Esperança

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 31 de janeiro de 2016.

io-iôMuita gente tem me dito que perdeu a esperança, ou a fé, na humanidade. Que não acredita que possamos mudar o caminho em que estamos, que somos uma espécie fadada à extinção. Eu não vejo isso.

Eu ofereço escuta para muitas pessoas e muitas delas são mulheres tentando sair de relacionamentos abusivos. E eu vejo um paralelo entre o caminho que costumamos percorrer nesse processo, com suas incidentais recaídas, e o caminho que a humanidade faz em direção à sua libertação da lógica da dominação (base do capitalismo e do Estado).

Sair de um relacionamento abusivo pode, de fora, parecer fácil, óbvio, questão de autopreservação. Mas não é tão simples. Porque há todo um condicionamento, uma armadilha mental, que mantém a gente ali.

Tem a vergonha de estar naquela situação, que por si só muitas vezes nos leva a crer que a merecemos. Tem a ideia de que as coisas são assim mesmo, e a de que a brutalidade é paixão – algo que muitas vezes vem da tendência de tentarmos negar o abuso por conta da necessidade de nos sentirmos amadas: “ele é assim porque ele me ama de verdade”.

Além disso, nos apegamos aos “momentos bons” e costumamos ter a sensação de que é nosso papel cuidar do cara, transformá-lo numa pessoa boa. Que, se ele é violento porque está sofrendo, que não podemos abandoná-lo com esse sofrimento, ainda que ficar faça com que nós próprias soframos física e/ou psiquicamente. E o agressor se aproveita disso, desse condicionamento (ainda que nem sempre conscientemente), nos envenenando e manipulando para que não consigamos nos permitir escapar.

Essas barreiras podem ser invisíveis, mas não são inexistentes. E são muito difíceis de se transpor. Especialmente sem qualquer apoio.

Muitas vezes, ensaiamos partir… mas daí ele corre atrás, faz mil coisas fofas, promete que vai mudar, que vai ser tudo diferente. E a gente desiste. E volta. E normalmente, ao fazê-lo, nos sentimos fracas e tolas. Especialmente por conta da forma como a sociedade costuma dizer que a culpa é nossa, que nós é que nos sujeitamos (“mulher de malandro!”), que nós não merecemos respeito porque não nos damos ao respeito, etc. “Falta de vergonha na cara”, dizem, quando o que mais sentimos é, precisamente, vergonha.

Tudo poderia ser tão mais fácil se entendêssemos e entendessem que esse ir e vir, quando acontece, é parte do nosso processo interno, do nosso tempo.

Para conseguirmos sair sem olhar para trás, precisamos abraçar e desconstruir muita coisa dentro de nós. E isso não se faz da noite para o dia. E fica muito mais difícil sem apoio. Quando não há quem olhe para a gente com carinho, quem nos acolha, é quase impossível a gente conseguir acreditar que é digna de carinho e acolhimento.

Para passar pela porta, precisamos superar o medo. Medo de ficarmos sozinhas. Medo do desconhecido. Medo de que todas as coisas terríveis em que ele nos faz acreditar em relação a nós mesmas sejam verdade.

Havendo escuta e suporte, haverá fortalecimento. Haverá empoderamento. E, com isso, eventualmente vai chegar o ponto em que o medo vai perder. Em que a gente vai conseguir encarar nossos piores temores e falar “foda-se” do fundo do nosso coraçãozinho batido e pisado que até então já não se aventurava mais para fora da cozinha. Porque finalmente enxergamos que, independentemente do que vai ser, como está não dá mais para ficar. E ouvir que ninguém mais vai nos querer não assusta mais – ou pelo menos não tanto, não a ponto de nos manter ali. Porque mesmo que o cara fosse a única outra pessoa no mundo a gente não iria querer ficar com ele.

Similarmente, quando a gente faz que vai sair da merda em que estamos, coletivamente, como sociedade, a direita, o conservadorismo, vem com flores e bombons e bônus de natal. Com promessas de que tudo pode ser melhor sem mudar nada. Com ameaças de que, se a gente for para o outro lado, o céu irá desabar sobre as nossas cabeças.

E daí a gente volta.

Só que não é um relacionamento entre apenas duas pessoas. É um relacionamento de cada pessoa com a visão de mundo baseada na noção de que só há duas opções possíveis: estar por cima ou estar por baixo. Dominar ou ser dominade.

E não estamos sós. Em números crescentes, nos ouvimos e nos acolhemos e nos abraçamos cada vez mais quando falamos de nossa infelicidade dentro deste paradigma. A empatia está se tornando uma palavra corrente nos nossos vocabulários.

Assim, a exemplo do que costuma ocorrer quando mulheres presas num relacionamento abusivo recebem escuta, apoio e acolhimento, cada vez que a gente volta, mesmo voltando, a gente volta mais de saco cheio daquilo. Com menos disposição para nos enganarmos. Com menos vontade de ficar. Com mais e mais certeza de que, por mais doloroso que possa ser o fim, ainda mais dolorosa é a perspectiva daquilo nunca acabar.

Isso me dá esperança de que vá chegar o dia em que não vamos voltar mais.

A questão é: vamos sobreviver ao percurso? Às indas e vindas?

Muitas mulheres, infelizmente, não sobrevivem. Talvez nós, também, como sociedade, pereçamos no caminho antes de chegar num ponto em que pelo menos estejamos fora de perigo.

Espero que não. Seria uma pena.

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Acolhimento

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 05/04/2015.

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento