Esperança

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 31 de janeiro de 2016.

io-iôMuita gente tem me dito que perdeu a esperança, ou a fé, na humanidade. Que não acredita que possamos mudar o caminho em que estamos, que somos uma espécie fadada à extinção. Eu não vejo isso.

Eu ofereço escuta para muitas pessoas e muitas delas são mulheres tentando sair de relacionamentos abusivos. E eu vejo um paralelo entre o caminho que costumamos percorrer nesse processo, com suas incidentais recaídas, e o caminho que a humanidade faz em direção à sua libertação da lógica da dominação (base do capitalismo e do Estado).

Sair de um relacionamento abusivo pode, de fora, parecer fácil, óbvio, questão de autopreservação. Mas não é tão simples. Porque há todo um condicionamento, uma armadilha mental, que mantém a gente ali.

Tem a vergonha de estar naquela situação, que por si só muitas vezes nos leva a crer que a merecemos. Tem a ideia de que as coisas são assim mesmo, e a de que a brutalidade é paixão – algo que muitas vezes vem da tendência de tentarmos negar o abuso por conta da necessidade de nos sentirmos amadas: “ele é assim porque ele me ama de verdade”.

Além disso, nos apegamos aos “momentos bons” e costumamos ter a sensação de que é nosso papel cuidar do cara, transformá-lo numa pessoa boa. Que, se ele é violento porque está sofrendo, que não podemos abandoná-lo com esse sofrimento, ainda que ficar faça com que nós próprias soframos física e/ou psiquicamente. E o agressor se aproveita disso, desse condicionamento (ainda que nem sempre conscientemente), nos envenenando e manipulando para que não consigamos nos permitir escapar.

Essas barreiras podem ser invisíveis, mas não são inexistentes. E são muito difíceis de se transpor. Especialmente sem qualquer apoio.

Muitas vezes, ensaiamos partir… mas daí ele corre atrás, faz mil coisas fofas, promete que vai mudar, que vai ser tudo diferente. E a gente desiste. E volta. E normalmente, ao fazê-lo, nos sentimos fracas e tolas. Especialmente por conta da forma como a sociedade costuma dizer que a culpa é nossa, que nós é que nos sujeitamos (“mulher de malandro!”), que nós não merecemos respeito porque não nos damos ao respeito, etc. “Falta de vergonha na cara”, dizem, quando o que mais sentimos é, precisamente, vergonha.

Tudo poderia ser tão mais fácil se entendêssemos e entendessem que esse ir e vir, quando acontece, é parte do nosso processo interno, do nosso tempo.

Para conseguirmos sair sem olhar para trás, precisamos abraçar e desconstruir muita coisa dentro de nós. E isso não se faz da noite para o dia. E fica muito mais difícil sem apoio. Quando não há quem olhe para a gente com carinho, quem nos acolha, é quase impossível a gente conseguir acreditar que é digna de carinho e acolhimento.

Para passar pela porta, precisamos superar o medo. Medo de ficarmos sozinhas. Medo do desconhecido. Medo de que todas as coisas terríveis em que ele nos faz acreditar em relação a nós mesmas sejam verdade.

Havendo escuta e suporte, haverá fortalecimento. Haverá empoderamento. E, com isso, eventualmente vai chegar o ponto em que o medo vai perder. Em que a gente vai conseguir encarar nossos piores temores e falar “foda-se” do fundo do nosso coraçãozinho batido e pisado que até então já não se aventurava mais para fora da cozinha. Porque finalmente enxergamos que, independentemente do que vai ser, como está não dá mais para ficar. E ouvir que ninguém mais vai nos querer não assusta mais – ou pelo menos não tanto, não a ponto de nos manter ali. Porque mesmo que o cara fosse a única outra pessoa no mundo a gente não iria querer ficar com ele.

Similarmente, quando a gente faz que vai sair da merda em que estamos, coletivamente, como sociedade, a direita, o conservadorismo, vem com flores e bombons e bônus de natal. Com promessas de que tudo pode ser melhor sem mudar nada. Com ameaças de que, se a gente for para o outro lado, o céu irá desabar sobre as nossas cabeças.

E daí a gente volta.

Só que não é um relacionamento entre apenas duas pessoas. É um relacionamento de cada pessoa com a visão de mundo baseada na noção de que só há duas opções possíveis: estar por cima ou estar por baixo. Dominar ou ser dominade.

E não estamos sós. Em números crescentes, nos ouvimos e nos acolhemos e nos abraçamos cada vez mais quando falamos de nossa infelicidade dentro deste paradigma. A empatia está se tornando uma palavra corrente nos nossos vocabulários.

Assim, a exemplo do que costuma ocorrer quando mulheres presas num relacionamento abusivo recebem escuta, apoio e acolhimento, cada vez que a gente volta, mesmo voltando, a gente volta mais de saco cheio daquilo. Com menos disposição para nos enganarmos. Com menos vontade de ficar. Com mais e mais certeza de que, por mais doloroso que possa ser o fim, ainda mais dolorosa é a perspectiva daquilo nunca acabar.

Isso me dá esperança de que vá chegar o dia em que não vamos voltar mais.

A questão é: vamos sobreviver ao percurso? Às indas e vindas?

Muitas mulheres, infelizmente, não sobrevivem. Talvez nós, também, como sociedade, pereçamos no caminho antes de chegar num ponto em que pelo menos estejamos fora de perigo.

Espero que não. Seria uma pena.

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Não fui eu que comecei

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 13 de janeiro de 2016.

smurf

Será?

Sentimos mais prontamente e profundamente a dor que é nossa. Isso é natural, porque a pele que sente é a nossa. É necessário um esforço para pensarmos em como outra pele, revestindo outra pessoa, pode receber o contato conosco, lembrarmos que, assim como há coisas que nos ferem e não ferem outras pessoas, há coisas que não nos ferem, mas podem ferir outras pessoas. Por isso, muitas vezes, machucamos a outrem sem sequer nos darmos conta e, depois, diante de sua reação violenta, nos espantamos, não compreendendo que se trata exatamente disso – uma reação, uma resposta a uma agressão que cometemos, ainda que inadvertidamente.

Por exemplo, a nossa cultura é tão acostumada com a promiscuidade entre as instituições seculares e a fé cristã que hoje é comum que seus símbolos sejam considerados neutros. Aparecem até nas nossas cédulas de dinheiro – colocaram lá no cantinho, como quem não quer nada: “deus seja louvado”. Que deus é esse? Olorum? Alá? Zeus? Odin? Sabemos que não. Esse “deus”, inominado, único, masculino, é o deus dos cristãos, um deus que é tão subentendido como “O” deus na nossa sociedade que não precisa nem ser chamado pelo nome para que saibamos exatamente que é a ele que as pessoas estão se referindo.

Esse deus, apesar de excludente e marginalizador de outros deuses e invasor de espaços que nenhuma deidade deveria adentrar, não costuma ser visto assim pelas pessoas que o cultuam. Basta ver que o ‘pai nosso’ é considerado por muitas delas uma prece universal. Eu tenho um amigo, Cesão, que diz (muito corretamente, na minha opinião) que não é sequer uma oração terráquea, quanto mais universal.

Muitas pessoas nem sequer percebem essa imposição como violência. Como também não percebem o quanto a invisibilização, a ausência de representatividade, por si só, fere e exclui – e não é só em relação a religiões. Sempre que eu ajo como se só houvesse um grupo a ser considerado, ou como se um outro grupo não precisasse ser considerado, as pessoas que estão sendo desconsideradas podem, claro, sentir-se muito mal com isso. É como se elas fossem irrelevantes, como se elas não existissem… ou não devessem existir.

Voltando ao exemplo inicial, se uma pessoa cristã diz a alguém “deus te abençoe”, à primeira vista, ela só está desejando-lhe o bem. Mas, e se esse alguém for de uma religião não monoteísta? E se for uma pessoa ateia ou agnóstica? E se tiver sofrido perseguições terríveis a vida toda em nome desse deus que aparece nessa bênção tão bem-intencionada?

Talvez a menção a esse deus ative esses gatilhos emocionais. Talvez, ao ouvir a palavra “deus”, essa pessoa imediatamente se lembre de todas as vezes em que sua fé ou não fé foi desrespeitada, ignorada, demonizada ou ridicularizada. E, assim, talvez ela reaja com uma agressividade inesperada por quem a “abençoou”.

E aí? Ela é “casca de ferida”? Ela é “violenta”?

Eu acredito que não. Não quero dizer que isso justifique qualquer reação dela – afinal, uma opressão não justifica outra. Mas a indignação dela não é sem motivo. Não é “por nada”. Não é porque nós, pessoalmente, não nos ofendemos com alguma coisa, que ninguém mais se ofenderá com ela.

Sim, me faz bem (a mim, particularmente), apesar de ser agnóstica, ouvir em um “deus te abençoe” o sentimento de bem-querer, de cuidado, de carinho, por detrás dele e ignorar o “deus” que quis vir junto no pacote. Isso me ajuda a neutralizar o potencial de violência que essa expressão poderia ter para mim. Mas eu não vejo isso como um dever meu, ou algo que eu deva me forçar a fazer.

Eu consigo ver além das palavras, além do deus em nome do qual eu já fui agredida tantas vezes, o sentimento daquela pessoa – que me quer bem, não mal. No entanto, se eu tivesse passado pelas perseguições pelas quais outras pessoas passaram e passam, talvez eu não fosse capaz disso neste momento. Talvez nem quisesse um dia ser capaz disso. O que seria perfeitamente legítimo, me parece.

Tudo bem que eu não tenho como prever toda forma de interpretação daquilo que eu digo, mas eu não posso, partindo disso, desencanar e sair falando o que e como me der na telha, sem considerar as pessoas que aquelas palavras irão atingir. De que adianta falar se não importa a quem?

Não faz diferença se é desleixo, ignorância ou má-intenção; eu não posso simplesmente me isentar da minha responsabilidade em relação às consequências do que eu digo e faço para outras pessoas. Eu não posso incumbi-las de buscarem meus reais sentimentos nas minhas palavras, especialmente se eu própria não me esforço por levar os sentimentos delas em consideração quando me expresso.

Não basta falar “deus te abençoe” e simplesmente esperar que a pessoa entenda as coisas boas que estou emanando para ela com aquela expressão naquele momento. O interessante seria eu sair do meu umbigo e pensar que talvez eu possa transmitir esses bons sentimentos de outra forma, com palavras que não tenham o potencial de ofendê-la caso ela não consiga ignorar o “deus” que vai na frase. Por exemplo, por que não dizer, simplesmente, “boa sorte” ou “te desejo o melhor” ou “tudo de bom para você” ou coisa que o valha?

É fácil cobrarmos que outras pessoas superem traumas e violências que nós nunca sofremos, deslegitimarmos dores que nunca sentimos. O difícil é mantermos em mente que elas podem ter sofrido esses traumas e violências e nos esforçarmos para não feri-las quando somos capazes de evitar isso. O difícil é, diante da ira de outra pessoa, não reagirmos defensivamente, e nos abrirmos para aprender mais sobre a vivência dela, para nos tornarmos mais capazes de levá-la em consideração ao nos comunicarmos. Para entendermos melhor o que a pele dela sente.

Ninguém quer ser racista, machista, adultista, capacitista. Ninguém quer ser outrefóbice. Mas nós nascemos, crescemos e vivemos numa sociedade em que vigoram essas opressões, infelizmente. Assim, se nós participamos de um grupo opressor, a questão não é SE nós temos a opressão dentro da gente, mas O QUANTO dela está arraigada em nós e o que nós pretendemos fazer a respeito. Não podemos deixar o nosso “não querer ser” nos impedir de ver quem realmente somos. Porque não temos como desconstruir o que nos negamos a enxergar e reconhecer.

Intolerância

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 19 de novembro de 2015.

Vamos viajar um pouquinho.

Um triângulo sai à procura de algum lugar onde se encaixar e encontra uma série de buracos. Ele experimenta entrar num. Por sorte, os buracos são triangulares e ele entra perfeitamente; seus três cantinhos são aconchegados sem dificuldade e ele fica lá, feliz.

Logo chega um quadrado, também à procura de um encaixe. Ele vê o triângulo, vê os buracos. Tenta entrar num. Não consegue. Tenta de novo. Não consegue. Dói, fica incomodando, ele tem um cantinho a mais que não entra. O triângulo não entende o problema, afinal, ele não tem dificuldade alguma para se encaixar ali.

O quadrado tenta explicar que ele é diferente, que talvez o buraco precise de modificações para que ele consiga encaixar-se nele, mas o triângulo não quer saber, afinal, “somos todos formas geométricas” e, logo, se ele é capaz de caber, todo mundo também é, é só uma questão de tentar de verdade. De querer superar essas limitações. Para o triângulo, o quadrado está é de má-vontade e tem que penar muito para aprender a se encaixar nos buracos que encontra, ao invés de ficar de mimimi.

Raras vezes na minha vida encontrei algum indivíduo que realmente se julgasse no direito de receber um tratamento diferenciado. Ou seja, aquele cara que de fato sente que deve ser permitido a ele fazer o que não deve ser permitido a outras pessoas – quaisquer outras pessoas. Normalmente isso vem da compreensão de si mesmo como acima de todo o resto do mundo. Em uma palavra, megalomania (ou escrotidão).

O que vejo bastante é a hipocrisia mesmo – fazer de conta que se exige de si o mesmo que se exige de outrem, mantendo-se essa ilusão por meio de racionalizações e distorções que sustentem que “no meu caso é diferente”. Para mim, entretanto, essa ginástica mental toda demonstra precisamente que a pessoa não se considera acima das demais, já que, do contrário, a incoerência de exigir de outras o que ela própria não faz, ou condenar em outras o que ela própria faz, não seria incômoda a ponto de ela precisar ou esconder isso de si mesma ou tomar uma atitude para desfazê-la. E que atire a primeira pedra quem nunca.

Assim, essa coisa do “eu posso porque eu sou eu” não é algo com que nos deparamos todo dia (pelo menos não escancaradamente). O que encontramos, contudo, frequentemente, é uma variação estranha dela, uma espécie de megalomania coletiva: o indivíduo não se sente digno de tratamento diferenciado e especial por si só, mas, diluindo-se num todo, num grupo ao qual pertence, arroga para si, em detrimento de outro grupo, regalias que passa a ver como “naturais”.

É a sensação discriminadora de que um conjunto de pessoas, do qual se participa, pode fazer o que é proibido a outro, do qual não se participa: homens podem encher a cara, mulheres não; pessoas magras podem mostrar a barriga, pessoas gordas não; pessoas heterossexuais podem existir, pessoas não-heterossexuais não; pessoas brancas podem apresentar a copa do mundo, pessoas negras não; pessoas sem deficiência podem participar da sociedade, pessoas com deficiência não; pessoas adultas podem participar da sociedade, pessoas não-adultas não...

A discriminação se baseia no ver outra coletividade como merecedora de “menos” do que aquela em que se está, que é merecedora de “mais”. Menos o quê? Varia. Mas, normalmente, o pano de fundo é respeito e dignidade.

Não se trata apenas de falta de ver como pessoa, como ser humano – muita gente tem empatia até mesmo com animais de espécies muito distantes da nossa própria. É algo que vai além. É saber que se está causando mal estar e achar que tudo bem, porque é assim mesmo que tem que ser. Que essa é a ordem natural das coisas. Não é a falta de noção de “se não têm pão, que comam brioches”, mas o descaso intencional do “se não têm pão é porque não merecem comer”.

E é chocante o quanto posicionamentos assim se apoiam numa suposta igualdade, ainda por cima. Como o triangulozinho obtuso (não resisti ao trocadilho, desculpem) lá em cima, eles costumam demonstrar um raciocínio meritocrático que gira em torno de “se eu sou humane e me encaixo neste padrão, então todas as pessoas que são humanas podem se encaixar nesse mesmo padrão de alguma forma”. A falta de lógica sendo a de que quem se é não é somente um ser humano, mas O ser humano – o modelo de ser humano a ser seguido pelos demais seres humanos. E quem não se enquadra que se vire, porque “quem quer de verdade dá um jeito”. Mesmo que esse jeito passe por cima de quem de fato se é.

Esse é o pensamento que está na raiz da intolerância, da dificuldade de conviver com as diferenças, de aceitar quem não é (ou faz, sente, pensa…) igual a nós. Inclusive, é o que está também na ideia de que tem o nosso jeito e o jeito errado. Sem análise de contexto, sem recorte, sem consideração dos próprios privilégios (por exemplo, ter-se precisamente o formato certo para encaixar sem ter que se mutilar).

A intolerância, no fundo, é uma espécie de autoritarismo, que determina que aquilo que é diferente cesse de ser, seja por “adequação” (normalização) ou por exclusão.

Acolhimento

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 05/04/2015.

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento

“Mas eu não abortaria”

***Originalmente publicado na Revista Fórum em 19/02/2015.

Esta semana vi uma campanha no facebook para que mulheres postassem fotos de si mesmas grávidas, dizendo serem contra o aborto.

Muitas participaram, muitas outras participaram para dizer que, apesar de terem filhes, são favoráveis à legalização do aborto, ou pelo menos à descriminalização do aborto. Inúmeros posts foram feitos a respeito, nos mais diversos blogs.

Em meio a isso tudo, no grupo feminista de que participo, uma pessoa querida trouxe um debate muito interessante: a posição do “eu não faria, mas sou a favor” ou “sou a favor, mas não faria”. De onde vem a necessidade de dizer que não faria? Não seria, de certa forma, um julgamento moral, uma forma de dividir as mulheres em duas classes – as que fariam e as que não fariam?

Seria realmente empático da parte de alguém defender o direito ao aborto seguro enquanto ainda se condena essa prática como uma “atrocidade” ou “monstruosidade” ou “assassinato” ou algo assim?

Eu já abortei e, a mim, particularmente e pessoalmente, não me ofende alguém só dizer que não faria. Para mim, não é o mesmo que dizer “considero uma atrocidade, mas apoio o seu direito de cometê-la” ou “acho uma merda, mas ok outra pessoa fazer”, ou mesmo falar “eeeeeeu não faria” (assim, com uma entonação que deixa poucas dúvidas sobre o que a pessoa realmente acha de quem faz).

Um mero “eu não faria”, para mim, soa apenas como uma pessoa falando de si própria. Dizendo que ela, por uma miríade de motivos (que não se atêm aos religiosos, vide haver pessoas religiosas que abortam e pessoas sem religião que não abortam), acredita que não faria um aborto.

Digo “acredita” porque, como quem já engravidou – de propósito ou sem querer, desejada ou indesejadamente – sabe, engravidar muda muita coisa na gente. Eu já vi pessoas que sempre disseram que não queriam ter filhes e que abortariam se engravidassem resolverem ter a criança, assim como já vi pessoas que sempre juraram que nunca, jamais, nunquinha, de forma alguma, abortariam (bastante julgamento moral aí), depois de se verem grávidas, em pouco tempo passarem a pertencer a esse grupo de mulheres que antes elas tanto haviam julgado. Frise-se o plural em ambos os casos, porque não falo de uma mulher nem duas.

Mesmo assim, fica a pergunta do por que, do para quê. De onde vem a necessidade de a pessoa oferecer gratuitamente essa informação sobre si mesma, se é algo que trata apenas dela e não tem nada a ver com apoiar ou não a legalização do aborto?

Bom, primeiro, penso na pressão de outras pessoas – família, amiges, eventuais colegas de trabalho, ou pessoas que frequentem o mesmo lugar de culto religioso – especialmente se estamos falando de posicionamentos em TL de facebook. Essa pressão se torna ainda maior pelo fato de estarmos falando de algo que, infelizmente, ainda constitui um crime na nossa legislação. Não são poucas as pessoas que defendem a suprema baboseira de que o mero falar a respeito e defender a legalização seria um crime em si ( a “Incitação ao crime”, prevista no artigo 286 do Código Penal – “Incitar, publicamente, a prática de crime”), como forma de silenciar e censurar opiniões pró-legalização.

A pessoa que sucumbe a essa pressão tenta fugir da mesma reprovação moral de que nós, mulheres que abortam, sofremos. Eu acho, claro, que seria muito útil que ela desconstruísse isso. Útil para ela e para a coletividade em que ela está inserida. No entanto, não me sinto no direito de exigir essa desconstrução dela, porque penso ser algo que cada pessoa tem seu tempo – e seu desejo ou não – de fazer. Sinto que empurrar pessoas para que enfrentem essa repressão é tão injusto quanto, guardadas, claro, as devidas proporções, exigir que pessoas LGBT saiam do armário quando elas não se sentem prontas para fazê-lo. A pressão para elas é invencível naquele momento.

Todas as vezes em que eu falo sobre aborto há pessoas que me procuram com mensagens privadas de apoio. Muitas delas jamais abortaram e acreditam que não o fariam e mesmo assim empatizam tanto com a mulher que aborta que sentem a necessidade de manifestar isso de alguma forma. O fato de elas temerem sofrer represálias por conta desse posicionamento diminui a validade do acolhimento que elas se dispõem a prestar? Eu sinto que não.

Outro ponto é o valor argumentativo dessa assertiva. Dizer “eu não faria, mas defendo o direito de fazer” realça, para mim, a necessidade de não impormos a outras pessoas nossos próprios valores, crenças, vontades, etc. Frisa a desnecessidade de concordância com o ato para a aceitação dele.

A presença dessa declaração, muitas vezes, longe de ser uma forma de criar a distinção entre as mulheres que fariam e as mulheres que não fariam, é uma forma de lembrar a todes precisamente a irrelevância da posição pessoal de cada ume sobre si mesme quando se pensa numa criminalização que é aplicada a toda a coletividade. É uma forma de demarcar que a legalização obviamente não torna obrigatório o aborto, mas apenas o possibilita para quem o QUEIRA.

Há quem problematize (com muita propriedade) se não seria contraproducente tentar desfazer uma distinção através de uma fala que aparentemente a reafirma. Mas eu acredito que não, porque já vi discussões em que foi esse posicionamento que permitiu que a pessoa percebesse que falar de legalização do aborto não é, necessariamente, falar dela própria abortar ou não.

Um outro aspecto, não menos importante – aliás, o mais proeminente para mim nessa questão da empatia – é a necessidade da pessoa de reafirmar para si mesma valores que, talvez, sinta-se traindo ao defender a legalização do aborto. Porque ela pode ter convicções tão profundas quanto ao aborto ser algo fundamentalmente errado que lhe seja muito difícil conciliar isso com sua defesa do direito de outras pessoas decidirem sobre algo que envolve a autonomia que têm em relação a seus corpos. E falar isso talvez seja a forma que essa pessoa encontrou de ficar em paz com um posicionamento que ela sente ser contraditório ou incoerente. E eu respeito isso.

Eu, pessoalmente, não acredito que um feto seja uma criança, a menos que seja uma criança para a mulher em cujo corpo ele está. Eu penso que o que torna o feto um bebê é a mulher que o carrega vê-lo dessa forma: humanizá-lo, personalizá-lo. Não é algo baseado na ciência ou na religião, é quase uma forma de sentir. Afinal, eu já engravidei três vezes, mas em apenas duas senti que havia uma criança crescendo dentro de mim.

Daí, por pensar dessa forma, às vezes me esqueço de que muitas pessoas acreditam que há um bebê dentro de cada mulher grávida desde o momento em que ocorre a concepção. De que, quando eu falo em aborto, essas pessoas ouvem assassinato. E reagem, muitas vezes, com a mesma revolta com que eu reajo quando pessoas falam de seu “direito” de maltratar crianças.

Então eu tento manter isso em mente nas minhas interações com outras pessoas quando trato do assunto – que elas não necessariamente sentem e pensam como eu em relação a isso e que elas não precisam sentir e pensar como eu para me apoiarem no meu sentir e pensar e, inclusive, agir. Que, aliás, me parece uma grande demonstração da tolerância  que eu considero essencial à vida em sociedade que elas sejam capazes de colocar de lado convicções tão profundas e aceitarem o meu direito de praticar um ato que muitas vezes vai contra tudo em que elas acreditam.

A empatia, para mim, não está em não julgar, mas em colocar o meu julgamento de lado por um segundo e me colocar na posição da outra pessoa, tentar ver pela perspectiva dela o que se passa com ela, me despindo, naquele momento, das minhas próprias crenças, da minha forma de ver o mundo, e adotando as dela.

No meu entender, empatizar inclui aceitar que a pessoa pode pensar diferente. Que ela tem o tempo dela para desconstruir e o querer dela em relação a fazê-lo ou não. E que não é porque eu acho que ela deveria desconstruir que ela tem que desconstruir, já que, assim como eu acho que ela deveria desconstruir, ela também pode achar que quem deveria desconstruir sou eu. A moral de cada pessoa só cabe a ela própria trabalhar – ou não.

Por isso, não me incomoda que a pessoa tenha para si mesma que eu cometi uma atrocidade, uma monstruosidade, um assassinato. Não creio que alguém pense assim porque quer, simplesmente. Conheço casos de pessoas que veem o aborto como infanticídio e mesmo assim o fizeram, porque se viram forçadas a isso pelas circunstâncias em que estavam, e hoje ainda se odeiam por isso. Será que alguém faz isso por vontade? Será que alguém vive em conflito porque gosta de sofrer? Não acredito nisso. Me incomodaria sim se ela manifestasse esse julgamento de forma a me ferir com ele, se ela pretendesse me adequar à moral dela, me impor o sofrimento que ela sentiria no meu lugar.

Agora, obviamente, não é porque algo não me fere que não fere a qualquer outra mulher que tenha feito um aborto. A maioria delas se ressente e muito de ver a necessidade de outras pessoas de logo estabelecerem que não fariam um aborto, mesmo quando defendem sua legalização. E isso, só isso – saber que há alguém que, quando eu falo assim, se sente julgada e discriminada, ao invés de apoiada – para mim, como diria Lucys Santos, já seria motivo para evitar essa fala.

Além disso, o aborto é invariavelmente um tópico delicado para quem passou por ele. Especialmente por conta da ilegalidade, o tratamento (ou até não tratamento, que infelizmente acontece bastante) que mulheres recebem durante o procedimento muitas vezes é traumatizante. A sensação de desamparo, de frieza, o medo de morrer, o medo de ser descoberta, muitas vezes se somam a outros sentimentos comuns (embora nem sempre presentes) a respeito, de pesar, culpa, tristeza, reprovação moral, temor religioso, etc. São lembranças que frequentemente passam a assombrar a mulher que aborta para o resto da vida dela.

Me parece absolutamente irrazoável exigir que alguém que passou por tudo isso, alguém que está na posição de pessoa oprimida, aliás, ainda tenha empatia e compreensão quando as palavras de outres cutucam essa ferida, que tantas vezes sequer chegou a cicatrizar. Que muitas nunca tiveram a chance de elaborar, falar a respeito, por medo de serem presas.

O pior aspecto da criminalização, ao meu ver, é esse silêncio. É essa falta de franqueza, de diálogo. Não só porque haja mulheres sofrendo sozinhas enquanto precisam do nosso apoio, mas porque essa troca facilitaria a empatia tão necessária na compreensão da posição da outra pessoa e no respeito ao direito dela em relação ao seu próprio corpo. Porque é fácil ser contra um ato em abstrato, sem ter que olhar nos olhos de quem o comete. É fácil esquecer quem está ao redor do feto, do embrião, quando aquela pessoa não está diante de você.

Se, por um lado, não temos como mudar de fora a moral das pessoas, por outro, sinto que a legalização seria uma forma de estabelecer limites para que a moral pessoal de um indivíduo não extrapole a sua pessoa, impondo-se a outrem. Ao mesmo tempo, a legalidade abriria o caminho para a conversa que poderia suscitar o acolhimento que permite o apoio à outra pessoa mesmo quando os atos desta contrariam a nossa moral.

Estima-se que uma em cada cinco mulheres já tenham feito pelo menos um aborto. Mulheres solteiras, casadas, com filhes, sem filhes, com grana, sem grana. Olhe ao seu redor, para as mulheres que você ama. Uma delas (ou mais!) pode estar neste momento sofrendo muito com as suas palavras e você jamais saberá disso. Isso não é suficiente para que você reconsidere seu uso?

Asfixia emocional

Sufocar

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir.

No processo de aprender a ser a melhor mãe que eu poderia ser, eu aprendi a acolher. A empatizar. E isso mudou a minha vida.

Esse acolhimento me surpreendeu ao iluminar partes de mim que antes eu mantinha no escuro. Me peguei, de repente, abraçando uma menininha triste e assustada que eu encontrei num canto, escondida sob camadas e camadas de raiva. Uma menininha de cuja existência eu havia me esquecido por completo, que a vergonha de sentir, de chorar, tinha me feito enxotar da memória.

Depois de dar voz à dor que ela sentia, um pequeno milagre aconteceu: comecei a sentir também a dor dentro de outras pessoas. Minha percepção do mundo e de quem estava ao meu redor mudou. Subitamente, éramos todes crianças tristes e assustadas, tentando sobreviver ao que não queríamos lembrar.

Hoje eu entendo. Como podemos nos abrir para os sentimentos de outras pessoas, como podemos nos dispor a sentir com elas o que elas sentem, e não apenas entender o que elas pensam, sem que tenhamos antes abraçado os nossos próprios sentimentos negados, reprimidos, silenciados?

Como reconhecer em você o que há em mim se eu não suporto antes me olhar no espelho?

Se estamos tentando não sentir, não conseguimos lidar com o sentimento de outrem, porque a dor lá fora nos faz recordar da dor aqui dentro. Incomodades, queremos que aquilo acabe logo, mas, por mais que queiramos, não temos como fazer alguém parar de sofrer (o que nos faz sentir, ainda por cima, impotentes). É aí que podemos optar por agir egoísta e pragmaticamente sobre aquilo que efetivamente está sob o nosso controle; não o sofrimento em si, mas a demonstração dele para nós – o choro, as lamúrias, os lamentos que se desenvolvem diante dos nossos olhos e ao alcance dos nossos ouvidos.

É por isso que nossas palavras de conforto mais comuns frequentemente carregam, no fundo, a conotação de “pare com isso”: “não foi nada”, “não chore” ou “vai passar”, por exemplo. Todas elas, ao invés de realmente oferecerem um ombro, apenas impõem o fim da exposição daquela dor diante da gente. No fundo, quando confortamos alguém dessa forma, só quem se conforta somos nós.

E como reage a pessoa cujo sofrimento incomoda a quem está à sua volta, ou a quem ela ama? Fugindo para poder sofrer em paz, talvez, ou, mais provavelmente, engolindo seus sentimentos e corroendo-se aos poucos, por medo de afastar as outras pessoas.

É isso que acontece com a criança. Para ela, a ideia de viver distante do amor de seus pais é simplesmente excruciante; o medo do abandono é absoluto e avassalador. Qualquer coisa lhe parecerá melhor que isso.

Não creio que seja o intuito de nenhum pai ou mãe que eu conheço desamparar ses filhes num momento de angústia. No entanto, frequentemente, a impressão que passamos às crianças infelizmente não é essa. “Seu sofrimento me incomoda. Pare ou eu vou embora” é a lição que a criança aprende com cada noite passada chorando sozinha no berço, com cada explosão emocional à qual, por birra adulta, viram-lhe as costas, com cada ameaça de violência por sentir que ela recebe – como “vou te dar motivo para chorar”, ou “se você disser de novo que me odeia, vou embora”, ou “se você disser que odeia o seu irmãozinho, vai ficar de castigo”. Com cada machucado e tombo e susto tratados com “já passou”.

Ah, “já passou”. Eu poderia escrever uma tese sobre esse já passou. Duas palavrinhas tão pequenininhas e tanto autoritarismo, tanto silenciamento, tanto adultismo nelas. Tanto gaslighting*. Desde quando se pode, de fora de alguém, determinar quando o sofrimento dessa pessoa acaba ou não? Se a pretensão em si já é absurda, dar voz a ela é uma crueldade. Mas mesmo mães pais muito carinhoses e bem intencionades continuam reproduzindo essa fala, pois tanto a escutaram ao longo de suas próprias infâncias que não se dão conta do quão violenta ela é.

Essa frase, como as que eu citei acima e tantas outras, é um bolo de alfinetes recoberto por algodão. Parece doçura, parece carinho, parece apoio, mas, no fundo, é só uma ordem muito egocêntrica e autoindulgente emanada da pessoa adulta direto para o coração da criança: “cale-se!”

É assim que internalizamos a noção de que só merecemos e recebemos amor quando estamos felizes e somos agradáveis. Não é à toa que tantas pessoas cometem suicídio “inesperadamente”, sem ter dado mostras da profundidade da depressão em que se encontravam. Até o final, elas têm a sensação de que precisam manter a qualquer custo a fachada da felicidade ou se verão completamente sozinhas naquela escuridão.

É uma lição que, na maioria das vezes, levamos para o resto das nossas vidas, acarretando não só falta de autoconhecimento, mas também o desprezo, deslegitimação e invalidação de nossos próprios sentimentos. Muitas vezes nos orgulhamos dessa repressão e ostentamos como medalhas as neuroses que ela nos causa, como se fossem mostras de força. “Estou cada vez melhor, melhor e melhor”, murmuramos rangendo os dentes para os nossos botões inquietos.

Mais do que isso, como dito, por termos aprendido desde cedo a não sentir, aprendemos também a não tolerar o sentimento de outrem, a não ser que seja algo feliz e bonito e sorridente, que não seja desagradável para ninguém. Não apenas evitamos chorar, como passamos também a considerar fraca e inconveniente a pessoa que chora. Nos afastamos (quem sabe até com repugnância) de quem “escolhe” sofrer e falar de coisas ruins e, se um dia nos tornamos mães e pais, o nosso impulso será o de reproduzir esse silenciamento também com nosses filhes (além de todas as outras pessoas ao nosso redor), que, por sua vez, um dia crescerão e darão continuidade ao ciclo tóxico do recalque.

Podemos passar nossas vidas tentando construir uma nova realidade para nós, mas nada de fato mudará enquanto mantivermos nossas caixas-pretas sentimentais intocadas e seu conteúdo inalterado. O mundo lá fora não terá salvação enquanto o mundo aqui dentro não for tido como digno de ser salvo, enquanto o que se passa nele sequer for ouvido ou considerado.

Quando vejo um certo tipo de ira, invariavelmente me pergunto se ela não seria um cobertor pesado com que se abafam os soluços de uma criança que há anos chora sozinha, sufocando lentamente longe da luz do acolhimento.

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*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.

Uma prece.

woman praying silhoutte

Se eu posso, como mãe, desejar alguma coisa e alguma linda criatura me atender – seja fada que bate asas de purpurina, seja um deus em que não acredito ou um orixá que eu desconheço…

Eu desejo que mes filhes confiem em mim.

Que o meu colo seja sempre um porto seguro para eles.

Que no momento da dor, do medo, do erro, do arrependimento, da vergonha, eles jamais deixem de me procurar por receio do que eu vá fazer com eles, ou com outras pessoas, ou do que aquilo vá fazer comigo.

Que eles nunca tenham medo de me partir ao meio com sua tristeza.

Ó, deusa, santos, elementais, espíritos que talvez caminhem na Terra e todos os anjos que por aqui pairarem, ouçam o meu pedido desesperado e sincero e comovam-se com ele: que nunca uma das minhas crianças, seja qual for a sua idade, chore sozinha escondida de mim.

Eu sei que para viver de verdade a gente tem que se arriscar a sofrer; por isso, eu me resigno, eu me conformo, eu aceito que elas sofrerão. Eu tento.

Mas eu imploro, eu rogo, com meus infiéis joelhos fincados no chão e a minha alma nas minhas mãos, que eu tenha forças para ver suas lágrimas sem tentar enxugá-las, que eu tenha coragem de ouvir seus lamentos sem querer silenciá-los, que eu tenha serenidade para empatizar com elas sem roubar-lhes o protagonismo.

Que elas jamais sintam que, para mim, suas angústias são um fardo ou suas aflições são um incômodo.

Que elas sempre saibam que eu preferiria mil vezes morrer chorando e segurando a mão delas a seguir vivendo sem saber que, quando as luzes se apagam e ninguém está vendo, elas silenciosamente choram até dormir.

Amém.