Acolhimento

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento

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“Mas eu não abortaria”

Esta semana vi uma campanha no facebook para que mulheres postassem fotos de si mesmas grávidas, dizendo serem contra o aborto.

Muitas participaram, muitas outras participaram para dizer que, apesar de terem filhes, são favoráveis à legalização do aborto, ou pelo menos à descriminalização do aborto. Inúmeros posts foram feitos a respeito, nos mais diversos blogs.

Em meio a isso tudo, no grupo feminista de que participo, uma pessoa querida trouxe um debate muito interessante: a posição do “eu não faria, mas sou a favor” ou “sou a favor, mas não faria”. De onde vem a necessidade de dizer que não faria? Não seria, de certa forma, um julgamento moral, uma forma de dividir as mulheres em duas classes – as que fariam e as que não fariam?

Seria realmente empático da parte de alguém defender o direito ao aborto seguro enquanto ainda se condena essa prática como uma “atrocidade” ou “monstruosidade” ou “assassinato” ou algo assim?

Eu já abortei e, a mim, particularmente e pessoalmente, não me ofende alguém só dizer que não faria. Para mim, não é o mesmo que dizer “considero uma atrocidade, mas apoio o seu direito de cometê-la” ou “acho uma merda, mas ok outra pessoa fazer”, ou mesmo falar “eeeeeeu não faria” (assim, com uma entonação que deixa poucas dúvidas sobre o que a pessoa realmente acha de quem faz).

Um mero “eu não faria”, para mim, soa apenas como uma pessoa falando de si própria. Dizendo que ela, por uma miríade de motivos (que não se atêm aos religiosos, vide haver pessoas religiosas que abortam e pessoas sem religião que não abortam), acredita que não faria um aborto.

Digo “acredita” porque, como quem já engravidou – de propósito ou sem querer, desejada ou indesejadamente – sabe, engravidar muda muita coisa na gente. Eu já vi pessoas que sempre disseram que não queriam ter filhes e que abortariam se engravidassem resolverem ter a criança, assim como já vi pessoas que sempre juraram que nunca, jamais, nunquinha, de forma alguma, abortariam (bastante julgamento moral aí), depois de se verem grávidas, em pouco tempo passarem a pertencer a esse grupo de mulheres que antes elas tanto haviam julgado. Frise-se o plural em ambos os casos, porque não falo de uma mulher nem duas.

Mesmo assim, fica a pergunta do por que, do para quê. De onde vem a necessidade de a pessoa oferecer gratuitamente essa informação sobre si mesma, se é algo que trata apenas dela e não tem nada a ver com apoiar ou não a legalização do aborto?

Bom, primeiro, penso na pressão de outras pessoas – família, amiges, eventuais colegas de trabalho, ou pessoas que frequentem o mesmo lugar de culto religioso – especialmente se estamos falando de posicionamentos em TL de facebook. Essa pressão se torna ainda maior pelo fato de estarmos falando de algo que, infelizmente, ainda constitui um crime na nossa legislação. Não são poucas as pessoas que defendem a suprema baboseira de que o mero falar a respeito e defender a legalização seria um crime em si ( a “Incitação ao crime”, prevista no artigo 286 do Código Penal – “Incitar, publicamente, a prática de crime”), como forma de silenciar e censurar opiniões pró-legalização.

A pessoa que sucumbe a essa pressão tenta fugir da mesma reprovação moral de que nós, mulheres que abortam, sofremos. Eu acho, claro, que seria muito útil que ela desconstruísse isso. Útil para ela e para a coletividade em que ela está inserida. No entanto, não me sinto no direito de exigir essa desconstrução dela, porque penso ser algo que cada pessoa tem seu tempo – e seu desejo ou não – de fazer. Sinto que empurrar pessoas para que enfrentem essa repressão é tão injusto quanto, guardadas, claro, as devidas proporções, exigir que pessoas LGBT saiam do armário quando elas não se sentem prontas para fazê-lo. A pressão para elas é invencível naquele momento.

Todas as vezes em que eu falo sobre aborto há pessoas que me procuram com mensagens privadas de apoio. Muitas delas jamais abortaram e acreditam que não o fariam e mesmo assim empatizam tanto com a mulher que aborta que sentem a necessidade de manifestar isso de alguma forma. O fato de elas temerem sofrer represálias por conta desse posicionamento diminui a validade do acolhimento que elas se dispõem a prestar? Eu sinto que não.

Outro ponto é o valor argumentativo dessa assertiva. Dizer “eu não faria, mas defendo o direito de fazer” realça, para mim, a necessidade de não impormos a outras pessoas nossos próprios valores, crenças, vontades, etc. Frisa a desnecessidade de concordância com o ato para a aceitação dele.

A presença dessa declaração, muitas vezes, longe de ser uma forma de criar a distinção entre as mulheres que fariam e as mulheres que não fariam, é uma forma de lembrar a todes precisamente a irrelevância da posição pessoal de cada ume sobre si mesme quando se pensa numa criminalização que é aplicada a toda a coletividade. É uma forma de demarcar que a legalização obviamente não torna obrigatório o aborto, mas apenas o possibilita para quem o QUEIRA.

Há quem problematize (com muita propriedade) se não seria contraproducente tentar desfazer uma distinção através de uma fala que aparentemente a reafirma. Mas eu acredito que não, porque já vi discussões em que foi esse posicionamento que permitiu que a pessoa percebesse que falar de legalização do aborto não é, necessariamente, falar dela própria abortar ou não.

Um outro aspecto, não menos importante – aliás, o mais proeminente para mim nessa questão da empatia – é a necessidade da pessoa de reafirmar para si mesma valores que, talvez, sinta-se traindo ao defender a legalização do aborto. Porque ela pode ter convicções tão profundas quanto ao aborto ser algo fundamentalmente errado que lhe seja muito difícil conciliar isso com sua defesa do direito de outras pessoas decidirem sobre algo que envolve a autonomia que têm em relação a seus corpos. E falar isso talvez seja a forma que essa pessoa encontrou de ficar em paz com um posicionamento que ela sente ser contraditório ou incoerente. E eu respeito isso.

Eu, pessoalmente, não acredito que um feto seja uma criança, a menos que seja uma criança para a mulher em cujo corpo ele está. Eu penso que o que torna o feto um bebê é a mulher que o carrega vê-lo dessa forma: humanizá-lo, personalizá-lo. Não é algo baseado na ciência ou na religião, é quase uma forma de sentir. Afinal, eu já engravidei três vezes, mas em apenas duas senti que havia uma criança crescendo dentro de mim.

Daí, por pensar dessa forma, às vezes me esqueço de que muitas pessoas acreditam que há um bebê dentro de cada mulher grávida desde o momento em que ocorre a concepção. De que, quando eu falo em aborto, essas pessoas ouvem assassinato. E reagem, muitas vezes, com a mesma revolta com que eu reajo quando pessoas falam de seu “direito” de maltratar crianças.

Então eu tento manter isso em mente nas minhas interações com outras pessoas quando trato do assunto – que elas não necessariamente sentem e pensam como eu em relação a isso e que elas não precisam sentir e pensar como eu para me apoiarem no meu sentir e pensar e, inclusive, agir. Que, aliás, me parece uma grande demonstração da tolerância  que eu considero essencial à vida em sociedade que elas sejam capazes de colocar de lado convicções tão profundas e aceitarem o meu direito de praticar um ato que muitas vezes vai contra tudo em que elas acreditam.

A empatia, para mim, não está em não julgar, mas em colocar o meu julgamento de lado por um segundo e me colocar na posição da outra pessoa, tentar ver pela perspectiva dela o que se passa com ela, me despindo, naquele momento, das minhas próprias crenças, da minha forma de ver o mundo, e adotando as dela.

No meu entender, empatizar inclui aceitar que a pessoa pode pensar diferente. Que ela tem o tempo dela para desconstruir e o querer dela em relação a fazê-lo ou não. E que não é porque eu acho que ela deveria desconstruir que ela tem que desconstruir, já que, assim como eu acho que ela deveria desconstruir, ela também pode achar que quem deveria desconstruir sou eu. A moral de cada pessoa só cabe a ela própria trabalhar – ou não.

Por isso, não me incomoda que a pessoa tenha para si mesma que eu cometi uma atrocidade, uma monstruosidade, um assassinato. Não creio que alguém pense assim porque quer, simplesmente. Conheço casos de pessoas que veem o aborto como infanticídio e mesmo assim o fizeram, porque se viram forçadas a isso pelas circunstâncias em que estavam, e hoje ainda se odeiam por isso. Será que alguém faz isso por vontade? Será que alguém vive em conflito porque gosta de sofrer? Não acredito nisso. Me incomodaria sim se ela manifestasse esse julgamento de forma a me ferir com ele, se ela pretendesse me adequar à moral dela, me impor o sofrimento que ela sentiria no meu lugar.

Agora, obviamente, não é porque algo não me fere que não fere a qualquer outra mulher que tenha feito um aborto. A maioria delas se ressente e muito de ver a necessidade de outras pessoas de logo estabelecerem que não fariam um aborto, mesmo quando defendem sua legalização. E isso, só isso – saber que há alguém que, quando eu falo assim, se sente julgada e discriminada, ao invés de apoiada – para mim, como diria Lucys Santos, já seria motivo para evitar essa fala.

Além disso, o aborto é invariavelmente um tópico delicado para quem passou por ele. Especialmente por conta da ilegalidade, o tratamento (ou até não tratamento, que infelizmente acontece bastante) que mulheres recebem durante o procedimento muitas vezes é traumatizante. A sensação de desamparo, de frieza, o medo de morrer, o medo de ser descoberta, muitas vezes se somam a outros sentimentos comuns (embora nem sempre presentes) a respeito, de pesar, culpa, tristeza, reprovação moral, temor religioso, etc. São lembranças que frequentemente passam a assombrar a mulher que aborta para o resto da vida dela.

Me parece absolutamente irrazoável exigir que alguém que passou por tudo isso, alguém que está na posição de pessoa oprimida, aliás, ainda tenha empatia e compreensão quando as palavras de outres cutucam essa ferida, que tantas vezes sequer chegou a cicatrizar. Que muitas nunca tiveram a chance de elaborar, falar a respeito, por medo de serem presas.

O pior aspecto da criminalização, ao meu ver, é esse silêncio. É essa falta de franqueza, de diálogo. Não só porque haja mulheres sofrendo sozinhas enquanto precisam do nosso apoio, mas porque essa troca facilitaria a empatia tão necessária na compreensão da posição da outra pessoa e no respeito ao direito dela em relação ao seu próprio corpo. Porque é fácil ser contra um ato em abstrato, sem ter que olhar nos olhos de quem o comete. É fácil esquecer quem está ao redor do feto, do embrião, quando aquela pessoa não está diante de você.

Se, por um lado, não temos como mudar de fora a moral das pessoas, por outro, sinto que a legalização seria uma forma de estabelecer limites para que a moral pessoal de um indivíduo não extrapole a sua pessoa, impondo-se a outrem. Ao mesmo tempo, a legalidade abriria o caminho para a conversa que poderia suscitar o acolhimento que permite o apoio à outra pessoa mesmo quando os atos desta contrariam a nossa moral.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já tenham feito pelo menos um aborto. Mulheres solteiras, casadas, com filhes, sem filhes, com grana, sem grana. Olhe ao seu redor, para as mulheres que você ama. Uma delas (ou mais!) pode estar neste momento sofrendo muito com as suas palavras e você jamais saberá disso. Isso não é suficiente para que você reconsidere seu uso?

Asfixia emocional

Sufocar

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir.

No processo de aprender a ser a melhor mãe que eu poderia ser, eu aprendi a acolher. A empatizar. E isso mudou a minha vida.

Esse acolhimento me surpreendeu ao iluminar partes de mim que antes eu mantinha no escuro. Me peguei, de repente, abraçando uma menininha triste e assustada que eu encontrei num canto, escondida sob camadas e camadas de raiva. Uma menininha de cuja existência eu havia me esquecido por completo, que a vergonha de sentir, de chorar, tinha me feito enxotar da memória.

Depois de dar voz à dor que ela sentia, um pequeno milagre aconteceu: comecei a sentir também a dor dentro de outras pessoas. Minha percepção do mundo e de quem estava ao meu redor mudou. Subitamente, éramos todes crianças tristes e assustadas, tentando sobreviver ao que não queríamos lembrar.

Hoje eu entendo. Como podemos nos abrir para os sentimentos de outras pessoas, como podemos nos dispor a sentir com elas o que elas sentem, e não apenas entender o que elas pensam, sem que tenhamos antes abraçado os nossos próprios sentimentos negados, reprimidos, silenciados?

Como reconhecer em você o que há em mim se eu não suporto antes me olhar no espelho?

Se estamos tentando não sentir, não conseguimos lidar com o sentimento de outrem, porque a dor lá fora nos faz recordar da dor aqui dentro. Incomodades, queremos que aquilo acabe logo, mas, por mais que queiramos, não temos como fazer alguém parar de sofrer (o que nos faz sentir, ainda por cima, impotentes). É aí que podemos optar por agir egoísta e pragmaticamente sobre aquilo que efetivamente está sob o nosso controle; não o sofrimento em si, mas a demonstração dele para nós – o choro, as lamúrias, os lamentos que se desenvolvem diante dos nossos olhos e ao alcance dos nossos ouvidos.

É por isso que nossas palavras de conforto mais comuns frequentemente carregam, no fundo, a conotação de “pare com isso”: “não foi nada”, “não chore” ou “vai passar”, por exemplo. Todas elas, ao invés de realmente oferecerem um ombro, apenas impõem o fim da exposição daquela dor diante da gente. No fundo, quando confortamos alguém dessa forma, só quem se conforta somos nós.

E como reage a pessoa cujo sofrimento incomoda a quem está à sua volta, ou a quem ela ama? Fugindo para poder sofrer em paz, talvez, ou, mais provavelmente, engolindo seus sentimentos e corroendo-se aos poucos, por medo de afastar as outras pessoas.

É isso que acontece com a criança. Para ela, a ideia de viver distante do amor de seus pais é simplesmente excruciante; o medo do abandono é absoluto e avassalador. Qualquer coisa lhe parecerá melhor que isso.

Não creio que seja o intuito de nenhum pai ou mãe que eu conheço desamparar ses filhes num momento de angústia. No entanto, frequentemente, a impressão que passamos às crianças infelizmente não é essa. “Seu sofrimento me incomoda. Pare ou eu vou embora” é a lição que a criança aprende com cada noite passada chorando sozinha no berço, com cada explosão emocional à qual, por birra adulta, viram-lhe as costas, com cada ameaça de violência por sentir que ela recebe – como “vou te dar motivo para chorar”, ou “se você disser de novo que me odeia, vou embora”, ou “se você disser que odeia o seu irmãozinho, vai ficar de castigo”. Com cada machucado e tombo e susto tratados com “já passou”.

Ah, “já passou”. Eu poderia escrever uma tese sobre esse já passou. Duas palavrinhas tão pequenininhas e tanto autoritarismo, tanto silenciamento, tanto adultismo nelas. Tanto gaslighting*. Desde quando se pode, de fora de alguém, determinar quando o sofrimento dessa pessoa acaba ou não? Se a pretensão em si já é absurda, dar voz a ela é uma crueldade. Mas mesmo mães pais muito carinhoses e bem intencionades continuam reproduzindo essa fala, pois tanto a escutaram ao longo de suas próprias infâncias que não se dão conta do quão violenta ela é.

Essa frase, como as que eu citei acima e tantas outras, é um bolo de alfinetes recoberto por algodão. Parece doçura, parece carinho, parece apoio, mas, no fundo, é só uma ordem muito egocêntrica e autoindulgente emanada da pessoa adulta direto para o coração da criança: “cale-se!”

É assim que internalizamos a noção de que só merecemos e recebemos amor quando estamos felizes e somos agradáveis. Não é à toa que tantas pessoas cometem suicídio “inesperadamente”, sem ter dado mostras da profundidade da depressão em que se encontravam. Até o final, elas têm a sensação de que precisam manter a qualquer custo a fachada da felicidade ou se verão completamente sozinhas naquela escuridão.

É uma lição que, na maioria das vezes, levamos para o resto das nossas vidas, acarretando não só falta de autoconhecimento, mas também o desprezo, deslegitimação e invalidação de nossos próprios sentimentos. Muitas vezes nos orgulhamos dessa repressão e ostentamos como medalhas as neuroses que ela nos causa, como se fossem mostras de força. “Estou cada vez melhor, melhor e melhor”, murmuramos rangendo os dentes para os nossos botões inquietos.

Mais do que isso, como dito, por termos aprendido desde cedo a não sentir, aprendemos também a não tolerar o sentimento de outrem, a não ser que seja algo feliz e bonito e sorridente, que não seja desagradável para ninguém. Não apenas evitamos chorar, como passamos também a considerar fraca e inconveniente a pessoa que chora. Nos afastamos (quem sabe até com repugnância) de quem “escolhe” sofrer e falar de coisas ruins e, se um dia nos tornamos mães e pais, o nosso impulso será o de reproduzir esse silenciamento também com nosses filhes (além de todas as outras pessoas ao nosso redor), que, por sua vez, um dia crescerão e darão continuidade ao ciclo tóxico do recalque.

Podemos passar nossas vidas tentando construir uma nova realidade para nós, mas nada de fato mudará enquanto mantivermos nossas caixas-pretas sentimentais intocadas e seu conteúdo inalterado. O mundo lá fora não terá salvação enquanto o mundo aqui dentro não for tido como digno de ser salvo, enquanto o que se passa nele sequer for ouvido ou considerado.

Quando vejo um certo tipo de ira, invariavelmente me pergunto se ela não seria um cobertor pesado com que se abafam os soluços de uma criança que há anos chora sozinha, sufocando lentamente longe da luz do acolhimento.

______________

*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.

Uma prece.

woman praying silhoutte

Se eu posso, como mãe, desejar alguma coisa e alguma linda criatura me atender – seja fada que bate asas de purpurina, seja um deus em que não acredito ou um orixá que eu desconheço…

Eu desejo que mes filhes confiem em mim.

Que o meu colo seja sempre um porto seguro para eles.

Que no momento da dor, do medo, do erro, do arrependimento, da vergonha, eles jamais deixem de me procurar por receio do que eu vá fazer com eles, ou com outras pessoas, ou do que aquilo vá fazer comigo.

Que eles nunca tenham medo de me partir ao meio com sua tristeza.

Ó, deusa, santos, elementais, espíritos que talvez caminhem na Terra e todos os anjos que por aqui pairarem, ouçam o meu pedido desesperado e sincero e comovam-se com ele: que nunca uma das minhas crianças, seja qual for a sua idade, chore sozinha escondida de mim.

Eu sei que para viver de verdade a gente tem que se arriscar a sofrer; por isso, eu me resigno, eu me conformo, eu aceito que elas sofrerão. Eu tento.

Mas eu imploro, eu rogo, com meus infiéis joelhos fincados no chão e a minha alma nas minhas mãos, que eu tenha forças para ver suas lágrimas sem tentar enxugá-las, que eu tenha coragem de ouvir seus lamentos sem querer silenciá-los, que eu tenha serenidade para empatizar com elas sem roubar-lhes o protagonismo.

Que elas jamais sintam que, para mim, suas angústias são um fardo ou suas aflições são um incômodo.

Que elas sempre saibam que eu preferiria mil vezes morrer chorando e segurando a mão delas a seguir vivendo sem saber que, quando as luzes se apagam e ninguém está vendo, elas silenciosamente choram até dormir.

Amém.

O sexo frágil – ou por que eu preciso do feminismo

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

“Você é uma mulher forte”. Eu já gostei de ouvir isso.

Hoje, não é que me ofenda. Mas eu tenho outra sensação quando dizem isso para mim. Eu falo palavrão, digo o que penso sem me desculpar, ocupo espaço, olho nos olhos, tenho um aperto de mão firme… eu ajo sem demonstrar medo de ser quem eu sou. Em outras palavras, sou, em pequenas coisas e muitos trejeitos, o que a maior parte das pessoas esperaria de um homem. Daí que sou “forte”.

Por isso, dizerem que eu sou forte virou, para mim, um biscoitinho que o patriarcado (o machismo institucionalizado) joga para mim por eu ser “mais homem e menos mulher”. Porque ser mulher é ser fraca.

Essa mudança na minha percepção aconteceu porque eu hoje sei que essas coisas não são o que me faz forte. Se eu sou forte – e sim, eu sou forte – é porque eu sobrevivi. A minha mera presença no mundo neste momento comprova a minha força. Eu lutei e eu prevaleci.

Contra quem?

Eu poderia dizer que foi contra mim. E não seria exatamente uma mentira.

Mas seria mais preciso dizer que eu lutei contra a gaiola de expectativas que me aprisionava e aquilo e aqueles que a mantinham em pé. Não era bem contra o meu eu, mas contra um falso eu, montado ao meu redor, sufocando as minhas verdades e filtrando a luz e o som e os cheiros e os gostos que vinham do mundo lá fora.

Eu lutei, eu venci. Eu quebrei muitos ossos, lacerei minha pele. Mas um dia enfim as barras se partiram e eu consegui olhar lá para fora e me mesmerizar com todas aquelas estrelas no céu. Eu nunca soube que a noite poderia ser tão linda. Tão serena.

Tive medo de voar, de minhas asas não funcionarem, do som que meu corpo faria quando batesse no chão – a insignificância da minha existência exposta pela mundanidade do mesmo baque surdo que poderia ser, digamos, de um saco de batatas. As luzes se apagariam e nada mais. O mundo continuaria a girar, impassível.

Mas eu saltei. Porque tinha que saltar. Porque eu queria viver. E foi isso que me fez mais forte.

A cada mulher que eu vejo, vejo também uma gaiola – às vezes inteira, às vezes já em pedaços, mas sempre, no fundo, a mesma gaiola que eu um dia vi por dentro. E vejo alguém que também sobreviveu. Porque ela está ali, diante de mim.

E ela pode ter mãos delicadas e dedos finos que parecem algodão entre os meus. Ela pode ter olhos que se encantam com o chão a todo instante. Ela pode ser pequena e usar palavras doces, corar diante de qualquer impropério. Ela pode se encolher quando lhe gritam, chorar quando não consegue falar. Ela pode calar diante das injustiças que sofre, que outras pessoas sofrem. Ela pode olhar para a própria dor e repetir para mim e para si mesma que “não foi nada, não é nada, vou só ali colocar um bandeide, que bobagem a minha sofrer por isso”.

Mas ela é forte. Porque, como eu, ela chegou até aqui. E, por isso, eu não consigo deixar de ver algo de mim nela e algo dela em mim.

Eu preciso do feminismo porque ninguém deveria ter que ser forte para sobreviver.

E a palavra do dia é… sororidade!

A primeira vez em que vi esse termo numa discussão feminista, me apaixonei por ele. A ideia de criar um laço entre mulheres, de estimular nossa proteção umas às outras, de desconstruir a competitividade que o patriarcado nos impõe.

E agora eu a vejo sendo usada como o zap num jogo de truco. Um zap silenciador. Como você pode criticar outra feminista? Cadê a sua sororidade? Quem critica as irmãs aplaude “uzómi”.

E assim sororidade passou a ser usada para calar qualquer dissenso, qualquer apontamento de transfobia, racismo, elitismo, homofobia, bifobia…

Pô, eu sempre tive uma ideia tão diferente de sororidade.

Daí vi este texto. Concordo com o sentimento – e principalmente com a imagem do cartaz, que diz: “meu protesto será interseccional ou não será nada” – e gostaria de ir mais a fundo em relação a um ponto.

Para mim, não é que temos que colocar de lado a sororidade para apontar os erros no movimento. É que temos que apontar os erros no movimento precisamente por uma questão de sororidade.

A sororidade, para mim, é linda porque ela me mostra que mesmo aquela pessoa com quem eu não me identifico é minha irmã, minha semelhante. E me lembra que a dor que essa pessoa sente, mesmo que diferente da minha, ou até mesmo incompreensível para mim, é legítima, e que ela, tanto quanto eu, precisa de espaço para falar sobre essa dor e ver-se acolhida nela.

Não é concordar ou discordar. É considerar aquele ponto de vista, entrar nele, encontrar a pessoa humana por trás dele. É empatizar.

Quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade, a meu ver, que me cabe ouvi-la e ampará-la. Me cabe buscar entender essa crítica e seus fundamentos e, se for o caso, discutir sua validade não com a violência de quem luta contra um adversário, mas com o cuidado, a atenção, a consideração que eu gostaria que tivessem para comigo.

Porque para mim é essa a essência da sororidade: empatizar. Imaginar-se na outra e permitir que a outra seja você. Mesmo não sendo, mesmo só por um segundo. Tentar sair de si mesma, olhar-se de longe, enxergar seus próprios privilégios e sentimentos e desnudar-se deles para, nessa nudez, encontrar a outra pessoa diante de você com outros olhos, mais humildes, menos armados, menos defensivos.

É abrir mão de ganhar ou perder, estar certa ou errada. Eu já disse antes e torno a dizer: a empatia é o que fará o patriarcado ruir. E, para mim, a essência da sororidade sempre foi essa. Empatia.

Trigger Warning: Empatia

trigger

Você já ouviu a expressão “Trigger Warning”?

Trigger Warning, ou TW, é um alerta que se coloca no começo de um texto para que as pessoas saibam da existência de um conteúdo ali que pode servir de gatilho (daí o nome, em inglês, “trigger” – gatilho, e “warning” – alerta) para um eventual trauma, desencadeando memórias e sensações dolorosas ligadas a ele.

Como variadas são as pessoas e seus traumas, nem sempre temos como saber o que as atingirá dessa forma. Pode ser que alguém tenha um problema com algo aparentemente inocente, talvez uma fobia de abelhas, por exemplo, e por isso ver qualquer coisa que trate de abelhas para ela seja um trigger.

No entanto, há assuntos em que essa possibilidade é bastante previsível. Quando falamos de violência, por exemplo, é provável que alguém que nos leia a tenha vivenciado de alguma forma. Por isso, é uma questão de sensibilidade avisar as pessoas disso.

Quando alguém coloca o “trigger warning” (“TW: abelhas”, por exemplo), não está dizendo que acha que o assunto é nojento, vergonhoso, que não se deveria abordá-lo ou algo assim. Está apenas comunicando que acha possível ou mesmo provável que outras pessoas tenham algum trauma com aquilo.

Similarmente, quando alguém identifica algo como trigger e pede para ser avisade quando forem falar disso, usando o TW correspondente, o intuito não é censurar, ou transformar aquilo em tabu. É deixar explícito que se tem um trauma ligado a isso e que se gostaria de poder optar por não passar naquele momento pela avalanche emocional que aquilo causa.

Não é censura. Não é silenciamento. Não é reforçar a opressão. É reconhecer que algumas pessoas não lidam bem com um determinado assunto e, por uma questão de empatia, avisar quando for falar disso, ainda que não se compreenda o porquê da dificuldade.

É entender que não é factível (e não seria direito, ainda que fosse factível) regular o trauma ou não trauma alheio. E que impor às pessoas que lidem com seus conteúdos sensíveis sem que isso tenha partido delas é uma forma de violência e, isso sim, um silenciamento. Porque trata o trauma de outrem como se não fosse legítimo, a dor de outrem como se não fosse digna de ser sentida ou verbalizada. E quem somos nós para estabelecer isso? Será que, ao invés de recriminar, não seria melhor tentar empatizar?

Bato muito nessa tecla da empatia porque, para mim, é a base do meu feminismo, é o que constrói a minha noção de sororidade, de humanidade.

Uma vez, numa discussão, uma pessoa disse que empatizar com uma determinada moça que havia agido de uma forma que ela considerava machista era reforçar o patriarcado. Eu discordo, e com veemência. A empatia vai contra tudo o que o patriarcado representa. A empatia é o que fará o patriarcado ruir.

Empatizar é abrir mão de certo e errado, de ganhar ou perder, de concordar ou discordar, de culpar, de julgar. É encontrar o ser humano por detrás das palavras e dos atos. É se abrir para sentir junto com alguém algo que não é confortável de sentir, mas que essa pessoa precisa de companhia para conseguir atravessar. É uma dádiva.

O que seria a sororidade senão ir além da rivalidade que somos criadas para sentir umas em relação às outras para vermos nas mulheres com quem interagimos nossas irmãs na mulheridade, com muito mais em comum que de diferença? Nos abrirmos para acolhermos suas dores a despeito de as entendermos ou não, nos abraçarmos mesmo em nossa discordância?

Para mim, empatizar não é concordar. Sororidade não é defender o ponto de vista que não é nosso. É justamente entender que a concordância não é mais importante do que a comunicação e que é possível o entendimento mesmo na discordância.

O trauma de uma pessoa não é uma agressão a outra. O pedido de respeito a esse trauma não é silenciamento de quem não o tem. E a empatia não deveria ser reservada só para as pessoas com quem é fácil a gente empatizar.