.

freixo

 Foto: Luiza Marangoni (de http://www.srzd.com/brasil/priscila-soares-e-marcelo-freixo-o-machismo-oculto-e-o-explicito/)

Nesta semana, Priscila Soares (vulgo “ex-mulher de Freixo”, segundo a maior parte da mídia) denunciou, por meio das redes sociais, o machismo que sofreu durante sua relação com um dos políticos atualmente mais proeminentes da esquerda dita mais à esquerda: Marcelo Freixo, PSOL.

Como exposto por Maria Elisa Maximo, do Catarinas, “Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.”

É sempre infeliz quando a postura majoritária da esquerda nos coloca em posição de encontrar lucidez nos prepostos mais delirantes da direita. Pois eu li e, mesmo tampando o nariz, me vi obrigada a concordar com Rodrigo Constantino, que propôs uma reflexão sobre como essa denúncia teria sido recebida se seu alvo fosse, por exemplo, o homem que adoramos odiar: Jair Bolsonaro.

Nós esperamos machismo das figurinhas da direita. Mas o que fazemos quando nos deparamos com o machismo da esquerda? O que fazemos quando pessoas a quem admiramos se mostram menos que perfeitas?

Problematizamos? Desconstruímos?

Ou chamamos de “linchamento”, justificamos, racionalizamos e varremos para debaixo do tapete para manter a incolumidade de nossos ídolos?

É muito complicado ver que as pessoas que fazem apontamentos e levantam questionamentos que são tão importantes são tão frequentemente tratadas como se fossem elas próprias o problema. Como se estivessem “fazendo o jogo da direita” ou “dividindo/enfraquecendo o movimento”.

Isadora Freixo, filha de 19 anos do político, compreensivelmente veio a público defender a imagem do pai. Expondo memórias dolorosas de seu relacionamento com Priscila, minou sua credibilidade (se é que isso ainda precisava ser feito, já que a moça já mal estava sendo ouvida), fazendo uso da alegoria da “mulher rejeitada” e fez alusão ao histórico de depressão desta. Ou seja, sem perceber, corroborou as alegações feitas por Priscila em relação ao gaslighting que esta vinha sofrendo.

Contudo, é uma situação complicada. O que Isadora descreve de sua relação com Priscila, assim como os detalhes fornecidos por esta de sua relação com Freixo, não é mera “lavação de roupa suja em público”. São as evidências que corroboram o apontamento (ou acusação, como se costuma chamar) das opressões sofridas no âmbito dessas relações. No caso de Priscila, o machismo, nomeado claramente. No caso de Isadora, o adultismo, que, para esta, como para a maioria das pessoas, infelizmente segue inominado.

Priscila nunca foi filha de Freixo. Isadora nunca foi companheira dele. Mais que isso, Priscila nunca foi Isadora e Isadora nunca foi Priscila. Óbvio, né? Pois é. Mas a decorrência dessa obviedade é menos óbvia. Ambas tiveram com ele tipos de convivência distintos, não só pelo tipo de relação, mas porque são pessoas diversas e, logo, as relações que formam, ainda que com o mesmo cara, serão diversas. Resumindo: a perspectiva de uma não invalida a da outra.

Isadora, assim como Priscila, tem o direito de expor seu ponto de vista. O problema, a meu ver, está em contrapor esses pontos de vista como se apenas um deles pudesse prevalecer. Como se só houvesse espaço para o reconhecimento de uma dor. Uma forma de opressão.

Fazer isso é, na minha opinião, usar o sofrimento de uma pessoa para apagar o da outra, quando, infelizmente, o que não falta é espaço para todo mundo sofrer, ao mesmo tempo, ainda que por motivos diferentes.

E foi por isso que me incomodou tanto o artigo publicado por esta Revista Fórum a respeito dessa questão. Porque, ao lê-lo, eu tive exatamente essa sensação, a de que rolou um: se precisamos falar de flores, então vamos falar de flores, mas vamos antes tecer toda uma crítica às flores, para que, quando estas finalmente aparecerem, elas já sejam vistas com outros olhos.

E isso me parece silenciamento – e não só silenciamento, mas, o que é pior, um silenciamento que finge não ser silenciamento. Afinal, não é que não houve oportunidade de falar, né? É só que a gente vai fazer o possível para que ninguém escute.

E tem mais. Sempre me deixa um gosto amargo na boca quando, diante de uma situação em que se discute o comportamento de um homem, a discussão se desloca para as mulheres que o “defendem” ou o “atacam”, tirando de foco, tcharam… o homem em si. E isso é, para mim, muito machista. Porque agora se atacam as honras e as credibilidades das mulheres, uma é uma louca ciumenta, a outra é uma fedelha ciumenta e por aí vamos.

A crítica ao machismo de Freixo (ou mesmo a outras incoerências deste) não precisa apagar suas virtudes, nem aquilo que ele construiu ou constrói de bom para quem gosta dele. Pelo contrário, é algo que pode ser muito produtivo e benéfico se conseguirmos ter a maturidade de ouvir com orelhas de quem quer aprender e evoluir.

É difícil não cair no maniqueísmo de “ah, ele é machista, logo, não presta”, ou “ah, ela é adultista, logo, não presta”. As pessoas não se resumem a um só aspecto, um só comportamento. Não é porque alguém falou ou fez algo problemático que agora se tem um compromisso de odiar essa pessoa. Fãs do Freixo podem continuar fãs do Freixo sem passar paninho para ele. Quem se solidariza com Priscila pode continuar a se solidarizar sem passar paninho para ela.

Pessoas pisam na bola. Erram. Mas podem aprender com seus erros.

É só que fica difícil a gente aprender com erro quando, ao invés de assumir esse erro, a gente finge que não foi erro, ou que até que faz sentido, no contexto, ou que nem foi tão ruim assim, ou que, na verdade, veja bem… e assim vamos na desresponsabilização. E ninguém consegue ser a tal da mudança que quer ver no mundo.

O terrorismo machista

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 3 de janeiro de 2017.

*****AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: violência doméstica, violência contra criança, chacina de Campinas, terrorismo machista.*****

Terrorism

Aconteceu na virada do ano, em Campinas. O cara, inconformado com o regime restrito de suas visitas ao filho, matou doze pessoas, dentre elas a própria criança.

O menino foi o último a ser morto, antes de o próprio atirador cometer suicídio; é de arrepiar os cabelos imaginar uma criança de oito anos assistindo ao seu pai atirar em quinze pessoas, matando imediatamente onze, dentre as quais sua mãe.

Na carta que o cara escreveu “para o filho” (uso as aspas porque ele próprio sabia que a criança jamais a leria, ou seja, a carta foi para nós mesmo), ele fala como se fazer isso fosse em benefício deste. Eu acho chocante esse nível de falta de empatia com a criança. De adultismo. Me lembrou aquele papo de “ah, ele é um bom pai, mas um péssimo marido“.

Isso sem nem entrar no “detalhe” de que ele matou o menino também.

Não é possível falar a respeito sem pensar no ditado “jogar o bebê fora com a água do banho”. Mas daí a gente rapidamente se dá conta de que o “bebê”, isto é, aquilo de que esse cara estava tentando cuidar ali, não era o filho dele. Se fosse, o desfecho teria sido outro.

Eu vi um pessoal classificando o ocorrido como “terrorismo da ultradireita”. Porque a carta falava mal da Dilma. Porque a carta descia o pau nas feministas e nas “vadias”. Porque a carta falava como se ser preso fosse ir para uma colônia de férias sustentada pelo dinheiro público. Dentre outros pontos que costumamos ver nos discursos da direita.

Mas eu discordo dessa análise.

Eu imagino os mesmos atos e uma carta que falasse de “matar a vadia burguesa”. De “sistema machista que acha que apenas a mulher tem condições de cuidar de criança”. De “não vou preso porque não quero meu corpo sob a jurisdição do Estado”.

Desde que existem ideologias, existem as pessoas que se utilizam delas para justificar atos pessoais seus. E não estou apenas falando das pessoas que deturpam ideais, como ocorreu na ditadura soviética, ou na inquisição medieval. Estou falando do cara que, em meio à ditadura militar brasileira, denuncia alguém como terrorista, não porque ela seja comunista, por “dever cívico”, mas porque ela ocupa um cargo numa instituição que ele próprio quer ocupar, ou teve um caso com a esposa dele.

Estou falando inclusive da pessoa que faz isso enquanto se ilude e delira que está fazendo isso imparcialmente, por dever cívico sim, que o resto é só coincidência.

O que aconteceu no reveillon em Campinas foi um ato de terrorismo machista. Assim como a chacina do Realengo. Assim como a chacina de Santa Barbara, nos EUA. Terrorismo machista. E adultista, neste caso, quero evidenciar, para que não se perca a reificação, a objetificação, a desumanização da criança que atos desse tipo demonstram.

Terrorismo. No sentido de ato praticado com o intuito de aterrorizar, de forma a compelir pessoas a agirem ou deixarem de agir de determinadas formas. No caso, mulheres a deixarem de se proteger de homens abusivos, deixarem de proteger suas crianças de homens abusivos, deixarem de buscar afastarem-se de homens abusivos. E aceitarem que o abuso masculino e paterno faz parte da vida, e que temos que suportá-lo, senão…

Mesmo quando não ocorrem mortes, mesmo quando não há notícias nos jornais, toda vez que uma mulher é exemplarmente punida por proteger ou defender a si mesma ou outrem de violência machista e adultista, isso é feito para mandar um recado a todas as outras mulheres: “é isso o que acontece com as vadias”.

(E nós sabemos quem são as vadias, né? Todas nós somos, já fomos ou seremos vadias para algum, alguns ou muitos homens em algum momento das nossas vidas. Porque o critério que separa a vadia da “mulher de bem” na cabeça de um homem assim é “fazer o que eu quero que ela faça”.)

E por que é tão importante para mim diferenciar o terrorismo machista do terrorismo da ultradireita, já que esta é tão ostensivamente machista?

Porque a misoginia, o adultismo e o machismo – e inclusive o terrorismo machista – não é exclusividade da direita.

É terrorismo o ostracismo da moça que ousou denunciar o esquerdomacho desconstruidão como abusivo em seu grupo social. É terrorismo o assédio moral à funcionária que ousou não engolir as piadinhas machistas do chefe. É terrorismo a perseguição à mulher que ousa falar de feminismo em seu blog. É terrorismo a recusa de orientação na pós-graduação à acadêmica que ousou não deixar quieto o assédio sexual que sofreu do professor. É terrorismo a recusa de trabalhar com a modelo que denunciou o estupro pelo fotógrafo badalado.

E tudo isso rola independentemente de sigla de partido, se há partido ou não, se a ideologia é de cá, de lá, de cima, de baixo. Porque o que a direita e a esquerda têm em comum é sua dificuldade de reconhecer e desconstruir as opressões identitárias que as habitam, dentre elas o machismo.

Por exemplo, entre quem culpou a mãe do menino pela chacina esteve não apenas a ultra direita que acha que mulheres são, por princípio, vadias que merecem ser tratadas com violência. Apareceu também gente de “esquerda” que acha que ela foi irresponsável porque “ela teve a chance de pedir uma medida restritiva e não o fez”. Porque ela fez diversos boletins de ocorrência, mas não quis dar continuidade processual a eles. Porque “faltou empoderamento” para ela. Porque não adianta o Estado prover os meios para que a mulher se proteja, a mulher tem que querer se proteger. E blablablás afins.

(Como se medida restritiva fosse encantamento que te protege magicamente, ao invés de um pedaço de papel que diz que você pode pedir socorro se essa pessoa se aproximar de você. Você pode. Se você vai conseguir, se o socorro vai aparecer, etc., são outros quinhentos. E como se, também, processar o cara criminalmente fosse de alguma forma proteger a essa mulher – e sua família. Ele dificilmente seria preso, já que injúria, ameaça e mesmo agressão sem lesão corporal são crimes que dificilmente são puníveis com prisão hoje em dia; continuaria solto, só que ainda mais revoltado – coisa que ela tinha razão de temer – e ela estaria processando criminalmente o pai do filho dela, algo que seria desgastante não só para ela, mas para o filho dela também.)

Voltando ao assunto. Me irrita demais ver gente dita de esquerda que chama de pós-modernismo, de “desvio do foco real” falar sobre feminismo, sobre antiadultismo e a luta contra outras opressões identitárias, subitamente garrar nessa paixão toda de defender mulheres e crianças dos “monstros que a direita cria”, sem a menor disposição de olhar para si próprie e ver o que tem de semelhante com esse monstro.

Sim, porque esse papo de monstro existe, principalmente, para duas finalidades. A primeira é para desumanizar o “monstro” e tornar possível que ele seja tratado de forma desumana. A segunda é distanciar o “monstro” da gente. E a gente se sentir a salvo de praticar monstruosidades, porque, né, não somos monstros, então não temos nem que pensar sobre isso. Só que não.

Tanto há monstros na esquerda que eles são capazes de usar uma tragédia como essa como alavanca política. E isso não é só hipocrisia e oportunismo. É token, machismo e adultismo também.

Como se fosse a primeira e a última

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 17 de abril de 2016.

julgamento

Um amigo meu me contou que o filho tem enrolado muito para dormir. Deita, daí pede para ir ao banheiro (onde não faz nada), daí pede um lanche, daí pede água, daí pede história, daí… tem pai ou mãe por aí que não saiba o que é isso?

Então que, outro dia, o menino, além de pedir a água, cuspiu a água e se molhou todo. Meu amigo ficou possesso. Como assim, cuspir a água de propósito, só para achar um jeito de sair do quarto?

No dia seguinte, contudo, descobriu que o menino tinha cuspido a água porque sentiu uma casquinha de feijão nela. Engasgou ou assustou, sabe-se lá. De qualquer forma, foi um acidente. Imagine a culpa desse pai (imagine você – eu infelizmente não preciso imaginar porque já agi assim também, e mais vezes do que gostaria).

Podemos agir defensivamente diante dessa culpa, nos escusando pela nossa precipitação, dizendo que “mas também, ele sempre faz coisas assim, eu ia pensar o quê?” (com base no que já passou) ou dizendo que “é bom para ele entender que eu não vou me deixar enganar se ele fizer” (com base no que poderá vir no futuro).

Essa postura me lembra a história de Pedro e o Lobo – a fábula de Esopo que adverte contra a mentira. Nela, um menino, Pedro, para se divertir, engana por duas vezes seguidas as pessoas de sua aldeia, gritando “Lobo! Lobo!” sem estar em perigo; quando o lobo de fato aparece, ninguém lhe dá ouvidos, porque ele mentiu antes.

O mesmo conto serve, de certa forma, para advertir pais e mães a não tolerarem comportamentos que considerem desagradáveis nas crianças, ou elas os repetirão para sempre. Que tem que “deixar se ferrar um pouco para aprender”. Alguém nunca ouviu isso?

É fácil culpar a criança pela injustiça que nós cometemos com ela nos respaldando em seu comportamento passado ou na expectativa de comportamento futuro, mas isso não tornará mais justa a nossa atitude, nem menor a violência que a criança percebe nela; só nos protegerá da percepção da nossa própria cagada pelo que realmente ela é: uma cagada.

Somos nós, ali, as pessoas com todo o poder. Somos nós, ali, para a criança, o exemplo e o referencial de justiça, amor, consideração.

Cabe a nós termos o compromisso de ver cada situação sem nos deixarmos levar pelo preconceito criado pelos antecedentes, ou seja, pelo que veio antes, ou o medo de criar precedentes, ou seja, pela presunção do que virá depois.

Afinal, que estímulo podemos ter para mudar se já nos rotularam de uma determinada forma? Que estímulo podemos ter para cooperar se já vão nos julgar com base nos momentos em que não cooperamos? Que estímulo podemos ter para melhorar se sempre estaremos à sombra de nossos piores momentos?

Similarmente, que estímulo podemos ter para sermos altruístas, para pensarmos também em outras pessoas, se nos tratam como se fazê-lo em relação a nós, se considerar o nosso ponto de vista, fosse “abrir uma perigosa exceção”, porque “se dá a mão, querem o braço” e “se fizer para ume pessoa, todes vão querer” e etc.?

É bom sim ter uma visão do todo, para enxergarmos padrões de comportamento e tendências (e não só das crianças, mas nossas também) e podermos pensar em soluções mais permanentes, mais satisfatórias para todas as pessoas envolvidas. Mas essa é uma análise muito mais difícil de se fazer no calor do momento, quando o que vigora é o cansaço, o sono, a frustração. Em situações assim, esse todo na verdade polui e pode nos levar a agir por impulso, com base em julgamentos imediatos, instantâneos e, claro, equivocados. E nos arrependeremos depois.

Assim, a culpa que sentimos dói, mas essa dor é benéfica e necessária. Vacinal. Não é que precisamos viver sob uma bigorna – todo mundo erra, todo mundo falha, somos seres humanos, afinal. É que essa dor é o que nos prevenirá contra repetirmos o nosso erro. Se fugirmos dela, acabaremos evitando também a responsabilidade pelos nossos atos e, assim, a oportunidade de mudança. A possibilidade de lembrar, no futuro, da importância de buscarmos a paciência de perguntar, de investigar, com coração e mente bem abertos.

E analisar cada situação como se fosse a primeira e a última.

Independência ou desamparo

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 27 de fevereiro de 2016.

estender a mão

Usarei aqui a palavra “independência” no sentido de capacidade de fazer por si só, sem a ajuda de outras pessoas. Não empregarei a palavra “autonomia” porque esta, para mim, tem um sentido mais ligado a regrar-se, escolher agir de determinada forma, sem que isso parta de um estímulo externo, o medo de alguma punição ou a expectativa de alguma recompensa; a independência, para mim, está ligada à capacidade, enquanto a autonomia está ligada à vontade.

________________________

Muitas vezes temos um medo estranho de que o progresso de uma criança em uma determinada área simplesmente se perca. Digo que é estranho porque a gente não desaprende as coisas. A gente esquece detalhes, enferruja, perde agilidade, atrofia, talvez. Mas, salvo alguma condição física que nos debilite, não desaprende.

Como pais e mães, principalmente, mas como educadores de qualquer espécie, claro, nos sentimos responsáveis pelo progresso das pessoas a quem educamos. Talvez seja por conta disso que esse medo tão frequentemente nos invada quando uma criança nos pede ajuda para fazer algo que supomos que ela já saiba fazer.

O medo, claro, não é o problema. O medo é uma emoção, ninguém escolhe ter ou não ter medo (afinal, quem escolheria ter medo?). O problema é o que a gente faz com ele, ou melhor, o que ele pode nos levar a fazer se não lidarmos com ele.

É só parar e pensar em quantas vezes no nosso próprio dia-a-dia pedimos ajuda para fazer coisas que, sim, podemos fazer sós, mas que gostaríamos de ajuda ou companhia para fazer. E como nos sentimos diante de uma negativa. Por que seria diferente para uma criança?

Quando uma criança nos pede ajuda para fazer algo que já sabe fazer, ela está, de certa forma, pedindo a confirmação de que estamos ali com ela, de que estamos presentes, de que nos dispomos a ajudar. Está pedindo para que façamos junto com ela algo que, por algum motivo, ela não quer fazer sozinha naquele momento.

Que motivo é esse? Pode ser tanta coisa. O que nos leva – nós, pessoas adultas – a pedirmos ajuda? Podemos ter coisas demais para fazer e querermos um descanso, um alívio. Podemos sentir insegurança (em relação ao que estamos fazendo em si ou, talvez, ao ambiente e às circunstâncias em que aquilo está sendo feito) e querermos alguém para segurar a nossa mão. Podemos gostar de alguém que é uma pessoa muito ocupada e (consciente ou inconscientemente) acharmos que, se pedirmos a ajuda dela, ela provavelmente nos dará a atenção de que precisamos.

As pessoas costumam ter orgulho de suas conquistas, costumam gostar de vencer desafios. Um pedido de ajuda, nesse sentido, pode tanto demonstrar plena segurança de que se sabe fazer algo (e, logo, não há conquista ou desafio ali), quanto insegurança, um medo de falhar tão grande que aparece mesmo quando estamos diante de algo que já fizemos antes, com sucesso. Em ambos os casos, a pressão do “se vira” faria mais mal que bem, mas é no segundo que ela é particularmente deletéria, porque silencia um sintoma de algo muito maior e mais profundo, e que precisa ser endereçado com urgência e atenção, especialmente numa criança.

É necessário um trabalho que passa por refletir sobre a origem desse temor do “fracasso” e dos sentimentos por ele gerados – decepção, desaprovação, inadequação, desamor – um trabalho que pode, assim, ser desconfortável para as pessoas adultas ao redor dessa criança, já que pode exigir que se repense a forma como ela vem sendo tratada quando comete algo percebido como um “erro”. Muito mais fácil, naturalmente, forçar a criança a lidar com tudo isso sozinha… mas a que custo?

Negar ajuda, por isso, não me parece ser “um empurrão” em direção à independência, mas um comunicado (ainda que não deliberado) de que não há carinho ou interesse suficiente para, mesmo podendo, ajudar, a despeito do pedido. Um desamparo, portanto, a uma necessidade que pode ir além da ajuda que se pede em si.

Precisamos pensar no que estamos ensinando em termos de cooperação, empatia, companheirismo e humanidade, basicamente, quando mostramos a uma criança que as pessoas mais importantes de sua vida lhe viram as costas por capricho e condescendência, mostrando tão pouca compaixão e compreensão. Tão pouco carinho. Porque, por mais nobres que sejam as nossas intenções, é assim que a nossa negativa será percebida: como indiferença.

E me vêm à mente todas as vezes em que ouvi pessoas mais velhas reclamando de pessoas mais novas, dizendo que são egoístas, individualistas, sem consideração. Não faz sentido ensinar uma coisa a uma pessoa e depois esperar dela algo completamente diverso disso. A exemplo do que ocorre quando ensinamos obediência às crianças e depois, paradoxalmente, lhes cobramos autonomia, vamos ensinar-lhes a indiferença e cobrar delas a generosidade?

Ninguém tem como dar o que não tem nem para si. O que nunca teve, ou teve tão pouco que mal sabe reconhecer.

Sim, crianças são aprendizes e, sim, em algum momento não estaremos por perto. Mas isso não é verdade para todas as pessoas, inclusive as grandes? Não somos, todes nós, aprendizes? Não haverá, infelizmente, sempre algum momento em que estaremos sós e teremos que nos virar?

Ou será que sempre vai ter alguém para downloadar nossas séries para nós?

Orgulho

***Originalmente publicado em Revista Fórum, em 3 de dezembro de 2015.

Ocupação

de https://www.cartacapital.com.br/educacao/ocupacao-escolar-e-momento-de-aprendizagem

Estou emocionada com as ocupações que estão ocorrendo nas escolas de São Paulo. Creio que não estou sozinha nesse sentimento.

Muitas das ocupações têm um tom anarquista e anarquizante, revolucionário inclusive do ensino e da forma de aprender. Uma das postagens mostrava uma sala de aula reorganizada, com as carteiras em círculo, as pessoas livres para escolher o que querem aprender, quando e como.

Me encanta que a revolução do ensino possa partir des alunes e não des professores e demais profissionais da área da educação. Faz tanto sentido! A libertação não como algo concedido pela parte opressora, mas como algo conquistado pela parte oprimida. A poesia disso me faz sorrir enquanto escrevo.

No entanto, tenho visto muitas pessoas expressarem sua emoção dizendo que sentem “orgulho” dessas pessoas jovens. O que é esse orgulho? O que é sentir orgulho?

Dando um google, a primeira definição que encontramos é esta:Captura de tela de 2015-11-30 15:38:41

Tem como a gente se orgulhar de algo que outra pessoa fez?

Eu já vi uma pessoa falar que tem orgulho de descender de não sei quem que fez não sei quê. Daí perguntei a ela: e você? Fez o quê? E ela não soube me responder.

Eu não vejo problema em nos orgulharmos daquilo que consideramos serem nossas conquistas. Mas me parece estranho a gente se orgulhar das conquistas de outras pessoas. Porque elas não são nossas. A gente pode estar junto, a gente pode ter testemunhado, mas, se não participamos delas, elas não são nossas.

Então, eu sinto que essa coisa de dizer que se tem “orgulho” de outra pessoa ou de algo que ela fez é uma forma de a gente se apropriar do mérito que é dela. Falar como se tivéssemos participação nele.

Eu amo mes filhes. Mas não sinto orgulho deles, porque não são coisas que eu fiz. São pessoas. Menos ainda me orgulho das coisas que eles fazem. Porque as coisas que eles fazem são feitas por eles, não por mim. Não me cabe orgulhar-me delas. Posso admirá-las, posso ficar feliz por elas, posso vibrar com elas, posso torcer para que dêem certo, posso apoiá-les. Mas orgulhar-ME delas não faz sentido para mim.

Voltando às ocupações nas escolas, temos muito a aprender com esses estudantes. De alunes, se tornaram nosses mestres. E há pessoas que estão tendo dificuldade de lidar com ver gente tão jovem fazendo coisas que elas muitas vezes não conseguiram articular em uma vida inteira de militância. Então vem a necessidade de desmerecer esse movimento, ou se apropriar dele de alguma forma.

De um lado, aparecem críticas ressentidas, expondo e ressaltando falhas e ignorando as inúmeras coisas boas e lindas que estão acontecendo. De outro, aparece o orgulho condescendente da pessoa adulta que, diante da pessoa jovem que a supera, passa-lhe a mão na cabeça e diz “muito bem”, como se o intuito devesse sempre ser o de obter sua aprovação.

Menos orgulho. Mais admiração.

Educação ou opressão

***Originalmente publicado em Revista Fórum, em 29 de novembro de 2015.

sala de aula

Convido todes a lerem meu trabalho de conclusão do curso de pedagogia, “Educação ou Opressão? O Adultismo no Ensino de Crianças e Adolescentes”.

Segue abaixo uma amostrinha; o trabalho completo pode ser baixado aqui. Peço desculpas por não ter tido coragem de observar a neutralidade de gênero no texto (que aqui mantive conforme o original) e pela linguagem chata e acadêmica. Eu fiz o possível para que não se tornasse algo maçante, mas não poderia deixar que ficasse com cara de coisa que não é “séria”, sabem como é.

***

2.3 O impacto do adultismo no desenvolvimento da autonomia

Para os fins deste trabalho, nos baseamos nas definições kantiana e piagetiana da palavra autonomia, isto é: a capacidade de alguém de governar-se por sua vontade própria, agir por si mesmo, através de uma escolha racional e emocional que não leva em conta as consequências externas e imediatas dos atos, ou seja, não é baseada no medo da punição ou da perda da recompensa (CHRISTINO, 1997).

É necessário ressaltar, ainda, para desfazer malentendidos, que a compreensão de autonomia aqui retratada não é a mera internalização das regras postas por outras pessoas, já que o ser humano autônomo a que nos referimos aqui é “aquele que pode dizer ‘não’ enquanto o resto da sociedade, possível refém das tradições, diz ‘sim’, contanto que este ‘não’ [não seja] decorrência de um ingênuo espírito de contradição”. (LA TAILLE et al., 1991, p. 63).

Por não acreditar na capacidade de pessoas não-adultas de viverem sem o controle adulto constante, o adultismo prejudica enormemente o desenvolvimento da autonomia delas, negando-lhes a oportunidade de exercitarem esse autogoverno sem interferências, além de viciá-las na busca das consequências externas (evitar a punição, obter a recompensa) para a motivação de seus atos, como detalharemos a seguir.

2.3.1 O esclarecimento e a menoridade

Segundo KANT (2005. p.64):

“Esclarecimento [Aufklarung] é a saída do homem da sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [Aufklarung]”

Obter o esclarecimento kantiano, portanto, seria sair do conforto da sombra de tutores e autoridades, emergir do estado – menoridade – em que se tem o conhecimento e o entendimento, mas não se confia em si mesmo para fazer uso desses recursos.

Esse pensamento flui junto ao de Carl Rogers, que tinha uma concepção de terapia que: “[…] não poderia deixar de suscitar controvérsia, porque ela caminhava no sentido contrário da ideia […] segundo a qual o paciente, ou o cliente, necessita de um especialista para resolver seus problemas.” Esse mesmo pensamento aparecia em seus escritos sobre educação, “nos quais afirma que o aluno tem motivações e entusiasmos que o professor deve liberar e favorecer” (ZIMRING, 2010, p. 11-12).

Não basta que tenhamos as ferramentas e saibamos como utilizá-las, temos que ter a coragem de fazê-lo. Temos que confiar em nossas habilidades e capacidades se pretendemos sair da dependência eterna e cega de “especialistas” e “tutores”.

Curiosamente, é possível interpretar, pelas palavras de Kant, que a menoridade não tem idade. É claro que uma criança dependerá muitas vezes da orientação, experiência e maior conhecimento da pessoa adulta, mas, se ela for capaz de se responsabilizar por si mesma naquilo em que isso é possível, se ela for capaz de fazer uso de seus conhecimentos por si só, por mais parcos que eles sejam, sem depender da validação de uma pessoa adulta para tanto, ou, ainda, sem acomodar-se na responsabilização de outrem, ela não estará no estado de menoridade.

Isso é interessante porque é a tendência natural da criança lutar para fazer por si mesma aquilo que acredita ser capaz de fazer. E tentar e tentar de novo e tentar mais uma vez, muitas vezes em meio a lágrimas de frustração e ira diante de suas dificuldades, como bem sabe quem já teve a oportunidade de observar uma criança em processo de superação de algum de seus limites.

Ou seja, o estado natural da criança – e, logo, do ser humano – portanto, não é o estado de menoridade, mas o de esclarecimento ou, ao menos, a busca enérgica por ele. A menoridade, na verdade, é aprendida, inculcada e mantida por meio do adultismo.

“Se crianças forem sempre levadas pela mão e, assim, impedidas de encontrarem seu próprio caminho, elas irão gradualmente parar de fazer descobertas por si próprias.” (MILLER, 1998, p. 184). E não é só uma questão de se acomodarem. É a perda de autoconfiança. A internalização da mensagem de que, sem alguém para guiá-las, elas se perderão.

HOLT (1982a) ilustra essa tendência dentro da pedagogia com a imagem de alguém (professor) que, depois de empurrar um carro enguiçado até ele dar a partida, recusa-se a soltar do para-choque, acreditando piamente que o carro não andará sem que ele o empurre. O motorista do carro (aluno), agora pronto para partir por conta própria, fica então restrito à velocidade da pessoa que o está empurrando, porque passa a acreditar que aquele empurrão é necessário para seu movimento, ou mesmo teme arrancar e largar quem o ajudou caído na rua. Estabelece-se uma relação de dependência.

Em outra passagem do mesmo texto, o autor coloca como “profecia autorrealizadora” a ideia de que crianças não aprendem sem as punições ou recompensas. Ele defende que, se tratarmos crianças por bastante tempo como se isso fosse verdade, isso se tornará verdade, porque elas próprias passarão a ver-se assim – como a maior parte das pessoas que declara que, se não fossem forçadas a fazer algo, não fariam nada (HOLT, 1982a).

É assim que se cria uma menoridade eterna e forçada.

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REFERÊNCIAS (citadas no trecho):

CHRISTINO, Raquel Rosan. Piaget e Kant: uma comparação do conceito de autonomia. Revista Nuances. São Paulo, v. III, p. 73-77, set/1997.

HOLT, John. How children fail.Boston: Da Capo Press, Revised edition, 1982.

KANT, Immanuel. Textos seletos. Tradução de: Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. 3ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

LA TAILLE, Yves.; DANTAS, Heloysa.; OLIVEIRA, Marta Kohl. Mesa redonda: três perguntas a vygotskianos, wallonianos e piagetianos. Cadernos de pesquisa. n. 76, p. 57-64, fev. 1991.

MILLER, Alice. Thou shalt not be aware. Tradução de Hildegarde and Hunter Hannum. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1998.

ZIMRING, Fred. Carl Rogers tradução e organização: Marco Antônio Lorieri. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Massangana, 2010.