Sim, foi estupro

 

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Ser mulher na nossa sociedade é viver tentando não se permitir perceber as violências de que se foi ou é vítima. Nem mesmo as violências que são reconhecidas pelo Estado como violências, que foram inclusive tipificadas como crimes, nos sentimos confortáveis para denunciar. E, quando falo de denunciar, não estou falando nem para a “justiça” ou para a comunidade de que fazemos parte, ou mesmo nossa própria família. Digo, antes de tudo, para nós mesmas.

Talvez seja porque, na letra fria da lei, não enxergamos as pessoas cujos comportamentos ela endereça, e menos ainda as pessoas vitimadas por aquele comportamento. A lei não endereça o trauma, não dialoga com a dor. Por natureza, ela nem teria esse poder, mesmo que quem a escreveu assim o desejasse. Ela é, em sua própria essência, um retrato sem rostos.

Não sei se isso é algo proposital, deliberado, mas, para noventa por cento das pessoas, ligar o que está planificado na linguagem inacessível e mortiça da lei ao que se passa na realidade tridimensional ao redor delas é uma ginástica cerebral excepcionalmente árdua. A lei é como um nome de luxo, pomposo e quilométrico, para uma pessoa que sempre conhecemos por um apelido simples, cotidiano. É um “José Felipe Camargo de Fonseca e Abrantes de Medeiros” para um “Zé” com quem conversamos brevemente sobre a música no elevador hoje de manhã.

Não é simplesmente como olhar a planta de um imóvel e reconhecer nela os cômodos em que se habita; sim, isso levaria algum empenho, maior ou menor conforme a maior ou menor aptidão para a coisa, ou experiência nesse exercício. Mas ler um artigo de lei e perceber nele atos que praticamos ou foram praticados contra nós demanda algo mais. Demanda, antes de tudo, que nos levemos a sério. Que nos enxerguemos como pessoas sujeitas de direito, dignas de serem resguardadas pela pompa e circunstância do legalês, do juridiquês.

Encontramos, no artigo 217-A do código penal, que trata-se de “estupro de vulnerável” o ato de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Mas quantas mulheres conseguem relacionar esse “José Felipe” ao “Zé” que aconteceu com elas? Que percebem que foram praticados atos libidinosos com elas, então menores de 14 (catorze) anos, e que isso, por si só, não importa como, quando, quantas vezes e quem fez, constitui estupro de vulnerável? Que são irrelevantes as demais circunstâncias?

Uma mulher conta dos primos mais velhos que ostensivamente a espiavam, fazendo comentários e se masturbando, enquanto ela, com doze anos de idade, tomava banho; conta de como a tia dela, mãe desses meninos, ao saber disso, não apenas se recusou a tomar providências, mas disse que era ela quem estava querendo se mostrar e eles só faziam o que “era natural” para eles.

Outra moça relata que um tio aproveitava para apalpá-la quando ninguém estava olhando. Houve um dia em que alguém enfim o pegou fazendo aquilo, mas, ao invés de socorrê-la, virou a cara para ela, passando então a olhá-la com repulsa. O abusador em si seguiu com seus abusos tranquilamente, sem sofrer a mais mínima censura ou reprovação.

Mais outra fala do padrasto que se roçava nela quando ela era criança. E que, quando ela brigava, falava que não sabia como ela ia um dia ter um homem se não gostava daquilo. Reclamar com a mãe não surtiu efeito: esta disse que a menina estava querendo chamar atenção, estragar a felicidade dela, roubar o homem dela. E daí ela se calou. E ele aproveitou.

Essas memórias são expostas como se o que se passou como se fosse um “mimimi”. Com a vergonha de quem sente que não tem cabimento sequer se lembrar daquilo. Como se o trauma, a mácula que ficou nelas, não fizesse sentido. Algo previsto em lei como crime hediondo, sendo tratado como se fosse uma bobagem.

Essas mulheres não são exceções. Infelizmente, há muitas outras, com histórias de amigos da família que “tiravam casquinhas”, professores que roubavam apalpadelas, vizinhos que encoxavam no elevador, pais de amiguinhas que mostravam o pinto, pais, avôs, irmãos, amigos de irmãos, colegas de classe… são tantas, tantas, que a sensação que eu tenho é a de que não conheço UMA ÚNICA mulher que não tenha passado por alguma violência sexual na vida dela. E, bizarramente, a maior parte delas não se dá conta de que foi isso – violência sexual – o que se passou.

E não é que não se deem conta por serem tolas ou ignorantes. É que foi consistentemente feita com elas toda uma lavagem cerebral nesse sentido. Foi-lhes ensinado, quando elas ainda eram jovens o bastante para jamais esquecerem a lição, que estupro não era nada. Que, aliás, seria “histeria” da parte delas chamar de estupros os estupros que, de fato, sofreram. Que era besteira delas ficarem incomodadas por “tão pouca coisa”. Que, ao falarem, elas próprias seriam julgadaselas é que provocaram, elas é que não pararam, elas é que estão inventando, elas é que são sem-vergonha. Que elas teriam que perdoar. Que elas estariam “arruinando a vida de um homem de bem” por conta de “nada”. Que estariam “destroçando a família” por puro “egoísmo”. Egoísmo. Delas. Afinal, “homens fazem o que homens fazem”; “eles são assim mesmo”.

Não lhes ocorre, quando olham para trás, mesmo sentindo o arrepio de asco e o gosto amargo de tantos sentimentos reprimidos a tanto custo, que o que lhes foi feito não é normal, não é natural. Que não é porque todo mundo tem uma história assim que é ok que histórias assim continuem se repetindo. Que não é ok que estupros desse tipo continuem ocorrendo, sem que ninguém faça nada a respeito, como se não justificassem uma atitude.

Precisamos rasgar essa mordaça de culpa, vergonha e medo. Precisamos falar dessas coisas. Ainda que não possamos ou não queiramos processar criminalmente os responsáveis, precisamos reconhecer e nomear essas violências e legitimar o sofrimento que elas causam. Se não por nós mesmas, por nossas meninas. Para que elas jamais tenham que repetir para si mesmas, sozinhas, escondidas, tentando esquecer o inesquecível: “não foi nada”.

O estupro como plataforma eleitoral

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MARCHA DAS VADIAS DO RIO DE JANEIRO 2013. Copacabana, 27 de julho – 13h – Posto 5, em frente à antiga boate HELP

Me mandaram ontem um vídeo falando “veja, um candidato a governador abordando a alta incidência de estupros no Estado de São Paulo, que legal”. Eu fui ver cheia de carinho. Murchei logo no começo.

O que torna o estupro um crime infelizmente comum é o fato de que a nossa sociedade costuma, por puro moralismo machista e bolorento, culpabilizar a vítima por ele, isto é, responsabilizar a mulher que sofreu o estupro ao invés do homem que a estuprou, na base do “quem mandou”: quem mandou ficar bêbada, quem mandou se vestir assim, quem mandou dar trela, quem mandou estar nesse lugar a essa hora… Ninguém também mandou o cara estuprar a mulher, mas, né, isso fica em segundo plano.

Cria-se, assim, uma atmosfera em que só se entende como estupro aquele em que a vítima não tem nenhuma circunstância sua que possa afrontar os empoeirados bons costumes. O estupro que acontece com uma mulher “direita”, que usava roupas “recatadas” e estava em um lugar “respeitável”, num horário “decente”.

Daí que muitas vítimas de estupro sofrem em silêncio por não saberem que foram estupradas. E muitos estupradores nem se dão conta de que são estupradores. Na cabeça deles, estuprador é só o “maníaco do parque”, o facínora que aparece nos programas sensacionalistas de TV. E a maior parte dos estupros não é sequer denunciada.

A propaganda desse candidato começa bem, fazendo a reflexão de que, só nos últimos três anos e meio, houve em São Paulo quase tantos estupros denunciados quanto estima-se terem ocorrido em toda a Guerra da Bósnia, conflito em que a violência sexual esteve muito presente, por ter sido empregada como tática de intimidação.

O vídeo fala também, aliás, mais para frente, da estimativa de que, para cada estupro denunciado, haja NOVE outros que não foram denunciados. Ou seja, seriam, na verdade, quatrocentos mil estupros. Quatrocentos mil. Estupros. Pois é. Palmas para a campanha por expor esse fato.

Mas as minhas palmas acabam aí.

Logo em seguida aparece um depoimento de uma vítima de estupro, o que não seria um problema, se não fosse pelo fato de que é só um único depoimento e é justamente o depoimento de uma vítima que foi “estuprada no caminho de volta do trabalho” por um estranho, na rua, ameaçada com uma arma. Ou seja, um caso de vítima “exemplar”.

Onde está uma mulher que foi estuprada pelo marido, dentro da própria casa? Uma moça que foi estuprada enquanto bêbada, em uma festa? Uma prostituta que foi estuprada no meio do programa que fazia? Com certeza não faltariam depoimentos, se houvesse a vontade de coletá-los.

A opção por esse único relato desperdiça uma oportunidade de ouro de alcançar pessoas que podem ter passado ou estar passando por violência sexual sem se sentirem legitimadas a denunciá-la.

A certa altura do vídeo, aliás, especulam-se os motivos pelos quais a maior parte das vítimas não denuncia o estupro que sofreu. São citados “vergonha, medo, constrangimento”. Mas ninguém fala de quê. E isso é o que precisava aparecer.

A vítima sente vergonha porque, tendo crescido em uma sociedade que culpabiliza tanto a vítima que o próprio Judiciário legitima o estupro de meninas de treze anos, ela naturalmente vê a si mesma como culpada pelo que lhe ocorreu. Como eu já disse, ela muitas vezes sequer se dá conta de que o que se passou foi estupro.

Ela sente medo porque sabe que correrá o risco de ainda ter que conviver com a pessoa que a estuprou mesmo após a denúncia, já que a probabilidade de ele ser processado é pequena – de ser condenado, então, ainda menor. Porque, a exemplo do Judiciário, citado acima, mesmo as autoridades ainda conservam a mentalidade tacanha de que apenas o estupro “clássico” é estupro. Aliás, vendo os inúmeros exemplos na mídia, a vítima sabe que, vindo a público, ela poderá ser hostilizada. “Uma mentirosa, querendo chamar atenção, tentando destruir a reputação de um homem bom”, as pessoas não raro dizem.

E ela sente constrangimento porque ela sabe que ela será julgada, que sua vida, especialmente sexual, será escrutinada, antes de que sequer se dirija o olhar para quem a violentou. Porque sabe que será motivo de piada para muitas pessoas.

Mas voltemos ao horário eleitoral. Para ilustrar a gravidade das estatísticas, o candidato faz a seguinte colocação: “enquanto você assiste uma partida de futebol, duas mulheres estão sendo estupradas em São Paulo”.

Achei interessante e útil a imagem. Mas tenho birra profunda da voz passiva utilizada para falar de qualquer violência contra minorias. “As mulheres estão sendo estupradas”. Sim, sem dúvida. Mas a questão que fica de lado nessa construção é: POR QUEM?

Quando a gente fala de violência praticada contra integrantes de minorias, estamos falando de violência praticada por integrantes de uma maioria. Uma maioria que seria facilmente alcançada, por exemplo, por um vídeo de campanha de um candidato a governador. Se há uma preocupação real em mudar esse quadro, por que não aproveitar para já lançar uma sementinha de conscientização nos telespectadores?

Não é que, simplesmente, “a cada 43 minutos, duas mulheres são estupradas”. É que, “a cada 43 minutos, HOMENS estupram duas mulheres”. Parece uma besteira, né? Parece poteito-potahto. Mas não é. Como eu disse, o maior problema do estupro é a tendência reinante de se colocar a culpa na vítima. E a construção na voz passiva, um corpo sem cabeça, com sujeito indeterminado, que tira de cena precisamente o perpetrador do crime, mantém o foco nas mulheres, mandando subliminarmente a mensagem de que a ação, de certa forma, é delas, de que a solução do problema, na verdade, está nelas.

Mas tem mais. Lá pelas tantas, o cara vai e fala “Fiquei indignado! Porque não são só as mulheres que sofrem com esses monstros. É a família toda”. Primeiro: e se fossem só as mulheres? Não seria motivo suficiente para indignação? Que escolha mais tosca de palavras. Mesmo que se pense que as pessoas são um bando de egoístas que só se importam com o que lhes atinge diretamente, isso não é motivo para entrarmos na dança e legitimarmos essa forma individualista de ver o mundo. Isso é algo que deve ser problematizado, e não incorporado ao nosso discurso.

E segundo ponto: monstros? Não existem monstros. Existem apenas seres humanos. Digo isso não para ressaltar a humanidade dos monstros, na verdade, mas para enfatizar a monstruosidade nos humanos.

É muito fácil olhar para o cara que apareceu no jornal e gritar “monstro” e daí ir dormir tranquilo, afinal, não sou monstro, sou “homem de bem” – eu não pego uma mulher “decente” voltando do trabalho e a levo, na ponta da faca, para um beco e a estupro. Quando eu posso apontar o monstro no outro, não preciso procurá-lo no meu próprio espelho. Automaticamente, não sou capaz de estuprar, porque não sou monstro, nem sou capaz de encorajar o estupro, porque não convivo com monstros. Os monstros moram em outro lugar.

Não tenho que fazer um exame de consciência e pensar se realmente é uma boa eu pressionar minha própria esposa a fazer sexo comigo, mesmo que ela não esteja a fim, falar com ela como se fosse egoísmo dela ela não permitir que eu use seu corpo para me masturbar. Não tenho que pensar em como a forma como eu trato as mulheres ao meu redor contribui para a noção de que elas são primordialmente objetos sexuais para homens, em como meus assovios para as “gostosas” que passam reafirmam isso, em como minhas piadinhas de “ou dá ou desce” repisam a ideia de que é natural usar de uma posição dominante para forçar outra pessoa a fazer sexo. Não tenho que refletir sobre alguma vez em que eu tenha forçado a barra com alguém que eu sabia que estava bêbada demais para saber o que estava fazendo, ou sobre como um amigo meu me contou que fez isso e eu agi como se não fosse nada demais, afinal, “cu de bêbado não tem dono”.

Trazer o “monstro” para a conversa, portanto, é uma forma de distanciamento que contribui para mascarar a percepção das pessoas quanto ao que seria ou não estupro.

Mas até aqui eu tentava me dizer que era implicância minha. Que havia boa vontade sincera naquela campanha. Foi ao ver as propostas do candidato que eu engasguei de verdade. Ele propõe o seguinte: a criação de mais delegacias da mulher; a modernização dessas delegacias, equipando-as com delegadas e psicólogas 24 horas; dobrar a pena para o estupro; reduzir a maioridade penal para dezesseis anos, e criar o disque-violência sexual.

Olha, para começo de conversa, é, sim, superlegal criar mais delegacias da mulher e equipá-las bem. Mas sabe o que seria ainda mais legal? Que as delegacias já existentes tivessem um pessoal com melhor preparo para lidar com os casos que atendem. Eu conheço mulher que foi recebida com riso (sim, riso) pela delegada e com ceticismo (sim, ceticismo) pela psicóloga. São todas? Certamente que não. Mas não era para ter NENHUMA. Porque nenhuma mulher que passa por uma experiência tão horrível e traumática deveria ser ridicularizada, principalmente pela própria autoridade que supostamente está ali especialmente para atendê-la.

Sobre o terceiro ponto: crimes não acontecem por falta de pena mais rigorosa. O que faz diminuir a incidência de crimes é a maior probabilidade de ser PEGO, PROCESSADO e CONDENADO pelo crime. Quanto maior a chance de dar merda, menor a chance de o cara se arriscar. Não adianta prever amputação de pênis (e não, isso não é constitucional) se a denúncia da vítima ainda vai ser recebida como uma piada, se ela é que vai ser execrada, se vai ter babaca dizendo que o cara na verdade merecia um abraço.

Aliás, típico punitivismo eleitoreiro. Crime não acaba por decreto. Não basta a lei. Não adianta aumentar a pena, falar “eu fiz a minha parte” e daí lavar as mãos, como se isso fosse resolver o problema. Tem que atuar na forma como as pessoas percebem o crime, para que haja a denúncia; tem que atuar na forma como as pessoas recebem a denúncia, para que haja o processo; tem que atuar na forma como as pessoas conduzem o processo, para que haja a condenação.

No item quatro tem o cavalo-de-tróia que o candidato tão sagazmente enfiou ali: redução da maioridade penal.* O que é que tem o U de ver com as alças? Qual a quantidade de estupradores que é menor de idade? Relevância disso, qual?

Sobre o disque-denúncia, tenho a dizer apenas que me parece uma ideia meia-boca. Não sei da efetividade de disques-denúncia em geral, precisaria de dados para isso, mas muito me admiraria que denúncias anônimas feitas por telefone fossem levadas a sério quando denúncias feitas presencialmente, por mulheres de carne e osso, só vão para frente se elas estiverem acompanhadas de alguém que tenha uma carteira da OAB.

Enfim, para mim, ficou parecendo um daqueles tiozões que fala que tinha que ter pena de morte para estuprador, que tinha que apodrecer na cadeia, que são monstros e blablablá, mas ao mesmo tempo acha que é um exagero falar de estupro “só porque a moça estava bêbada”.

Resumindo a ópera: o candidato não se equivocou só na abordagem, mas nas soluções que propõe. A palavra chave é conscientização. Temos que desmantelar a cultura do estupro e isso não se faz na porrada, mas com informação. Mais do que (no sentido de ALÉM DE) prender os estupradores que já estão aí, temos que impedir a formação de novos estupradores: parar de ensinar aos meninos que “faz parte” não respeitar os limites impostos pelas meninas; parar de ensinar que a mera ausência do não é sim, e que o não em si é código para “continue tentando”; parar de ensinar que é legal ser escroto.

E temos também que ensinar às nossas meninas – e mulheres! – que elas não têm que agradar ninguém usando o seu corpo. Aliás, que não têm que agradar ninguém, PONTO. E que sexo sem consentimento real, sexo que a gente faz querendo não fazer, se sentindo forçada, muitas vezes chorando, porque foi pressionada ou coagida, NÃO É SEXO, É ESTUPRO. E que, se isso acontecer, NÃO É CULPA DELAS. Porque qualquer participação que elas tenham tido na sequência de eventos que culminou no estupro não foi determinante para que ele ocorresse. Só o que é determinante para o estupro é a conduta do estuprador.

Temos que ensiná-las a denunciar e a apoiar as denúncias de outras mulheres. Temos que mostrar para elas que nós estamos todas juntas nesse barco e já passou da hora de nos apoiarmos umas às outras.

Nós não precisamos de cavaleiros ideais prontos para resgatar donzelas ideais de monstros ideais. Precisamos de pessoas reais, dispostas a se perguntarem que atitudes e falas suas podem estar contribuindo para a noção de que mulheres reais não merecem ter suas vontades em relação aos seus corpos respeitadas.

***

 

* Eu vou fazer um post só sobre o absurdo de adultismo que é a pretensão de redução da maioridade penal em si. Me aguardem.

“Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”

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Muitos homens perguntam. Talvez seja esse o maior privilégio masculino de todos: não entender o nosso medo de estupro.

É privilégio porque o medo que não entendemos é o medo que não temos. E homens em geral tanto não têm medo de estupro que a ideia de um homem ser estuprado é motivo constante de piada. No cinema, por exemplo, é tema comum em comédias de besteirol.

Aliás, quando se trata de estupro de homens por homens, mesmo que só metafórico, fica sempre tão claro que não é uma questão de tesão, mas de dominação. Né? “Fulano é a putinha de beltrano”, “vou botar no seu c*”, “chupa!” E essa dominação de um homem pelo outro, sua completa subjugação e humilhação se dá justamente por seu “rebaixamento” à posição de mulher – o que há de mais degradante possível para um homem numa cultura machista e misógina como a nossa.

Já quando a vítima é mulher, de repente, o estupro acontece por conta do “desejo incontrolável” que ela instigou. Foi ela quem resolveu “brincar com fogo”, que “assumiu esse risco” com aquelas roupas/aquele comportamento/indo para aquele lugar/saindo com aquele cara… e daí conclui-se que a mulher na verdade “estava querendo” o estupro, que consciente ou inconscientemente desejava a atenção do estuprador. Porque ser estuprável é ser desejável. É ser bonita, ser “gostosa”. O estupro é praticamente uma massagem no ego da mulher, olha só. Ela deveria agradecer por ser estuprada. E o homem que estupra uma mulher considerada feia merece um abraço. (pausa para vomitar)

Ou seja, fica tudo no colo da mulher. Cabe a ela “se enfeiar”, como se isso fosse prevenir o estupro. Quisera fosse tão simples; quando até mesmo mulheres de burca são estupradas, quando até o rímel é apontado como causador do estupro ao invés do estuprador, pergunta-se: quão feias temos que ser para ficarmos a salvo de sermos estupradas?

E, especialmente, como equalizar ser feia o suficiente para ser inestuprável com ser bonita o suficiente para não perder o seu valor numa cultura em que a mulher que não corresponde minimamente ao padrão de beleza vigente é vista como desprezível? Quando nada que uma mulher possa fazer parece mais relevante que seus atributos físicos, quando nada que ela faça pareça ter mérito quando ela se mostra aquém de um ideal estético impossível?

Para a mulher é quase imperdoável não se encaixar no padrão de beleza. Em incontáveis filmes vemos o clichê do patinho feio que tem que se transformar em cisne para provar seu valor e ficar com o tão importante herói no final. E como o papel da mulher é ser bonita antes de qualquer outra coisa, a beleza feminina é socialmente esperada, e a eventual não adequação ao padrão – leia-se: feiura – é tratada como uma ofensa, como uma transgressão. Não é só motivo de piada, mas de ódio. É por isso que a gordofobia é pior para as mulheres que para os homens.

Numa sociedade em que mulheres são vistas como objetos, não sujeitos, mulheres “feias” são objetos quebrados, inúteis, sem valor. E são tratados de forma correspondente.

Ah, mas a mulher pode também evitar as situações de risco. Né?

Pois é. Mas o que seria uma situação de risco? Quando a maior parte dos estupros acontece não num beco escuro, de madrugada, no bairro mais perigoso da cidade, mas em algum lugar e horário insuspeitos (incluindo a própria casa da vítima, a qualquer hora do dia)? Quando a maior parte dos estupradores não é o estranho que violentamente agarra a mulher na rua e a estupra, mas o conhecido, o familiar, o vizinho, o “amigo”, o colega de trabalho ou de escola, o chefe, o namorado, o marido?

Mas tem gente que insiste que esses conhecidos só estupram as vítimas porque elas passaram a mensagem errada para eles. Porque elas os confundiram, os provocaram.

Será? O que é uma provocação num mundo em que há (muitos!) homens que esperam sexo como retribuição por amizade? Por alguma ajuda prestada? Por respirarem?

Qualquer sorriso constrangido pode ser interpretado como um estímulo ao prosseguimento da cantada que já não é bem vinda, ao mesmo tempo em que a rejeição clara pode ser considerada uma grosseria a ser punida com agressões desde verbais até fatais. De novo, como equalizar rudeza o suficiente para tornar-se menos passível de sofrer ataques sexuais enquanto ainda se mantém simpática o suficiente para não correr o risco de ser agredida, espancada ou morta? Será que não é mais fácil estabelecer que um homem não considere como sim nada além de um “sim”?

É por isso que ser mulher, muitas vezes, é viver com a sensação de que “se correr o bicho bate, se ficar o bicho estupra”.

A cada hora, no Brasil, são registrados seis casos de estupro. E esse número é subestimado, já que a violência sexual raramente é denunciada, porque é normalizada na nossa sociedade, isto é, vista como algo que “faz parte” ou algo pelo qual se culpa a mulher, e as vítimas muitas vezes se calam por medo ou vergonha.

Por isso, quando alguém me pergunta “Por que as mulheres têm tanto medo de ser estupradas?”, tenho vontade de responder apenas com: “Que bom para você não saber. Nós também gostaríamos de nos dar ao luxo dessa ignorância.”

Tiro no pé não mata

Suponhamos que uma pessoa dê um tiro em seu próprio pé. A ferida não é fatal, mas ela tem que ir para o hospital. No caminho, um cara bate deliberadamente no carro que a transportava para lá e ela morre. Suicídio?

É verdade que ela só estava naquele carro, naquela hora, naquele lugar, porque deu um tiro no pé. Sim, ela participou da cadeia de eventos que culminou em sua morte. Mas não foi o tiro que, de fato, a matou. Fosse só pelo tiro, ela teria chegado ao hospital, sido atendida e saído da história viva. O que foi determinante para que ela morresse foi a atitude do cara que bateu no carro em que ela estava.

Claro que é válido questionar por que motivos uma pessoa atira no próprio pé, ou possui uma arma, etc; são questões que devem ser entendidas e saneadas. Mas, se a sociedade quiser evitar que mais casos como esse ocorram, ela deve se focar em coibir comportamentos como os desse indivíduo, que são o que de fato os causam. Afinal, não tendo acesso à vítima em questão, o cidadão simplesmente encontraria outra.

Dito assim, parece óbvio. Mas vejamos outras situações que eu considero similares, mas que costumam ser tratadas de uma forma muito diferente:

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente a atenção e aprovação dos homens ao seu redor (tiro no pé). Eventualmente, acaba sobrando sozinha com um “amigo” que a estupra, se aproveitando do fato de que ela não consegue dizer “não” expressamente, apesar de sua recusa ser clara e seu desagrado ser evidente (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a buscar compulsivamente parceiros dominadores, agressivos, violentos (tiro no pé). Entra num relacionamento com um homem particularmente abusivo que a espanca (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a comportar-se de forma autodestrutiva, como embriagar-se até desmaiar em festas e baladas (tiro no pé). Eventualmente, é estuprada por um homem que se aproveita de seu estado de embriaguez (cara que bate no carro).

– Uma mulher é criada e educada num ambiente machista e misógino. Cresce com baixíssima autoestima e, por milhares de mecanismos psicológicos, desenvolve uma forte tendência a não questionar as autoridades com que se depara, especialmente se forem homens. Um dia, engravida e coloca-se nas mãos de um mau médico obstetra, não buscando informações que a protegeriam (tiro no pé). O tal médico a força (juntamente com seu bebê) a passar por uma cesariana desnecessária e indesejada, ou por um parto violento e traumático, cheio de intervenções desnecessárias (cara que bate no carro).

O que todas essas situações têm em comum? Bom, primeiro, são casos de violência de gênero. Sim, podem ocorrer com homens também. Só que a quantidade de homens que passa por esse nível de abuso e violência em situações semelhantes é ínfima em comparação.

Em segundo lugar, todas as vítimas retratadas são antes vítimas do machismo e misoginia do ambiente em que cresceram e vivem. Todas elas, em resposta a esse ambiente, desenvolveram comportamentos “tiro no pé” que as colocaram, digamos assim, em carros propícios a sofrerem batidas.

Em terceiro lugar, e o mais relevante para o que se pretende aqui ilustrar, são todos casos em que a vítima tem alguma participação na cadeia de eventos que culmina com a violência que é praticada contra ela. Mas, a exemplo do caso do tiro no pé, a participação delas NÃO É DETERMINANTE para o que lhes ocorre ao final.

Não haveria estupro se não houvesse o estuprador. Não haveria violência doméstica se não houvesse o agressor. Não haveria violência obstétrica se não houvesse o mau profissional do ramo. Como já foi dito, se o cara não consegue vitimar uma, ele simplesmente vai e encontra outra.

No caso de um assalto não se diria que a culpa é da pessoa que foi assaltada, apesar de ela, como ocorre nos exemplos dados, ter participado da cadeia de eventos que levou a que ele ocorresse (estando no local onde ele ocorreu, dando mostras de que tinha o que ser roubado, não sendo suficientemente vigilante, por exemplo). Mas muito se ouve que a mulher não pode se fazer de vítima, que mereceu, que “estava pedindo”. Outros ainda dizem que a mulher “tem que tomar o controle da situação”, parar de “esperar que alguém a salve”. Como se ela fosse ter poder de, já estando dentro de uma situação de agressão, repeli-la só com a força de sua vontade.

Ela pode ter dado um tiro no pé, mas não se violentou. O controle que ela poderia ter da situação acaba quando ela entra na casa do amigo mal-intencionado, quando ela toma a primeira pancada, quando ela perde a consciência depois de beber demais, quando ela dá entrada no hospital para parir. O que acontece a partir daí não está sob o controle dela e sugerir que estivesse é onerá-la com uma responsabilidade que cabe a outro indivíduo – ao indivíduo que, no controle real daquela situação, OPTOU por agir com brutalidade.

É válido questionar – e entender – o que levou a vítima à situação em que ocorreu a violência que ela sofreu. Por parte da própria vítima, para que consiga escapar de novamente encontrar-se ali, e por parte da sociedade, para que compreendamos a importância de desconstruir o machismo e a misoginia que geram os padrões de comportamento que colocam mulheres nessas situações. Mas, para diminuir a incidência desse tipo de violência, não adianta diminuir a disponibilidade de presas. Tem-se que focar nos predadores.

Uma coisa é reconhecer que há uma bagagem emocional que cria uma vulnerabilidade em relação a esse tipo de agressão. Outra coisa, muito diferente, é essa mesma bagagem emocional ser utilizada para justificar os atos dos agressores e para colocar culpa nas vítimas, perante a sociedade e a si mesmas, uma manipulação que transforma em principal e determinante o que, na verdade é só concorrente e facilitador para o resultado final.

Olhando-se no espelho, a mulher sente vergonha pela violência que ela SOFREU. É forçada ao silêncio e à negação, um processo muitas vezes ainda mais doloroso do aquilo por que ela já passou. Chega a inventar desculpas para seu agressor, defendê-lo (“eu não me fiz entender”, “eu que fiquei com ele” ou “eu que provoquei”, “eu não lembro de nada, talvez eu tenha consentido”, “ele estava só fazendo o trabalho dele, quem sou eu para julgar, não estudei medicina”), ou ouvir essas mesmas desculpas e defesas (não raro acompanhadas de acusações e ameaças) das pessoas que deveriam dar-lhe apoio, talvez até mesmo sua família, quando tenta romper esse silêncio.

Por que tanta falta de apoio à vítima, tanto apoio ao agressor?

Porque não se quer culpar a quem de direito. Ou porque sequer se vê o ato dele como algo culpável, porque se entende que estupro só é estupro se a mulher é “de bem” e está sóbria, gritando e chutando; violência doméstica só é violência doméstica se nunca houve um grito, um palavrão, uma única atitude abusiva por parte do parceiro (ou pior! Se a mulher estava de boca fechada, a casa limpa, a roupa lavada, a comida na mesa e a testa do agressor livre de quaisquer cornos, imaginários ou não); violência obstétrica é invenção de gente desocupada que quer se meter no trabalho dos outros. Porque se costuma pensar que todos esses agressores estavam só fazendo que lhes era “natural” diante das circunstâncias.

Porque se parte do princípio bizarro de que podridão humana e natureza humana são a mesma coisa.