Sim, foi estupro

 

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Ser mulher na nossa sociedade é viver tentando não se permitir perceber as violências de que se foi ou é vítima. Nem mesmo as violências que são reconhecidas pelo Estado como violências, que foram inclusive tipificadas como crimes, nos sentimos confortáveis para denunciar. E, quando falo de denunciar, não estou falando nem para a “justiça” ou para a comunidade de que fazemos parte, ou mesmo nossa própria família. Digo, antes de tudo, para nós mesmas.

Talvez seja porque, na letra fria da lei, não enxergamos as pessoas cujos comportamentos ela endereça, e menos ainda as pessoas vitimadas por aquele comportamento. A lei não endereça o trauma, não dialoga com a dor. Por natureza, ela nem teria esse poder, mesmo que quem a escreveu assim o desejasse. Ela é, em sua própria essência, um retrato sem rostos.

Não sei se isso é algo proposital, deliberado, mas, para noventa por cento das pessoas, ligar o que está planificado na linguagem inacessível e mortiça da lei ao que se passa na realidade tridimensional ao redor delas é uma ginástica cerebral excepcionalmente árdua. A lei é como um nome de luxo, pomposo e quilométrico, para uma pessoa que sempre conhecemos por um apelido simples, cotidiano. É um “José Felipe Camargo de Fonseca e Abrantes de Medeiros” para um “Zé” com quem conversamos brevemente sobre a música no elevador hoje de manhã.

Não é simplesmente como olhar a planta de um imóvel e reconhecer nela os cômodos em que se habita; sim, isso levaria algum empenho, maior ou menor conforme a maior ou menor aptidão para a coisa, ou experiência nesse exercício. Mas ler um artigo de lei e perceber nele atos que praticamos ou foram praticados contra nós demanda algo mais. Demanda, antes de tudo, que nos levemos a sério. Que nos enxerguemos como pessoas sujeitas de direito, dignas de serem resguardadas pela pompa e circunstância do legalês, do juridiquês.

Encontramos, no artigo 217-A do código penal, que trata-se de “estupro de vulnerável” o ato de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Mas quantas mulheres conseguem relacionar esse “José Felipe” ao “Zé” que aconteceu com elas? Que percebem que foram praticados atos libidinosos com elas, então menores de 14 (catorze) anos, e que isso, por si só, não importa como, quando, quantas vezes e quem fez, constitui estupro de vulnerável? Que são irrelevantes as demais circunstâncias?

Uma mulher conta dos primos mais velhos que ostensivamente a espiavam, fazendo comentários e se masturbando, enquanto ela, com doze anos de idade, tomava banho; conta de como a tia dela, mãe desses meninos, ao saber disso, não apenas se recusou a tomar providências, mas disse que era ela quem estava querendo se mostrar e eles só faziam o que “era natural” para eles.

Outra moça relata que um tio aproveitava para apalpá-la quando ninguém estava olhando. Houve um dia em que alguém enfim o pegou fazendo aquilo, mas, ao invés de socorrê-la, virou a cara para ela, passando então a olhá-la com repulsa. O abusador em si seguiu com seus abusos tranquilamente, sem sofrer a mais mínima censura ou reprovação.

Mais outra fala do padrasto que se roçava nela quando ela era criança. E que, quando ela brigava, falava que não sabia como ela ia um dia ter um homem se não gostava daquilo. Reclamar com a mãe não surtiu efeito: esta disse que a menina estava querendo chamar atenção, estragar a felicidade dela, roubar o homem dela. E daí ela se calou. E ele aproveitou.

Essas memórias são expostas como se o que se passou como se fosse um “mimimi”. Com a vergonha de quem sente que não tem cabimento sequer se lembrar daquilo. Como se o trauma, a mácula que ficou nelas, não fizesse sentido. Algo previsto em lei como crime hediondo, sendo tratado como se fosse uma bobagem.

Essas mulheres não são exceções. Infelizmente, há muitas outras, com histórias de amigos da família que “tiravam casquinhas”, professores que roubavam apalpadelas, vizinhos que encoxavam no elevador, pais de amiguinhas que mostravam o pinto, pais, avôs, irmãos, amigos de irmãos, colegas de classe… são tantas, tantas, que a sensação que eu tenho é a de que não conheço UMA ÚNICA mulher que não tenha passado por alguma violência sexual na vida dela. E, bizarramente, a maior parte delas não se dá conta de que foi isso – violência sexual – o que se passou.

E não é que não se deem conta por serem tolas ou ignorantes. É que foi consistentemente feita com elas toda uma lavagem cerebral nesse sentido. Foi-lhes ensinado, quando elas ainda eram jovens o bastante para jamais esquecerem a lição, que estupro não era nada. Que, aliás, seria “histeria” da parte delas chamar de estupros os estupros que, de fato, sofreram. Que era besteira delas ficarem incomodadas por “tão pouca coisa”. Que, ao falarem, elas próprias seriam julgadaselas é que provocaram, elas é que não pararam, elas é que estão inventando, elas é que são sem-vergonha. Que elas teriam que perdoar. Que elas estariam “arruinando a vida de um homem de bem” por conta de “nada”. Que estariam “destroçando a família” por puro “egoísmo”. Egoísmo. Delas. Afinal, “homens fazem o que homens fazem”; “eles são assim mesmo”.

Não lhes ocorre, quando olham para trás, mesmo sentindo o arrepio de asco e o gosto amargo de tantos sentimentos reprimidos a tanto custo, que o que lhes foi feito não é normal, não é natural. Que não é porque todo mundo tem uma história assim que é ok que histórias assim continuem se repetindo. Que não é ok que estupros desse tipo continuem ocorrendo, sem que ninguém faça nada a respeito, como se não justificassem uma atitude.

Precisamos rasgar essa mordaça de culpa, vergonha e medo. Precisamos falar dessas coisas. Ainda que não possamos ou não queiramos processar criminalmente os responsáveis, precisamos reconhecer e nomear essas violências e legitimar o sofrimento que elas causam. Se não por nós mesmas, por nossas meninas. Para que elas jamais tenham que repetir para si mesmas, sozinhas, escondidas, tentando esquecer o inesquecível: “não foi nada”.

Gaslighting desde o berço

manipulação

No meu último texto, falei sobre gaslighting (lê-se “gaslaitim”). Tentei esmiuçar bem o conceito, porque o considero de vital importância.

Como eu disse lá, gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade e fazer com que ela duvide de si mesma, ou, ainda, com que outras pessoas duvidem dela. Frequentemente ambos. É possível, inclusive, convencer uma pessoa (e quem está ao redor dela) de que ela está ficando mentalmente doente.

É uma forma insidiosa de violência psíquica e seus efeitos são, claro, devastadores.

As pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são aquelas cujas palavras, opiniões e sentimentos tendem a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo. Afinal, de um lado, já se tende a não acreditar nelas e, de outro, por estarem habituadas a esse descrédito, elas próprias o internalizam e passam a duvidar de si mesmas com frequência. Ou seja, um prato cheio para uma pessoa gaslaiteadora.

Crianças e adolescentes são, para mim, as maiores vítimas de gaslighting, e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem se dá conta de quando o faz. O adultismo cria um contexto em que a pessoa adulta se julga no direito de se aproveitar da ingenuidade e credulidade da criança, sendo esta vista sempre de uma perspectiva adultocêntrica, sem empatia ou respeito. Adultes de todas as idades se juntam e conspiram para gaslaitear crianças e adolescentes. Acham engraçado, acham útil, acham legítimo se aproveitar deles dessa forma.

Nem mesmo na modalidade mais escancarada de gaslighting, a mentira deslavada, em que se nega que algo que aconteceu quando de fato aconteceu, ou se diz que aconteceu quando, na verdade, não aconteceu, alguém parece se indignar com essa covardia. Quantas vezes não vemos adultes prometendo algo a uma criança e depois dizendo que não, nunca prometeram nada, que não sabem do que a criança está falando? Quantas vezes não vemos adultes, ao verem suas palavras ofensivas serem repetidas por crianças diante de pessoas que eles preferiam que não as ouvissem, saem da sinuca com “criança inventa cada coisa”?

E tem ainda os casos em que a pessoa cresce e contesta a criação violenta que recebeu e tem que ouvir de volta que não foi tão ruim assim (“ai, que exagero! Que melodrama!”), ou, pior, que nada daquilo jamais ocorreu (“não me lembro disso”, ou, na versão mais cara de pau, “nunca! Que mentira!”). Isso se não rolar a reviravolta culpabilizante que tenta estabelecer que ela é uma ingrata por sequer questionar aquilo, como se, ao fazê-lo, ela estivesse necessariamente negando qualquer coisa boa que já tenha sido feito a ela por quem a educou.

Aliás, me incomoda ver a quantidade de pessoas que admite a violência, mas faz piada a respeito, contando para outras pessoas como se fosse engraçado, como se a tortura física e/ou psíquica que infligiu sobre outro ser fosse algo de que se orgulha, minimizando o sofrimento de quem passou por aquilo. Ou, pior ainda, culpando a própria criança, dizendo que ela causou aquela agressão, ou transformando brutalidade em prova de amor, ao dizer que ela foi agredida pelo bem dela própria. Como se não se tratasse de um ato deliberado, ou descontrole, ou falha de uma pessoa adulta. Como se não houvesse qualquer outra reação possível naquela situação. Como se fosse admissível usar violência como “educação”.

E o “gaslighting de flagrante preparado”? Em que se provoca uma pessoa até que ela perca a cabeça e então se utiliza essa explosão dela contra ela, para deslegitimar seu ponto de vista, para negar seus pedidos, para injustiçá-la? “Agora você perdeu a razão” ou “apelou, perdeu”.

Quantas vezes não vemos adultes fazendo bullying com a criança ou adolescente até que se descontrolem (se aproveitando covardemente do fato de que eles naturalmente têm maior dificuldade em se controlar) e daí usando o turbilhão emocional causado para legitimar suas violências, ou negar o que queriam negar desde o começo, ou impor o que queriam impor desde o começo – “agora que você não vai ganhar tal coisa” ou “agora que eu não faço tal coisa” ou “agora que você vai mesmo no dentista” – como se em algum momento isso tivesse estado sob o controle da criança ou adolescente em questão.

É tortura psicológica mesmo. Com qualquer outra pessoa, de qualquer idade, seria inadmissível, seria um horror, um escândalo. Numa relação de trabalho, seria assédio moral; entre pessoas da mesma faixa etária, seria bullying; num relacionamento amoroso, seria abuso psíquico. Mas, se é de uma pessoa adulta com criança, com adolescente, pode. Galera chega a achar graça, achar inteligente essa manipulação.

E isso tudo sem falar na deslegitimação de sentimentos. A criança fala que está com raiva e escuta “tá com raiva nada, com raiva estou eu”, como se só fosse possível uma pessoa sentir raiva por vez. A criança chora e ouve “cala a boca senão te dou motivo para chorar”, como se seus sentimentos não fossem legítimos. Ela fala que está triste e escuta “tá nada, tá só querendo atenção”, como se essa pessoa adulta onipotente pudesse inclusive determinar de fora dela o que ela sente ou não (o infame não foi nada entra nisso também).

Em 2013 (e, de novo, em 2014, e provavelmente ocorrerá também este ano), o apresentador de TV americano Jimmy Kimmel fez um desafio para que mães e pais dissessem às crianças, na maior desfaçatez, que comeram todos os doces que elas haviam coletado no halloween (dia das bruxas) e filmassem sua reação. O resultado são inúmeros vídeos de crianças chorando, se jogando no chão, se descabelando, gritando, enquanto adultes riem, debochades, segurando a câmera. Porque, né, é tão bonitinho ver como eles se abalam “por nada”.

Talvez essas pessoas não se deem conta de que não é pelos doces que elas estão chorando, e sim pela sensação de traição, injustiça, frustração extrema. Pela sensação de que alguém que elas amam foi sacana com elas e está de boa com isso, inclusive achando engraçado. Quem sabe elas conseguissem compreender a crueldade da brincadeira se fosse sue companheire, numa relação monogâmica, chegando e dizendo “olha, fiz sexo com outra pessoa pelas suas costas”, assim, só para zoar, só para filmar a reação delas. Legal, né? Saudável.

Já me disseram “ah, mas algumas crianças riem depois, quando os pais e mães falam que é só uma brincadeira”. Sim. Algumas riem. De alívio, de constrangimento, se sentindo ridículas por terem “caído”. Lição? Não leve seus sentimentos tão a sério, não seja patético, sofrendo desse jeito. Isso é gaslighting. Tratar o seu sofrimento como algo bobo e engraçado é gaslighting. Por que não seria para uma criança ou adolescente?

Precisamos compreender que essa dúvida fundamental (“será que o problema sou eu? Será que estou perdendo a cabeça?”), é como um esporo de fungo que se alastra pela mente da pessoa ao longo de toda a sua vida, muitas vezes impedindo que ela se defenda mesmo em situações de agressão, porque tem a sensação paralisante de que, a despeito de todas as evidências em contrário, ela, de alguma forma inexplicável e misteriosa, deve merecer o que está sendo feito a ela. Que de alguma forma aquilo deve ser culpa dela. De que, por menos sentido que algo faça, por mais que ela tenha certeza de que está com a razão, ela deve estar errada de alguma forma.

Não é bobagem. Não é pouca coisa. Quantas pessoas já sofreram abuso na infância e, ao relatarem o ocorrido, foram tratadas com ceticismo, cinismo e indiferença por quem deveria defendê-las e protegê-las?

E quantas mais já não sofreram abusos e se calaram, prevendo que, se abrissem a boca, seriam tratadas com esse ceticismo, cinismo e indiferença? Que chegaram a silenciar a si próprias, bloqueando suas memórias e esquecendo seus abusos ou convencendo-se de que, “por criancice” os haviam inventado?

Muitas vezes, sem nem nos darmos conta, estamos minando a convicção de nossas crianças em si mesmas e em nossa confiança nelas. E como se isso, por si só, não fosse péssimo, ainda estamos tornando-as vulneráveis à ação de pessoas que, muito mal-intencionadamente, continuarão com elas o trabalho de descrédito a que nós um dia as submetemos.

Chega, né?

“Estou ficando louca?”

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Cena do filme Gaslight, 1944

 

Você já entrou numa discussão com toda a certeza de que tinha razão e saiu dela se desculpando, com uma sensação estranha de confusão, de que o mundo tinha virado do avesso?

Eu nunca pensei, quando ingressei no serviço público (sim, eu estive no serviço público por alguns anos), que um dia eu seria a “louca do departamento”. Sabe? Aquela pessoa que todo mundo cochicha quando passa, que é “louca de tomar remédio”, que tira licença para fazer tratamento psiquiátrico (e um tanto de gente acusa de estar só enrolando, inclusive)? Essa.

Mas eis que um dia eu me olhei no espelho e ela estava lá, me encarando de volta, com olhos esbugalhados, olheiras profundas, o rosto abatido, os cabelos desgrenhados. “Como é que você foi parar aí?” Perguntei, num misto de nojo e pena. E ela me contou. Mas foi só anos mais tarde que aprendemos que o que havia ocorrido tinha nome.

Eu já fiz um texto em que expliquei brevemente a minha interpretação de alguns termos interessantes que usamos no feminismo, inclusive o gaslighting (lê-se “gaslaitim”), de que vou tratar aqui; mas esse é um conceito que, para mim, foi tão necessário e libertador, que sinto a necessidade de falar mais esmiuçadamente a respeito dele. É engraçado como é importante, como é empoderador, nomear o gaslighting, conhecê-lo e reconhecê-lo. É como se nos vacinasse.

A definição básica de gaslighting é alguém manipular outra pessoa para levá-la a desconfiar de sua própria percepção da realidade. Isso pode chegar ao ponto de a pessoa (e/ou quem convive com ela) começar a duvidar de sua sanidade mental ou mesmo acreditar piamente que a perdeu. Um de seus objetivos mais frequentes é o silenciamento.

O termo vem de uma peça de teatro de 1938, de Patrick Hamilton, chamada “Gaslight”, com duas adaptações para o cinema, uma britânica, de 1940, e outra americana, de 1944. A peça fala sobre um homem que pratica gaslighting com sua esposa até que todes, incluindo ela mesma, pensem que ela está mentalmente doente (tem outras coisas na trama, claro, mas eu não vou entregar).

O gaslighting, a meu ver,pode ocorrer em duas esferas: a primeira, da confiança da pessoa em sua própria percepção, e a segunda, da confiança de outras pessoas na percepção dela. Nem sempre ele atinge a ambas, mas sempre atingirá (ou tentará atingir) a pelo menos uma delas.

Por isso, as pessoas mais vulneráveis ao gaslighting são as pessoas que já sofrem o preconceito de serem “loucas”, “irracionais”, “governadas por hormônios”, “histéricas”, “barraqueiras”, “brutas”, “sensíveis demais”, “gagás”, que “não falam coisa com coisa”. Ou seja, toda e qualquer pessoa cujas palavras, opiniões e sentimentos tendam a ser diminuídos ou desconsiderados pela sociedade como um todo: mulheres, crianças, adolescentes, idoses, pessoas negras, pessoas LGBT, pessoas que sofrem de doença mental, pessoas com deficiência, pessoas cujo discernimento seja limitado por algum motivo, etc.

Como a sociedade já dá, injustamente, menos credibilidade a essas pessoas, o trabalho da pessoa gaslaiteadora de descreditá-las perante outrem é facilitado, já está praticamente pronto. Além disso, por estarem habituadas a esse tratamento, elas próprias podem já ter introjetado esse gaslighting, já tendo muita dificuldade de confiar em seus próprios sentimentos e percepções, deixando também pronto o trabalho da pessoa gaslaiteadora nesse sentido.

As crianças são, para mim, as maiores vítimas dessa forma de abuso psicológico e de uma forma tão sistemática e institucionalizada e naturalizada (normatizada) que a maior parte das pessoas nem percebe que é isso o que fazem. É tanta coisa para falar a respeito que farei um post só para tratar disso. Me aguardem.

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A forma mais crassa de gaslighting, a mais desavergonhada, é alguém falar que não fez algo que fez, ou fez algo que não fez (ou falou). Este vídeo sensacional do Porta dos Fundos ilustra bem essa situação.

Um outro exemplo: marido se compromete a passar o dia com as crianças; de última hora, resolve sair para jogar bola com os amigos; ao invés de reconhecer sua falta de palavra, faz de conta que nunca prometeu nada.

Não é que ele finja que esqueceu, simplesmente. Se ele fizesse isso, ele estaria mentindo, mas assumindo que falhou, mesmo que não admitisse que a falha foi deliberada. O que configura o gaslighting dele é o fato de que ele tenta imputar a falta de compromisso dele a uma “viagem” (um erro de percepção) da pessoa com quem ele assumiu o compromisso, que fica lá pensando “ué… será que estou ficando louca? Será que realmente não chegamos a conversar a respeito e eu imaginei tudo? Mas eu lembro! Mas ele está falando com tanta certeza…” e assim por diante. A pessoa, especialmente por acreditar na boa-fé da outra, parte do princípio de que ela própria deve estar enganada. Que ela tem que estar enganada. Porque, né, quem faz isso? Quem tem tanta desonestidade, tanta frieza, tanta cara de pau? Pois é. Tem gente que tem.

Que nem quando um estuprador (ou até pedófilo!) fala que o ato foi consensual, que a vítima sabia muito bem o que fazia, ou mesmo que nada aconteceu, que ela é uma louca inventando isso para prejudicá-lo, para chamar atenção. Gaslighting.

Também é gaslighting quando alguém leva outra pessoa a duvidar de sua percepção em relação aos fatos, mesmo admitindo os fatos em si. É o que acontece nos casos em que se culpa a vítima pelos atos nocivos de outra pessoa. Quando se justifica o estupro com a conduta ou das roupas da vítima, quando se justifica a violência doméstica com o fato de a mulher não ter saído do relacionamento depois ou mesmo antes da agressão, quando se justifica a cesárea desnecessária com o “consentimento” obtido através da coação da mulher em pleno trabalho de parto. Sabe quando a pessoa vira a mesa e joga a culpa que é dela para outra? Então.

No caso do marido que mencionei acima, ele praticaria essa versão de gaslighting se, quando confrontado a respeito de sua falta de compromisso, ele virasse para a outra pessoa e dissesse que só prometeu porque ela forçou a barra, que é pelo bem dela ou das crianças que ele vai sair jogar futebol, que é porque ele está estressado porque ela briga tanto com ele, que foi ela mesma quem sugeriu que ele deveria sair, etc. Como se algo que a outra pessoa supostamente fez ou falou desse a ele o direito de não cumprir sua palavra. Pior, como se nem fosse um ato deliberado, uma escolha dele, mas algo a que ele se vê forçado pelas circunstâncias, coitado dele. De novo, o cara está tirando o foco do fato de que a atitude dele é errada e fazendo a outra pessoa pensar e sentir que o erro, na verdade, é dela. Que ele é a vítima ali.

Acontece muito em casos de traição conjugal. Casal monogâmico, uma das pessoas vai e faz sexo com alguém de fora e depois fala que foi levada a isso porque suas necessidades (afetivas, sexuais, o que for) não estavam sendo plenamente satisfeitas dentro do relacionamento. Como se isso escusasse a desonestidade e deslealdade de seus atos.

Tem também a deslegitimação, que eu chamo de gaslighting emocional. Agir ou falar como se a outra pessoa não tivesse o direito de sentir o que for, como se o sentimento dela não fosse justificado; minimizar o acontecido, impor que a pessoa perdoe e/ou esqueça, dizer ou implicitar que é exagero, ou mesmo diretamente negar que haja qualquer causa para a pessoa se sentir daquela forma.

Aliás, é incrível a dificuldade que muitas pessoas têm de entender que sentimento não precisa ser justo, motivado, fazer sentido. Sentimento a gente não escolhe, não tem por querer, não é certo, nem errado. Sentimento a gente sente, e só. Podemos ter um problema com o que alguém faz a partir do que sente, mas não tem cabimento recriminar ou reprovar o sentimento dela em si.

Voltando ao assunto, é o que acontece quando alguém passa por uma violência e, ao falar a respeito, ouve que tem que “entender o outro lado”, por exemplo. Não nego que empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faça parte do processo de reabilitação e seja algo importante a se fazer. Mas não faz sentido defender a parte agressora para a vítima que, num momento de completa vulnerabilidade, desnuda um trauma pelo qual passou. É uma questão de contexto.

Também é muito comum que pessoas pertencentes a grupos oprimidos, ao apontarem discursos e atos que reforçam essa opressão, ouçam de volta que “estão de vitimismo”, ou que “ai, agora tudo é racismo”, ou que “foi só uma piada”, ou que “você não soube interpretar”, e por aí vai.

Retomando o marido lá de cima, ele estaria praticando essa forma de gaslighting se falasse para quem reclama com ele que a pessoa está exagerando, implicando, procurando pelo em ovo, ou se saísse com o irônico “tá, eu só faço merda/só cago/sou um bosta mesmo”.

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Por fim (aqui no texto, não nas formas possíveis degaslighting, que são infinitas, infelizmente), tem uma espécie de gaslighting especial que eu chamo de “gaslighting de flagrante preparado”. Flagrante preparado é quando a pessoa é induzida a praticar o delito por obra de outra pessoa que a instiga àquilo justamente com o intuito de incriminá-la. A propósito, juridicamente, é uma modalidade ilegal de flagrante (súmula 145 do Supremo Tribunal Federal).

gaslighting de flagrante preparado é quando uma pessoa provoca, cutuca, escrotiza e, claro, gaslaiteia outra até esta perder a cabeça, e daí usa isso, essa explosão, como desculpa para desconsiderar os argumentos e sentimentos desta. Muitas vezes, inclusive, se utiliza disso para descreditar a pessoa gaslaiteada perante a outrem, para que também desconsiderem seus argumentos e sentimentos. Sabe o povo do “apelou, perdeu”? Então.

Muito comum no contato com as criaturas passivo-agressivas do mundo.

Esclareço que não estou defendendo a agressão (até porque isso pode cair naquele caso de gaslighting em que a pessoa culpa a outra por seus próprios atos). O que estou falando é que não é porque alguém se descontrola que podemos ignorar o que essa pessoa tem a dizer. E que é de uma monstruosidade indescritível usar contra uma pessoa o descontrole que conscientemente se provocou nela. E que há pessoas que fazem isso. Deliberadamente.

Nos casos de assédio moral, como o de que fui vítima, é muito comum o gaslighting de flagrante preparado, especialmente porque costuma haver toda uma hierarquia envolvida, uma autoridade de que se abusa para pressionar a pessoa gaslaiteada, que é enlouquecida em fogo brando até explodir e, a partir daí, começa a agir de forma descontrolada, dando munição para quem diz que o problema na verdade é ela.

Pode parecer pouca coisa, um drama de escritório, mas não é. É uma forma de abuso psicológico muito grave e muito tóxica e é um sintoma de uma sociedade que é seletiva em relação às pessoas que merecem seu acolhimento. Há relativamente pouco tempo, tivemos um verdadeiro holocausto brasileiro e quase ninguém sabe. Por quê? Porque aconteceu com pessoas “loucas”. E quem quer ouvir o que elas têm a dizer?


 

Gostaria de agradecer pelas trocas com as inúmeras mulheres que conheço que, como eu, vivenciaram (e/ou vivenciam) essa forma de violência psíquica em suas vidas e compartilharam suas impressões comigo. Dedico a vocês este texto.

Aproveitando o caso Bolsonaro para fazer um glossário

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*Os recentes (e não tão recentes) acontecimentos envolvendo o já infame Deputado Jair Bolsonaro e a Deputada Maria do Rosário são tão repletos de machismo que vi neles a oportunidade de, finalmente, atender aos pedidos de que eu fizesse um glossário. Não ficou completo, claro, faltou muita coisa, mas deu para cobrir uns termos bem comuns no feminismo, acho que pode ser útil. Enfim, segue abaixo, com todo o meu carinho, a limonada que eu fiz, com pedrinhas de gelo e muito açúcar. ❤

Obs.: Vou destacar os termos em si em vermelho, sublinhado, com um link em cada um para um texto com mais detalhes a respeito as definições básicas em azul. Observações que considero importantes serão destacadas em verde.


TW ou Trigger Warning (lê-se “tríguer wórnim”): é um aviso de que o que se segue contém alguma passagem que pode causar mal-estar e incômodo, a fim de que, ciente disso, a pessoa possa optar por não aprofundar o contato com aquele material, ou fazê-lo mais tarde, num lugar e momento em que se sinta mais à vontade para lidar com os sentimentos que o assunto pode trazer. Normalmente vem acompanhado de uma explicação sobre o que há ali que se acredita ser capaz de acionar gatilhos emocionais. Neste caso, por exemplo:


TW: Violência verbal e física praticada contra mulher com a conivência das pessoas presentes


As imagens (veja aqui) falam por si mesmas. Para qualquer pessoa com um pingo de noção, o que o vídeo mostra é um covarde usando seu tamanho, sua força física e masculinidade para tentar calar uma mulher que nada fazia além de debater com ele muito civilizadamente. Um homem desequilibrado, que responde às críticas feitas por uma mulher inventando ofensas que ela não proferiu nem deixou implícitas e usando isso como justificativa para as agressões praticadas por ele próprio.

Ele, no entanto, grita: “tá na fita, meu deus do céu! Tá na fita!”

Por quê? Porque seus olhinhos porcinos não veem naquelas cenas o que nós vemos. Porque ele, na cabeça dele, acha que tem o direito de agir daquela forma. Que tem o direito de destratar mulheres que não “sabem o seu lugar” (supostamente abaixo dele e bem caladas).

Cá no feminismo chamamos isso de entitlement (lê-se “entáitou-ment”), neste caso, masculino – a atitude presunçosa e prepotente de quem arvora para si o direito de oprimir outra pessoa, de quem defende seus privilégios (veja definição logo abaixo) como se estes lhe fossem de fato devidos e não algo que ele deveria tentar desconstruir. Essa postura abarca também coisas como essa história de friendzone (“frendzoun”) – um cara ficar ofendido quando uma mulher não quer fazer sexo com ele apesar de ele ser “tão legal” com ela  ou horrores como a chacina cometida por Elliot Rodgers este ano, um cara que saiu matando gente porque as mulheres tiveram “a ousadia” de não se interessar por ele e ele resolveu fazê-las pagar por isso.

Privilégio, nesse sentido, nós usamos para falar de um benefício de que alguém usufrui por participar de um segmento de pessoas que a sociedade privilegia em detrimento de outros. Esse é o segmento que é considerado “o normal”, “a regra”, pautando o ponto de vista a partir do qual as coisas são feitas e pensadas. Por exemplo, é um privilégio heterossexual poder demonstrar carinho em público sem ter medo de sofrer uma agressão, é privilégio das pessoas sem deficiência que os estabelecimentos todos sejam imediatamente acessíveis a elas, é privilégio branco estudar a cultura de seus ancestrais como se fosse a única que realmente vale a pena estudar, e por aí vai. Um privilégio muito comum é o de não representar. Porque uma mulher, uma pessoa negra, uma lésbica, uma pessoa trans, etc. sempre são considerades como se falassem e agissem por todas as mulheres, pessoas negras, lésbicas, trans, etc.

O privilégio de gênero, de que aqui falo especificamente, é o privilégio que os homens têm em nossa sociedade só por serem homens, como, por exemplo, poder ter uma vida sexual ativa e ser exaltado (e não execrado) por isso, ou não viver com medo de ser estuprado, ou ninguém esperar favores sexuais seus em troca de qualquer coisa que faça por você, ou as pessoas não esperarem doçura e obediência e deferência de você.

Vale a pena observar, ainda, que privilégio não é algo que se tem porque se quer, é algo que se tem porque “o mundo é assim” (e ainda não mudou). Não é uma questão de culpa – não temos culpa de ter privilégios; ninguém escolhe ser branco, ser hétero, ser homem. Mas é uma questão de responsabilidade. De entender que, se fazemos parte de um grupo que é considerado “o normal”, temos privilégios que muitas vezes sequer somos capazes de enxergar, de tão habituades que estamos a eles. E daí, a partir desse entendimento, fazer força para ver e desconstruir esses privilégios, ao invés de seguir usufruindo deles e reafirmando-os como se fossem direito nosso (entitlement).

Ou seja, a postura do deputado foi um verdadeiro show de entitlement, por não só praticar a violência, mas defender sua prática como direito seu.

Para justificar seus atos, ele brada aos quatro ventos que ela disse que ele era estuprador, coisa que ela não fez, como comprova o vídeo. Ela disse apenas que ele era responsável pela violência a que se referia em sua entrevista. E ela está certa em dizer isso, porque ele alimenta a cultura do estupro, a cultura que banaliza e estimula o estupro, que é justamente formada por palavras e posturas como as dele, que o legitimam, que dão a entender que não é nada demais, que é objeto de piada, que a culpa é da vítima ou que cabe à vítima evitá-lo, que a falta de consentimento é irrelevante ou que consentimento em si é um conceito “relativo”, etc.

Transformar o ponto de vista efetivamente arguido pela deputada em “você me chamou de estuprador” é o que a gente chama de falácia do espantalho: quando você distorce um argumento até ele ficar quase irreconhecível (faz um espantalho) e daí ataca essa distorção (bate no espantalho), mostrando-a absurda (claro que é absurda, é um espantalho) e dando com isso a impressão de que o argumento original é absurdo também. Ou, no caso, nem bate no espantalho, usa-o para justificar suas atitudes desequilibradas.

O que nos traz ao próximo item do glossário: gaslighting (“gaslaitim”). Eu falo muito disso aqui no blog. Gaslighting é quando alguém manipula a situação, tentando (ou conseguindo) nos fazer duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando a pessoa nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo de verdade o que estamos sentindo, etc. No caso que comentamos, isso fica claro porque, apesar de tudo o que ele fez, ele não se cansa de dizer que, na verdade, ela que é a agressora.

Se fosse o contrário, ela estaria sendo amplamente ridicularizada como uma “mulherzinha histérica incapaz de diálogo”. Isso porque, devido à nossa fama de sermos irracionais e exageradas, parece que nunca estamos legitimadas a reagir à violência que os homens, por sua vez, se sentem muito frequentemente legitimados a praticar conosco.

Amparado numa mentira, o homem vocifera com o dedo fálico em riste diante do rosto da mulher, brandindo-o como uma arma, uma ameaça. Dispara, sem piscar ou hesitar: “Eu não te estupro porque você não merece”. Assim, com naturalidade, como se para ele a violência sexual fosse algo tão corriqueiro quanto a lama em que ele chafurda todos os dias. Tal frase deixa claro não apenas que, na opinião dele, há mulheres que de fato merecem ser estupradas, mas que, se ele estivesse diante de uma mulher que ele julgasse merecer isso, ele estaria disposto a incumbir-se dessa “missão”.

Mais tarde ele “esclareceu” que disse que ela não merece ser estuprada porque é “feia demais”. Ou seja, a intenção dele ao dizer isso era de fato a ameaça do estupro corretivo: um crime que vitima especificamente mulheres lésbicas, assim “punidas” por não se fazerem sexualmente disponíveis aos homens, mas que vem sendo ampliado para ameaçar mulheres que incomodam o domínio masculino, a exemplo do ocorrido com Anita Sarkeesian e Alanah Pearce. O recado, aparentemente, era “olha, você passou dos limites, mulher, se você fosse mais atraente para mim eu te estupraria para te ensinar uma lição”.

Não é à toa que ele ouve no vácuo  acusações de ser estuprador. Talvez elas venham ressoando cacofonicamente de seu inconsciente. Freud ajudaria muito, se ainda fosse vivo e não tivesse ele próprio algumas inclinações um tanto preocupantes no sentido do machismo.

Fico me perguntando se esse homem teria usado essa mesma linha “argumentativa” se estivesse dialogando com um outro homem. Aliás, fica a dica desse bom teste para ver se as suas posturas ou palavras são machistas. Se, quando você se pergunta: “eu faria ou falaria isso se estivesse lidando com um homem?”, a resposta é não, vale a pena repensar. Pode ser que não seja nada, pode ser que seja tudo.

Mas ele foi além. Homem bem macho que é, habituado ao espalhafato preconceituoso pelo qual nunca sofre quaisquer consequências, agrediu fisicamente a mulher que o interpelava, ameaçando-a com “vou te dar outra”, enquanto empurrava o peito dela com a mão. Não fosse a intervenção de outros homens – que só apareceram depois do pedido de socorro dela, um deles aparentemente sorrindo, espero de coração que por constrangimento – sabe-se lá o que ele teria se sentido no direito (entitlement) de fazer com ela pelo simples fato de ela ter a “insolência” de expor a incoerência das ideias dele.

Assim que se viu amparado por um igual, no melhor estilo “me segura, me segura”, largou logo um “vagabunda” (palavreado cotidiano dele, certamente) para ela, que, consternada, apenas conseguia se fazer repetir “o que é isso?”

Isso, no caso, é o que nós chamamos de slut-shaming (slãt-cheimim), que é o ato de incutir nas mulheres a noção de que é vergonhoso para elas que exerçam sua sexualidade, seja reprovando qualquer demonstração disso (coisas como “ela não se dá o respeito” ou “ela é vulgar”), ou mesmo transformando isso em um xingamento (vagabunda, vadia, piranha, vaca, galinha, rodada, arrombada), ainda que ele venha a ser usado para agredir mulheres por motivos que nada têm a ver com sua vida sexual, porque, mesmo nesses casos, isso funciona como um lembrete a todas de que o valor de uma mulher perante a sociedade machista cai a cada vez que ela faz sexo. O que é impressionante é que, assim como a maioria das mulheres já sofreu alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida, a maioria das mulheres também já praticou alguma forma de slut-shaming em algum momento da vida. Isso acontece não porque “as próprias mulheres são o problema”, ao contrário do que muitos machistas gostam de afirmar, mas porque essa é uma noção que se faz tão presente nas nossas vidas desde a nossa mais tenra infância, que se torna algo introjetado, cuja desconstrução dificilmente ocorre sem um esforço consciente nesse sentido.

Mais tarde no vídeo aparecem cenas em que essa mulher, num ato de sororidade, de reconhecimento das outras mulheres como suas irmãs na vivência do machismo que nos oprime a todas, invocando a união que devemos ter diante desse tipo de violência, diz com todas as letras a verdade que deveríamos ver escrita em letras garrafais em todos os muros de todas as casas de todas as ruas pelas quais passamos em nossas vidas enquanto somos assediadas por homens que se julgam no direito (entitlement) de nos apreciar como se fôssemos objetos para seu consumo: “Nenhuma mulher é vagabunda”.

Ela não se retraiu, ela não se encolheu, ela manteve a cabeça erguida, ainda que visivelmente chocada com a violência descarada que se desenrolava despudoradamente diante das câmeras e com a conivência e apatia des presentes, que precisaram ser chamados, convocados, para que enfim tomassem uma atitude.

Ao final, ele, o homem, o bully, gritou, em tom jocoso e vitorioso “Chora, agora! Chora!” enquanto ela, a mulher, a vítima, deixava o recinto visivelmente abalada.

E tem gente, para meu completo horror, que fala que não houve nada demais, porque ele “nem bateu nela de verdade”. Bom, primeiro que a ameaça de violência já é uma violência. Especialmente a ameaça de uma violência que ocorre durante uma discussão ou debate – um murro na mesa, um grito, uma aproximação súbita com postura ameaçadora – porque é algo que se faz para inibir a outra pessoa de dar continuidade ao seu lado da conversa por medo de sofrer uma agressão. É uma estratégia covarde de pessoas autoritárias, que gostam de encerrar a discussão no grito ou na porrada, mesmo quando estão erradas. Segundo que ele chegou a tocar nela. Pode não lhe ter causado nenhum ferimento, mas foi uma invasão brutal do espaço físico dela e a intenção de intimidá-la e agredi-la era muito clara. Torno a dizer que me parece que ela teve sorte de não estar a sós com ele naquele momento.

Depois disso, ela saiu de cena, e ele retomou a entrevista (a)normalmente, como se nada tivesse acontecido. Agredir mulheres verbal e fisicamente, aparentemente, não movem sequer um fio de cabelo em sua fronte. Nada demais, só mais um dia de trabalho.

Isso tudo aconteceu em 2003 e, como costuma ocorrer, nenhuma medida foi tomada contra ele.

Mas eis que, mais de dez anos depois, na última terça-feira, o próprio homem fez questão de requentar o assunto, com a boca cheia de um orgulho que eu simplesmente não consigo entender. O entitlement desse cara é de tirar a gente do sério.

A deputada a quem ele agredira havia acabado de fazer um discurso rechaçando a violência da ditadura e exaltando o trabalho da comissão da verdade. E esse homem, que um dia já usou uma farda, ofendeu-se até o tutano de seus ossinhos fascistas, e abriu sua fala, que se seguiu à dela, relembrando de forma completamente medonha o episódio: “Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir!”

É marcante o tom de comando, de ordem. De quem está acostumado a ser obedecido, sob pena de detesto pensar em quê. A cereja no bolo é ver o que se passou, toda aquela agressão, inclusive física, dele, reduzida ao que parece ser um papinho acalorado. Mais gaslighting.

Entrevistado, ele explica que ele não é agressivo, que ele sim luta contra o estupro, que estuprador é psicopata (estuprador é monstro, coisa que ele não é, logo, não pode ser estuprador, claro), que dizer que não estupraria Maria do Rosário foi uma ironia… isso é o que a gente chama de mansplaining (méns-pleinim) ou homexplicanismo. Quando um homem vem cagar regras em cima de uma mulher, ou seja, explicar, em tom professoral e condescendente, coisas óbvias, ou que ela já sabe, ou falar de coisas de que ele sequer entende, porque parte do princípio de que, só por ser homem, ele naturalmente merece ser levado mais a sério e sabe mais do que qualquer mulher sobre o que quer que seja. Pode ou não ao mesmo tempo ser ou vir acompanhado de gaslighting (“Por que você está irritada? Estou só conversando com você, expondo meu ponto de vista”). Eu já vi homens homexplicando para mulheres que a dor da cólica menstrual nem era tão intensa assim. Pois é.

E podemos aproveitar o ensejo para explicar o conceito de falsa simetria. Falsa simetria é quando duas coisas parecem ser (ou são expostas como se fossem) iguais ou semelhantes, mas na verdade não são. Muitas vezes isso fica evidente quando analisamos o contexto em que elas ocorrem. Por exemplo, muitas pessoas diriam que “ah, mas tem um monte de mulheres que cagam regras”. Sim, mas a questão é que o homem, quando age dessa forma em relação a uma mulher, age com todo o amparo e peso de uma cultura machista, que consistentemente valoriza e privilegia a fala do homem em detrimento da fala da mulher. É por isso que vemos tantos homens fazerem isso e não serem rechaçados, enquanto suas interlocutoras, que foram criadas para suportar esse tipo de atitude, começam a duvidar de si mesmas mesmo quando sabem que sabem do que estão falando. Chega a dar tristeza de ver.

Mas, enfim, esse cidadão machista, não contente com a sujeira que já fizera há tanto tempo, veio novamente, em sua fixação anal de fazer federem todos os ambientes de que participa, demonstrar aos homúnculos seus aprendizes a velha arte de como desvalorizar a fala de uma mulher: ao invés de atacar o conteúdo, fale da pessoa dela, da aparência dela, da sexualidade e da vida sexual dela, des filhes dela, de companheire dela; ameace-a com violências que, por ser muito macho, poderia praticar com ela, por ela ser mulher.

E seus seguidores aprendem tão bem que na própria defesa do mestre pelas redes sociais saem fazendo exatamente isso com as mulheres que ousam questionar as falas estapafúrdias dele.

É isso que é o tal argumento ad hominem. Quando, ao invés de rebater o que uma pessoa disse, alguém ataca a própria pessoa, com a intenção de, por tabela, desqualificar o argumento ou mesmo tirar o foco dele. É interessante que muitos homens digam que as mulheres estão usando essa falácia quando elas apontam que eles estão homexplicando alguma coisa. É outra falsa simetria. Apontar homexplicanismo não é desvalorizar a opinião do cara porque ele é homem. É denunciar um comportamento nocivo e machista. O problema não é ele ser homem. O problema é ele usar sua posição de homem para fazer prevalecer sua cagação de regras.

Mas, enfim, voltando ao caso do deputado, a ideia por detrás das provocações feitas por ele mais uma vez é claramente a de intimidar, ridicularizar e silenciar a mulher. Transformar o gênero dela em uma fragilidade e usar isso para desvalorizar suas posições políticas, apoiado numa cultura que “naturaliza”, normatiza, o machismo a ponto de tornar piada a indignação diante dele. Usufruir do que a gente chama de privilégio de gênero.

Por fim, como podemos ver em inúmeras falas dele, o deputado em questão tokeniza o estupro e as vítimas de estupro constantemente. Tokenizar, ou fazer token é usar uma opressão, uma causa ou pessoas de um grupo que sofre uma opressão para “justificar, defender, explicar o seu ponto de vista” (vide texto do link). Por exemplo, quando uma pessoa branca diz algo racista, mas daí se defende dizendo que não é racista porque é parente de pessoas negras. E é isso que esse cara faz quando nutre avidamente a cultura que perpetua o estupro na nossa sociedade ao mesmo tempo em que usa esse crime como pilar de seu discurso vazio de “lei e ordem”, de redução da maioridade penal, etc. Repudia o estupro, mas fala como se houvesse mulheres que considera o merecerem. Repudia o estupro, mas o usa em insultos e piadas, como forma chocar e intimidar mulheres. Repudia o estupro mas dá a entender que estupraria.

Talvez esse homem não tenha consciência disso – é o caso de muites – mas o que diminui índices criminais não é a severidade da pena, mas a sua certeza. Não adianta prever pena de morte, tortura e mutilação se todo mundo sabe que pode fazer à vontade que não dá nada. Ele próprio deveria saber disso, já que conhece por dentro essa lógica: por que outro motivo continuaria a agir com sua truculência característica, senão porque se crê absolutamente inatingível nela? De tanto fazer e ficar por isso mesmo, ele já sedimentou que é seu direito agir dessa forma. Entitlement. De novo.


***Agradecimentos à Lígia Birindelli Amenda, por ter me lembrado de adicionar o slut-shaming ao glossário!

O consumismo infantil e a culpa

*Texto feito para o blog do MILC (Movimento Infância Livre de Consumismo)

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Ilustração da Coluna Mamatraca/Uol

 

É triste ver como funciona a (falta de) lógica por detrás da defesa da publicidade dirigida ao público infantil.

Como eu já disse antes, não faz o menor sentido ficar bradando que a publicidade tem que ser dirigida às crianças porque os produtos são para elas e, ao mesmo tempo, que cabe a pais e mães “impor limites” ao consumo delas. Ora, se é esse o nosso papel, então por que não vir falar conosco? Por que ir falar direto com as crianças? Me admira a cara de pau de fazer de conta que elas não estão sendo usadas como ferramenta de pressão. De responder a críticas com um simplista “basta dizer não”.

Ser mãe e pai na nossa sociedade é, muitas vezes, viver correndo atrás do próprio rabo. Trabalhar para sustentar família, cuidar da casa para manter um ambiente (minimamente!) saudável para todes e, no tempo que sobra depois disso, tentar dar às crianças todo amor, carinho e atenção que elas precisam de nós enquanto, exaustes e ansioses por um momento a sós, esperamos que elas durmam.

É fácil se perder nessa rotina tresloucada. Esquecer o que realmente importa e tratar os meios como fins em si mesmos.

Quem nunca esperou de si, como mãe ou pai, mais do que foi capaz de dar? Quem nunca teve que lidar com seus próprios limites ou, mais frustrantemente, com limites impostos ou potencializados pelas suas circunstâncias pessoais? Quem nunca errou?
E quem nunca, por decorrência disso, sentiu culpa?

A culpa, pelo menos em alguma medida, me parece ser uma constante da mater/paternidade. E a culpa não é um sentimento cômodo, nem feliz.

Podemos desconstruir essa culpa. Considerar o que está além do nosso controle e nos perdoar; considerar o que podemos mudar e efetivamente fazer diferente; considerar o que, na verdade, é uma imposição cultural opressiva (“mulher TEM QUE dar conta de tudo ao mesmo tempo”, por exemplo) e lutar contra isso.

Mas essa desconstrução exige reflexão e refletir toma tempo. Tempo que muitas vezes não se tem ou não se crê ter, porque se está muito atarefade correndo, como eu disse, atrás do próprio rabo, sem poder parar para respirar, constantemente bombardeade por mensagens diversas que, no fundo, têm sempre um mesmo significado: continue correndo. Correndo. Consumindo.

“Você vai se sentir melhor se comer isto”, “vão gostar mais de você se vestir aquilo”, “você será finalmente feliz se tiver aquilo outro”.

Você consome mais, você precisa de mais dinheiro, você trabalha mais, você se sente pior, você consome mais. O consumo é a anfetamina que o capitalismo usa para manter as pessoas correndo em suas rodinhas, ocupadas demais para roerem suas gaiolas. Ocupadas demais para se lembrarem de seus porquês.

E fica a criança, ali, parada na frente da TV, esperando alguma pessoa que ela ama e que a ama, mas está presa na rodinha, ter tempo para ela.

Ela vê passar o anúncio de um brinquedo, vê ali sorrisos, quem sabe um pai ou mãe brincando junto. Felicidade. Presença. Algo ali é o que ela precisa. Algo ali faz falta para ela. Deve ser… o brinquedo, claro.

E então ela vai e pede o brinquedo. A pessoa adulta ouve nas entrelinhas daquele pedido: “algo me falta!”, e já sente cutucar a lança venenosa da culpa. Algo falta para a criança que ela ama tanto. O que falta? Será mesmo que é o brinquedo?

Pensar nisso dói demais. Talvez ainda mais se a pessoa já foi um dia uma criança para quem algo faltou. E do mal-estar surge, como sempre, a ânsia pelo alívio, pela droga, pelo consumo. Não há tempo para pensar. Corra! Continue correndo! Continue comprando!

E pronto. Toma aqui o seu brinquedo, criança, agora você está feliz. Eu não preciso segurar a sua mão e te ouvir, não preciso repensar as minhas atitudes, não preciso rever a forma como me relaciono com você, não preciso reavaliar a minha vida, não preciso parar de correr. Pegue o seu presente e fique feliz. Não te falta nada.

A criança olha para o que ganhou, o coração em saltos com aquela “prova de amor”, aquele luxo, e brinca feliz… até o objeto perder a novidade. E daí ela olha em volta e se vê sozinha de novo. Chega o frio devorador do vazio. Ela pega o brinquedo, tentando se aquecer de volta com aquela euforia de antes, mas ela já passou. Não está mais lá. Porque ela nunca esteve lá. Mas isso ninguém conta para a gente nos comerciais coloridos e cheios de dentes.

E agora? A resposta é rápida, especialmente para quem aprende pelo exemplo e aprende rápido. Correr. Consumir. Pedir outro brinquedo, para de novo ter aquela prova de amor, aquela atenção em forma de coisa. Aquele calor, ainda que efêmero. Dura pouco, mas é tão bom!

Se uma pessoa adulta não é capaz de resistir ao canto da sereia consumista, como se pode culpar uma criança por isso? Então, não contentes em manipulá-las, vamos agora culpá-las por não resistirem à nossa manipulação, chamando-as de tiranas, aproveitadoras, manipuladoras, elas próprias? E tudo isso enquanto ganhamos dinheiro explorando-as, instrumentalizando-as, usando-as para forçar as pessoas adultas em sua vida a consumirem? É de fazer corar essa falta de escrúpulos e é ainda mais repugnante quando se pretende fingir ser esse um discurso isento de interesses pessoais em lucros milionários.

Cabe-nos, claro, como mães e pais, tentar parar e refletir. É verdade. Cabe-nos lutar contra o impulso de continuar correndo, sem olhar para os lados, sem ver ou ouvir nada que não sejam as nossas patinhas batendo no metal e a roda girando e girando. Isso pode e deve ser problematizado e é, a meu ver, uma problematização muito bem-vinda. Mas não vamos usá-la para culpabilizar quem está sendo explorade e exculpar quem está explorando. Não vamos nos distrair do fato de que há alguém que intencionalmente se alimenta de tudo isso. Que há alguém que torpe e calculadamente procura esse impulso, o estimula e daí se aproveita dele.

Então se um traficante de drogas se infiltra numa reunião do Narcóticos Anônimos procurando clientes para aliciar, ele está só “fazendo uso de uma oportunidade de mercado”? “Fazendo o seu trabalho”? Não seria essa atitude absolutamente repugnante e moralmente reprovável? E por que, quando o vício é outro, ela é admissível?

A culpa pelo consumismo infantil não é des pais e menos ainda das crianças. A culpa é de quem lucra em cima da culpa. A culpa é de quem se alimenta do vazio dentro das pessoas, sejam elas de qualquer idade. A culpa é de quem faz da dor humana um bom negócio.

Braços demais – o mito da mulher multifuncional

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Essa é a imagem da deusa do patriarcado capitalista: uma mulher com diversos braços, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

Não basta ser mulher. Tem que ser supermãe, mulherão, esposa perfeita, dona de casa impecável, profissional ultraeficiente. Desde pequenas, somos expostas figuras como essa ou às ideias que remetem a ela e nos é ensinado que esse é o ideal a ser alcançado.

Tem que ser mãe. E ser mãe mesmo sem apoio de ninguém, menos ainda do pai da criança – talvez, aliás, ele seja tão inútil ou nocivo que se prefira até mesmo que ele fique longe. Mas a mulher tem que ser mãe, senão ela não é mulher “de verdade”. Não está “realizada”. E não é só mãe, tem que ser a melhor mãe. Supermãe. Tem que amar mais as crianças do que a si mesma (só não mais que ao maridão, né?), tem que viver sorrindo e falando docemente, tem que ter as crianças mais bem-comportadas, mais bem-vestidas, mais estudiosas e mais limpinhas do mundo.

mulher_faztudoTem que ser mulherão. Ser “gostosa”, bonita e perfumada o tempo todo. Tem que faxinar a casa toda e ainda cheirar a sabonete e ter as mãos suaves como algodão. Tem que “se cuidar”, né? Não pode “relaxar”, não pode engordar, não pode deixar de usar maquiagem, tratar cabelos, pele, unhas. Tem que ser bonita até fazendo cocô.

Tem que ser esposa. Porque uma mulher sem marido é como um peixe sem uma bicicleta água. E não basta casar, tem que “segurar seu homem”, e para segurar o seu homem, ela tem que ser perfeita. Não pode incomodar o maridinho, esse ser tão frágil, com seus problemas do dia-a-dia; quando ELE chega em casa é para descansar, porque ele sim trabalha duro, não é como ela, que praticamente não faz nada o dia inteiro. Tem que ser compreensiva com as “necessidades” dele e estar sempre sorrindo e pronta para fazer sexo olímpico de todas as formas que ELE quiser, porque, né, senão ele vai “procurar lá fora”. E aí você pode até “perder seu homem”. Que vergonha (para você).

Tem que ser dona de casa. Mas tem que ser impecável mesmo. A casa tem que estar brilhando, reluzindo, ofuscando “azinimiga”. Cada coisa no seu lugar, nem mesmo um grão de poeira no chão, nenhuma roupa por lavar, nenhum brinquedo espalhado. E, de novo, tudo isso sem deixar as mãos calejarem, sem ficar fedendo a produto de limpeza e SOZINHA. Porque homem não tem jeito para essas coisas, sabe? E, mesmo que tivesse, não se pode atribulá-los com esse tipo de tarefa, porque eles se aborrecem. E não devemos jamais correr o risco de aborrecê-los.

mulher faz tudo 2Tem que ser profissional. Porque, né, mulher que não trabalha está se aproveitando do marido, é vagabunda encostada em homem. Caçadora de pensão. Então ela tem que trabalhar, e muito, mesmo ganhando menos que os homens que fazem o mesmo que ela faz; tem que ser ultraeficiente, na verdade, trabalhar mais que eles, porque tem que se provar o tempo todo, a menos que queira que insinuem que está ali por ter concedido favores sexuais. Muitas vezes ela inclusive agrega tarefas como fazer cafezinho, atender telefone e ser bibelô de escritório, afinal, esses são “papéis femininos”. Homens não são capazes de dominar a complicada ciência de fazer passar água quente por pó de café, ou atender a um telefonema. Além disso, ela tem que ficar de olho na concorrência, já que “não existe amizade entre mulheres”.

Mas não basta exigir tudo isso da mulher. Tem que incutir nela a ideia de que ELA é quem quer isso tudo para si. De que o valor dela é diretamente proporcional à sua proximidade desse paradigma impossível. Que essa sobrecarga, essa martirização, esse moedor de carne feminina, é uma espécie de calvário, algo que lhe enobrece o espírito e a torna uma pessoa melhor. Que todas as outras mulheres são suas adversárias e que é só preenchendo todos esses requisitos o tempo todo que ela vai ganhar das outras. E que ela tem que ganhar das outras. Sempre.

Kali01-282Na religião hindu há uma deusa que se parece com essa imagem – é, aliás, a referência para muitas das versões dela. Kali, segundo a Wikipédia, “É considerada uma manifestação da deusa Parvati, a esposa de Xiva. Aprecia sacrifícios sangrentos e é representada manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios de seus filhos”.

Muito menos assustadora, à primeira vista, é a imagem da deusa do patriarcado capitalista. Ela também aprecia sacrifícios de sangue, desde que não menstrual, e suor, de preferência sem cheiro, e lágrimas, desde que sem manchar a maquiagem. Mas muitas vezes é representada sorrindo, olha só.

Porque show deve continuar.

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***Meus agradecimentos a Lulu Anders, que também colaborou no post “Despir para Proteger”, por ter me provocado pela primeira vez a reflexão sobre esse tipo de gravura.

Comunicação pseudo-não-violenta

pegada

Comunicação não-violenta não é só não falar em tom ríspido e acusatório, ou não usar palavras chulas. Não deixa de ser agressiva a fala que é violenta em sua essência, mesmo que revestida de palavras polidas.

É cansativo conversar com aquele tipo de pessoa que fala que “só está dando a sua opinião” enquanto vomita preconceitos. Que, por exemplo, insiste em se referir à mulher trans* sempre no masculino. Ou que declara que casais não hétero, ou com pessoas trans* não deveriam adotar crianças porque isso as influenciaria negativamente. Ou que fala que pessoas negras deveriam colocar o passado de lado, para que todes nós possamos olhar para um futuro “sem distinção de cor”. Que “explica” que, por uma questão biológica, a mulher é menos racional que o homem. Que diz a uma mulher que ela não deveria fazer sexo assim ou assado, porque isso não seria coerente com a ideologia que ela defende.

Imagine a seguinte cena:

Pessoa1 pisa delicadamente no pé da Pessoa2. Pessoa2, pisada, diz:

“Escuta, você está pisando no meu pé”.

Pessoa1 nem para para olhar onde está pisando e só responde:

“Não estou pisando não, estou andando normalmente…” E continua pisando.

Não tem um “Pô, desculpa, verdade, não vi seu pé, vou tomar cuidado da próxima vez”, ou mesmo um “Ah é? Nossa, vou olhar para ver se enxergo o seu pé e te retorno.” Na cabeça egocêntrica e sem-noção dela, não existem outros sentimentos no mundo além dos que ela também sente. Logo, se ela não acha que algo é ofensivo, não há possibilidade de que seja. Isto é, se ela não viu o seu pé, mesmo que não estivesse prestando atenção, não há possibilidade de que ele esteja lá.

A Pessoa2 então fica com raiva e diz:

“Tira o pé, porra!”

Pronto. A Pessoa1 agora está ofendidíssima.

“Que grosseira, para que isso? Com “vocês” é assim, não dá para dialogar, distorcem tudo o que eu faço, estou só andando! Não se pode nem mais andar em paz? E mesmo que eu tivesse te pisado, você não tem o direito de falar assim! Perdeu totalmente a razão. Vai ver até colocou o pé ali de propósito para poder se fazer de vítima.”

Pois é, rola de tudo, até gaslighting*. O que não rola é ela se responsabilizar por onde pisa e rever seu caminho.

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*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.