Gaslighting desde o berço

manipulação

No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

“Estou ficando louca?”

gaslight

Cena do filme Gaslight, 1944

 

Você já entrou numa discussão com toda a certeza de que tinha razão e saiu dela se desculpando, com uma sensação estranha de confusão, de que o mundo tinha virado do avesso?

Eu nunca pensei, quando ingressei no serviço público (sim, eu estive no serviço público por alguns anos), que um dia eu seria a “louca do departamento”. Sabe? Aquela pessoa que todo mundo cochicha quando passa, que é “louca de tomar remédio”, que tira licença para fazer tratamento psiquiátrico (e um tanto de gente acusa de estar só enrolando, inclusive)? Essa.

Mas eis que um dia eu me olhei no espelho e ela estava lá, me encarando de volta, com olhos esbugalhados, olheiras profundas, o rosto abatido, os cabelos desgrenhados. “Como é que você foi parar aí?” Perguntei, num misto de nojo e pena. E ela me contou. Mas foi só anos mais tarde que aprendemos que o que havia ocorrido tinha nome.

Eu já fiz um texto em que expliquei brevemente a minha interpretação de alguns termos interessantes que usamos no feminismo, inclusive o gaslighting (lê-se “gaslaitim”), de que vou tratar aqui; mas esse é um conceito que, para mim, foi tão necessário e libertador, que sinto a necessidade de falar mais esmiuçadamente a respeito dele. É engraçado como é importante, como é empoderador, nomear o gaslighting, conhecê-lo e reconhecê-lo. É como se nos vacinasse.

A definição básica de gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade. Isso pode chegar ao ponto de a pessoa (e/ou quem convive com ela) começar a duvidar de sua sanidade mental ou mesmo acreditar piamente que a perdeu. Um de seus objetivos mais frequentes é o silenciamento.

O termo vem de uma peça de teatro de 1938, de Patrick Hamilton, chamada “Gaslight”, com duas adaptações para o cinema, uma britânica, de 1940, e outra americana, de 1944. A peça fala sobre um homem que pratica gaslighting com sua esposa até que todes, incluindo ela mesma, pensem que ela está mentalmente doente (tem outras coisas na trama, claro, mas eu não vou entregar).

O gaslighting, a meu ver,pode ocorrer em duas esferas: a primeira, da confiança da pessoa em sua própria percepção, e a segunda, da confiança de outras pessoas na percepção dela. Nem sempre ele atinge a ambas, mas sempre atingirá (ou tentará atingir) a pelo menos uma delas.

Por isso, as pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são as pessoas que já sofrem o preconceito de serem “loucas”, “irracionais”, “governadas por hormônios”, “histéricas”, “barraqueiras”, “brutas”, “sensíveis demais”, “gagás”, que “não falam coisa com coisa”. Ou seja, toda e qualquer pessoa cujas palavras, opiniões e sentimentos tendam a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo: mulheres, crianças, adolescentes, idoses, pessoas negras, pessoas LGBT, pessoas que sofrem de doença mental, pessoas com deficiência, pessoas cujo discernimento seja limitado por algum motivo, etc.

Como a sociedade já dá, injustamente, menos credibilidade a essas pessoas, o trabalho da pessoa gaslaiteadora de descreditá-las perante outrem é facilitado, já está praticamente pronto. Além disso, por estarem habituadas a esse tratamento, elas próprias podem já ter introjetado esse gaslighting, já tendo muita dificuldade de confiar em seus próprios sentimentos e percepções, deixando também pronto o trabalho da pessoa gaslaiteadora nesse sentido.

As crianças são, para mim, as maiores vítimas dessa forma de abuso psicológico e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem percebe que é isso o que fazem. É tanta coisa para falar a respeito que farei um post só para tratar disso. Me aguardem.

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A forma mais crassa de gaslighting, a mais desavergonhada, é alguém falar que não fez algo que fez, ou fez algo que não fez (ou falou). Este vídeo sensacional do Porta dos Fundos ilustra bem essa situação.

Um outro exemplo: marido se compromete a passar o dia com as crianças; de última hora, resolve sair para jogar bola com os amigos; ao invés de reconhecer sua falta de palavra, faz de conta que nunca prometeu nada.

Não é que ele finja que esqueceu, simplesmente. Se ele fizesse isso, ele estaria mentindo, mas assumindo que falhou, mesmo que não admitisse que a falha foi deliberada. O que configura o gaslighting dele é o fato de que ele tenta imputar a falta de compromisso dele a uma “viagem” (um erro de percepção) da pessoa com quem ele assumiu o compromisso, que fica lá pensando “ué… será que estou ficando louca? Será que realmente não chegamos a conversar a respeito e eu imaginei tudo? Mas eu lembro! Mas ele está falando com tanta certeza…” e assim por diante. A pessoa, especialmente por acreditar na boa-fé da outra, parte do princípio de que ela própria deve estar enganada. Que ela tem que estar enganada. Porque, né, quem faz isso? Quem tem tanta desonestidade, tanta frieza, tanta cara de pau? Pois é. Tem gente que tem.

Que nem quando um estuprador (ou até pedófilo!) fala que o ato foi consensual, que a vítima sabia muito bem o que fazia, ou mesmo que nada aconteceu, que ela é uma louca inventando isso para prejudicá-lo, para chamar atenção. Gaslighting.

Também é gaslighting quando alguém leva outra pessoa a duvidar de sua percepção em relação aos fatos, mesmo admitindo os fatos em si. É o que acontece nos casos em que se culpa a vítima pelos atos nocivos de outra pessoa. Quando se justifica o estupro com a conduta ou das roupas da vítima, quando se justifica a violência doméstica com o fato de a mulher não ter saído do relacionamento depois ou mesmo antes da agressão, quando se justifica a cesárea desnecessária com o “consentimento” obtido através da coação da mulher em pleno trabalho de parto. Sabe quando a pessoa vira a mesa e joga a culpa que é dela para outra? Então.

No caso do marido que mencionei acima, ele praticaria essa versão de gaslighting se, quando confrontado a respeito de sua falta de compromisso, ele virasse para a outra pessoa e dissesse que só prometeu porque ela forçou a barra, que é pelo bem dela ou das crianças que ele vai sair jogar futebol, que é porque ele está estressado porque ela briga tanto com ele, que foi ela mesma quem sugeriu que ele deveria sair, etc. Como se algo que a outra pessoa supostamente fez ou falou desse a ele o direito de não cumprir sua palavra. Pior, como se nem fosse um ato deliberado, uma escolha dele, mas algo a que ele se vê forçado pelas circunstâncias, coitado dele. De novo, o cara está tirando o foco do fato de que a atitude dele é errada e fazendo a outra pessoa pensar e sentir que o erro, na verdade, é dela. Que ele é a vítima ali.

Acontece muito em casos de traição conjugal. Casal monogâmico, uma das pessoas vai e faz sexo com alguém de fora e depois fala que foi levada a isso porque suas necessidades (afetivas, sexuais, o que for) não estavam sendo plenamente satisfeitas dentro do relacionamento. Como se isso escusasse a desonestidade e deslealdade de seus atos.

Tem também a deslegitimação, que eu chamo de gaslighting emocional. Agir ou falar como se a outra pessoa não tivesse o direito de sentir o que for, como se o sentimento dela não fosse justificado; minimizar o acontecido, impor que a pessoa perdoe e/ou esqueça, dizer ou implicitar que é exagero, ou mesmo diretamente negar que haja qualquer causa para a pessoa se sentir daquela forma.

Aliás, é incrível a dificuldade que muitas pessoas têm de entender que sentimento não precisa ser justo, motivado, fazer sentido. Sentimento a gente não escolhe, não tem por querer, não é certo, nem errado. Sentimento a gente sente, e só. Podemos ter um problema com o que alguém faz a partir do que sente, mas não tem cabimento recriminar ou reprovar o sentimento dela em si.

Voltando ao assunto, é o que acontece quando alguém passa por uma violência e, ao falar a respeito, ouve que tem que “entender o outro lado”, por exemplo. Não nego que empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faça parte do processo de reabilitação e seja algo importante a se fazer. Mas não faz sentido defender a parte agressora para a vítima que, num momento de completa vulnerabilidade, desnuda um trauma pelo qual passou. É uma questão de contexto.

Também é muito comum que pessoas pertencentes a grupos oprimidos, ao apontarem discursos e atos que reforçam essa opressão, ouçam de volta que “estão de vitimismo”, ou que “ai, agora tudo é racismo”, ou que “foi só uma piada”, ou que “você não soube interpretar”, e por aí vai.

Retomando o marido lá de cima, ele estaria praticando essa forma de gaslighting se falasse para quem reclama com ele que a pessoa está exagerando, implicando, procurando pelo em ovo, ou se saísse com o irônico “tá, eu só faço merda/só cago/sou um bosta mesmo”.

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Por fim (aqui no texto, não nas formas possíveis degaslighting, que são infinitas, infelizmente), tem uma espécie de gaslighting especial que eu chamo de “gaslighting de flagrante preparado”. Flagrante preparado é quando a pessoa é induzida a praticar o delito por obra de outra pessoa que a instiga àquilo justamente com o intuito de incriminá-la. A propósito, juridicamente, é uma modalidade ilegal de flagrante (súmula 145 do Supremo Tribunal Federal).

gaslighting de flagrante preparado é quando uma pessoa provoca, cutuca, escrotiza e, claro, gaslaiteia outra até esta perder a cabeça, e daí usa isso, essa explosão, como desculpa para desconsiderar os argumentos e sentimentos desta. Muitas vezes, inclusive, se utiliza disso para descreditar a pessoa gaslaiteada perante a outrem, para que também desconsiderem seus argumentos e sentimentos. Sabe o povo do “apelou, perdeu”? Então.

Muito comum no contato com as criaturas passivo-agressivas do mundo.

Esclareço que não estou defendendo a agressão (até porque isso pode cair naquele caso de gaslighting em que a pessoa culpa a outra por seus próprios atos). O que estou falando é que não é porque alguém se descontrola que podemos ignorar o que essa pessoa tem a dizer. E que é de uma monstruosidade indescritível usar contra uma pessoa o descontrole que conscientemente se provocou nela. E que há pessoas que fazem isso. Deliberadamente.

Nos casos de assédio moral, como o de que fui vítima, é muito comum o gaslighting de flagrante preparado, especialmente porque costuma haver toda uma hierarquia envolvida, uma autoridade de que se abusa para pressionar a pessoa gaslaiteada, que é enlouquecida em fogo brando até explodir e, a partir daí, começa a agir de forma descontrolada, dando munição para quem diz que o problema na verdade é ela.

Pode parecer pouca coisa, um drama de escritório, mas não é. É uma forma de abuso psicológico muito grave e muito tóxica e é um sintoma de uma sociedade que é seletiva em relação às pessoas que merecem seu acolhimento. Há relativamente pouco tempo, tivemos um verdadeiro holocausto brasileiro e quase ninguém sabe. Por quê? Porque aconteceu com pessoas “loucas”. E quem quer ouvir o que elas têm a dizer?


 

Gostaria de agradecer pelas trocas com as inúmeras mulheres que conheço que, como eu, vivenciaram (e/ou vivenciam) essa forma de violência psíquica em suas vidas e compartilharam suas impressões comigo. Dedico a vocês este texto.

Aproveitando o caso Bolsonaro para fazer um glossário

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*Os recentes (e não tão recentes) acontecimentos envolvendo o já infame Deputado Jair Bolsonaro e a Deputada Maria do Rosário são tão repletos de machismo que vi neles a oportunidade de, finalmente, atender aos pedidos de que eu fizesse um glossário. Não ficou completo, claro, faltou muita coisa, mas deu para cobrir uns termos bem comuns no feminismo, acho que pode ser útil. Enfim, segue abaixo, com todo o meu carinho, a limonada que eu fiz, com pedrinhas de gelo e muito açúcar. ❤

Obs.: Vou destacar os termos em si em vermelho, sublinhado, com um link em cada um para um texto com mais detalhes a respeito as definições básicas em azul. Observações que considero importantes serão destacadas em verde.


TW ou Trigger Warning (lê-se “tríguer wórnim”): é um aviso de que o que se segue contém alguma passagem que pode causar mal-estar e incômodo, a fim de que, ciente disso, a pessoa possa optar por não aprofundar o contato com aquele material, ou fazê-lo mais tarde, num lugar e momento em que se sinta mais à vontade para lidar com os sentimentos que o assunto pode trazer. Normalmente vem acompanhado de uma explicação sobre o que há ali que se acredita ser capaz de acionar gatilhos emocionais. Neste caso, por exemplo:


TW: Violência verbal e física praticada contra mulher com a conivência das pessoas presentes


As imagens (veja aqui) falam por si mesmas. Para qualquer pessoa com um pingo de noção, o que o vídeo mostra é um covarde usando seu tamanho, sua força física e masculinidade para tentar calar uma mulher que nada fazia além de debater com ele muito civilizadamente. Um homem desequilibrado, que responde às críticas feitas por uma mulher inventando ofensas que ela não proferiu nem deixou implícitas e usando isso como justificativa para as agressões praticadas por ele próprio.

Ele, no entanto, grita: “tá na fita, meu deus do céu! Tá na fita!”

Por quê? Porque seus olhinhos porcinos não veem naquelas cenas o que nós vemos. Porque ele, na cabeça dele, acha que tem o direito de agir daquela forma. Que tem o direito de destratar mulheres que não “sabem o seu lugar” (supostamente abaixo dele e bem caladas).

Cá no feminismo chamamos isso de entitlement (lê-se “entáitou-ment”), neste caso, masculino – a atitude presunçosa e prepotente de quem arvora para si o direito de oprimir outra pessoa, de quem defende seus privilégios (veja definição logo abaixo) como se estes lhe fossem de fato devidos e não algo que ele deveria tentar desconstruir. Essa postura abarca também coisas como essa história de friendzone (“frendzoun”) – um cara ficar ofendido quando uma mulher não quer fazer sexo com ele apesar de ele ser “tão legal” com ela  ou horrores como a chacina cometida por Elliot Rodgers este ano, um cara que saiu matando gente porque as mulheres tiveram “a ousadia” de não se interessar por ele e ele resolveu fazê-las pagar por isso.

Privilégio, nesse sentido, nós usamos para falar de um benefício de que alguém usufrui por participar de um segmento de pessoas que a sociedade privilegia em detrimento de outros. Esse é o segmento que é considerado “o normal”, “a regra”, pautando o ponto de vista a partir do qual as coisas são feitas e pensadas. Por exemplo, é um privilégio heterossexual poder demonstrar carinho em público sem ter medo de sofrer uma agressão, é privilégio das pessoas sem deficiência que os estabelecimentos todos sejam imediatamente acessíveis a elas, é privilégio branco estudar a cultura de seus ancestrais como se fosse a única que realmente vale a pena estudar, e por aí vai. Um privilégio muito comum é o de não representar. Porque uma mulher, uma pessoa negra, uma lésbica, uma pessoa trans, etc. sempre são considerades como se falassem e agissem por todas as mulheres, pessoas negras, lésbicas, trans, etc.

O privilégio de gênero, de que aqui falo especificamente, é o privilégio que os homens têm em nossa sociedade só por serem homens, como, por exemplo, poder ter uma vida sexual ativa e ser exaltado (e não execrado) por isso, ou não viver com medo de ser estuprado, ou ninguém esperar favores sexuais seus em troca de qualquer coisa que faça por você, ou as pessoas não esperarem doçura e obediência e deferência de você.

Vale a pena observar, ainda, que privilégio não é algo que se tem porque se quer, é algo que se tem porque “o mundo é assim” (e ainda não mudou). Não é uma questão de culpa – não temos culpa de ter privilégios; ninguém escolhe ser branco, ser hétero, ser homem. Mas é uma questão de responsabilidade. De entender que, se fazemos parte de um grupo que é considerado “o normal”, temos privilégios que muitas vezes sequer somos capazes de enxergar, de tão habituades que estamos a eles. E daí, a partir desse entendimento, fazer força para ver e desconstruir esses privilégios, ao invés de seguir usufruindo deles e reafirmando-os como se fossem direito nosso (entitlement).

Ou seja, a postura do deputado foi um verdadeiro show de entitlement, por não só praticar a violência, mas defender sua prática como direito seu.

Para justificar seus atos, ele brada aos quatro ventos que ela disse que ele era estuprador, coisa que ela não fez, como comprova o vídeo. Ela disse apenas que ele era responsável pela violência a que se referia em sua entrevista. E ela está certa em dizer isso, porque ele alimenta a cultura do estupro, a cultura que banaliza e estimula o estupro, que é justamente formada por palavras e posturas como as dele, que o legitimam, que dão a entender que não é nada demais, que é objeto de piada, que a culpa é da vítima ou que cabe à vítima evitá-lo, que a falta de consentimento é irrelevante ou que consentimento em si é um conceito “relativo”, etc.

Transformar o ponto de vista efetivamente arguido pela deputada em “você me chamou de estuprador” é o que a gente chama de falácia do espantalho: quando você distorce um argumento até ele ficar quase irreconhecível (faz um espantalho) e daí ataca essa distorção (bate no espantalho), mostrando-a absurda (claro que é absurda, é um espantalho) e dando com isso a impressão de que o argumento original é absurdo também. Ou, no caso, nem bate no espantalho, usa-o para justificar suas atitudes desequilibradas.

O que nos traz ao próximo item do glossário: gaslighting (“gaslaitim”). Eu falo muito disso aqui no blog. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. No caso que comentamos, isso fica claro porque, apesar de tudo o que ele fez, ele não se cansa de dizer que, na verdade, ela que é a agressora.

Se fosse o contrário, ela estaria sendo amplamente ridicularizada como uma “mulherzinha histérica incapaz de diálogo”. Isso porque, devido à nossa fama de sermos irracionais e exageradas, parece que nunca estamos legitimadas a reagir à violência que os homens, por sua vez, se sentem muito frequentemente legitimados a praticar conosco.

Amparado numa mentira, o homem vocifera com o dedo fálico em riste diante do rosto da mulher, brandindo-o como uma arma, uma ameaça. Dispara, sem piscar ou hesitar: “Eu não te estupro porque você não merece”. Assim, com naturalidade, como se para ele a violência sexual fosse algo tão corriqueiro quanto a lama em que ele chafurda todos os dias. Tal frase deixa claro não apenas que, na opinião dele, há mulheres que de fato merecem ser estupradas, mas que, se ele estivesse diante de uma mulher que ele julgasse merecer isso, ele estaria disposto a incumbir-se dessa “missão”.

Mais tarde ele “esclareceu” que disse que ela não merece ser estuprada porque é “feia demais”. Ou seja, a intenção dele ao dizer isso era de fato a ameaça do estupro corretivo: um crime que vitima especificamente mulheres lésbicas, assim “punidas” por não se fazerem sexualmente disponíveis aos homens, mas que vem sendo ampliado para ameaçar mulheres que incomodam o domínio masculino, a exemplo do ocorrido com Anita Sarkeesian e Alanah Pearce. O recado, aparentemente, era “olha, você passou dos limites, mulher, se você fosse mais atraente para mim eu te estupraria para te ensinar uma lição”.

Não é à toa que ele ouve no vácuo  acusações de ser estuprador. Talvez elas venham ressoando cacofonicamente de seu inconsciente. Freud ajudaria muito, se ainda fosse vivo e não tivesse ele próprio algumas inclinações um tanto preocupantes no sentido do machismo.

Fico me perguntando se esse homem teria usado essa mesma linha “argumentativa” se estivesse dialogando com um outro homem. Aliás, fica a dica desse bom teste para ver se as suas posturas ou palavras são machistas. Se, quando você se pergunta: “eu faria ou falaria isso se estivesse lidando com um homem?”, a resposta é não, vale a pena repensar. Pode ser que não seja nada, pode ser que seja tudo.

Mas ele foi além. Homem bem macho que é, habituado ao espalhafato preconceituoso pelo qual nunca sofre quaisquer consequências, agrediu fisicamente a mulher que o interpelava, ameaçando-a com “vou te dar outra”, enquanto empurrava o peito dela com a mão. Não fosse a intervenção de outros homens – que só apareceram depois do pedido de socorro dela, um deles aparentemente sorrindo, espero de coração que por constrangimento – sabe-se lá o que ele teria se sentido no direito (entitlement) de fazer com ela pelo simples fato de ela ter a “insolência” de expor a incoerência das ideias dele.

Assim que se viu amparado por um igual, no melhor estilo “me segura, me segura”, largou logo um “vagabunda” (palavreado cotidiano dele, certamente) para ela, que, consternada, apenas conseguia se fazer repetir “o que é isso?”

Isso, no caso, é o que nós chamamos de slut-shaming (slãt-cheimim), que é o ato de incutir nas mulheres a noção de que é vergonhoso para elas que exerçam sua sexualidade, seja reprovando qualquer demonstração disso (coisas como “ela não se dá o respeito” ou “ela é vulgar”), ou mesmo transformando isso em um xingamento (vagabunda, vadia, piranha, vaca, galinha, rodada, arrombada), ainda que ele venha a ser usado para agredir mulheres por motivos que nada têm a ver com sua vida sexual, porque, mesmo nesses casos, isso funciona como um lembrete a todas de que o valor de uma mulher perante a sociedade machista cai a cada vez que ela faz sexo. O que é impressionante é que, assim como a maioria das mulheres já sofreu alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida, a maioria das mulheres também já praticou alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida. Isso acontece não porque “as próprias mulheres são o problema”, ao contrário do que muitos machistas gostam de afirmar, mas porque essa é uma noção que se faz tão presente nas nossas vidas desde a nossa mais tenra infância, que se torna algo introjetado, cuja desconstrução dificilmente ocorre sem um esforço consciente nesse sentido.

Mais tarde no vídeo aparecem cenas em que essa mulher, num ato de sororidade, de reconhecimento das outras mulheres como suas irmãs na vivência do machismo que nos oprime a todas, invocando a união que devemos ter diante desse tipo de violência, diz com todas as letras a verdade que deveríamos ver escrita em letras garrafais em todos os muros de todas as casas de todas as ruas pelas quais passamos em nossas vidas enquanto somos assediadas por homens que se julgam no direito (entitlement) de nos apreciar como se fôssemos objetos para seu consumo: “Nenhuma mulher é vagabunda”.

Ela não se retraiu, ela não se encolheu, ela manteve a cabeça erguida, ainda que visivelmente chocada com a violência descarada que se desenrolava despudoradamente diante das câmeras e com a conivência e apatia des presentes, que precisaram ser chamados, convocados, para que enfim tomassem uma atitude.

Ao final, ele, o homem, o bully, gritou, em tom jocoso e vitorioso “Chora, agora! Chora!” enquanto ela, a mulher, a vítima, deixava o recinto visivelmente abalada.

E tem gente, para meu completo horror, que fala que não houve nada demais, porque ele “nem bateu nela de verdade”. Bom, primeiro que a ameaça de violência já é uma violência. Especialmente a ameaça de uma violência que ocorre durante uma discussão ou debate – um murro na mesa, um grito, uma aproximação súbita com postura ameaçadora – porque é algo que se faz para inibir a outra pessoa de dar continuidade ao seu lado da conversa por medo de sofrer uma agressão. É uma estratégia covarde de pessoas autoritárias, que gostam de encerrar a discussão no grito ou na porrada, mesmo quando estão erradas. Segundo que ele chegou a tocar nela. Pode não lhe ter causado nenhum ferimento, mas foi uma invasão brutal do espaço físico dela e a intenção de intimidá-la e agredi-la era muito clara. Torno a dizer que me parece que ela teve sorte de não estar a sós com ele naquele momento.

Depois disso, ela saiu de cena, e ele retomou a entrevista (a)normalmente, como se nada tivesse acontecido. Agredir mulheres verbal e fisicamente, aparentemente, não movem sequer um fio de cabelo em sua fronte. Nada demais, só mais um dia de trabalho.

Isso tudo aconteceu em 2003 e, como costuma ocorrer, nenhuma medida foi tomada contra ele.

Mas eis que, mais de dez anos depois, na última terça-feira, o próprio homem fez questão de requentar o assunto, com a boca cheia de um orgulho que eu simplesmente não consigo entender. O entitlement desse cara é de tirar a gente do sério.

A deputada a quem ele agredira havia acabado de fazer um discurso rechaçando a violência da ditadura e exaltando o trabalho da comissão da verdade. E esse homem, que um dia já usou uma farda, ofendeu-se até o tutano de seus ossinhos fascistas, e abriu sua fala, que se seguiu à dela, relembrando de forma completamente medonha o episódio: “Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir!”

É marcante o tom de comando, de ordem. De quem está acostumado a ser obedecido, sob pena de detesto pensar em quê. A cereja no bolo é ver o que se passou, toda aquela agressão, inclusive física, dele, reduzida ao que parece ser um papinho acalorado. Mais gaslighting.

Entrevistado, ele explica que ele não é agressivo, que ele sim luta contra o estupro, que estuprador é psicopata (estuprador é monstro, coisa que ele não é, logo, não pode ser estuprador, claro), que dizer que não estupraria Maria do Rosário foi uma ironia… isso é o que a gente chama de mansplaining (méns-pleinim) ou homexplicanismo. Quando um homem vem cagar regras em cima de uma mulher, ou seja, explicar, em tom professoral e condescendente, coisas óbvias, ou que ela já sabe, ou falar de coisas de que ele sequer entende, porque parte do princípio de que, só por ser homem, ele naturalmente merece ser levado mais a sério e sabe mais do que qualquer mulher sobre o que quer que seja. Pode ou não ao mesmo tempo ser ou vir acompanhado de gaslighting (“Por que você está irritada? Estou só conversando com você, expondo meu ponto de vista”). Eu já vi homens homexplicando para mulheres que a dor da cólica menstrual nem era tão intensa assim. Pois é.

E podemos aproveitar o ensejo para explicar o conceito de falsa simetria. Falsa simetria é quando duas coisas parecem ser (ou são expostas como se fossem) iguais ou semelhantes, mas na verdade não são. Muitas vezes isso fica evidente quando analisamos o contexto em que elas ocorrem. Por exemplo, muitas pessoas diriam que “ah, mas tem um monte de mulheres que cagam regras”. Sim, mas a questão é que o homem, quando age dessa forma em relação a uma mulher, age com todo o amparo e peso de uma cultura machista, que consistentemente valoriza e privilegia a fala do homem em detrimento da fala da mulher. É por isso que vemos tantos homens fazerem isso e não serem rechaçados, enquanto suas interlocutoras, que foram criadas para suportar esse tipo de atitude, começam a duvidar de si mesmas mesmo quando sabem que sabem do que estão falando. Chega a dar tristeza de ver.

Mas, enfim, esse cidadão machista, não contente com a sujeira que já fizera há tanto tempo, veio novamente, em sua fixação anal de fazer federem todos os ambientes de que participa, demonstrar aos homúnculos seus aprendizes a velha arte de como desvalorizar a fala de uma mulher: ao invés de atacar o conteúdo, fale da pessoa dela, da aparência dela, da sexualidade e da vida sexual dela, des filhes dela, de companheire dela; ameace-a com violências que, por ser muito macho, poderia praticar com ela, por ela ser mulher.

E seus seguidores aprendem tão bem que na própria defesa do mestre pelas redes sociais saem fazendo exatamente isso com as mulheres que ousam questionar as falas estapafúrdias dele.

É isso que é o tal argumento ad hominem. Quando, ao invés de rebater o que uma pessoa disse, alguém ataca a própria pessoa, com a intenção de, por tabela, desqualificar o argumento ou mesmo tirar o foco dele. É interessante que muitos homens digam que as mulheres estão usando essa falácia quando elas apontam que eles estão homexplicando alguma coisa. É outra falsa simetria. Apontar homexplicanismo não é desvalorizar a opinião do cara porque ele é homem. É denunciar um comportamento nocivo e machista. O problema não é ele ser homem. O problema é ele usar sua posição de homem para fazer prevalecer sua cagação de regras.

Mas, enfim, voltando ao caso do deputado, a ideia por detrás das provocações feitas por ele mais uma vez é claramente a de intimidar, ridicularizar e silenciar a mulher. Transformar o gênero dela em uma fragilidade e usar isso para desvalorizar suas posições políticas, apoiado numa cultura que “naturaliza”, normatiza, o machismo a ponto de tornar piada a indignação diante dele. Usufruir do que a gente chama de privilégio de gênero.

Por fim, como podemos ver em inúmeras falas dele, o deputado em questão tokeniza o estupro e as vítimas de estupro constantemente. Tokenizar, ou fazer token é usar uma opressão, uma causa ou pessoas de um grupo que sofre uma opressão para “justificar, defender, explicar o seu ponto de vista” (vide texto do link). Por exemplo, quando uma pessoa branca diz algo racista, mas daí se defende dizendo que não é racista porque é parente de pessoas negras. E é isso que esse cara faz quando nutre avidamente a cultura que perpetua o estupro na nossa sociedade ao mesmo tempo em que usa esse crime como pilar de seu discurso vazio de “lei e ordem”, de redução da maioridade penal, etc. Repudia o estupro, mas fala como se houvesse mulheres que considera o merecerem. Repudia o estupro, mas o usa em insultos e piadas, como forma chocar e intimidar mulheres. Repudia o estupro mas dá a entender que estupraria.

Talvez esse homem não tenha consciência disso – é o caso de muites – mas o que diminui índices criminais não é a severidade da pena, mas a sua certeza. Não adianta prever pena de morte, tortura e mutilação se todo mundo sabe que pode fazer à vontade que não dá nada. Ele próprio deveria saber disso, já que conhece por dentro essa lógica: por que outro motivo continuaria a agir com sua truculência característica, senão porque se crê absolutamente inatingível nela? De tanto fazer e ficar por isso mesmo, ele já sedimentou que é seu direito agir dessa forma. Entitlement. De novo.


***Agradecimentos à Lígia Birindelli Amenda, por ter me lembrado de adicionar o slut-shaming ao glossário!

Sobre pais e bullies

pais e bullies

Hell’s Kitchen. Reality show em que cozinheiros competem entre si, com eliminações a cada episódio até que reste apenas um, a quem caberá o prêmio de se tornar chef executivo de algum dos restaurantes de Gordon Ramsay, chef inglês célebre tanto por seus feitos culinários quanto por seu temperamento explosivo e a generosidade com que distribui insultos ao seu redor.

Chega a ser impressionante como a estrela do show – o próprio Ramsay – pode, truculenta e arbitrariamente, falar e fazer o que quiser aos participantes, que, via de regra, aceitam tudo resignadamente. Mas não parece ser só o prêmio o que os motiva a tamanha docilidade; eles de fato parecem buscar a aprovação, o respeito e a aceitação de Ramsay (o que raramente conseguem). Os competidores se derretem ao ouvir dos lábios do famoso chef qualquer coisa que se passe remotamente por um elogio, e sofrem intensamente quando se tornam o foco de suas ofensas – o que, aliás, pode acontecer independentemente de mérito passado; um único e trivial erro pode render toda uma noite de exposição e humilhação. Nos bastidores, eles expõem lacrimosamente seus sentimentos, sendo muito frequente a vergonha por “ter decepcionado chef Ramsay”.

Em momentos de confraternização com os aspirantes a chef, no entanto, o mesmo homem exibe uma doçura que, não fossem as suas diatribes gravadas e amplamente testemunhadas, não seríamos capazes de acreditar que possivelmente viriam dele. É como se fossem duas pessoas diferentes, o furioso, ultrajante e intimidador Ramsay no restaurante durante a competição e o dócil, atencioso e agradável Ramsay de fora dela.

Interessantíssimo, além de extremamente bem dirigido e soberbamente atuado, o filme “A Hora Mais Escura” (“Zero Dark Thirty”, de 2012, dirigido por Kathryn Bigelow) mostra algo incomodamente semelhante. No filme são mostradas práticas de ‘interrogatório’ de suspeitos num campo de concentração americano. Depois de ser brutalizado, torturado, humilhado, cagado, ao prisioneiro é subitamente oferecido o “privilégio” de um banho, roupas limpas, e uma refeição digna (pelo tratamento de rotina ele seria alimentado por meio de um funil metido em sua garganta, pelo qual se despejaria alguma lavagem).

E ali, desperto do pesadelo da tortura para a bênção dos pequenos confortos do mínimo de dignidade de sua pessoa humana, suas lealdades repentinamente mudam. O torturador é um cara legal, que só quer que aquele sofrimento acabe. Não lhe traz nenhum prazer degradar o interrogado daquela forma, mas ele não tem nenhuma alternativa se este não lhe der as informações de que precisa. “Eu quero ser legal, eu quero te ajudar. Me ajude a te ajudar” é a mensagem.

Em 1973, um grupo de reféns num assalto a banco em Estocolmo chocou o mundo ao demonstrar lealdade – até carinho – em relação aos seus captores. Em seu esforço de sobrevivência durante o cativeiro, haviam passado a vê-los não como o motivo por estarem naquela situação, mas como pessoas cuja “benevolência” os havia mantido vivos. Aparentemente, ao assumirem como seus os objetivos e valores de seus sequestradores, deslocaram para si a responsabilidade pelo que lhes ocorresse (“se eu me portar conforme o esperado, ficarei bem”), e passaram a sentir-se mais seguras, mais no controle, menos vítimas. Cunhou-se a partir daí o termo “Síndrome de Estocolmo” para definir casos semelhantes, e especula-se até mesmo que ela tenha um papel importante no treinamento militar, por exemplo.

É hoje moda falar sobre bullying. Mas fala-se muito como se fosse um fenômeno espontâneo, que partiria da própria criança. Já há quem fale do bullying cometido pelo professor em relação ao aluno, mas ainda é raro que se veja a correlação entre o bullying sofrido dentro de casa, no âmbito da própria família e o bullying que acontece fora dela, perpetrado pela criança.

Ora, bullying pode ser basicamente definido como atos reiterados de violência física ou emocional, ocorridos no âmbito de uma relação desigual de poder. Que nome se dá então, à atitude de um pai ou uma mãe que constantemente batem, xingam e/ou gritam com seus filhos? Educação? Criação? Por quê?

Trata-se de uma relação obviamente desigual de poder (não apenas físico), em que ocorrem reiteradamente atos de violência física ou emocional. Por que, então, imagina-se que os nefastos efeitos físicos e psicológicos do bullying (que, aliás, muitas vezes se estendem por toda a vida do indivíduo) não seriam sentidos pela vítima desse tratamento? Por que se imagina que os ganhos em termos de uma suposta “disciplina” e “obediência” (leia-se “conformação de comportamento por medo”, seja de medo de punição, seja de não ser amado) compensariam esses outros efeitos?

Como solução para o bullying propõe-se conscientizar as “testemunhas silenciosas” (as outras crianças que o veem ocorrer sem fazer nada) e os bullys quanto às consequências de seus atos para a vítima e para a sociedade como um todo. Nada se fala de revisitar o bullying que já tradicionalmente ocorre dentro de casa, ou de se conscientizar as “testemunhas silenciosas” adultas de que impedir que um pai bata no filho não é “se meter na criação dos outros”; é impedir um abuso que não deveria ocorrer nunca, jamais.

Quando se é rotineiramente maltratado física ou emocionalmente por alguém maior e mais forte do que você, qual é a diferença entre ele ser seu pai ou outra criança ou adolescente?

Na verdade, há uma diferença. A diferença é que você ama seus pais. Que você desesperadamente quer sua aprovação, aceitação e respeito. Seu amor. Só que isso, longe de tornar a situação melhor, a torna muito, muito pior. Porque não é só que você está nas mãos de um bully. Você ama seu bully. E isso torna cada humilhação sofrida ainda mais dolorosa, mais desesperadora, na medida em que se tende a voltar a raiva pela agressão contra si mesmo e não contra o agressor ou agressora.

Aliás, confusa, a criança os defende. Já que sua compreensão de mundo depende de tudo o que seus pais fazem ser “bom” e “certo”, a consequência lógica é a de que ela própria é “má” e “errada”. Não ocorre a ela o horror do tratamento violento que ela recebe. Ela que fez o que não devia, que falou o que não devia… muito como ocorre com a mulher de quem popularmente se diz que “gosta de apanhar”, a desproporcionalidade e absurdidade da reação de quem a agride não lhe é sequer compreensível. Lidar com a sensação de desamor que essa noção lhe traria é simplesmente insuportável naquele momento.

Não raro, na tentativa de não sentir esse desamor, ela abafa todos os seus sentimentos a respeito, classificando-os como “bobagem”, dizendo para si mesma que seu sofrimento é ilegítimo, que “não é motivo para chorar”, que “não é nada demais”.

 E, claro, se você dá a essa criança ou adolescente (ou adulto) a oportunidade de “virar a mesa”, de assumir, ela própria, o papel de seus pais bullies, de extravasar seus sentimentos de inadequação e humilhação ao impô-los a outras pessoas, se você lhe oferece uma válvula de escape para todo o ódio e ressentimento que ela não se permite sentir de seus pais, ela raramente irá rejeitá-la.

Eu não conheço Gordon Ramsay. Nunca li sua biografia. Mas não me admiro ao ouvir que seu pai era um homem violento e cruel.