Freixo, Priscila e Isadora

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 29 de julho de 2017.

freixo

 Foto: Luiza Marangoni (de http://www.srzd.com/brasil/priscila-soares-e-marcelo-freixo-o-machismo-oculto-e-o-explicito/)

Nesta semana, Priscila Soares (vulgo “ex-mulher de Freixo”, segundo a maior parte da mídia) denunciou, por meio das redes sociais, o machismo que sofreu durante sua relação com um dos políticos atualmente mais proeminentes da esquerda dita mais à esquerda: Marcelo Freixo, PSOL.

Como exposto por Maria Elisa Maximo, do Catarinas, “Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.”

É sempre infeliz quando a postura majoritária da esquerda nos coloca em posição de encontrar lucidez nos prepostos mais delirantes da direita. Pois eu li e, mesmo tampando o nariz, me vi obrigada a concordar com Rodrigo Constantino, que propôs uma reflexão sobre como essa denúncia teria sido recebida se seu alvo fosse, por exemplo, o homem que adoramos odiar: Jair Bolsonaro.

Nós esperamos machismo das figurinhas da direita. Mas o que fazemos quando nos deparamos com o machismo da esquerda? O que fazemos quando pessoas a quem admiramos se mostram menos que perfeitas?

Problematizamos? Desconstruímos?

Ou chamamos de “linchamento”, justificamos, racionalizamos e varremos para debaixo do tapete para manter a incolumidade de nossos ídolos?

É muito complicado ver que as pessoas que fazem apontamentos e levantam questionamentos que são tão importantes são tão frequentemente tratadas como se fossem elas próprias o problema. Como se estivessem “fazendo o jogo da direita” ou “dividindo/enfraquecendo o movimento”.

Isadora Freixo, filha de 19 anos do político, compreensivelmente veio a público defender a imagem do pai. Expondo memórias dolorosas de seu relacionamento com Priscila, minou sua credibilidade (se é que isso ainda precisava ser feito, já que a moça já mal estava sendo ouvida), fazendo uso da alegoria da “mulher rejeitada” e fez alusão ao histórico de depressão desta. Ou seja, sem perceber, corroborou as alegações feitas por Priscila em relação ao gaslighting que esta vinha sofrendo.

Contudo, é uma situação complicada. O que Isadora descreve de sua relação com Priscila, assim como os detalhes fornecidos por esta de sua relação com Freixo, não é mera “lavação de roupa suja em público”. São as evidências que corroboram o apontamento (ou acusação, como se costuma chamar) das opressões sofridas no âmbito dessas relações. No caso de Priscila, o machismo, nomeado claramente. No caso de Isadora, o adultismo, que, para esta, como para a maioria das pessoas, infelizmente segue inominado.

Priscila nunca foi filha de Freixo. Isadora nunca foi companheira dele. Mais que isso, Priscila nunca foi Isadora e Isadora nunca foi Priscila. Óbvio, né? Pois é. Mas a decorrência dessa obviedade é menos óbvia. Ambas tiveram com ele tipos de convivência distintos, não só pelo tipo de relação, mas porque são pessoas diversas e, logo, as relações que formam, ainda que com o mesmo cara, serão diversas. Resumindo: a perspectiva de uma não invalida a da outra.

Isadora, assim como Priscila, tem o direito de expor seu ponto de vista. O problema, a meu ver, está em contrapor esses pontos de vista como se apenas um deles pudesse prevalecer. Como se só houvesse espaço para o reconhecimento de uma dor. Uma forma de opressão.

Fazer isso é, na minha opinião, usar o sofrimento de uma pessoa para apagar o da outra, quando, infelizmente, o que não falta é espaço para todo mundo sofrer, ao mesmo tempo, ainda que por motivos diferentes.

E foi por isso que me incomodou tanto o artigo publicado por esta Revista Fórum a respeito dessa questão. Porque, ao lê-lo, eu tive exatamente essa sensação, a de que rolou um: se precisamos falar de flores, então vamos falar de flores, mas vamos antes tecer toda uma crítica às flores, para que, quando estas finalmente aparecerem, elas já sejam vistas com outros olhos.

E isso me parece silenciamento – e não só silenciamento, mas, o que é pior, um silenciamento que finge não ser silenciamento. Afinal, não é que não houve oportunidade de falar, né? É só que a gente vai fazer o possível para que ninguém escute.

E tem mais. Sempre me deixa um gosto amargo na boca quando, diante de uma situação em que se discute o comportamento de um homem, a discussão se desloca para as mulheres que o “defendem” ou o “atacam”, tirando de foco, tcharam… o homem em si. E isso é, para mim, muito machista. Porque agora se atacam as honras e as credibilidades das mulheres, uma é uma louca ciumenta, a outra é uma fedelha ciumenta e por aí vamos.

A crítica ao machismo de Freixo (ou mesmo a outras incoerências deste) não precisa apagar suas virtudes, nem aquilo que ele construiu ou constrói de bom para quem gosta dele. Pelo contrário, é algo que pode ser muito produtivo e benéfico se conseguirmos ter a maturidade de ouvir com orelhas de quem quer aprender e evoluir.

É difícil não cair no maniqueísmo de “ah, ele é machista, logo, não presta”, ou “ah, ela é adultista, logo, não presta”. As pessoas não se resumem a um só aspecto, um só comportamento. Não é porque alguém falou ou fez algo problemático que agora se tem um compromisso de odiar essa pessoa. Fãs do Freixo podem continuar fãs do Freixo sem passar paninho para ele. Quem se solidariza com Priscila pode continuar a se solidarizar sem passar paninho para ela.

Pessoas pisam na bola. Erram. Mas podem aprender com seus erros.

É só que fica difícil a gente aprender com erro quando, ao invés de assumir esse erro, a gente finge que não foi erro, ou que até que faz sentido, no contexto, ou que nem foi tão ruim assim, ou que, na verdade, veja bem… e assim vamos na desresponsabilização. E ninguém consegue ser a tal da mudança que quer ver no mundo.

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Cultivando o estupro

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 7 de junho de 2016.

pelo fim da cultura do estupro

Os acontecimentos recentes no Rio reacenderam o debate sobre cultura do estupro. Afinal, como é possível que trinta e três homens “façam sexo” com uma moça desacordada e postem vídeos se gabando disso, como se não entendessem que praticaram um crime?

Como é possível que a vítima de tamanha brutalidade seja tão selvagemente atacada por parte da opinião pública, como se estivesse mentindo ou fosse merecedora daquela violência?

Se considerarmos como estupro “qualquer ato sexual sem consentimento”, “cultura do estupro” quer dizer tudo (seja na política, nas ações, na mídia, nas conversas do dia-a-dia, nas redes sociais, etc.) que cria ou colabora para criar uma atmosfera em que a importância do consentimento para o ato sexual é diminuída. Tudo, portanto, o que nos leva a ver como um ato sexual “normal” o que, na verdade, é estupro, ou que nos leva a relativizar o estupro, mesmo quando o reconhecemos como tal.

Isso gera um ambiente em que o estupro é visto como natural, justificado, compreensível e escusável, estimulando sua ocorrência.

“Ah, mas então não existe essa cultura do estupro, porque todo mundo abomina o estupro”. É o que parece, né? Só que as pessoas abominam só o que elas entendem como estupro – e o que elas entendem como estupro representa uma parcela ínfima dos estupros que de fato ocorrem.

Para a maioria, o estupro só é estupro se: a moça (de preferência branca, de preferência rica), usando roupas não “provocantes” (que palavra interessante), é atacada por uma pessoa (de preferência negra, de preferência pobre) desconhecida (porque, se ela conhece o cara, ela que deu trela), na rua (porque se for em casa é “assunto deles/de família”), num horário “decente” (de dia ou não muito tarde da noite), e no caminho para ou de algum lugar também “decente” (que não esteja destinado à diversão: igreja, padaria, trabalho…). Ah, e só se ela  reagir. Porque se ela tiver medo e ficar quieta, ela “deixou acontecer”, ou “estava querendo”.

Essa é a relativização do consentimento. Essa é a cultura do estupro. A ideia de que, dependendo das circunstâncias, você diz sim mesmo quando diz não. Que, se você veste uma determinada roupa, age de uma determinada forma, está em um determinado lugar, etc. você está, de antemão, consentindo.

Aliás, na cultura do estupro, não existe não consentir. Porque “não” quer dizer “insista”. Não dizer “não” (mesmo bêbada ou dopada, por exemplo) é dizer “sim”. E dizer “sim” em um dado momento é dizer “sim” para tudo o que vier depois dele.

A cultura do estupro parte de três premissas básicas, a meu ver.

Primeiro, a de que o estupro é uma forma de sexo. Que é motivado por tesão. E isso, mesmo quando se sabe que até mesmo mulheres cobertas da cabeça aos pés são estupradas, que muitos homens são estuprados em presídios, por homens que não são homossexuais. A maior parte das pessoas ignora o fato de que o estupro é, na verdade, um ato de violência, de subjugação e dominação, e que o ataque sexual é só a via de manifestação disso.

É só imaginar o nível de desprezo que uma pessoa tem que sentir por outra para usar seu corpo como um objeto masturbatório, uma boneca inflável, enquanto ela está inconsciente, ou chora, pede para parar ou, ainda, simplesmente não parece estar participando do ato, ou querendo que ele aconteça.

E isso nos leva à segunda premissa: a de que a função da mulher é agradar ao homem e seus próprios desejos não são relevantes. Assim, mulheres são objetos, não sujeitos, sexuais. E o tesão e o prazer da mulher são irrelevantes, ou só relevantes na medida em que satisfazem ao ego do homem ou incrementam a experiência sexual deste. Isso faz com que pareça normal e super ok uma mulher fazer sexo mesmo sem querer fazer sexo. Afinal, que empatia é possível com um objeto?

Quando a vontade da mulher em relação ao ato sexual é apagada, seu estupro automaticamente deixa de parecer estupro.

A terceira premissa é essa ideia tão simples e tão comum de que homens são incapazes de controlar seus impulsos sexuais. Que, como animais, não são capazes de discernimento e de escolha em relação a sexo, e não são capazes de resistir à oportunidade de sexo (mesmo que sem consentimento, ou seja, estupro).

Juntando esse tripé (o estupro é sexo, mulheres são objetos sexuais e homens são incapazes de autocontrole), temos a construção da noção de que, quando o estupro ocorre, é porque a vítima o “provocou” de alguma forma. É o que chamamos de culpabilização da vítima – quando a vítima é tratada como se fosse culpa dela a violência que ela sofreu. Como quem cutuca a onça com a vara curta e sofre as consequências “naturais” disso.

Só que homens não são onças – ou não deveriam andar soltos por aí. Homens são responsáveis por seus atos e são capazes de escolher praticá-los ou não.

Mesmo que uma mulher de fato queira a atenção masculina, mesmo que ela queira ser vista, queira flertar ou fazer sexo, ela certamente não quer, nem merece, ser estuprada.

Mesmo que uma mulher tenha feito sexo com mil homens, ela pode não querer fazer com este ou aquele. Mesmo que uma mulher esteja num relacionamento com um homem, ela pode não querer fazer sexo com ele. Mesmo que uma mulher esteja fazendo sexo com um homem, ela pode não querer fazer isto ou aquilo. Mesmo que uma mulher esteja fazendo sexo grupal com dezenas de pessoas, ela pode escolher o que quer fazer e com quem. Mesmo que uma mulher seja uma prostituta, ela pode não querer este ou aquele cliente, ou não permitir este ou aquele ato.

Porque sexo sem consentimento é estupro. E, se uma mulher – ou qualquer pessoa, na verdade – não quer o ato sexual que está ocorrendo com ela, se ele acontece contra a vontade dela ou quando ela não tem como declarar sua vontade a respeito, independentemente das demais circunstâncias envolvidas, ela está sendo estuprada.

Ela poderia estar com roupas curtas, no beco mais violento da cidade, às três da manhã; ela não seria estuprada se o estuprador não a atacasse. Por outro lado, se ela não estivesse ali, ele provavelmente encontraria outra mulher para atacar. Porque o estupro ocorre não pela presença da vítima, mas pela escolha do estuprador de cometer o estupro.

Repito: o estupro só acontece porque o estuprador escolhe cometê-lo.

Não é um fato simples, óbvio e inegável? Dá até vergonha de escrever tamanho acacianismo. Então por que as pessoas tão facilmente o perdem de vista?

Para mim, parece ser por medo.

Homens aderem à cultura do estupro porque têm medo de olhar para si mesmos e verem estupradores em potencial. Eles querem acreditar que o estupro está só lá fora, que é algo que “monstros” fazem, não homens “bons” como eles e seus amigos.

Mulheres aderem à cultura do estupro porque têm medo de olhar para si mesmas e verem vítimas em potencial. Elas querem acreditar que o estupro está só lá fora, que é algo que só acontece com mulheres que “merecem”.

Homens querem acreditar que não oferecem perigo. Mulheres querem acreditar que estão fora de perigo. E, assim, os estupros ocorrem e todo mundo faz de conta que não foi nada. E eles continuam a ocorrer.

Isso é a cultura do estupro.

Sobre amar Kilgrave

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 22 de fevereiro de 2016.

Jessica Jones

*ATENÇÃO!!! Este texto contém spoilers da primeira temporada da série Jessica Jones, da Marvel (disponível no Netflix). Tejem avisades. ***

Jessica Jones é uma série sobre uma moça que tem superforça e trabalha como detetive particular. A personagem, interpretada por Krysten Ritter, é egoísta, cínica, sarcástica… na verdade, ela é bem daquele jeito que tantos personagens masculinos (especialmente os de histórias de detetives) são e todo mundo acha “adorável” (vide Gregory House, Sherlock Holmes, uma pilha de personagens interpretados pelo Bruce Willis, aquele do Tim Roth no Lie to Me, e mais tantos outros – todos? – anti-heróis homens por aí).

Um dos aspectos mais interessantes do enredo é a forma como ele aborda e retrata violência sexual e relacionamentos abusivos. A série mostra uma mulher traumatizada, assombrada por memórias das quais não consegue se livrar, que a assaltam a qualquer momento, fazendo-a reviver uma dor que ela nunca foi totalmente capaz de processar.

Purple ManKilgrave, o vilão da primeira temporada, interpretado por David Tennant (o mesmo cara que fez um dos Doctors mais amados da série Dr. Who) tem o poder de controlar mentes. Ele é, sem dúvida, um psicopata típico – um narcisista que não sente remorso, nem é capaz de empatia – e seria, creio, um grande manipulador mesmo sem seus poderes.

Quando o acaso o leva até Jessica, Kilgrave apodera-se dela e a violenta continuamente, de mil maneiras diferentes, incluindo sexualmente, até que ela consegue misteriosamente se libertar, num momento em que ele, por coincidência, sofre um acidente e parece ter morrido. A história começa quando Jessica, já trabalhando como detetive e tentando lidar com o que passou, descobre que ele ainda está vivo.

Numa das cenas mais marcantes para mim, ela tem um flashback em que aparece numa “refeição romântica” com Killgrave. Ele, de costas para a câmera, diz a ela: “Pasta all’amatriciana. Você vai adorar”. E ela responde, com os olhos e o sorriso de uma boneca de plástico, vestida em roupas que a verdadeira Jessica jamais escolheria para si mesma: “eu vou adorar”.

“Eu vou adorar”. Essa cena, só essa, tão simples, já me fez chorar.

restauranteMais para frente, conforme a trama vai se desenrolando, descobrimos que Killgrave está, na verdade, “apaixonado” por Jessica. Que ele a “ama”. Ou, pelo menos, é isso que ele acha que sente, e é isso que ele diz a ela. E então, ele se propõe a “começar de novo” seu relacionamento com ela, propondo-se a não controlá-la.

Ele a corteja, sendo amável, recriando para ela a casa em que ela cresceu, punindo pessoas que foram cruéis com ela, e contando coisas de seu passado que lançam laivos de cinza sobre seu personagem. E ela responde, como seria natural a qualquer vítima de estupro e violência diante de seu agressor, com revolta e nojo.

No diálogo que foi, para mim, emblemático da temporada até agora, ele reclama da falta de intimidade com ela, ao que ela responde que isso acontecia porque ele a estuprava. Kilgrave fica chocado. Nega-se a reconhecer a violência de seus atos. Ela o pressiona e ele então diz a ela que não tem culpa. Que ele nunca sabe se as pessoas fazem o que ele quer porque elas próprias querem ou se estão sendo influenciadas pelo poder dele.

Coitadinho.

À medida em que eu assistia a essas cenas (principalmente nos episódios 7 e 8), me dei conta, com vergonha e confusão, que eu não apenas estava sentindo pena de Kilgrave, como estava me sentindo atraída por ele. Gostaria de dizer que fiquei chocada com isso, mas não seria verdade.

Uma parte de mim ainda estava sob o encanto de tudo o que ele representa. E todo o resto de mim sentia repulsa não apenas por ele, mas por aquela parte de mim mesma. Aquele pedacinho meu que, ainda, mesmo depois de sobreviver a abusadores escrotos como aquele, ainda se permitia seduzir por aquele estereótipo, mesmo que apenas em minhas fantasias.

Meu conflito interior foi tão intenso que eu fiquei obcecada. Passei a assistir de novo e de novo aquelas cenas em que ele falava de “amor”, fantasiando a respeito dele com Jessica, juntos, felizes. Eu me perdia nesses devaneios a ponto de ficar perigosamente distraída. E, claro, o tempo todo me sentia muito mal por isso. Sentia vergonha, humilhação.

Então compreendi que o que estava causando a minha fixação era precisamente esse meu julgamento de mim mesma, essa minha relutância em aceitar e acolher a menininha batida que, mesmo depois de tantos anos, ainda sentia a necessidade de transformar agressão em amor, porque daí talvez não doeria tanto lembrar daquilo tudo.

É difícil encarar o fato de que certas feridas talvez vão doer para sempre e pronto. Quando achamos que já superamos, vem alguma coisa assim e a gente vê o quanto ainda tem para a gente digerir.

Parei de tentar me impedir de pensar sobre aquilo e permiti que a minha imaginação fluísse junto a uma Jessica que dava a Killgrave todo aquele “amor” que ele tanto queria. Que o ensinava a ser um ser humano decente. Que, por algum milagre, conseguia separar, sem enlouquecer, o estuprador em seu passado da pessoa que estava diante dela no presente. E me esforcei ao máximo para não me julgar, me odiar ou escarnecer de mim mesma enquanto fazia isso. Tentei não potencializar o sentimento de vergonha, exatamente como eu faria se estivesse ouvindo a uma mulher presa em um relacionamento abusivo que ela não estivesse conseguindo deixar.

E fui descascando assim, mais uma vez, o desejo de ser amada, aprovada, especial, que um dia me levou a aceitar qualquer coisa que me fizesse sentir assim, ainda que ilusoriamente. E revisitei o desespero por agradar, a pena, a culpa por “não ser forte o bastante” para ficar com meu agressor até que ele se tornasse uma pessoa melhor, uma pessoa que não me machucasse, uma pessoa que me amasse de verdade. Como se fosse o meu papel fazer dele alguém bom ou morrer tentando.

Todas essas coisas que eu achei que já tinha superado. Todas ainda ali, ainda vivas; menores, diferentes, talvez, mas vivas. Será que um dia elas vão deixar de existir em mim? Ainda não sei. Mas acho que agora estou mais de boa com não saber.

A série foi progredindo e evidenciando a monstruosidade de Kilgrave. E, aos poucos, foi chegando aquele ponto. Aquele momento em que a ilusão se desfaz de vez e só sobra o horror e a repulsa. Aquele buraco dentro do peito, fundo, gelado, que abre quando a gente pensa “Como ele consegue fazer isso comigo?”, quando a gente se dá conta do quanto estávamos enganadas a respeito deles, do quanto aquilo não é amor. E dentro desse buraco floresce a ira.

O estalo quando ela quebrou o pescoço dele foi um dos sons mais gratificantes que eu já ouvi na vida.

Killgrave não morreu sozinho. Levou com ele mais um pouco do monstro que mora dentro de mim. E eu sou grata a Jessica Jones por isso.

Guerreira coisa nenhuma!

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 23 de junho de 2015

sobrecarga

Guerreira?

Não.

Você não vai aliviar a sua consciência pesada dando um tapinha nas minhas costas e me chamando de guerreira.

Você não vai me comprar com esse elogio vazio, esse biscoitinho com que se premiam mulheres por se submeterem à exploração dos homens, como se fosse um calvário que nos enobrecesse o espírito e nos tornasse mais e melhores mulheres, como se fosse algo de que devêssemos nos orgulhar.

Não é. É algo de que toda a sociedade deveria se envergonhar.

Por que tratar a sobrecarga de outrem como inevitável se ela só ocorre porque ninguém (incluindo, talvez, você) toma uma atitude a respeito dela? Por que é que, diante dessa sobrecarga, a resposta é dar os parabéns a quem carrega o piano resignadamente ao invés de arregaçar as mangas e entrar na roda?

Esse gracejo passa longe de ser um reconhecimento do esforço alheio. É, na verdade, um gaslighting e uma manipulação para manter a mulherada correndo atrás do próprio rabo sem nunca parar para perguntar “e você? Não vai fazer nada?”

Não é ridiculamente previsível que o único ponto em que se concede que o cérebro feminino seja superior ao masculino seja precisamente na característica que serve de desculpa para que nós, mulheres, sejamos pressionadas a fazer mil coisas ao mesmo tempo? Será mesmo que a mulher é uma deusa multifuncional, ou será que o homem é que é um folgado mal-acostumado?

Claro, há quem diga que as mulheres são responsáveis por isso, que são as mulheres que acostumam mal aos homens. Como se alguém um dia acordasse dizendo “ah, eu quero tanto viver trabalhando mais e ganhando menos e sendo menos reconhecida e ainda me sentindo culpada e fracassada quando não consigo dar conta de fazer o impossível!”

E daí que haja mulheres que acham que essa é a ordem natural das coisas? Isso torna moral a atitude dos homens que se aproveitam delas?

Não à toa, entre girarmos em falso tentando bater essas metas inatingíveis e nos sentirmos inferiores e defeituosas quando não conseguimos, não encontramos tempo para questionar a falta de sentido dessa desigualdade e sofremos caladas, temendo expor o que nos parece ser uma inadequação nossa. Não nos sentimos legitimadas sequer a pedir ajuda, que dirá exigir a mínima cooperação de outrem.

Criadas e educadas para competirmos entre nós, não buscamos apoio umas das outras e nos isolamos com nosso desespero. Guerreiras sofrendo estoicamente em silêncio.

Por isso, não me chame de guerreira. Ninguém deveria ter que ser guerreira. Glorificar o sofrimento das mulheres que estão ralando é exortá-las a continuar com esse sacrifício injusto e desnecessário, ao invés de juntar-se a elas na luta pelo fim dele. Se você se importa o bastante para “elogiar”, deveria se importar o bastante para se envolver e participar.

Se não há nada que você possa fazer, então acolha. Reconheça a sobrecarga, legitime o cansaço, valide a frustração. E não apenas “recompense” a mulher por estar lá, se martirizando para que outras pessoas não precisem nem se mexer.

Aliás, caso você seja homem, restringir-se a esse agradinho verbal só reafirmará a ideia de que é isso que as mulheres devem sempre buscar: a aprovação masculina. E, ainda, uma aprovação que vem na forma de um “elogio” essencialmente machista, afinal, guerrear é um papel que estereotipicamente se atribui aos homens. Isso sugere que a mulher assim elogiada é guerreira porque “equiparou-se” a um homem – ela é “forte“. Ironicamente, a gente recebe esse elogio por acumular muitas funções que dificilmente seriam vistas como “coisa de homem” pela sociedade machista.

Dói reconhecer limites, mas dói ainda mais desrespeitá-los. Eu não sou guerreira. Sou uma mulher. Sou um ser humano.

Sim, foi estupro

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***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 07/04/2015.

Ser mulher na nossa sociedade é viver tentando não se permitir perceber as violências de que se foi ou é vítima. Nem mesmo as violências que são reconhecidas pelo Estado como violências, que foram inclusive tipificadas como crimes, nos sentimos confortáveis para denunciar. E, quando falo de denunciar, não estou falando nem para a “justiça” ou para a comunidade de que fazemos parte, ou mesmo nossa própria família. Digo, antes de tudo, para nós mesmas.

Talvez seja porque, na letra fria da lei, não enxergamos as pessoas cujos comportamentos ela endereça, e menos ainda as pessoas vitimadas por aquele comportamento. A lei não endereça o trauma, não dialoga com a dor. Por natureza, ela nem teria esse poder, mesmo que quem a escreveu assim o desejasse. Ela é, em sua própria essência, um retrato sem rostos.

Não sei se isso é algo proposital, deliberado, mas, para noventa por cento das pessoas, ligar o que está planificado na linguagem inacessível e mortiça da lei ao que se passa na realidade tridimensional ao redor delas é uma ginástica cerebral excepcionalmente árdua. A lei é como um nome de luxo, pomposo e quilométrico, para uma pessoa que sempre conhecemos por um apelido simples, cotidiano. É um “José Felipe Camargo de Fonseca e Abrantes de Medeiros” para um “Zé” com quem conversamos brevemente sobre a música no elevador hoje de manhã.

Não é simplesmente como olhar a planta de um imóvel e reconhecer nela os cômodos em que se habita; sim, isso levaria algum empenho, maior ou menor conforme a maior ou menor aptidão para a coisa, ou experiência nesse exercício. Mas ler um artigo de lei e perceber nele atos que praticamos ou foram praticados contra nós demanda algo mais. Demanda, antes de tudo, que nos levemos a sério. Que nos enxerguemos como pessoas sujeitas de direito, dignas de serem resguardadas pela pompa e circunstância do legalês, do juridiquês.

Encontramos, no artigo 217-A do código penal, que trata-se de “estupro de vulnerável” o ato de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Mas quantas mulheres conseguem relacionar esse “José Felipe” ao “Zé” que aconteceu com elas? Que percebem que foram praticados atos libidinosos com elas, então menores de 14 (catorze) anos, e que isso, por si só, não importa como, quando, quantas vezes e quem fez, constitui estupro de vulnerável? Que são irrelevantes as demais circunstâncias?

Uma mulher conta dos primos mais velhos que ostensivamente a espiavam, fazendo comentários e se masturbando, enquanto ela, com doze anos de idade, tomava banho; conta de como a tia dela, mãe desses meninos, ao saber disso, não apenas se recusou a tomar providências, mas disse que era ela quem estava querendo se mostrar e eles só faziam o que “era natural” para eles.

Outra moça relata que um tio aproveitava para apalpá-la quando ninguém estava olhando. Houve um dia em que alguém enfim o pegou fazendo aquilo, mas, ao invés de socorrê-la, virou a cara para ela, passando então a olhá-la com repulsa. O abusador em si seguiu com seus abusos tranquilamente, sem sofrer a mais mínima censura ou reprovação.

Mais outra fala do padrasto que se roçava nela quando ela era criança. E que, quando ela brigava, falava que não sabia como ela ia um dia ter um homem se não gostava daquilo. Reclamar com a mãe não surtiu efeito: esta disse que a menina estava querendo chamar atenção, estragar a felicidade dela, roubar o homem dela. E daí ela se calou. E ele aproveitou.

Essas memórias são expostas como se o que se passou como se fosse um “mimimi”. Com a vergonha de quem sente que não tem cabimento sequer se lembrar daquilo. Como se o trauma, a mácula que ficou nelas, não fizesse sentido. Algo previsto em lei como crime hediondo, sendo tratado como se fosse uma bobagem.

Essas mulheres não são exceções. Infelizmente, há muitas outras, com histórias de amigos da família que “tiravam casquinhas”, professores que roubavam apalpadelas, vizinhos que encoxavam no elevador, pais de amiguinhas que mostravam o pinto, pais, avôs, irmãos, amigos de irmãos, colegas de classe… são tantas, tantas, que a sensação que eu tenho é a de que não conheço UMA ÚNICA mulher que não tenha passado por alguma violência sexual na vida dela. E, bizarramente, a maior parte delas não se dá conta de que foi isso – violência sexual – o que se passou.

E não é que não se deem conta por serem tolas ou ignorantes. É que foi consistentemente feita com elas toda uma lavagem cerebral nesse sentido. Foi-lhes ensinado, quando elas ainda eram jovens o bastante para jamais esquecerem a lição, que estupro não era nada. Que, aliás, seria “histeria” da parte delas chamar de estupros os estupros que, de fato, sofreram. Que era besteira delas ficarem incomodadas por “tão pouca coisa”. Que, ao falarem, elas próprias seriam julgadaselas é que provocaram, elas é que não pararam, elas é que estão inventando, elas é que são sem-vergonha. Que elas teriam que perdoar. Que elas estariam “arruinando a vida de um homem de bem” por conta de “nada”. Que estariam “destroçando a família” por puro “egoísmo”. Egoísmo. Delas. Afinal, “homens fazem o que homens fazem”; “eles são assim mesmo”.

Não lhes ocorre, quando olham para trás, mesmo sentindo o arrepio de asco e o gosto amargo de tantos sentimentos reprimidos a tanto custo, que o que lhes foi feito não é normal, não é natural. Que não é porque todo mundo tem uma história assim que é ok que histórias assim continuem se repetindo. Que não é ok que estupros desse tipo continuem ocorrendo, sem que ninguém faça nada a respeito, como se não justificassem uma atitude.

Precisamos rasgar essa mordaça de culpa, vergonha e medo. Precisamos falar dessas coisas. Ainda que não possamos ou não queiramos processar criminalmente os responsáveis, precisamos reconhecer e nomear essas violências e legitimar o sofrimento que elas causam. Se não por nós mesmas, por nossas meninas. Para que elas jamais tenham que repetir para si mesmas, sozinhas, escondidas, tentando esquecer o inesquecível: “não foi nada”.

Gaslighting desde o berço

manipulação

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 09/03/2015.

No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

“Estou ficando louca?”

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Cena do filme Gaslight, 1944

*** Publicado originalmente na Revista Fórum, em 02/03/2015.

Você já entrou numa discussão com toda a certeza de que tinha razão e saiu dela se desculpando, com uma sensação estranha de confusão, de que o mundo tinha virado do avesso?

Eu nunca pensei, quando ingressei no serviço público (sim, eu estive no serviço público por alguns anos), que um dia eu seria a “louca do departamento”. Sabe? Aquela pessoa que todo mundo cochicha quando passa, que é “louca de tomar remédio”, que tira licença para fazer tratamento psiquiátrico (e um tanto de gente acusa de estar só enrolando, inclusive)? Essa.

Mas eis que um dia eu me olhei no espelho e ela estava lá, me encarando de volta, com olhos esbugalhados, olheiras profundas, o rosto abatido, os cabelos desgrenhados. “Como é que você foi parar aí?” Perguntei, num misto de nojo e pena. E ela me contou. Mas foi só anos mais tarde que aprendemos que o que havia ocorrido tinha nome.

Eu já fiz um texto em que expliquei brevemente a minha interpretação de alguns termos interessantes que usamos no feminismo, inclusive o gaslighting (lê-se “gaslaitim”), de que vou tratar aqui; mas esse é um conceito que, para mim, foi tão necessário e libertador, que sinto a necessidade de falar mais esmiuçadamente a respeito dele. É engraçado como é importante, como é empoderador, nomear o gaslighting, conhecê-lo e reconhecê-lo. É como se nos vacinasse.

A definição básica de gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade. Isso pode chegar ao ponto de a pessoa (e/ou quem convive com ela) começar a duvidar de sua sanidade mental ou mesmo acreditar piamente que a perdeu. Um de seus objetivos mais frequentes é o silenciamento.

O termo vem de uma peça de teatro de 1938, de Patrick Hamilton, chamada “Gaslight”, com duas adaptações para o cinema, uma britânica, de 1940, e outra americana, de 1944. A peça fala sobre um homem que pratica gaslighting com sua esposa até que todes, incluindo ela mesma, pensem que ela está mentalmente doente (tem outras coisas na trama, claro, mas eu não vou entregar).

O gaslighting, a meu ver,pode ocorrer em duas esferas: a primeira, da confiança da pessoa em sua própria percepção, e a segunda, da confiança de outras pessoas na percepção dela. Nem sempre ele atinge a ambas, mas sempre atingirá (ou tentará atingir) a pelo menos uma delas.

Por isso, as pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são as pessoas que já sofrem o preconceito de serem “loucas”, “irracionais”, “governadas por hormônios”, “histéricas”, “barraqueiras”, “brutas”, “sensíveis demais”, “gagás”, que “não falam coisa com coisa”. Ou seja, toda e qualquer pessoa cujas palavras, opiniões e sentimentos tendam a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo: mulheres, crianças, adolescentes, idoses, pessoas negras, pessoas LGBT, pessoas que sofrem de doença mental, pessoas com deficiência, pessoas cujo discernimento seja limitado por algum motivo, etc.

Como a sociedade já dá, injustamente, menos credibilidade a essas pessoas, o trabalho da pessoa gaslaiteadora de descreditá-las perante outrem é facilitado, já está praticamente pronto. Além disso, por estarem habituadas a esse tratamento, elas próprias podem já ter introjetado esse gaslighting, já tendo muita dificuldade de confiar em seus próprios sentimentos e percepções, deixando também pronto o trabalho da pessoa gaslaiteadora nesse sentido.

As crianças são, para mim, as maiores vítimas dessa forma de abuso psicológico e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem percebe que é isso o que fazem. É tanta coisa para falar a respeito que farei um post só para tratar disso. Me aguardem.

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A forma mais crassa de gaslighting, a mais desavergonhada, é alguém falar que não fez algo que fez, ou fez algo que não fez (ou falou). Este vídeo sensacional do Porta dos Fundos ilustra bem essa situação.

Um outro exemplo: marido se compromete a passar o dia com as crianças; de última hora, resolve sair para jogar bola com os amigos; ao invés de reconhecer sua falta de palavra, faz de conta que nunca prometeu nada.

Não é que ele finja que esqueceu, simplesmente. Se ele fizesse isso, ele estaria mentindo, mas assumindo que falhou, mesmo que não admitisse que a falha foi deliberada. O que configura o gaslighting dele é o fato de que ele tenta imputar a falta de compromisso dele a uma “viagem” (um erro de percepção) da pessoa com quem ele assumiu o compromisso, que fica lá pensando “ué… será que estou ficando louca? Será que realmente não chegamos a conversar a respeito e eu imaginei tudo? Mas eu lembro! Mas ele está falando com tanta certeza…” e assim por diante. A pessoa, especialmente por acreditar na boa-fé da outra, parte do princípio de que ela própria deve estar enganada. Que ela tem que estar enganada. Porque, né, quem faz isso? Quem tem tanta desonestidade, tanta frieza, tanta cara de pau? Pois é. Tem gente que tem.

Que nem quando um estuprador (ou até pedófilo!) fala que o ato foi consensual, que a vítima sabia muito bem o que fazia, ou mesmo que nada aconteceu, que ela é uma louca inventando isso para prejudicá-lo, para chamar atenção. Gaslighting.

Também é gaslighting quando alguém leva outra pessoa a duvidar de sua percepção em relação aos fatos, mesmo admitindo os fatos em si. É o que acontece nos casos em que se culpa a vítima pelos atos nocivos de outra pessoa. Quando se justifica o estupro com a conduta ou das roupas da vítima, quando se justifica a violência doméstica com o fato de a mulher não ter saído do relacionamento depois ou mesmo antes da agressão, quando se justifica a cesárea desnecessária com o “consentimento” obtido através da coação da mulher em pleno trabalho de parto. Sabe quando a pessoa vira a mesa e joga a culpa que é dela para outra? Então.

No caso do marido que mencionei acima, ele praticaria essa versão de gaslighting se, quando confrontado a respeito de sua falta de compromisso, ele virasse para a outra pessoa e dissesse que só prometeu porque ela forçou a barra, que é pelo bem dela ou das crianças que ele vai sair jogar futebol, que é porque ele está estressado porque ela briga tanto com ele, que foi ela mesma quem sugeriu que ele deveria sair, etc. Como se algo que a outra pessoa supostamente fez ou falou desse a ele o direito de não cumprir sua palavra. Pior, como se nem fosse um ato deliberado, uma escolha dele, mas algo a que ele se vê forçado pelas circunstâncias, coitado dele. De novo, o cara está tirando o foco do fato de que a atitude dele é errada e fazendo a outra pessoa pensar e sentir que o erro, na verdade, é dela. Que ele é a vítima ali.

Acontece muito em casos de traição conjugal. Casal monogâmico, uma das pessoas vai e faz sexo com alguém de fora e depois fala que foi levada a isso porque suas necessidades (afetivas, sexuais, o que for) não estavam sendo plenamente satisfeitas dentro do relacionamento. Como se isso escusasse a desonestidade e deslealdade de seus atos.

Tem também a deslegitimação, que eu chamo de gaslighting emocional. Agir ou falar como se a outra pessoa não tivesse o direito de sentir o que for, como se o sentimento dela não fosse justificado; minimizar o acontecido, impor que a pessoa perdoe e/ou esqueça, dizer ou implicitar que é exagero, ou mesmo diretamente negar que haja qualquer causa para a pessoa se sentir daquela forma.

Aliás, é incrível a dificuldade que muitas pessoas têm de entender que sentimento não precisa ser justo, motivado, fazer sentido. Sentimento a gente não escolhe, não tem por querer, não é certo, nem errado. Sentimento a gente sente, e só. Podemos ter um problema com o que alguém faz a partir do que sente, mas não tem cabimento recriminar ou reprovar o sentimento dela em si.

Voltando ao assunto, é o que acontece quando alguém passa por uma violência e, ao falar a respeito, ouve que tem que “entender o outro lado”, por exemplo. Não nego que empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faça parte do processo de reabilitação e seja algo importante a se fazer. Mas não faz sentido defender a parte agressora para a vítima que, num momento de completa vulnerabilidade, desnuda um trauma pelo qual passou. É uma questão de contexto.

Também é muito comum que pessoas pertencentes a grupos oprimidos, ao apontarem discursos e atos que reforçam essa opressão, ouçam de volta que “estão de vitimismo”, ou que “ai, agora tudo é racismo”, ou que “foi só uma piada”, ou que “você não soube interpretar”, e por aí vai.

Retomando o marido lá de cima, ele estaria praticando essa forma de gaslighting se falasse para quem reclama com ele que a pessoa está exagerando, implicando, procurando pelo em ovo, ou se saísse com o irônico “tá, eu só faço merda/só cago/sou um bosta mesmo”.

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Por fim (aqui no texto, não nas formas possíveis degaslighting, que são infinitas, infelizmente), tem uma espécie de gaslighting especial que eu chamo de “gaslighting de flagrante preparado”. Flagrante preparado é quando a pessoa é induzida a praticar o delito por obra de outra pessoa que a instiga àquilo justamente com o intuito de incriminá-la. A propósito, juridicamente, é uma modalidade ilegal de flagrante (súmula 145 do Supremo Tribunal Federal).

gaslighting de flagrante preparado é quando uma pessoa provoca, cutuca, escrotiza e, claro, gaslaiteia outra até esta perder a cabeça, e daí usa isso, essa explosão, como desculpa para desconsiderar os argumentos e sentimentos desta. Muitas vezes, inclusive, se utiliza disso para descreditar a pessoa gaslaiteada perante a outrem, para que também desconsiderem seus argumentos e sentimentos. Sabe o povo do “apelou, perdeu”? Então.

Muito comum no contato com as criaturas passivo-agressivas do mundo.

Esclareço que não estou defendendo a agressão (até porque isso pode cair naquele caso de gaslighting em que a pessoa culpa a outra por seus próprios atos). O que estou falando é que não é porque alguém se descontrola que podemos ignorar o que essa pessoa tem a dizer. E que é de uma monstruosidade indescritível usar contra uma pessoa o descontrole que conscientemente se provocou nela. E que há pessoas que fazem isso. Deliberadamente.

Nos casos de assédio moral, como o de que fui vítima, é muito comum o gaslighting de flagrante preparado, especialmente porque costuma haver toda uma hierarquia envolvida, uma autoridade de que se abusa para pressionar a pessoa gaslaiteada, que é enlouquecida em fogo brando até explodir e, a partir daí, começa a agir de forma descontrolada, dando munição para quem diz que o problema na verdade é ela.

Pode parecer pouca coisa, um drama de escritório, mas não é. É uma forma de abuso psicológico muito grave e muito tóxica e é um sintoma de uma sociedade que é seletiva em relação às pessoas que merecem seu acolhimento. Há relativamente pouco tempo, tivemos um verdadeiro holocausto brasileiro e quase ninguém sabe. Por quê? Porque aconteceu com pessoas “loucas”. E quem quer ouvir o que elas têm a dizer?


 

Gostaria de agradecer pelas trocas com as inúmeras mulheres que conheço que, como eu, vivenciaram (e/ou vivenciam) essa forma de violência psíquica em suas vidas e compartilharam suas impressões comigo. Dedico a vocês este texto.