Críticas

Foto: Jo Yong-Hak / Reuters

Recentemente, a entrevista da candidata à presidência pelo PCdoB, Manuela D’Avila, no programa Roda Viva reacendeu a discussão sobre a tendência, numa cultura machista, de que mulheres sejam mais interrompidas e tenham suas falas menos consideradas que homens.

É incrível a diferença de tratamento entre as falas de homens e mulheres na sociedade e ainda mais incrível o quanto ela passa despercebida no dia-a-dia. É a tal “cegueira do privilégio” – a gente tende a achar, por exemplo, que o nível de dificuldade que outras pessoas enfrentam para fazer algo é o mesmo que o nosso. E não é, como o episódio demonstrou. Para uma mulher falar em público, ela precisa estar muito melhor preparada que um homem, precisa estar disposta a lidar com muito mais resistência e uma resistência muito mais agressiva do que aquela que um homem encontraria nas mesmas condições. Ela precisa ter resiliência para processar muito mais críticas e rejeições do que um homem.

E, claro, isso não se aplica só a privilégio de gênero. Se aplica a todas as esferas em que há opressão estrutural. Eu me lembro de uma situação em que uma pessoa que tinha transtorno bipolar pedia à outra que assumisse um compromisso por escrito, enquanto esta outra, revoltada e magoada, não entendia porque sua palavra não bastava. Faltava a esta a compreensão da vulnerabilidade de alguém que sofre de um transtorno mental, no sentido de sua credibilidade ser diminuída pelo preconceito capacitista em torno da doença a ponto de ela própria, sem um papel escrito e assinado em mãos, poder ser levada a duvidar de si mesma.

Então, é provável que, quanto menos privilégios você tiver na nossa sociedade, mais (e piores) críticas você terá enfrentado durante a sua vida. E é provável, além disso, que, porque essa relação entre privilégio e crítica é invisibilizada, tratada como não se existisse, você esteja mais vulnerável a essas críticas, porque nunca vai faltar gente para dizer que se você recebe mais críticas, é porque você “merece” mais críticas. Que o problema é você e não a opressão estrutural que se está fazendo de conta que não existe.

E isso me lembra de um tema sobre o qual eu venho refletindo há algum tempo, especialmente com o apoio dos Círculos da Confiança (grupos de prática de Fórum Brasil, algo de que já falei aqui e aqui): o tal “feedback” (o retorno, a opinião alheia sobre você, o que você faz, a crítica, basicamente, seja ela positiva ou negativa) e as muitas formas que já observei em mim de reagir a ele. Gostaria de exemplificar e explicar algumas aqui.

Vamos fazer de conta, para ilustrar, que eu sou chef de cozinha; que eu considere que tenho um dom para cozinhar, que é o que faço bem, que é a minha missão na vida, que o prazer que eu sinto cozinhando e vendo pessoas se deliciarem com o que eu faço é o que traz sentido à minha vida.

Daí, vem uma pessoa, come algo que eu preparei e diz:

“Nossa, que merda!”

Momento para absorver o choque.

Uma reação que me vem muito é a defensiva: “merda é você!”

Depois de anos e anos de porrada e muitos sapos de diversos tamanhos e variável toxicidade engolidos, a gente às vezes fica calejada e aprende a devolver a patada de imediato sem nem pensar, no reflexo mesmo. Dentro de mim, uma turba enfurecida me diz (e não exatamente sem motivo) que essa pessoa não tem consideração, nem educação, que absurdo, imagina, falar assim desse jeito, que desnecessário, nem deve ser verdade, vai ver ficou com inveja, imagina que ela iria falar assim se eu fosse um homem, etc.

Quando isso acontece, eu me fecho totalmente para a crítica da outra pessoa. Ataco a pessoa de quem ela partiu para me fazer acreditar que ela e a opinião dela não merecem a minha atenção porque, no fundo, eu sinto medo do que pode estar por detrás daquelas palavras.

Medo porque, se eu me permitir dar atenção a essa fala, eu posso, num dia particularmente ruim, ter uma outra reação, a de achar que eu sou uma merda. Que eu não faço nada certo – claro que ficou uma merda, como eu pude ser tão sem-noção de achar que qualquer coisa que eu fizesse pudesse ser boa? Que vergonha, meu deus, que horror, nunca mais vou cozinhar na minha vida, vou me enfiar num buraco e sumir!

Acho que, como cozinhar nessa história é a minha paixão, posso acabar me identificando com o que cozinho a ponto de ter dificuldade de separar o meu trabalho (algo que é mutável) do meu ser (no sentido de algo que eu não tenho como mudar a meu respeito), e acabar entendendo a valoração do meu trabalho como uma valoração de mim como um todo.

Também posso reagir pensando que o que eu faço é uma merda. Parece com o item anterior, mas é um pouco diferente, justamente porque não tem tanto a ver com quem eu sou, mas com a minha ideia da minha competência, do meu talento, da minha habilidade, do meu conhecimento para fazer o que eu faço. É como se houvesse em mim uma represa contendo a minha sensação de inadequação e a minha insegurança fosse um furo na muralha de contenção dessa represa e daí essa crítica fizesse a água jorrar por esse furo e ele se alargar até arrebentar o muro e tudo aquilo vir abaixo…

Já num dia bom, a minha reação pode ser a de lembrar que essa pessoa só pode falar daquilo que ela comeu. Ou seja, não apenas ela não está necessariamente falando de mim, mas também talvez nem esteja falando de toda a minha produção culinária, mas só desse prato que ela provou. É aquele prato que está uma merda. E quem sabe, dessa distância mais segura, em que a frase que foi dita não tem como me destruir como chef ou como ser humano, eu já posso ter a presença de perguntar “por quê?” e ouvir a resposta com uma curiosidade real. Ao invés de me sentir impotente e incapaz, apesar de um tanto mexida, eu adotaria, assim, uma postura de resolução de problemas, mais produtiva.

Talvez eu descubra que tem a ver com os ingredientes que usei naquele dia, ou com o gosto pessoal daquele indivíduo em particular. E talvez realmente a pessoa não tenha gostado do jeito que eu faço. E então posso refletir e fazer uma escolha informada sobre como agir com base nessa informação. Se vou querer atingir um novo segmento de mercado, se há mais coisas que eu posso e quero aprender. Se quero experimentar fazer diferente para atrair mais pessoas, ou pessoas diferentes.

Agora, num dia particularmente fantástico, costuma ser bem mais fácil para mim lembrar que uma opinião (inclusive a minha) é apenas uma opinião – e não uma verdade absoluta. E daí não existe ameaça na percepção da outra pessoa, tem só a informação que está sendo oferecida e o que quer que seja dito que eu não tenha como aproveitar bate no meu escudo de maravilhosidade intrínseca e vira aura de luz.

Nesse estado de graça, eu posso traduzir a mensagem por um simples “Essa pessoa aparentemente não gostou do prato que ela comeu.”

E como antes, posso perguntar o porquê e recolher mais dados que me podem ser úteis e fazer novas escolhas com base neles. Mas uma das escolhas que aparece muito nesse lugar iluminado é a de dizer “sinto muito, é o que eu tenho para o momento” e ficar em paz, na aceitação pura de mim, da outra pessoa, da minha culinária, do mundo e os passarinhos cantam, um arco-íris surge no céu e o sol sorri para nós de lá de cima.

E o que tudo isso tem a ver?

É que, às vezes, quando alguém nos faz uma crítica – e, como dito, críticas são algo tanto mais frequente quanto menor a quantidade de privilégios que se tem – temos a sensação de que estão tacando lama na gente.

Nós não controlamos o que outras pessoas fazem, assim como não controlamos o que elas pensam, nem o que sentimos diante disso – as feridas antigas cutucadas, os traumas reativados. Mas está sob o nosso controle a forma como agimos por isso.

Olhar para a gente, observar a forma como nos sentimos e como tendemos a reagir nessas situações nos ajuda a ter mais consciência dentro delas. E isso amplia nossa capacidade de escolha. Por exemplo, podemos garimpar a lama para ver se tem algo valioso ali no meio, uma informação que de fato nos ajude a viver melhor, fazer melhor o que queremos fazer. E talvez não encontremos nada de nosso proveito ali no meio e possamos desconsiderar o que foi dito com a segurança de que aquilo não nos serve. E podemos também, claro, decidir que vamos passar longe da lama e pronto, se isso é algo que conseguimos fazer em paz.

Se alguém resolver me criticar, seja da forma como for, pelo motivo que for (inclusive por preconceito) eu não tenho como mudar isso. À parte de militância, diálogo e ação possíveis, eu continuo fazendo parte de uma sociedade em que eu, neste momento, sofrerei mais críticas do que, no mínimo, metade da população mundial sofreria no meu lugar.

Mas eu posso trabalhar em mim a maneira como recebo essas críticas, para que, naquilo que for possível naquele momento, ainda que a intenção de quem as emite seja tóxica e destrutiva, elas não necessariamente me atinjam dessa forma.

Posso, ainda, além disso, quando eu própria for fazer uma crítica, observar o que me move a fazê-la e me indagar se eu a faria ainda que a pessoa criticada fosse outra pessoa, com privilégios que esta não possui.

Mais que isso, posso ter o cuidado de entregar o “ouro” que eu acredito que estou oferecendo com o mínimo de lama possível para facilitar o garimpo da outra pessoa, caso esta opte por fazê-lo (e caso eu realmente tenha a intenção de oferecer a ela algo que considero que lhe possa ser significativo e valioso).

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Freixo, Priscila e Isadora

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 29 de julho de 2017.

freixo

 Foto: Luiza Marangoni (de http://www.srzd.com/brasil/priscila-soares-e-marcelo-freixo-o-machismo-oculto-e-o-explicito/)

Nesta semana, Priscila Soares (vulgo “ex-mulher de Freixo”, segundo a maior parte da mídia) denunciou, por meio das redes sociais, o machismo que sofreu durante sua relação com um dos políticos atualmente mais proeminentes da esquerda dita mais à esquerda: Marcelo Freixo, PSOL.

Como exposto por Maria Elisa Maximo, do Catarinas, “Denunciar o machismo e a misoginia que se expressam a partir de espaços conservadores e conhecidamente reacionários é o óbvio e ululante. É como chover no molhado. Agora, falar do machismo que se expressa a partir dos espaços que, em tese, têm compromisso de transformar essa realidade, é sério, complexo e é uma necessidade que precisa ser encarada, principalmente pelos homens, com responsabilidade e serenidade. Não dá mais pra aceitar que nossos camaradas da esquerda recebam nossas denúncias como acinte, como autoritarismo, como levianismo.”

É sempre infeliz quando a postura majoritária da esquerda nos coloca em posição de encontrar lucidez nos prepostos mais delirantes da direita. Pois eu li e, mesmo tampando o nariz, me vi obrigada a concordar com Rodrigo Constantino, que propôs uma reflexão sobre como essa denúncia teria sido recebida se seu alvo fosse, por exemplo, o homem que adoramos odiar: Jair Bolsonaro.

Nós esperamos machismo das figurinhas da direita. Mas o que fazemos quando nos deparamos com o machismo da esquerda? O que fazemos quando pessoas a quem admiramos se mostram menos que perfeitas?

Problematizamos? Desconstruímos?

Ou chamamos de “linchamento”, justificamos, racionalizamos e varremos para debaixo do tapete para manter a incolumidade de nossos ídolos?

É muito complicado ver que as pessoas que fazem apontamentos e levantam questionamentos que são tão importantes são tão frequentemente tratadas como se fossem elas próprias o problema. Como se estivessem “fazendo o jogo da direita” ou “dividindo/enfraquecendo o movimento”.

Isadora Freixo, filha de 19 anos do político, compreensivelmente veio a público defender a imagem do pai. Expondo memórias dolorosas de seu relacionamento com Priscila, minou sua credibilidade (se é que isso ainda precisava ser feito, já que a moça já mal estava sendo ouvida), fazendo uso da alegoria da “mulher rejeitada” e fez alusão ao histórico de depressão desta. Ou seja, sem perceber, corroborou as alegações feitas por Priscila em relação ao gaslighting que esta vinha sofrendo.

Contudo, é uma situação complicada. O que Isadora descreve de sua relação com Priscila, assim como os detalhes fornecidos por esta de sua relação com Freixo, não é mera “lavação de roupa suja em público”. São as evidências que corroboram o apontamento (ou acusação, como se costuma chamar) das opressões sofridas no âmbito dessas relações. No caso de Priscila, o machismo, nomeado claramente. No caso de Isadora, o adultismo, que, para esta, como para a maioria das pessoas, infelizmente segue inominado.

Priscila nunca foi filha de Freixo. Isadora nunca foi companheira dele. Mais que isso, Priscila nunca foi Isadora e Isadora nunca foi Priscila. Óbvio, né? Pois é. Mas a decorrência dessa obviedade é menos óbvia. Ambas tiveram com ele tipos de convivência distintos, não só pelo tipo de relação, mas porque são pessoas diversas e, logo, as relações que formam, ainda que com o mesmo cara, serão diversas. Resumindo: a perspectiva de uma não invalida a da outra.

Isadora, assim como Priscila, tem o direito de expor seu ponto de vista. O problema, a meu ver, está em contrapor esses pontos de vista como se apenas um deles pudesse prevalecer. Como se só houvesse espaço para o reconhecimento de uma dor. Uma forma de opressão.

Fazer isso é, na minha opinião, usar o sofrimento de uma pessoa para apagar o da outra, quando, infelizmente, o que não falta é espaço para todo mundo sofrer, ao mesmo tempo, ainda que por motivos diferentes.

E foi por isso que me incomodou tanto o artigo publicado por esta Revista Fórum a respeito dessa questão. Porque, ao lê-lo, eu tive exatamente essa sensação, a de que rolou um: se precisamos falar de flores, então vamos falar de flores, mas vamos antes tecer toda uma crítica às flores, para que, quando estas finalmente aparecerem, elas já sejam vistas com outros olhos.

E isso me parece silenciamento – e não só silenciamento, mas, o que é pior, um silenciamento que finge não ser silenciamento. Afinal, não é que não houve oportunidade de falar, né? É só que a gente vai fazer o possível para que ninguém escute.

E tem mais. Sempre me deixa um gosto amargo na boca quando, diante de uma situação em que se discute o comportamento de um homem, a discussão se desloca para as mulheres que o “defendem” ou o “atacam”, tirando de foco, tcharam… o homem em si. E isso é, para mim, muito machista. Porque agora se atacam as honras e as credibilidades das mulheres, uma é uma louca ciumenta, a outra é uma fedelha ciumenta e por aí vamos.

A crítica ao machismo de Freixo (ou mesmo a outras incoerências deste) não precisa apagar suas virtudes, nem aquilo que ele construiu ou constrói de bom para quem gosta dele. Pelo contrário, é algo que pode ser muito produtivo e benéfico se conseguirmos ter a maturidade de ouvir com orelhas de quem quer aprender e evoluir.

É difícil não cair no maniqueísmo de “ah, ele é machista, logo, não presta”, ou “ah, ela é adultista, logo, não presta”. As pessoas não se resumem a um só aspecto, um só comportamento. Não é porque alguém falou ou fez algo problemático que agora se tem um compromisso de odiar essa pessoa. Fãs do Freixo podem continuar fãs do Freixo sem passar paninho para ele. Quem se solidariza com Priscila pode continuar a se solidarizar sem passar paninho para ela.

Pessoas pisam na bola. Erram. Mas podem aprender com seus erros.

É só que fica difícil a gente aprender com erro quando, ao invés de assumir esse erro, a gente finge que não foi erro, ou que até que faz sentido, no contexto, ou que nem foi tão ruim assim, ou que, na verdade, veja bem… e assim vamos na desresponsabilização. E ninguém consegue ser a tal da mudança que quer ver no mundo.

O terrorismo machista

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 3 de janeiro de 2017.

*****AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: violência doméstica, violência contra criança, chacina de Campinas, terrorismo machista.*****

Terrorism

Aconteceu na virada do ano, em Campinas. O cara, inconformado com o regime restrito de suas visitas ao filho, matou doze pessoas, dentre elas a própria criança.

O menino foi o último a ser morto, antes de o próprio atirador cometer suicídio; é de arrepiar os cabelos imaginar uma criança de oito anos assistindo ao seu pai atirar em quinze pessoas, matando imediatamente onze, dentre as quais sua mãe.

Na carta que o cara escreveu “para o filho” (uso as aspas porque ele próprio sabia que a criança jamais a leria, ou seja, a carta foi para nós mesmo), ele fala como se fazer isso fosse em benefício deste. Eu acho chocante esse nível de falta de empatia com a criança. De adultismo. Me lembrou aquele papo de “ah, ele é um bom pai, mas um péssimo marido“.

Isso sem nem entrar no “detalhe” de que ele matou o menino também.

Não é possível falar a respeito sem pensar no ditado “jogar o bebê fora com a água do banho”. Mas daí a gente rapidamente se dá conta de que o “bebê”, isto é, aquilo de que esse cara estava tentando cuidar ali, não era o filho dele. Se fosse, o desfecho teria sido outro.

Eu vi um pessoal classificando o ocorrido como “terrorismo da ultradireita”. Porque a carta falava mal da Dilma. Porque a carta descia o pau nas feministas e nas “vadias”. Porque a carta falava como se ser preso fosse ir para uma colônia de férias sustentada pelo dinheiro público. Dentre outros pontos que costumamos ver nos discursos da direita.

Mas eu discordo dessa análise.

Eu imagino os mesmos atos e uma carta que falasse de “matar a vadia burguesa”. De “sistema machista que acha que apenas a mulher tem condições de cuidar de criança”. De “não vou preso porque não quero meu corpo sob a jurisdição do Estado”.

Desde que existem ideologias, existem as pessoas que se utilizam delas para justificar atos pessoais seus. E não estou apenas falando das pessoas que deturpam ideais, como ocorreu na ditadura soviética, ou na inquisição medieval. Estou falando do cara que, em meio à ditadura militar brasileira, denuncia alguém como terrorista, não porque ela seja comunista, por “dever cívico”, mas porque ela ocupa um cargo numa instituição que ele próprio quer ocupar, ou teve um caso com a esposa dele.

Estou falando inclusive da pessoa que faz isso enquanto se ilude e delira que está fazendo isso imparcialmente, por dever cívico sim, que o resto é só coincidência.

O que aconteceu no reveillon em Campinas foi um ato de terrorismo machista. Assim como a chacina do Realengo. Assim como a chacina de Santa Barbara, nos EUA. Terrorismo machista. E adultista, neste caso, quero evidenciar, para que não se perca a reificação, a objetificação, a desumanização da criança que atos desse tipo demonstram.

Terrorismo. No sentido de ato praticado com o intuito de aterrorizar, de forma a compelir pessoas a agirem ou deixarem de agir de determinadas formas. No caso, mulheres a deixarem de se proteger de homens abusivos, deixarem de proteger suas crianças de homens abusivos, deixarem de buscar afastarem-se de homens abusivos. E aceitarem que o abuso masculino e paterno faz parte da vida, e que temos que suportá-lo, senão…

Mesmo quando não ocorrem mortes, mesmo quando não há notícias nos jornais, toda vez que uma mulher é exemplarmente punida por proteger ou defender a si mesma ou outrem de violência machista e adultista, isso é feito para mandar um recado a todas as outras mulheres: “é isso o que acontece com as vadias”.

(E nós sabemos quem são as vadias, né? Todas nós somos, já fomos ou seremos vadias para algum, alguns ou muitos homens em algum momento das nossas vidas. Porque o critério que separa a vadia da “mulher de bem” na cabeça de um homem assim é “fazer o que eu quero que ela faça”.)

E por que é tão importante para mim diferenciar o terrorismo machista do terrorismo da ultradireita, já que esta é tão ostensivamente machista?

Porque a misoginia, o adultismo e o machismo – e inclusive o terrorismo machista – não é exclusividade da direita.

É terrorismo o ostracismo da moça que ousou denunciar o esquerdomacho desconstruidão como abusivo em seu grupo social. É terrorismo o assédio moral à funcionária que ousou não engolir as piadinhas machistas do chefe. É terrorismo a perseguição à mulher que ousa falar de feminismo em seu blog. É terrorismo a recusa de orientação na pós-graduação à acadêmica que ousou não deixar quieto o assédio sexual que sofreu do professor. É terrorismo a recusa de trabalhar com a modelo que denunciou o estupro pelo fotógrafo badalado.

E tudo isso rola independentemente de sigla de partido, se há partido ou não, se a ideologia é de cá, de lá, de cima, de baixo. Porque o que a direita e a esquerda têm em comum é sua dificuldade de reconhecer e desconstruir as opressões identitárias que as habitam, dentre elas o machismo.

Por exemplo, entre quem culpou a mãe do menino pela chacina esteve não apenas a ultra direita que acha que mulheres são, por princípio, vadias que merecem ser tratadas com violência. Apareceu também gente de “esquerda” que acha que ela foi irresponsável porque “ela teve a chance de pedir uma medida restritiva e não o fez”. Porque ela fez diversos boletins de ocorrência, mas não quis dar continuidade processual a eles. Porque “faltou empoderamento” para ela. Porque não adianta o Estado prover os meios para que a mulher se proteja, a mulher tem que querer se proteger. E blablablás afins.

(Como se medida restritiva fosse encantamento que te protege magicamente, ao invés de um pedaço de papel que diz que você pode pedir socorro se essa pessoa se aproximar de você. Você pode. Se você vai conseguir, se o socorro vai aparecer, etc., são outros quinhentos. E como se, também, processar o cara criminalmente fosse de alguma forma proteger a essa mulher – e sua família. Ele dificilmente seria preso, já que injúria, ameaça e mesmo agressão sem lesão corporal são crimes que dificilmente são puníveis com prisão hoje em dia; continuaria solto, só que ainda mais revoltado – coisa que ela tinha razão de temer – e ela estaria processando criminalmente o pai do filho dela, algo que seria desgastante não só para ela, mas para o filho dela também.)

Voltando ao assunto. Me irrita demais ver gente dita de esquerda que chama de pós-modernismo, de “desvio do foco real” falar sobre feminismo, sobre antiadultismo e a luta contra outras opressões identitárias, subitamente garrar nessa paixão toda de defender mulheres e crianças dos “monstros que a direita cria”, sem a menor disposição de olhar para si próprie e ver o que tem de semelhante com esse monstro.

Sim, porque esse papo de monstro existe, principalmente, para duas finalidades. A primeira é para desumanizar o “monstro” e tornar possível que ele seja tratado de forma desumana. A segunda é distanciar o “monstro” da gente. E a gente se sentir a salvo de praticar monstruosidades, porque, né, não somos monstros, então não temos nem que pensar sobre isso. Só que não.

Tanto há monstros na esquerda que eles são capazes de usar uma tragédia como essa como alavanca política. E isso não é só hipocrisia e oportunismo. É token, machismo e adultismo também.

A amamentação imperfeita

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 5 de agosto de 2015.

Eu. Amamentando. Tirei dois dias atrás.

Já que estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno, me deu vontade de contar um pouco da minha história com a amamentação.

Eu amamento há mais de quatro anos. Já amamentei de noite, de dia, em público, privado, grávida, uma criança só, duas crianças ao mesmo tempo, criança dormindo, criança fazendo mama-sutra.

Ao amamentar, já recebi de muxoxos e olhares tortos a palavras de apoio e inclusive palmas. Isso ilustra bem a amplitude de sentimentos que o tema amamentação provoca por aí.

Para mulheres que, como eu, têm o privilégio de poder ficar à disposição das crianças – e a vontade de fazê-lo, claro – a maior praticidade do peito é indiscutível. Não tem que limpar, esterilizar, medir, misturar, aquecer. Já vem pronto, só sacar e dar, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Claro que para quem trabalha fora são outros tantos quinhentos. E toda a minha solidariedade a essas mães, aliás. Porque, numa sociedade que, coletivamente, se exime de qualquer responsabilidade por facilitar a vida das mães e suas crianças, há que se ter dedicação infinita para trabalhar fora e continuar amamentando (e ordenhando e coletando e acondicionando e relactando e dando em copinho e/ou colherinha e/ou mamadeira e etc. e ainda, por vezes, escutando abobrinhas das mais variadas). Um abraço apertado aí, galera. Não deveria ser assim.

Para quem consegue, claro que vale a pena. O leite materno, como sabemos, é um alimento completo sob medida para as necessidades da criança. Nutre, imuniza, hidrata, além de ajudar no desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos da face. Para a saúde da mãe amamentar também faz diferença, e muita. Diminui a incidência de câncer de mama e de ovários, ajuda a controlar diabetes e prevenir síndrome metabólica, osteoporose, etc. Além disso, o ato de amamentar permite um contato e um aconchego profundos, com inúmeros desdobramentos fisiológicos e emocionais – embora eu duvide que esse contato e esse aconchego sejam exclusivos do ato de amamentar.

No entanto, amamentar não é sempre fácil, e é sobre isso que eu quero falar.

Mesmo nos casos em que, como foi comigo, é majoritariamente fácil, tem horas em que amamentar é muito, muito difícil. Eu tive leite, não tive mastites, não tive feridas, não tinha mamilos invertidos, as pegas dos bebês sempre foram boas, eu tive o privilégio de poder estudar muito a teoria antes de lidar com a prática e, quando chegou a hora da prática, tive ao meu redor pessoas fantásticas que puderam me orientar. E, como eu disse, eu não trabalho fora. Ainda assim, houve momentos em que foi… como dizer? Foda. Bem foda.

Por que estou falando isso? Sou contra? Quero desencorajar? Claro que não. Amamento até hoje; estou, aliás, amamentando meu filho mais novo, de um ano e quase dez meses, neste exato momento, enquanto redijo este texto. Estou falando isso porque sinto que existe um precipício entre a amamentação idealizada e a amamentação real. E eu caí nele. E já vi muitas outras caírem também. Daí acho que não custa nada colocar uma plaquinha de “perigo” ali na beirada, né? É o que eu estou tentando fazer.

Existe uma vivaz torcida contra a nossa amamentação o tempo todo. É machismo, é adultismo, é capitalismo. Porque nossos peitos têm que estar à disposição dos homens e não devemos fazer nada que possa afetar-lhes a estética; porque nossos corpos são falhos e não devemos confiar neles; porque amamentação tem que ter prazo e horário e cronometragem, senão a criança, esse ser do mal, domina e escraviza a mãe; porque a mulher tem que voltar a trabalhar (e arcar com todas as complicações na amamentação que decorrem disso, como dito acima). Isso tudo sem falar na pressão da inescrupulosa indústria que não hesita em passar por cima da saúde das crianças para ganhar um trocado.

Mas o que acontece quando uma mulher vence tudo isso, está consciente dos benefícios da amamentação e quer muito amamentar… só que, naquele momento, está foda?

Com quem ela conversa, a quem ela pode procurar? Onde ela encontrará acolhimento?

No colo do médico que já está com a prescrição de complemento pronta na gaveta? Do marido machista que está desde o começo falando que agora ela virou “escrava da criança”, que os peitos dela são dele? Da avó/tia/amiga/vizinha que está sempre dizendo que leite de peito é só água, que, “se continuar assim, seu peito cai e ele arruma outra”?

E dá para chorar no colo das mães perfeitas que parecem sempre ter passado por coisas ainda mais complicadas e situações ainda mais difíceis, mas que persistiram estoicamente e “venceram”? Como falar que está difícil quando todo mundo parece estar tirando de letra? Quando a sensação que se tem é a de que há algo de errado em si mesma? Como se abrir para o julgamento do povo do “basta querer”, da meritocracia do leite, num momento de tanta fragilidade?

É muito solitário não dar conta. É estar perdida numa terra de ninguém no meio da guerra entre o país do “larga logo essa cruz” e o do “aguenta firme aí”.

Quantas depressões, inclusive pós-parto, são geradas ou disparadas por problemas na amamentação e os sentimentos de culpa e inadequação relacionados a isso? Quanto disso não poderia ser evitado se falar das dificuldades na amamentação não fosse tabu?

Minha filha mais velha tinha por volta de um ano e meio quando eu comecei a ter o que hoje eu sei que era perturbação (ou agitação) da amamentação. Eu estava grávida do meu filho mais novo, o que talvez tenha sido um fator que contribuiu para o surgimento disso.

A agitação da amentação é uma espécie de incômodo que começa a surgir durante a amamentação, uma irritação que vai crescendo e tomando conta da gente, aos poucos se tornando avassaladora, a ponto de ficar difícil de pensar, a ponto de ranger os dentes, esmurrar a parede e fantasiar violências enquanto se amamenta.

Para mim, ela se manifestava particularmente através de uma sensação muito próxima da de estímulo sexual indesejado. Era como se eu estivesse sofrendo um abuso, com alguém mexendo em mim contra a minha vontade. Não era uma sensação agradável, não era uma questão de repressão, ou algo assim. Era uma raiva profunda, que borbulhava de dentro de mim, incontrolável, irracional. E eu sentia como se estivesse, ao mesmo tempo, abusando da minha filha, já que ela causava esse estímulo involuntariamente. Eu sentia muita vergonha e muita culpa, além de muita raiva de mim mesma. Vivia à beira das lágrimas.

O que antes era uma dádiva rapidamente se transformou num suplício. Sofri sem saber o que havia de errado comigo por muito tempo, sem coragem de compartilhar essas sensações todas com outras pessoas além do meu marido e pessoas muito próximas, que também não sabiam me dizer o que estava acontecendo.

Supondo que o problema fosse psicológico, eu me analisei e reanalisei, verbalizei, escrevi. Supondo que o problema fosse fisiológico, eu mudei a alimentação, descansei. Aqui e ali a coisa melhorava, mas não passava. E a minha angústia só aumentava.

Foi o tempo e a coincidência que me trouxeram este texto, do blog MamaEDoula. E a ficha caiu. Eu cresci com gatos soltos, gatos de rua, acompanhei incontáveis ninhadas desde o nascimento e já tinha visto gatas passarem por isso com seus filhotes.

Engraçado que era o que me passava pela cabeça, muitas vezes, enquanto eu me sentia mal amamentando – a cena de uma gata tocando de perto dela os filhotes subitamente, no meio da mamada. Mas, antes do texto, eu nunca tinha me permitido entender que era a mesma coisa.

Como eu nunca havia ouvido falar de algo tão natural – e comum! – num meio (o ativismo de parto, amamentação e maternidade) em que tanto falamos sobre a nossa natureza?

Não creio que amamentar tenha que ser sempre prazeroso. A gente não amamenta só por prazer, assim como a criança não mama só por prazer. Existe uma necessidade da criança envolvida e um interesse em que essa necessidade seja suprida dessa forma, já que, apesar de haver outros meios, sabemos ser esse o fisiologicamente melhor.

Mas existe uma diferença entre aceitar que algo não será sempre prazeroso e se submeter a algo que está sendo constantemente excruciante.

Eu sempre tive muito claramente para mim que as crianças são hipossuficientes na relação com ses pais e mães; que elas não são adultas e suas particularidades devem ser levadas em consideração sempre. Que suas necessidades e vontades devem ser lembradas com mais relevo e ênfase para evitar os abusos que nós, pessoas adultas, somos tendentes a praticar com elas por conta da naturalização do adultismo na nossa sociedade.

Mas eu estava tão concentrada em não pisotear adultistamente as necessidades, vontades e particularidades da minha filha, que não me dei conta de que havia começado a esmagar as minhas próprias. E, ainda por cima, no meu desespero para fazer “o melhor para a minha filha” eu estava me tornando uma mãe pior para ela. Uma mãe irritada, cansada, ressentida, neurótica. Infeliz.

Eu me mordia, me batia, puxava meus cabelos, socava coisas duras. Eu não agredia minha filha, mas me violentava o tempo todo. Que bem poderia fazer a ela assistir a tudo isso? Os anticorpos e sais minerais no leite a fariam compreender que o que eu rejeitava era a amamamentação e não ela própria?

Ao contrário do que muitas pessoas parecem pensar e até defender, não temos como contrapor o melhor para a criança e o melhor para a mãe, como se fossem coisas separadas e opostas, ao invés de complementares e necessariamente interligadas. Eu estava tão focada em não falhar na amamentação que não me dei conta de que a amamentação estava falhando comigo. E, por tabela, com a minha filha. Porque nós não somos só os nossos corpos, a nossa biologia.

Daí, no grupo de feminismo de que participo, enquanto eu acolhia outras mulheres mães com sentimentos similares, amigas queridas minhas me mostraram, com muito jeito e carinho, que eu não estava praticando comigo o que eu própria pregava. Que eu não estava me acolhendo, nem me considerando como parte da equação. Registro aqui meus agradecimentos, aliás, a Lívia Marques e Bruna Betoli! ❤

Foi muito doloroso para mim aceitar aquele meu momento de distância do que eu havia sonhado e idealizado. Buscar dentro de mim empatia comigo mesma e perceber que não estava me respeitando, não estava me ouvindo.

Reconhecer meus limites foi um processo dilacerante, mas renovador, como crescer tantas vezes é. Saí dele mais livre, mais humana, mais aberta às vivências de outras pessoas, especialmente mulheres, e menos propensa a julgar e idealizar.

E decidi desmamar minha filha. Um longo e gradual processo que eu, na verdade, instintivamente já havia começado. Fiz o que pude para que fosse o menos abrupto possível; no todo, demoramos coisa de um ano e meio para concluir o processo de desmame, aos três anos dela.

Não me arrependo. Sinto, contudo, que, se desde o começo eu tivesse tido consciência de que amamentar não é tudo ou nada, eu teria me respeitado mais e não estaria já tão desgastada quando enfim comecei o desmame. Isso teria permitido uma transição ainda mais suave para a pequena, além de nos economizar muito – muito! – sofrimento e confusão desnecessários.

Eu sei que a minha filha sofreu mais que eu com tudo isso e ainda sinto por não ter conseguido encontrar uma alternativa viável para nós naquele momento. Espero que ela não tenha, em algum nível, ou de alguma forma, a sensação de que ela era o problema, de que a culpa era dela. Imagino que um dia vamos poder conversar sobre isso e talvez ela entenda. Ou talvez ela só vá mesmo entender se um dia passar por algo assim.

Eu não sei. E aceito isso.

Amamentar nem sempre é fácil. E isso precisa ser dito. E repetido. E esperado. Porque se ficar difícil, faz bem a gente saber que o problema não é com a gente. E encontrar acolhimento, especialmente dentro de nós mesmes.

Guerreira coisa nenhuma!

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 23 de junho de 2015

sobrecarga

Guerreira?

Não.

Você não vai aliviar a sua consciência pesada dando um tapinha nas minhas costas e me chamando de guerreira.

Você não vai me comprar com esse elogio vazio, esse biscoitinho com que se premiam mulheres por se submeterem à exploração dos homens, como se fosse um calvário que nos enobrecesse o espírito e nos tornasse mais e melhores mulheres, como se fosse algo de que devêssemos nos orgulhar.

Não é. É algo de que toda a sociedade deveria se envergonhar.

Por que tratar a sobrecarga de outrem como inevitável se ela só ocorre porque ninguém (incluindo, talvez, você) toma uma atitude a respeito dela? Por que é que, diante dessa sobrecarga, a resposta é dar os parabéns a quem carrega o piano resignadamente ao invés de arregaçar as mangas e entrar na roda?

Esse gracejo passa longe de ser um reconhecimento do esforço alheio. É, na verdade, um gaslighting e uma manipulação para manter a mulherada correndo atrás do próprio rabo sem nunca parar para perguntar “e você? Não vai fazer nada?”

Não é ridiculamente previsível que o único ponto em que se concede que o cérebro feminino seja superior ao masculino seja precisamente na característica que serve de desculpa para que nós, mulheres, sejamos pressionadas a fazer mil coisas ao mesmo tempo? Será mesmo que a mulher é uma deusa multifuncional, ou será que o homem é que é um folgado mal-acostumado?

Claro, há quem diga que as mulheres são responsáveis por isso, que são as mulheres que acostumam mal aos homens. Como se alguém um dia acordasse dizendo “ah, eu quero tanto viver trabalhando mais e ganhando menos e sendo menos reconhecida e ainda me sentindo culpada e fracassada quando não consigo dar conta de fazer o impossível!”

E daí que haja mulheres que acham que essa é a ordem natural das coisas? Isso torna moral a atitude dos homens que se aproveitam delas?

Não à toa, entre girarmos em falso tentando bater essas metas inatingíveis e nos sentirmos inferiores e defeituosas quando não conseguimos, não encontramos tempo para questionar a falta de sentido dessa desigualdade e sofremos caladas, temendo expor o que nos parece ser uma inadequação nossa. Não nos sentimos legitimadas sequer a pedir ajuda, que dirá exigir a mínima cooperação de outrem.

Criadas e educadas para competirmos entre nós, não buscamos apoio umas das outras e nos isolamos com nosso desespero. Guerreiras sofrendo estoicamente em silêncio.

Por isso, não me chame de guerreira. Ninguém deveria ter que ser guerreira. Glorificar o sofrimento das mulheres que estão ralando é exortá-las a continuar com esse sacrifício injusto e desnecessário, ao invés de juntar-se a elas na luta pelo fim dele. Se você se importa o bastante para “elogiar”, deveria se importar o bastante para se envolver e participar.

Se não há nada que você possa fazer, então acolha. Reconheça a sobrecarga, legitime o cansaço, valide a frustração. E não apenas “recompense” a mulher por estar lá, se martirizando para que outras pessoas não precisem nem se mexer.

Aliás, caso você seja homem, restringir-se a esse agradinho verbal só reafirmará a ideia de que é isso que as mulheres devem sempre buscar: a aprovação masculina. E, ainda, uma aprovação que vem na forma de um “elogio” essencialmente machista, afinal, guerrear é um papel que estereotipicamente se atribui aos homens. Isso sugere que a mulher assim elogiada é guerreira porque “equiparou-se” a um homem – ela é “forte“. Ironicamente, a gente recebe esse elogio por acumular muitas funções que dificilmente seriam vistas como “coisa de homem” pela sociedade machista.

Dói reconhecer limites, mas dói ainda mais desrespeitá-los. Eu não sou guerreira. Sou uma mulher. Sou um ser humano.

(Que?) Mães no parquinho

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 16 de junho de 2015

– É, fiquei triste demais. Não conseguia nem comer. – ela me disse, e seus olhos se encheram com as lágrimas de uma dor que já se arrasta há muitos anos. – É por isso que nunca mais peguei trabalho com bebê, só criança grande. Porque a gente se apega demais e sofre muito quando tem que se separar.

Ela pausou para suspirar, olhando com carinho profissional o menino “grande” de quem ela agora cuidava – cerca de cinco anos. Será mesmo que seria mais fácil com esse, se acontecesse?

Tive uma vontade enorme de chorar, mas me segurei. Tive vergonha de usurpar com o meu choro de espectadora aquela dor que eu desconhecia por dentro.

Eu, pessoa lida como branca, brincando no parquinho com minhas crianças lidas como brancas no meio de um dia de semana, porque tenho o privilégio de não ter que trabalhar. Eu, que não suporto a ideia de estar longe delas por mais que algumas horas, que se tivesse que deixá-las em casa para trabalhar, teria depressão. Que se tivesse que deixar para sempre uma criança de quem cuidei com amor desde seus primeiros meses de vida, teria depressão.

Depressão. Essa coisa que só se admite em gente branca. Ela não teve o luxo de ter depressão, teve tristeza e falta de apetite e bora trabalhar que a vida não se ganha sozinha. Então estava ali, um uniforme branco revestindo sua pele negra, olhando o filho de outra pessoa para poder ter casa e comida para a família dela.

Quem estaria olhando es filhes dela? Em que parquinho ensolarado e cheio de árvores e brinquedos estariam, rindo felizes enquanto observades com atenção e afeto? Em que colo aconchegariam suas dores, de que voz ouviriam cantigas de roda? De que deliciosos quitutes especialmente preparados com ingredientes saudáveis desfrutariam?

Como eu já disse, o retorno das pessoas com filhes ao trabalho deveria ser uma escolha e não uma imposição, uma necessidade; é um absurdo que poder optar ainda hoje seja um privilégio. Como, por conta do machismo e do adultismo, a criança é vista como estorvo e problema da mãe, não há apelo para que os pais assumam a paternidade de fato, nem apoio para que mulheres mães sigam trabalhando e estudando e participando da sociedade.

Não há apoio para as brancas ricas conciliarem trabalho com maternidade sem explorarem mulheres mais pobres e há ainda menos apoio para que as mulheres pobres não se vejam forçadas a se submeter à exploração para alimentarem suas famílias, já que a falta de empatia atinge mais acentuadamente as pessoas vistas pela nossa sociedade racista e elitista como menos humanas, como não iguais. Ainda há quem trate políticas públicas como “estímulo à procriação“, por exemplo – gente rica tem filhes, gente pobre procria.

Outra babá que estava ali mais tarde me contou que estava de aviso prévio na casa da menina loura de olhos azuis que criara com tanto carinho desde os vinte dias de vida. Contou que tinha cuidado da menina mesmo em muitos finais de semana, em viagens, que muitas vezes tinha ficado até as dez da noite ao longo dos sete anos que “passou com essa família”. Que, mesmo de férias, tirava do bolso para ir ver a menina, porque sabia que a criança não ficava bem sem ela por muito tempo.

Discreta, me disse que estava saindo porque queria tentar outras coisas, mas depois a ouvi quando deixou escapar à amiga ao lado que parecia que, para as pessoas suas patroas, tudo estava difícil se era para dar aumento para ela, mas estava fácil se era para gastar com outras coisas.

Menina e babá estavam amuadas. A criança não queria brincar já há dias, ela contou, com um misto de culpa e resignação. Contou também que a mãe da criança, ao receber o pedido de demissão, havia dito “mas a menina vai sentir tanto!” Que ódio me deu ouvir isso. A menina vai sentir tanto, que malvada a babá fazê-la se sentir assim, né? Deveria ficar lá, recebendo um salário injusto, para não fazer mal para a menina.

Como alguém é capaz de usar uma criança para extorquir a outrem, principalmente alguém com quem já se tem uma relação desigual de poder? Usar o amor de uma pessoa contra ela própria é a chantagem mais sórdida que eu posso imaginar.

Mas ela não disse isso com raiva, disse como se a patroa estivesse reconhecendo a importância dela na vida da menina. Vai ver estava e eu é que via maldade onde não havia. Quem sabe.

Outra babá me contou que o segredo para não perder o emprego é saber trabalhar com o ciúme do pai e da mãe. Claro que ela não colocou dessa forma; disse apenas que, quando o pai e a mãe do menino de dois anos que ela olhava chegavam em casa, ela o estimulava a ir brincar e conversar com eles porque, “se a mãe chega e a criança fica agarrada na babá, ela não gosta, né?”

Crianças precisam de amor. Como cuidar de uma criança sem amá-la? Como amar uma criança sem se entregar a esse amor? E como se entregar a amar uma criança sabendo que se pode perder todo contato com ela num estalar de dedos? Como se entregar a ser amada por uma criança sabendo que também ela poderá ter que enfrentar o dilaceramento emocional de um afastamento forçado? Existe profissionalismo possível ou mesmo desejável numa relação que envolve um laço afetivo tão profundo?

Mulheres negras são forçadas a cuidar de crianças brancas desde que primeiro chegaram ao Brasil, depois de caçadas, aprisionadas e escravizadas; são ainda hoje forçadas a cuidar das crianças brancas em detrimento de suas próprias crianças negras. Mais tarde, essas crianças brancas de quem elas cuidaram serão as pessoas adultas brancas que, tendo aprendido desde cedo que essa é a ordem natural das coisas, terão mais crianças brancas que também serão cuidadas pelas filhas negras dessas mulheres negras.

O racismo mais difícil de ser purgado é esse racismo sem querer. Esse que vem da naturalização das coisas, da monstruosidade cotidiana resultante da insensibilidade das pessoas que detêm tantos privilégios que sequer se dão conta de que é isso que eles são.

Creio que não temos como romper com o ciclo de opressões se não nos dispusermos a reconhecê-las e desconstruí-las antes dentro de nós. Não temos como revolucionar o mundo se fugirmos às problematizações que nos deixam desconfortáveis.

Não basta abrirmos o peito. Precisamos abrir também a mente.

“MAS ele é ótimo com as crianças”

ótimo com as crianças

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 16/03/2015.

Passo mal quando ouço isso.

Ele agride a mulher que é mãe des filhes dele. É ausente, não coopera, falta com seus compromissos. A violência dele, que assume inúmeras formas, talvez chegue até a ser física. A misoginia que ele exibe orgulhosamente não tem limites. MAS… ele é ótimo com as crianças, as pessoas dizem.

Como? Fico me perguntando.

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele é um merda com a mãe delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele torna infeliz a pessoa que é a cuidadora principal delas?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando ele dá a elas o exemplo da violência dentro de suas próprias casas? Ensina a elas que dor faz parte de amor? Que brutalidade é paixão?

Como ele pode ser ótimo com as crianças quando repassa a elas o machismo de que homem não faz serviço doméstico, homem não cuida de criança, homem só usufrui?

Como ele pode ser ótimo com as crianças se ele só se relaciona com elas nos termos dele, quando ele quer e só para curtir e não para cuidar? Como ele pode ser ótimo com as crianças se, na hora que aperta, espera da mulher que ela sacrifique a carreira profissional e acadêmica dela, porque acha que isso é não é exigível dele?

Ele é “ótimo com as crianças” porque está relaxado, bem dormido e bem disposto. Trampinho que começa e acaba (e não 24h, afinal, isso é coisa de mulher, esse ser tão frágil e protegido pela sociedade), cervejinha com os amigos, chega e encontra comida na mesa, toma banho sem pressa, dorme a noite toda bem tranquilo, não lava um copo. Sem nem falar na exigência social ridiculamente menor em torno de ele “se cuidar” (leia-se, estar bonitinho de se olhar) enquanto ela assovia e chupa cana.

É fácil pagar de bonzão quando tem outra pessoa carregando o piano para você.

Não, mulher. Ele não é ótimo com as crianças. Porque, para ser ótimo com as crianças, ele teria que ser pelo menos razoável com você. Para ser ótimo com as crianças ele teria que se importar com elas a ponto de se importar com quem cuida delas. Para ser ótimo com as crianças ele teria que estar presente na vida delas além do momento que é conveniente para ele.

Ele não é ótimo com as crianças. Ele é ótimo com ele mesmo. E só.

Não caia nessa. Não cometa consigo mesma a violência de achar que o seu bem-estar é irrelevante. Não existe bom pai sem antes existir bom companheiro. Companheiro de equipe de cuidado des filhes, mesmo que não de relacionamento amoroso.

Quem quer participar da criação tem que participar por inteiro, não só na parte que fica bonita na fita.