“MAS ele é ótimo com as crianças”

 

ótimo com as crianças

Passo mal quando ouço isso.

Ele agride a mulher que é mãe des filhes dele. É ausente, não coopera, falta com seus compromissos. A violência dele, que assume inúmeras formas, talvez chegue até a ser física. A misoginia que ele exibe orgulhosamente não tem limites. MAS… ele é ótimo com as crianças, as pessoas dizem.

Como? Fico me perguntando.

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele é um merda com a mãe delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele torna infeliz a pessoa que é a cuidadora principal delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele dá a elas o exemplo da violência dentro de suas próprias casas? Ensina a elas que dor faz parte de amor? Que brutalidade é paixão?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando repassa a elas o machismo de que homem não faz serviço doméstico, homem não cuida de criança, homem só usufrui?

Como ele pode ser ótimo com as crianças se ele só se relaciona com elas nos termos dele, quando ele quer e só para curtir e não para cuidar? Como ele pode ser ótimo com as crianças se, na hora que aperta, espera da mulher que ela sacrifique a carreira profissional e acadêmica dela, porque acha que isso é não é exigível dele?

Ele é “ótimo com as crianças” porque está relaxado, bem dormido e bem disposto. Trampinho que começa e acaba (e não 24h, afinal, isso é coisa de mulher, esse ser tão frágil e protegido pela sociedade), cervejinha com os amigos, chega e encontra comida na mesa, toma banho sem pressa, dorme a noite toda bem tranquilo, não lava um copo. Sem nem falar na exigência social ridiculamente menor em torno de ele “se cuidar” (leia-se, estar bonitinho de se olhar) enquanto ela assovia e chupa cana.

É fácil pagar de bonzão quando tem outra pessoa carregando o piano para você.

Não, mulher. Ele não é ótimo com as crianças. Porque, para ser ótimo com as crianças, ele teria que ser pelo menos razoável com você. Para ser ótimo com as crianças ele teria que se importar com elas a ponto de se importar com quem cuida delas. Para ser ótimo com as crianças ele teria que estar presente na vida delas além do momento que é conveniente para ele.

Ele não é ótimo com as crianças. Ele é ótimo com ele mesmo. E só.

Não caia nessa. Não cometa consigo mesma a violência de achar que o seu bem-estar é irrelevante. Não existe bom pai sem antes existir bom companheiro. Companheiro de equipe de cuidado des filhes, mesmo que não de relacionamento amoroso.

Quem quer participar da criação tem que participar por inteiro, não só na parte que fica bonita na fita.

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“Mas ela parecia mais velha com aquele chapeuzinho vermelho”, diz o lobo-mau, palitando os dentes

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*** TRIGGER WARNING (AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL): abuso sexual de menores

Eu gostei muito da série Breaking Bad (apesar de ter detestado o final). Nela, testemunhamos a derrocada moral dos dois personagens principais, daí o título – “to break bad”, em inglês, quer dizer “virar mau”. Um dos momentos mais interessantes para mim foi quando o personagem de Aaron Paul, Jesse Pinkman, um traficante de drogas, resolve captar clientela infiltrando-se (e aos seus comparsas) em reuniões do Narcóticos Anônimos.

Essa é uma metáfora perfeita para explicitar um tipo de comportamento predatório que, por algum motivo, as pessoas têm muita dificuldade de perceber em outras situações. Mesmo num personagem que era um vendedor de substâncias ilícitas, algo que a maior parte das pessoas já julga condenável por si só, essa atitude foi vista como deplorável.

Uma coisa é considerar as pessoas responsáveis por suas próprias escolhas; outra coisa, completamente diferente, é ignorar que elas nem sempre estão em condições de fazer essas escolhas. E outra coisa, pior ainda, é saber, em determinado caso, que elas não estão e se aproveitar disso.

Se eu sei que uma pessoa tem um problema de compulsão com sexo, será mesmo uma atitude de boa-fé minha fazer sexo com ela num momento em que sei que ela pode estar agindo compulsivamente? Será que eu posso mesmo dizer que ela está escolhendo fazer sexo comigo? Ela pode não estar bêbada ou entorpecida, mas sua capacidade de discernimento está reduzida em relação àquilo.

Quando falamos de crianças e adolescentes fazendo sexo com pessoas adultas, sempre tem alguém para dizer que “tem menina que parece mais velha”, que “tem menina que provoca”, que “tem menina que é muito mais madura sexualmente que muita mulher”. Mesmo quando falamos de meninas muito novas, abaixo da idade legal de consentimento (quatorze anos), tem quem defenda o “pobre coitado” que pode ser, na opinião deles, injustamente condenado por estupro de vulnerável mesmo quando a menina parecia ter “toda a maturidade” de uns dezesseis anos.

Maturidade sexual, infelizmente, não está condicionada à maturidade emocional ou intelectual. Se fosse assim, boa parte das pessoas adultas que eu conheço não alcançaria a fase reprodutiva antes de morrer. O que seria ótimo, aliás, em termos evolutivos.

Isso demonstra como gente grande é hipócrita e adultista mesmo. Você tem treze anos? Não tem idade para escolher aonde ir, o que comer, o que fazer. Mas abra as pernas e lá vou eu – afinal, foi você quem pediu e você sabia muito bem o que estava fazendo quando pediu por isso.

As pessoas adultas se esquecem de como é difícil ser criança. Ser invisível, ser relevade, ser ignorade e ignorável. É por isso que as crianças normalmente querem crescer logo e qualquer coisa que lhes faça parecer mais velhas se torna atraente para elas.

A sexualização e a adultização têm esse efeito. Seus peitos despontam e, de repente, as pessoas adultas passam a prestar atenção em você. E você se sente grande e importante. Sua presença não é mais indiferente. Muitas vezes, você sente, inclusive, equivocadamente, que tem algum controle sobre o interesse que desperta e as interações que podem vir com ele.

É muito fácil para uma menina com baixa-autoestima se deixar levar pela sexualização para tentar suprir sua necessidade de se sentir amada, bonita, desejada. E é muito fácil para um adulto manipular essa necessidade para conseguir sexo fácil de alguém que não tem consciência de que está sendo usada. Ou, ainda, para prender uma mulher desde sua mais tenra infância numa relação profundamente abusiva. Ainda que o interesse sexual dessa menina seja o mais genuíno possível, existe uma hipossuficiência óbvia na interação entre um homem adulto e uma menina de treze anos.

O problema, para mim, não é a sexualidade natural da menina. O meu problema é o adulto que se aproveita dessa sexualidade ou defende essa prática. Que acha que não existe, ou diz não ver, diferença entre o consentimento de uma mulher e o de uma criança.

Mais tarde, ficam as cicatrizes, as marcas da objetificação… e a culpa, a sensação de se ser a única responsável por tudo o que ocorreu, o que é reforçado pelo fato de que as pessoas ao seu redor, especialmente as adultas, quando te procuram, não é para ver se você está bem, para ver qual a angústia que você tenta silenciar daquela forma, mas para te repreender. Na cabeça delas, seu único problema é a sua “sem-vergonhice”. Você foi pelas suas próprias pernas, sem coação. Você queria. Quem sabe até tenha gozado.

Os caras que se servem de você? Para eles ninguém olha feio, afinal, estão só fazendo “o que qualquer um faria no lugar deles, porque homem é assim”. Que conveniente. É de se pensar o que fazem perambulando pelas ruas de uma sociedade dita civilizada pessoas incapazes de controlar seus impulsos sexuais. Mas essa observação já vem sido feita – e ignorada – há muito tempo.

Não é o jeito que a menina se veste, a forma como ela se porta, o número de pessoas com quem ela já se relacionou sexualmente que vão justificar que um adulto aproveite para tirar sua casquinha. Quão mais velha de fato pode parecer uma menina de doze, treze, catorze anos? Mesmo com toda a maquiagem, as roupas e o acessórios de uma mulher adulta, será que dá para alguém dizer que ela parecia não ser uma adolescente? Será que é assim tão inconcebível, na dúvida, não trepar?

“Ah, mas ela estava gostando”, “ah, mas ela estava querendo”. Gostando de quê? Querendo o quê? Será mesmo que ela queria o mesmo que ele? Será que ela queria o que ele estava tão ávido para dar? Ou será que está se sujeitando, dando-se em troca de uma coisa bem outra, que ela própria não consegue sequer verbalizar?

Se você realmente acha que uma pessoa de menos de catorze anos tem condições de consentir de verdade (entendendo todas as implicações envolvidas) a uma relação sexual com uma pessoa mais velha que ela, considere o seguinte: e se a pessoa mais velha que estivesse se relacionando com essa menina fosse, digamos, uma mulher? Ou se fosse um homem, mas a criança em questão fosse um menino? E aí? O que é maior, a sua homofobia ou a sua hipocrisia?

Quando alguém próximo de mim dá voz a esse tipo de discurso, a primeira coisa que me passa pela cabeça é que essa pessoa está defendendo a si mesma, que está se identificando com o estuprador.

Não quero alguém assim perto des mes filhes.

“Mas ele não me bate”

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Ela diz. E eu entendo.

Não sei se é ela mesma quem nega a própria dor, ou se outra pessoa, talvez A outra pessoa, faz isso por ela.

Ela não percebe que ele não precisa tocar num só fio de cabelo dela para esmigalhar seu espírito, para destroçar sua alma.

Ela não vê que, mesmo sem nem se aproximar, ele a está intimidando quando levanta a voz e estufa o peito em direção a ela no meio de uma discussão. Ela não se vê encolher, muitas vezes literalmente contra a parede. Não percebe que, quando “só” isso não basta, ele esmurra e chuta objetos inanimados como um gorila que bate no peito diante de um adversário. A mensagem é cristalina, ainda que não verbal: “Submeta-se! Ou eis o que farei com você”.

Se alguém nos ameaça e nós recuamos, isso significa que a pessoa não é violenta? A ameaça é uma violência em si.

“Mas eu sei que ele jamais me machucaria”, ela o defende, defendendo a si mesma da vergonha que sente por se permitir humilhar assim.

E eu sei que ela sabe que isso não é bem verdade. Sua mente racional tem para si muito claro que ele é inofensivo, mas existe nela um instinto que reconhece a iminência da agressão e a faz retrair-se toda vez que ele grita, olha para ela com ódio, bufa, cerra os punhos. E isso basta para que ela perca as palavras, não se imponha, não o confronte. Para que ela fique ali, paralisada pelo temor. Para que ela engula e introjete, uma a uma, as coisas horríveis que ele lhe diz.

“Mas ele não é assim o tempo todo”, ela fala, mais para si mesma que para mim. E eu sinto ainda mais raiva dele. Porque é tão mais fácil quando eles são escrotos o tempo todo e com todo mundo. Daí, nunca tem, nem fora, nem dentro da gente, uma criatura especial para dizer que vale a pena manter o relacionamento.

Raramente é assim. Pessoas agressoras ainda são pessoas, humanas, como todas as outras. Elas podem ter momentos de ternura, podem ter qualidades, virtudes. Mas nada disso torna menos violentas as suas violências quando elas ocorrem. Nada disso diminui o trauma que seus atos e palavras causam em suas vítimas. As flores que vêm depois não apagam as dores que vieram antes. As desculpas não apagam as culpas.

As memórias felizes permanecem, como contas coloridas e brilhantes ligadas num colar confuso por uma linha de medo e sofrimento. Mas as contas com o tempo começam a ficar mais e mais esparsas e a gente começa a não ter mais como não ver entre elas aquele fio feio que se alonga cada vez mais.

Por quê? Por que ela fica?

Talvez ela já tenha passado por isso antes, talvez tenha crescido com alguém que a tratava assim e agora, diante de outra pessoa que age dessa forma, ela volte a ser aquela criança espancada por berros e perdigotos raivosos, esquecida de seu tamanho adulto, de suas pernas capazes de carregá-la para longe dali. Talvez, na cabeça dela, ela já tenha sido horrível com alguma pessoa e este seja o carma dela, uma retribuição que ela deve pagar, por algum motivo cósmico e inexplicável. Talvez ela tenha crescido aprendendo que o papel de uma mulher é cuidar da pessoa com quem se relaciona, mesmo que essa pessoa lhe faça mal, aliás, especialmente se essa pessoa lhe fizer mal; que faz parte da paixão fazer mal, fazer chorar e doer. Talvez ela sinta que merece ser punida. Que não é adequada e deve ser punida até que se torne aceitável. Algo assim.

Tantas explicações possíveis para ela estar ali, diante de mim, murcha, esvaziada de si mesma. Uma boneca humana recheada pelas vontades de outra pessoa, um saco de pancadas, ainda que não físicas. Uma mulher formidável que hoje olha para si mesma apenas com repugnância.

E ela continua lá. Por que eu estou aqui, então? Porque eu sei que é do isolamento da vítima que o abusador se alimenta. E é por isso que eu jamais a abandonarei, ou a afastarei com recriminações e julgamentos.

Não faz diferença o motivo por que ela fica nessa relação. Não faz diferença há quanto tempo ela está nela. O que fará diferença será o momento em que ela sair dela. E cada momento que chega pode ser esse momento.

Não a condeno pelo momento que já passou (isso ela já faz o bastante). Aproveito o momento presente para abraçá-la e acolhê-la. Lembrá-la de que não está só. E vou nutrindo esperanças pelo momento que ainda virá.

Tribunal de São Paulo legitima estupro de menina de 13 anos

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Recebi hoje, logo pela manhã, um murro no estômago.

Ainda estou tentando me recompor. Espero que escrever isto me ajude. A sensação de impotência que tenho neste momento me sufoca, me nauseia.

Eu quero entender. Quero conseguir alcançar a lógica jurídica que absolve de estupro um homem de mais de setenta anos que é flagrado “fazendo sexo”em um veículo com duas adolescentes (uma de catorze e uma de treze anos) com base no fato de que elas seriam prostitutas (o que, ainda que fosse verdade, também seria crime – exploração sexual de menores).

Até 2009, havia um artigo no Código Penal que estipulava que, quando o ato libidinoso era praticado com uma pessoa de menos de catorze anos, a violência era presumida de forma absoluta, ou seja, indiscutível, não se admitindo argumentação em contrário. Mas, precisamente porque a palavra “violência” gerava mal-entendidos (com pessoas dizendo que isso era injusto quando o réu havia “gentilmente” seduzido a vítima), esse artigo foi revogado pela lei 12.015/09, que introduziu, com o artigo 217-A, um novo tipo penal, o de estupro de vulnerável.

Segundo esse novo artigo, é crime, punível com oito a quinze anos de prisão, “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Veja, não importa se houve ou não violência (física, já que as pessoas parecem cegas a qualquer outro tipo), não interessa se a pessoa adulta tinha conhecimento da idade des menores envolvidos. E, principalmente, SÃO COMPLETAMENTE IRRELEVANTES QUAISQUER CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS CONDIÇÕES PESSOAIS DA VÍTIMA.

Peço desculpas pelo caps, mas não pude me conter.

Não é uma injustiça. Não é um absurdo. O que é absurdo e injusto é culpar a vítima pelos atos de quem perpetra o crime. O fato de as condições pessoais da vítima serem irrelevantes para que se considere cometido o crime de estupro não é sem significado, nem acidental. É assim para que fique absolutamente claro que é inadmissível estuprar alguém, não importa quem seja ou o que essa pessoa tenha feito na vida. Simples assim.

E, como se isso não bastasse, mesmo depois dessa alteração na lei, o STJ manteve o entendimento de que se deve presumir a violência. Tudo isso frisa para nós o estado de absoluta vulnerabilidade e hipossuficiência da pessoa menor de catorze anos.

Mas a “Justiça” é uma caixinha de surpresas que faz o futebol parecer previsível. Olha só este trecho do artigo do Estadão a respeito (o destaque é meu):

 “O relator reconheceu o caráter absoluto da presunção de violência para o crime de estupro de menores de 14 anos, mas acolheu o argumento da defesa de que o fazendeiro foi levado a erro quanto à idade da menina por causa de suas experiências sexuais anteriores e da prática de prostituição. “Não se pode perder de vista que em determinadas ocasiões podemos encontrar menores de 14 anos que aparentam ter mais idade, mormente nos casos em que eles se dedicam à prostituição, usam substâncias entorpecentes e ingerem bebidas alcoólicas”, afirmou o acórdão.” 

O relator reconheceu o caráter absoluto da presunção de violência, mas considerou que, neste caso, ele não é tão absoluto assim. Alguém, por favor, passe um dicionário para essa criatura. Absoluto é absoluto. Absoluto não é relativo, não é relativizável. Se existe alguma coisa que é preto no branco, se existe um momento em que se pode falar em tudo ou nada, é quando se usa a palavra absoluto. Absoluto, nada mais importa. Absoluto, dane-se o resto. Absoluto. Absoluto. Absoluto.

Mas o absoluto se permitiu relativizar para exculpar esse pobre fazendeiro, esse homem de bem, que foi “levado a erro” (não é que ele errou, observe, ele foi levado a erro) pelas crianças más que, de acordo na letra seca da lei, ele estuprou. Foi um mal-entendido; abre-se inclusive o caminho para que se pense que pode ter sido até mesmo uma fraude, uma armação.

Levado a erro como? Ele perguntou e elas mentiram? Ele pediu RG e elas forneceram documentos falsos? Não. Foi porque “em determinadas ocasiões podemos encontrar menores de 14 anos que aparentam ter mais idade, mormente nos casos em que eles se dedicam à prostituição, usam substâncias entorpecentes e ingerem bebidas alcoólicas”.

Essa linha de argumentação me assombra porque… bom, porque não faz o menor sentido. Vamos, por um segundo, fazer de conta que a gente considera aceitável a culpabilização da vítima utilizada como defesa no caso (pausa para vomitar). Então, ok, elas não pareciam ser menores de catorze anos. Mas pareciam ser maiores de dezoito? Porque tem também o crime (hediondo) de exploração sexual:

“Art. 218-B.  Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone:

Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.

§ 2o  Incorre nas mesmas penas:

I – quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo”

Perceba que o crime de exploração sexual só vale para vítimas entre catorze e dezoito anos. Por quê? Porque abaixo de catorze anos, como visto, é necessariamente o estupro de vulnerável, já visto acima.

Ou seja, mesmo que se entenda que as duas adolescentes foram parar no caminhão dele “por engano” e que esse engano era escusável (entendimento que eu, particularmente, deploro), ele ainda teria cometido o crime de exploração sexual de menores.

Mesmo com todas as campanhas contra a exploração sexual de crianças neste país e sua clara criminalização, ela foi usada como justificativa para o estupro. Como se um absolvesse o outro – “Estuprou? Monstro! Ah, elas eram prostitutas? Então tudo bem!”

É difícil falar de estupro quando a vítima é prostituta maior de idade e isso já é uma abominação jurídica. Agora, quando a vítima é menor de idade? Não há palavras para descrever o horror disso.

O propósito desses dispositivos legais é proteger quem eles reconhecem estar numa condição vulnerável, uma vulnerabilidade decorrente da falta de discernimento, autoconhecimento, ou maturidade suficiente para consentir. É estabelecer que cabe às pessoas de mais idade entenderem e não se aproveitarem disso.

A gente fica compartilhando indignadamente no facebook imagens e notícias dos países em que crianças são forçadas a se casar com essa mesma idade das vítimas. Onde está essa indignação agora? Ela está condicionada à virgindade das vítimas? Uma criança deixa de ser criança por conta do que o mundo já fez a ela?

Alguém de fato acredita que uma criança de treze anos (sim, criança, para mim é criança) que é feliz usa drogas? Alguém de fato acredita que uma criança de treze anos se prostitui porque quer? Porque gosta?

Passar a mão na cabeça de quem se aproveita da penúria dessa criança é desampará-la. É reforçar para ela – e para o mundo – que ela merece aquele tratamento. Que, a partir do momento em que se portaram de forma que os Desembargadores julgam reprovável, o comportamento delas passou a ser mais relevante que o do homem que as prostituiu e estuprou.

O estuprador é inocente. Elas, crianças, não são.

Com essa decisão, com essa jurisprudência, o Tribunal de São Paulo, nos comunica, nas entrelinhas, que a conduta de meninas de treze anos exculpa a conduta de homens de setenta anos. Que a moral dos homens togados prevalece sobre a lei que eles se togaram para resguardar. Que o estupro é um castigo legítimo para as crianças “más”.

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*** Peço desculpas pela imagem no começo do post. Sei que é forte. Eu mesma chorei quando a vi e via de regra evito imagens que exponham menores. Mas neste caso achei importante termos a real dimensão do que estamos dizendo. Essa imagem vale mais do que mil palavras.

O homem ideal?

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***Contém linguagem sexualmente explícita

Ele é firme, ele é justo, ele nunca chora. Chorar é a humilhação dos fracos (“Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és!”). E ele é muito forte. É o mais forte de todos.

Honrado, jamais busca resolver seus conflitos com sua descomunal força física, mas, quando é forçado a usá-la, sobrepuja a todos os seus adversários. Nunca perdeu uma briga, física ou verbal. Nunca precisou de um golpe baixo, um arranhão, uma mordida, um puxão de cabelo, de orelha. Afinal, isso é para as mulheres e quem se equipara a elas.

Ele é fera em todos os esportes, é sempre o mais rápido, o mais forte, o mais ágil. Ganha todos os jogos e ganha todas as mulheres, troféus que ele usa para demonstrar sua superioridade em relação aos outros homens. Ele nunca perde. Nunca. Se parece que ele perdeu é porque o jogo ainda não acabou.

Sua pica mede 30cm de comprimento, 5cm de diâmetro e vibra como as asas de um besouro mágico sobre um saco escrotal com bolas de 100 g cada uma. Suas cuecas e calças têm que ser feitas sob medida. Mas, no final, essa rola toda é quase desnecessária, já que mulheres gozam ao menor toque de seus dedos e às vezes até mesmo sob o seu mero olhar. Todas se abrem para ele como flores orvalhadas numa linda manhã de verão. Ninguém, absolutamente ninguém, é melhor do que ele na cama. Ou no sofá, ou na rede, ou na grama, ou no telhado. E ele está sempre em ponto de bala esteja onde estiver, seja quando for, seja como for. Ele é capaz de fazer sexo ininterruptamente, meter dúzias de vezes sem tirar, satisfazer dezenas de mulheres de uma só vez e tudo isso sem jamais se cansar.

Todas as mulheres que ele possui são atraentes, fogosas e eram todas virgens antes dele. Todas o amam loucamente, têm crises de ciúmes constantes, ameaçam se matar, brigam entre si. Nunca ninguém fica com ele só por sexo, elas sempre se apaixonam no final. Nenhuma mulher jamais consegue discutir com ele sem acabar se entregando aos seus encantos. Ele é o domador de todas as megeras, o pau dele é uma varinha mágica do amor.

Elas fazem tudo por ele, de modo que ele mal tem que escovar os próprios dentes, limpar a própria bunda. Ainda bem, porque ele não é capaz de lavar um copo, de fazer um miojo lendo as instruções do pacotinho. Óbvio, já que estas estão num nível muito inferior ao intelecto avantajado dele, assim como todos os manuais de instrução e os mapas. Mesmo porque, ele é um desbravador, um aventureiro, e sabe que o melhor jeito de conhecer os caminhos é se perder neles. Seguir mapas é para os indefesos, não para heróis como ele. Se ele acabar no meio do mato ou cercado por malfeitores, ele é plenamente capaz de se virar sozinho.

Se alguma de suas inúmeras mulheres o traísse (coisa que jamais aconteceria, isso é só mesmo uma hipótese muito impossível sendo levantada por questões teóricas) ele a largaria imediatamente. E ela se mataria de arrependimento e pela vergonha da desonra, já que teria cometido esse crime sem sentir prazer algum, numa tentativa vã de se vingar dele por ter tantas outras mulheres.

Ele tem o corpo musculoso, mas não malha, não faz ginástica, não vai à academia. Quando muito, pratica lutas. É magro, apesar de ser capaz de comer como um ogro, especialmente carne, muita carne, vermelha e malpassada, e tomar muita cerveja em goles sôfregos, acompanhada de vodka, uísque e outros destilados, tudo de excelente qualidade. Mas ele não é alcoólatra. Alcoolismo é para os frágeis, ele tem de tudo, não precisa do álcool como muleta para nada.

Ele é assertivo, confiante, fala sempre sem gaguejar, com perfeição, de forma franca e direta. Todos sempre querem saber sua opinião e suas piadas são sempre engraçadíssimas. Ele é brilhante e profundamente culto, apesar de estudar muito pouco, já que está sempre na balada, com mulheres, praticando esportes ou tomando cerveja com os amigos – que ele tem às pencas e todos o admiram e o seguem sem pestanejar.

Não há quem resista à sua lábia; ele é muito influente. Por isso ele tem sempre os melhores empregos e trabalhos, nunca tem chefes ou superiores, especialmente que sejam mais jovens ou da mesma idade que ele (ou mulheres, claro), ganha rios de dinheiro e só anda de carrão, dirigindo sempre com muita velocidade, afinal, ele pode pagar multas e pessoas para assumirem seus eventuais pontos na carteira. Esperar no trânsito é para os beta.

Ele está sempre por cima das mudanças tecnológicas e sabe mexer em todos os aparelhos eletrônicos com a mesma maestria com que mexe em mulheres. Não há segredos da informática que estejam além de suas aptidões. Afinal, ser ultrapassado tecnologicamente é ficar velho. E ficar velho é ficar impotente, é para os homens menores, os menos homens, esses que não são garanhões orgulhosos como ele é. De velhice, nele, no máximo, no máximo, leves cãs que adornam suas másculas têmporas.

Aliás, ele também mexe com sucesso em todos os motores que encontra (especialmente os de veículos) e todos os eletrodomésticos; ninguém conserta qualquer coisa numa casa melhor do que ele. Nenhuma de suas mulheres perde tempo chamando outros homens, homens-serviçais, para fazer o que ele faz melhor. Não é à toa que em filmes pornô há o clichê dos encanadores e consertadores de coisas, já qualquer homem de verdade (como ele) sabe que há uma estreita ligação entre a potência sexual e a capacidade de fazer o trabalho do macho da casa. Está tudo lá, naquele poderoso cromossomo Y.

Aliás, ele já carregou pessoas para fora de casas em chamas, salvando-as em seus musculosos braços; já desceu de árvores com gatinhos brancos e felpudos; já liquidou sozinho hordas de bandidos muito maus. E tudo isso com muito sarcasmo e uma expressão blasé em seu rosto (ele tem muito estilo). A polícia, o corpo de bombeiros e até mesmo as forças armadas tiveram que reconhecer seus feitos, declarando-o membro honorário de suas fileiras.

E é por isso que ele é tão amado, tão admirado, tão invejado. O líder nato.

Eis o homem ideal do patriarcado.

Eu às vezes tenho pena de todos os homens que não são esse homem. Mas costumo ter muito mais pena de todas as mulheres e crianças que têm que conviver com a frustração de todos esses homens.

Perdoar e esquecer

PERDAO

É muito perturbador para mim quando vejo uma pessoa contar de violências (de qualquer tipo) que sofre ou sofreu, e quem a está escutando, ao invés de empatizar com ela, aconselhá-la a ser tolerante e compreensiva com a pessoa de quem partiu a agressão.

Acontece muito em casos de violência doméstica por parte de pais ou companheires, isto é, casos em que o algoz é alguém a quem a vítima ama e que supostamente ama a vítima.

Ressalvo que, para mim, eventualmente empatizar com a parte agressora e tratar a origem da agressão faz parte do processo de reabilitação. Reconstruir a humanidade no monstro e desconstruir o monstro na humanidade é algo necessário para que consigamos inibir a reincidência, seja no indivíduo ou na sociedade. Não estou negando isso.

Estou falando de quando a pessoa empatiza com a parte agressora na cara da vítima que acaba de relatar o que passou, ao invés de e antes de empatizar com a vítima. A pessoa está ali, desnudando um trauma seu, completamente vulnerável, e é recebida não com a escuta atenciosa, com apoio, mas com a defesa de quem a traumatizou.

Acho que, muitas vezes, a pessoa que faz isso o faz porque de alguma forma se identifica com o agressor – e, portanto, defende a si mesma – ou porque não consegue lidar com o sofrimento da outra e fica tentando convencê-la e a si mesma de que não foi tão ruim assim, ou porque se identifica com a vítima, mas, ao contrário dela, quer continuar negando seu sofrimento. Afinal, para empatizar, ela teria que reconhecer que o ocorrido é violência, uma percepção com que ela não quer ou não é capaz de lidar naquele momento.

Nada contra alguém não querer lidar com alguma coisa. Cada um sabe de si e de quando está pronto para enfrentar seus fantasmas. Mas uma coisa é não querer lidar; outra coisa, muito diferente, é impedir outra pessoa de fazê-lo.

Não raro, ainda se chama a isso de acolhimento, de “dar uma força”, de “ajudar a enxergar o que aconteceu com objetividade”. É dito que ao entender o agressor a vítima ficará melhor. Que a cura é perdoar. Perdoar e esquecer.

É muito enraizada na nossa cultura essa glorificação do perdão como uma dádiva maravilhosa e mágica, como se pronunciar a frase “eu perdoo” produzisse um encantamento que desintegrasse mágoa, rancor, ódio… qualquer sentimento indesejável.

Só que esse perdão não é real. É um subterfúgio para evitar voltar a falar a respeito do ocorrido, porque “você já perdoou”. Esse perdão não redime, não absolve, não liberta, nem engrandece. Ele só serve para silenciar a vítima, recalcar seus sentimentos e, de quebra, colocar culpa, vergonha e sensação de inadequação no caldeirão emocional já borbulhante dela. É uma fuga de quem escuta e pode ser também de quem “perdoa”, quando o faz para não se permitir pensar mais sobre aquilo, para não dialogar com a dor que a memória daquilo causa. Daí o “esquecer” que costuma acompanhar esse “perdoar”.

Enfia-se tudo num quarto escuro, fecha-se a porta e abracadabra. Tudo em ordem – aqui fora. Só que a porta fica lá. E toda vez que você olha para ela você lembra daquela bagunça embolada lá dentro e as suas entranhas se reviram.

Quando desconstruímos um trauma, podemos não nos sentir bem a respeito dele (afinal, ele não deixará de ser uma memória ruim), mas não precisaremos nos forçar a esquecê-lo, porque ele não vai mais ter o poder de nos sobressaltar a qualquer momento. Não é que ele será esquecido, mas ele vai naturalmente parar de ser lembrado o tempo todo.

Uma das formas de desconstruir traumas é falando a respeito deles e sendo acolhide em sua fala, sendo recebide com empatia no sofrimento que eles causam. E isso não é possível quando se é interrompido pela censuradora imposição do perdão.

Não querer sentir não significa não sentir. Fosse assim, nenhum coração jamais se partiria. Sentimos, apenas. Sem motivo, sem razão, sem proporção. Sentimos. Sentir não é crime, não é feio, não é bonito, não é certo, não é errado. Não cabe julgamento do sentir, porque ele não é controlado pela nossa vontade.

O que podemos controlar são as atitudes que tomamos a partir do que sentimos, mas não o que sentimos em si. Aliás, ao nos escondermos do que sentimos, corremos o risco de perder o controle inclusive sobre os nossos atos, porque é quando damos as costas para os nossos sentimentos que eles nos atacam de surpresa e tomam conta da gente. Acabamos agindo sem ter consciência do real porquê do nosso agir. Ou seja, a sua raiva, por si só, não vai matar ninguém. Você, por outro lado, pode acabar matando se não se permitir lidar com ela.

A analogia que eu gosto de fazer é: quando alguém pisa no seu pé você não espera para entender o motivo antes de se permitir sentir dor. Ou raiva. É só depois que você se foca na pessoa que te pisou e tenta entender o lado dela, avalia o contexto, etc. Ou não. Porque tentar entender o que levou essa pessoa a pisar no seu pé não vai fazer o seu pé doer menos. E fingir que não doeu e ter que engolir seu “ai” só vão fazer doer ainda mais.

Sentir primeiro o seu, lidar primeiro com o seu e buscar empatia primeiro pelo seu não é egoísmo. É questão de sobrevivência, de saúde mental. Mesmo porque, antes disso, o que você fizer (inclusive empatizar com outras pessoas) será contaminado pelo que você está evitando em si mesme.

Impor à mulher que seja compreensiva, que “perdoe e esqueça” a violência de ume parceire (pouco importa o gênero) é machista; isso me parece óbvio. A imposição ae filhe de que seja compreensive, de que “perdoe e esqueça” a violência de seus pais, familiares ou de quem se responsabiliza ou se responsabilizou por sua criação é adultista. E tóxica. Vem lá da ideia de que a gente não pode sentir raiva de pai e de mãe, mesmo quando apanha ou é injustiçado. Porque honrar pai e mãe e respeitar os mais velhos e repressão e culpa vêm antes da saúde mental da criança. Daí crescemos aprendendo a tolerar agressões de quem a gente ama, como se fizessem parte do amor o gaslighting* e o desrespeito.

Muites não conseguem resolver traumas por não se permitirem sentir raiva de quem os causou. Por sentirem culpa quando tentam. E o “perdoar e esquecer”, ao reafirmar isso, só agrava a situação e retraumatiza a pessoa.

 

*Fazer gaslighting (lê-se gaslaitim)é manipular a vítima para que duvide de sua percepção a ponto de acreditar que a violência que sofre ou sofreu está só na cabeça dela – ou não aconteceu, ou não foi bem assim, ou não foi nada demais, ou acontece com todo mundo, ou a culpa é dela mesma. Não raro, chega uma hora em que a vítima, confusa, começa a acreditar que está doente, ou fica tão consternada que passa a agir de uma forma que, diante de terceiros, confirma a alegação do agressor de que ela seja o problema. É muito comum em situações de violência doméstica, violência sexual, assédio moral, bullying, etc. O termo vem de uma peça de teatro de 1938, chamada Gas Light, escrita por Patrick Hamilton, que gira em torno de uma mulher que é gaslaiteada por seu marido.