Sim, foi estupro

 

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Ser mulher na nossa sociedade é viver tentando não se permitir perceber as violências de que se foi ou é vítima. Nem mesmo as violências que são reconhecidas pelo Estado como violências, que foram inclusive tipificadas como crimes, nos sentimos confortáveis para denunciar. E, quando falo de denunciar, não estou falando nem para a “justiça” ou para a comunidade de que fazemos parte, ou mesmo nossa própria família. Digo, antes de tudo, para nós mesmas.

Talvez seja porque, na letra fria da lei, não enxergamos as pessoas cujos comportamentos ela endereça, e menos ainda as pessoas vitimadas por aquele comportamento. A lei não endereça o trauma, não dialoga com a dor. Por natureza, ela nem teria esse poder, mesmo que quem a escreveu assim o desejasse. Ela é, em sua própria essência, um retrato sem rostos.

Não sei se isso é algo proposital, deliberado, mas, para noventa por cento das pessoas, ligar o que está planificado na linguagem inacessível e mortiça da lei ao que se passa na realidade tridimensional ao redor delas é uma ginástica cerebral excepcionalmente árdua. A lei é como um nome de luxo, pomposo e quilométrico, para uma pessoa que sempre conhecemos por um apelido simples, cotidiano. É um “José Felipe Camargo de Fonseca e Abrantes de Medeiros” para um “Zé” com quem conversamos brevemente sobre a música no elevador hoje de manhã.

Não é simplesmente como olhar a planta de um imóvel e reconhecer nela os cômodos em que se habita; sim, isso levaria algum empenho, maior ou menor conforme a maior ou menor aptidão para a coisa, ou experiência nesse exercício. Mas ler um artigo de lei e perceber nele atos que praticamos ou foram praticados contra nós demanda algo mais. Demanda, antes de tudo, que nos levemos a sério. Que nos enxerguemos como pessoas sujeitas de direito, dignas de serem resguardadas pela pompa e circunstância do legalês, do juridiquês.

Encontramos, no artigo 217-A do código penal, que trata-se de “estupro de vulnerável” o ato de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Mas quantas mulheres conseguem relacionar esse “José Felipe” ao “Zé” que aconteceu com elas? Que percebem que foram praticados atos libidinosos com elas, então menores de 14 (catorze) anos, e que isso, por si só, não importa como, quando, quantas vezes e quem fez, constitui estupro de vulnerável? Que são irrelevantes as demais circunstâncias?

Uma mulher conta dos primos mais velhos que ostensivamente a espiavam, fazendo comentários e se masturbando, enquanto ela, com doze anos de idade, tomava banho; conta de como a tia dela, mãe desses meninos, ao saber disso, não apenas se recusou a tomar providências, mas disse que era ela quem estava querendo se mostrar e eles só faziam o que “era natural” para eles.

Outra moça relata que um tio aproveitava para apalpá-la quando ninguém estava olhando. Houve um dia em que alguém enfim o pegou fazendo aquilo, mas, ao invés de socorrê-la, virou a cara para ela, passando então a olhá-la com repulsa. O abusador em si seguiu com seus abusos tranquilamente, sem sofrer a mais mínima censura ou reprovação.

Mais outra fala do padrasto que se roçava nela quando ela era criança. E que, quando ela brigava, falava que não sabia como ela ia um dia ter um homem se não gostava daquilo. Reclamar com a mãe não surtiu efeito: esta disse que a menina estava querendo chamar atenção, estragar a felicidade dela, roubar o homem dela. E daí ela se calou. E ele aproveitou.

Essas memórias são expostas como se o que se passou como se fosse um “mimimi”. Com a vergonha de quem sente que não tem cabimento sequer se lembrar daquilo. Como se o trauma, a mácula que ficou nelas, não fizesse sentido. Algo previsto em lei como crime hediondo, sendo tratado como se fosse uma bobagem.

Essas mulheres não são exceções. Infelizmente, há muitas outras, com histórias de amigos da família que “tiravam casquinhas”, professores que roubavam apalpadelas, vizinhos que encoxavam no elevador, pais de amiguinhas que mostravam o pinto, pais, avôs, irmãos, amigos de irmãos, colegas de classe… são tantas, tantas, que a sensação que eu tenho é a de que não conheço UMA ÚNICA mulher que não tenha passado por alguma violência sexual na vida dela. E, bizarramente, a maior parte delas não se dá conta de que foi isso – violência sexual – o que se passou.

E não é que não se deem conta por serem tolas ou ignorantes. É que foi consistentemente feita com elas toda uma lavagem cerebral nesse sentido. Foi-lhes ensinado, quando elas ainda eram jovens o bastante para jamais esquecerem a lição, que estupro não era nada. Que, aliás, seria “histeria” da parte delas chamar de estupros os estupros que, de fato, sofreram. Que era besteira delas ficarem incomodadas por “tão pouca coisa”. Que, ao falarem, elas próprias seriam julgadaselas é que provocaram, elas é que não pararam, elas é que estão inventando, elas é que são sem-vergonha. Que elas teriam que perdoar. Que elas estariam “arruinando a vida de um homem de bem” por conta de “nada”. Que estariam “destroçando a família” por puro “egoísmo”. Egoísmo. Delas. Afinal, “homens fazem o que homens fazem”; “eles são assim mesmo”.

Não lhes ocorre, quando olham para trás, mesmo sentindo o arrepio de asco e o gosto amargo de tantos sentimentos reprimidos a tanto custo, que o que lhes foi feito não é normal, não é natural. Que não é porque todo mundo tem uma história assim que é ok que histórias assim continuem se repetindo. Que não é ok que estupros desse tipo continuem ocorrendo, sem que ninguém faça nada a respeito, como se não justificassem uma atitude.

Precisamos rasgar essa mordaça de culpa, vergonha e medo. Precisamos falar dessas coisas. Ainda que não possamos ou não queiramos processar criminalmente os responsáveis, precisamos reconhecer e nomear essas violências e legitimar o sofrimento que elas causam. Se não por nós mesmas, por nossas meninas. Para que elas jamais tenham que repetir para si mesmas, sozinhas, escondidas, tentando esquecer o inesquecível: “não foi nada”.

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Gaslighting desde o berço

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No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

“Estou ficando louca?”

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Cena do filme Gaslight, 1944

 

Você já entrou numa discussão com toda a certeza de que tinha razão e saiu dela se desculpando, com uma sensação estranha de confusão, de que o mundo tinha virado do avesso?

Eu nunca pensei, quando ingressei no serviço público (sim, eu estive no serviço público por alguns anos), que um dia eu seria a “louca do departamento”. Sabe? Aquela pessoa que todo mundo cochicha quando passa, que é “louca de tomar remédio”, que tira licença para fazer tratamento psiquiátrico (e um tanto de gente acusa de estar só enrolando, inclusive)? Essa.

Mas eis que um dia eu me olhei no espelho e ela estava lá, me encarando de volta, com olhos esbugalhados, olheiras profundas, o rosto abatido, os cabelos desgrenhados. “Como é que você foi parar aí?” Perguntei, num misto de nojo e pena. E ela me contou. Mas foi só anos mais tarde que aprendemos que o que havia ocorrido tinha nome.

Eu já fiz um texto em que expliquei brevemente a minha interpretação de alguns termos interessantes que usamos no feminismo, inclusive o gaslighting (lê-se “gaslaitim”), de que vou tratar aqui; mas esse é um conceito que, para mim, foi tão necessário e libertador, que sinto a necessidade de falar mais esmiuçadamente a respeito dele. É engraçado como é importante, como é empoderador, nomear o gaslighting, conhecê-lo e reconhecê-lo. É como se nos vacinasse.

A definição básica de gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade. Isso pode chegar ao ponto de a pessoa (e/ou quem convive com ela) começar a duvidar de sua sanidade mental ou mesmo acreditar piamente que a perdeu. Um de seus objetivos mais frequentes é o silenciamento.

O termo vem de uma peça de teatro de 1938, de Patrick Hamilton, chamada “Gaslight”, com duas adaptações para o cinema, uma britânica, de 1940, e outra americana, de 1944. A peça fala sobre um homem que pratica gaslighting com sua esposa até que todes, incluindo ela mesma, pensem que ela está mentalmente doente (tem outras coisas na trama, claro, mas eu não vou entregar).

O gaslighting, a meu ver,pode ocorrer em duas esferas: a primeira, da confiança da pessoa em sua própria percepção, e a segunda, da confiança de outras pessoas na percepção dela. Nem sempre ele atinge a ambas, mas sempre atingirá (ou tentará atingir) a pelo menos uma delas.

Por isso, as pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são as pessoas que já sofrem o preconceito de serem “loucas”, “irracionais”, “governadas por hormônios”, “histéricas”, “barraqueiras”, “brutas”, “sensíveis demais”, “gagás”, que “não falam coisa com coisa”. Ou seja, toda e qualquer pessoa cujas palavras, opiniões e sentimentos tendam a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo: mulheres, crianças, adolescentes, idoses, pessoas negras, pessoas LGBT, pessoas que sofrem de doença mental, pessoas com deficiência, pessoas cujo discernimento seja limitado por algum motivo, etc.

Como a sociedade já dá, injustamente, menos credibilidade a essas pessoas, o trabalho da pessoa gaslaiteadora de descreditá-las perante outrem é facilitado, já está praticamente pronto. Além disso, por estarem habituadas a esse tratamento, elas próprias podem já ter introjetado esse gaslighting, já tendo muita dificuldade de confiar em seus próprios sentimentos e percepções, deixando também pronto o trabalho da pessoa gaslaiteadora nesse sentido.

As crianças são, para mim, as maiores vítimas dessa forma de abuso psicológico e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem percebe que é isso o que fazem. É tanta coisa para falar a respeito que farei um post só para tratar disso. Me aguardem.

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A forma mais crassa de gaslighting, a mais desavergonhada, é alguém falar que não fez algo que fez, ou fez algo que não fez (ou falou). Este vídeo sensacional do Porta dos Fundos ilustra bem essa situação.

Um outro exemplo: marido se compromete a passar o dia com as crianças; de última hora, resolve sair para jogar bola com os amigos; ao invés de reconhecer sua falta de palavra, faz de conta que nunca prometeu nada.

Não é que ele finja que esqueceu, simplesmente. Se ele fizesse isso, ele estaria mentindo, mas assumindo que falhou, mesmo que não admitisse que a falha foi deliberada. O que configura o gaslighting dele é o fato de que ele tenta imputar a falta de compromisso dele a uma “viagem” (um erro de percepção) da pessoa com quem ele assumiu o compromisso, que fica lá pensando “ué… será que estou ficando louca? Será que realmente não chegamos a conversar a respeito e eu imaginei tudo? Mas eu lembro! Mas ele está falando com tanta certeza…” e assim por diante. A pessoa, especialmente por acreditar na boa-fé da outra, parte do princípio de que ela própria deve estar enganada. Que ela tem que estar enganada. Porque, né, quem faz isso? Quem tem tanta desonestidade, tanta frieza, tanta cara de pau? Pois é. Tem gente que tem.

Que nem quando um estuprador (ou até pedófilo!) fala que o ato foi consensual, que a vítima sabia muito bem o que fazia, ou mesmo que nada aconteceu, que ela é uma louca inventando isso para prejudicá-lo, para chamar atenção. Gaslighting.

Também é gaslighting quando alguém leva outra pessoa a duvidar de sua percepção em relação aos fatos, mesmo admitindo os fatos em si. É o que acontece nos casos em que se culpa a vítima pelos atos nocivos de outra pessoa. Quando se justifica o estupro com a conduta ou das roupas da vítima, quando se justifica a violência doméstica com o fato de a mulher não ter saído do relacionamento depois ou mesmo antes da agressão, quando se justifica a cesárea desnecessária com o “consentimento” obtido através da coação da mulher em pleno trabalho de parto. Sabe quando a pessoa vira a mesa e joga a culpa que é dela para outra? Então.

No caso do marido que mencionei acima, ele praticaria essa versão de gaslighting se, quando confrontado a respeito de sua falta de compromisso, ele virasse para a outra pessoa e dissesse que só prometeu porque ela forçou a barra, que é pelo bem dela ou das crianças que ele vai sair jogar futebol, que é porque ele está estressado porque ela briga tanto com ele, que foi ela mesma quem sugeriu que ele deveria sair, etc. Como se algo que a outra pessoa supostamente fez ou falou desse a ele o direito de não cumprir sua palavra. Pior, como se nem fosse um ato deliberado, uma escolha dele, mas algo a que ele se vê forçado pelas circunstâncias, coitado dele. De novo, o cara está tirando o foco do fato de que a atitude dele é errada e fazendo a outra pessoa pensar e sentir que o erro, na verdade, é dela. Que ele é a vítima ali.

Acontece muito em casos de traição conjugal. Casal monogâmico, uma das pessoas vai e faz sexo com alguém de fora e depois fala que foi levada a isso porque suas necessidades (afetivas, sexuais, o que for) não estavam sendo plenamente satisfeitas dentro do relacionamento. Como se isso escusasse a desonestidade e deslealdade de seus atos.

Tem também a deslegitimação, que eu chamo de gaslighting emocional. Agir ou falar como se a outra pessoa não tivesse o direito de sentir o que for, como se o sentimento dela não fosse justificado; minimizar o acontecido, impor que a pessoa perdoe e/ou esqueça, dizer ou implicitar que é exagero, ou mesmo diretamente negar que haja qualquer causa para a pessoa se sentir daquela forma.

Aliás, é incrível a dificuldade que muitas pessoas têm de entender que sentimento não precisa ser justo, motivado, fazer sentido. Sentimento a gente não escolhe, não tem por querer, não é certo, nem errado. Sentimento a gente sente, e só. Podemos ter um problema com o que alguém faz a partir do que sente, mas não tem cabimento recriminar ou reprovar o sentimento dela em si.

Voltando ao assunto, é o que acontece quando alguém passa por uma violência e, ao falar a respeito, ouve que tem que “entender o outro lado”, por exemplo. Não nego que empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faça parte do processo de reabilitação e seja algo importante a se fazer. Mas não faz sentido defender a parte agressora para a vítima que, num momento de completa vulnerabilidade, desnuda um trauma pelo qual passou. É uma questão de contexto.

Também é muito comum que pessoas pertencentes a grupos oprimidos, ao apontarem discursos e atos que reforçam essa opressão, ouçam de volta que “estão de vitimismo”, ou que “ai, agora tudo é racismo”, ou que “foi só uma piada”, ou que “você não soube interpretar”, e por aí vai.

Retomando o marido lá de cima, ele estaria praticando essa forma de gaslighting se falasse para quem reclama com ele que a pessoa está exagerando, implicando, procurando pelo em ovo, ou se saísse com o irônico “tá, eu só faço merda/só cago/sou um bosta mesmo”.

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Por fim (aqui no texto, não nas formas possíveis degaslighting, que são infinitas, infelizmente), tem uma espécie de gaslighting especial que eu chamo de “gaslighting de flagrante preparado”. Flagrante preparado é quando a pessoa é induzida a praticar o delito por obra de outra pessoa que a instiga àquilo justamente com o intuito de incriminá-la. A propósito, juridicamente, é uma modalidade ilegal de flagrante (súmula 145 do Supremo Tribunal Federal).

gaslighting de flagrante preparado é quando uma pessoa provoca, cutuca, escrotiza e, claro, gaslaiteia outra até esta perder a cabeça, e daí usa isso, essa explosão, como desculpa para desconsiderar os argumentos e sentimentos desta. Muitas vezes, inclusive, se utiliza disso para descreditar a pessoa gaslaiteada perante a outrem, para que também desconsiderem seus argumentos e sentimentos. Sabe o povo do “apelou, perdeu”? Então.

Muito comum no contato com as criaturas passivo-agressivas do mundo.

Esclareço que não estou defendendo a agressão (até porque isso pode cair naquele caso de gaslighting em que a pessoa culpa a outra por seus próprios atos). O que estou falando é que não é porque alguém se descontrola que podemos ignorar o que essa pessoa tem a dizer. E que é de uma monstruosidade indescritível usar contra uma pessoa o descontrole que conscientemente se provocou nela. E que há pessoas que fazem isso. Deliberadamente.

Nos casos de assédio moral, como o de que fui vítima, é muito comum o gaslighting de flagrante preparado, especialmente porque costuma haver toda uma hierarquia envolvida, uma autoridade de que se abusa para pressionar a pessoa gaslaiteada, que é enlouquecida em fogo brando até explodir e, a partir daí, começa a agir de forma descontrolada, dando munição para quem diz que o problema na verdade é ela.

Pode parecer pouca coisa, um drama de escritório, mas não é. É uma forma de abuso psicológico muito grave e muito tóxica e é um sintoma de uma sociedade que é seletiva em relação às pessoas que merecem seu acolhimento. Há relativamente pouco tempo, tivemos um verdadeiro holocausto brasileiro e quase ninguém sabe. Por quê? Porque aconteceu com pessoas “loucas”. E quem quer ouvir o que elas têm a dizer?


 

Gostaria de agradecer pelas trocas com as inúmeras mulheres que conheço que, como eu, vivenciaram (e/ou vivenciam) essa forma de violência psíquica em suas vidas e compartilharam suas impressões comigo. Dedico a vocês este texto.

“Mas ele não me bate”

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Ela diz. E eu entendo.

Não sei se é ela mesma quem nega a própria dor, ou se outra pessoa, talvez A outra pessoa, faz isso por ela.

Ela não percebe que ele não precisa tocar num só fio de cabelo dela para esmigalhar seu espírito, para destroçar sua alma.

Ela não vê que, mesmo sem nem se aproximar, ele a está intimidando quando levanta a voz e estufa o peito em direção a ela no meio de uma discussão. Ela não se vê encolher, muitas vezes literalmente contra a parede. Não percebe que, quando “só” isso não basta, ele esmurra e chuta objetos inanimados como um gorila que bate no peito diante de um adversário. A mensagem é cristalina, ainda que não verbal: “Submeta-se! Ou eis o que farei com você”.

Se alguém nos ameaça e nós recuamos, isso significa que a pessoa não é violenta? A ameaça é uma violência em si.

“Mas eu sei que ele jamais me machucaria”, ela o defende, defendendo a si mesma da vergonha que sente por se permitir humilhar assim.

E eu sei que ela sabe que isso não é bem verdade. Sua mente racional tem para si muito claro que ele é inofensivo, mas existe nela um instinto que reconhece a iminência da agressão e a faz retrair-se toda vez que ele grita, olha para ela com ódio, bufa, cerra os punhos. E isso basta para que ela perca as palavras, não se imponha, não o confronte. Para que ela fique ali, paralisada pelo temor. Para que ela engula e introjete, uma a uma, as coisas horríveis que ele lhe diz.

“Mas ele não é assim o tempo todo”, ela fala, mais para si mesma que para mim. E eu sinto ainda mais raiva dele. Porque é tão mais fácil quando eles são escrotos o tempo todo e com todo mundo. Daí, nunca tem, nem fora, nem dentro da gente, uma criatura especial para dizer que vale a pena manter o relacionamento.

Raramente é assim. Pessoas agressoras ainda são pessoas, humanas, como todas as outras. Elas podem ter momentos de ternura, podem ter qualidades, virtudes. Mas nada disso torna menos violentas as suas violências quando elas ocorrem. Nada disso diminui o trauma que seus atos e palavras causam em suas vítimas. As flores que vêm depois não apagam as dores que vieram antes. As desculpas não apagam as culpas.

As memórias felizes permanecem, como contas coloridas e brilhantes ligadas num colar confuso por uma linha de medo e sofrimento. Mas as contas com o tempo começam a ficar mais e mais esparsas e a gente começa a não ter mais como não ver entre elas aquele fio feio que se alonga cada vez mais.

Por quê? Por que ela fica?

Talvez ela já tenha passado por isso antes, talvez tenha crescido com alguém que a tratava assim e agora, diante de outra pessoa que age dessa forma, ela volte a ser aquela criança espancada por berros e perdigotos raivosos, esquecida de seu tamanho adulto, de suas pernas capazes de carregá-la para longe dali. Talvez, na cabeça dela, ela já tenha sido horrível com alguma pessoa e este seja o carma dela, uma retribuição que ela deve pagar, por algum motivo cósmico e inexplicável. Talvez ela tenha crescido aprendendo que o papel de uma mulher é cuidar da pessoa com quem se relaciona, mesmo que essa pessoa lhe faça mal, aliás, especialmente se essa pessoa lhe fizer mal; que faz parte da paixão fazer mal, fazer chorar e doer. Talvez ela sinta que merece ser punida. Que não é adequada e deve ser punida até que se torne aceitável. Algo assim.

Tantas explicações possíveis para ela estar ali, diante de mim, murcha, esvaziada de si mesma. Uma boneca humana recheada pelas vontades de outra pessoa, um saco de pancadas, ainda que não físicas. Uma mulher formidável que hoje olha para si mesma apenas com repugnância.

E ela continua lá. Por que eu estou aqui, então? Porque eu sei que é do isolamento da vítima que o abusador se alimenta. E é por isso que eu jamais a abandonarei, ou a afastarei com recriminações e julgamentos.

Não faz diferença o motivo por que ela fica nessa relação. Não faz diferença há quanto tempo ela está nela. O que fará diferença será o momento em que ela sair dela. E cada momento que chega pode ser esse momento.

Não a condeno pelo momento que já passou (isso ela já faz o bastante). Aproveito o momento presente para abraçá-la e acolhê-la. Lembrá-la de que não está só. E vou nutrindo esperanças pelo momento que ainda virá.