Acolhimento

dividindo o guarda-chuva

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

acolhimento

O sexo frágil – ou por que eu preciso do feminismo

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

“Você é uma mulher forte”. Eu já gostei de ouvir isso.

Hoje, não é que me ofenda. Mas eu tenho outra sensação quando dizem isso para mim. Eu falo palavrão, digo o que penso sem me desculpar, ocupo espaço, olho nos olhos, tenho um aperto de mão firme… eu ajo sem demonstrar medo de ser quem eu sou. Em outras palavras, sou, em pequenas coisas e muitos trejeitos, o que a maior parte das pessoas esperaria de um homem. Daí que sou “forte”.

Por isso, dizerem que eu sou forte virou, para mim, um biscoitinho que o patriarcado (o machismo institucionalizado) joga para mim por eu ser “mais homem e menos mulher”. Porque ser mulher é ser fraca.

Essa mudança na minha percepção aconteceu porque eu hoje sei que essas coisas não são o que me faz forte. Se eu sou forte – e sim, eu sou forte – é porque eu sobrevivi. A minha mera presença no mundo neste momento comprova a minha força. Eu lutei e eu prevaleci.

Contra quem?

Eu poderia dizer que foi contra mim. E não seria exatamente uma mentira.

Mas seria mais preciso dizer que eu lutei contra a gaiola de expectativas que me aprisionava e aquilo e aqueles que a mantinham em pé. Não era bem contra o meu eu, mas contra um falso eu, montado ao meu redor, sufocando as minhas verdades e filtrando a luz e o som e os cheiros e os gostos que vinham do mundo lá fora.

Eu lutei, eu venci. Eu quebrei muitos ossos, lacerei minha pele. Mas um dia enfim as barras se partiram e eu consegui olhar lá para fora e me mesmerizar com todas aquelas estrelas no céu. Eu nunca soube que a noite poderia ser tão linda. Tão serena.

Tive medo de voar, de minhas asas não funcionarem, do som que meu corpo faria quando batesse no chão – a insignificância da minha existência exposta pela mundanidade do mesmo baque surdo que poderia ser, digamos, de um saco de batatas. As luzes se apagariam e nada mais. O mundo continuaria a girar, impassível.

Mas eu saltei. Porque tinha que saltar. Porque eu queria viver. E foi isso que me fez mais forte.

A cada mulher que eu vejo, vejo também uma gaiola – às vezes inteira, às vezes já em pedaços, mas sempre, no fundo, a mesma gaiola que eu um dia vi por dentro. E vejo alguém que também sobreviveu. Porque ela está ali, diante de mim.

E ela pode ter mãos delicadas e dedos finos que parecem algodão entre os meus. Ela pode ter olhos que se encantam com o chão a todo instante. Ela pode ser pequena e usar palavras doces, corar diante de qualquer impropério. Ela pode se encolher quando lhe gritam, chorar quando não consegue falar. Ela pode calar diante das injustiças que sofre, que outras pessoas sofrem. Ela pode olhar para a própria dor e repetir para mim e para si mesma que “não foi nada, não é nada, vou só ali colocar um bandeide, que bobagem a minha sofrer por isso”.

Mas ela é forte. Porque, como eu, ela chegou até aqui. E, por isso, eu não consigo deixar de ver algo de mim nela e algo dela em mim.

Eu preciso do feminismo porque ninguém deveria ter que ser forte para sobreviver.

Creche ou licenças? Um manifesto pela sororidade entre mães

união

Eu parei de trabalhar para ficar em casa com mes filhes.

Assim que fiquei grávida, pedi exoneração do meu cobiçado cargo público concursado e estável; não esperei sequer para usufruir da licença-maternidade paga pelo Estado. Essa foi uma decisão minha, um desejo meu que, dentro do meu universo de privilégios, me foi possível concretizar.

Essa foi a minha decisão muito antes de saber o que era criação empática*, antes de saber que bater em criança não era só desnecessário, como prejudicial. Para a sorte da minha filha mais velha (e minha também), eu consegui aprender tudo isso antes de ela nascer.

Nada que eu já fiz na minha vida antes me deu tanto prazer. Ou tanto trabalho. Sim, é estressante e às vezes muito difícil, mas é algo que eu faço de coração, com uma dedicação sincera, que vem de dentro de mim naturalmente, algo que eu nunca havia experimentado antes.

Perdi a conta de quantas vezes outras mães me perguntaram no que eu trabalhava e, ao ouvirem a resposta, baixaram os olhos e disseram que, se pudessem, teriam também parado de trabalhar. Que o pior dia da vida delas foi o dia em que tiveram que deixar seus bebês, às vezes com menos de um mês, com outra pessoa, para poderem retornar ao trabalho, porque dependiam desse sustento, ou porque suas carreiras jamais sobreviveriam a um período tão longo de ausência.

Eu não consigo imaginar a dor de se separar de um bebê tão novo contra a própria vontade. É por isso que eu apoio a ampliação da licença-maternidade (e, claro, da licença paternidade, porque não cabe à mulher sozinha cuidar des filhes).

Mas eu não posso ignorar que cada mulher é uma. Que cada realidade é uma. E que, assim como inúmeras vezes encontrei mulheres feridas por não terem podido ficar com seus bebês, inúmeras vezes encontrei mulheres que me disseram que não suportariam deixar de trabalhar. Que, por mais que amassem ses filhes, deixar de exercer uma atividade remunerada fora de casa as deixaria frustradas e infelizes.

Eu conheço os estudos e argumentos que demonstram que, biologicamente falando, o melhor para a criança é ficar junto da mãe nessa primeira infância, ou aos cuidados de uma coletividade, mas com a participação direta da mãe. Mas há muito mais em nós que só a nossa biologia. Não vejo como poderia ser bom para a criança ficar o dia todo ao lado de uma mãe amargurada e irritadiça, deprimida, que não queria estar ali.

Não quero com isso legitimar o discurso de “mãe feliz é bebê feliz, então vale tudo”. Existe mais de uma vontade envolvida nessa relação e uma dessas vontades é a de um ser completamente vulnerável e incapaz de se impor e isso não pode ser esquecido jamais. Só quero dizer que transformar a maternidade num moedor de carne de mulher é um erro e que não apenas a mulher é prejudicada por isso, mas a criança também.

Também não posso ignorar que não é porque o homem com quem eu compartilho a minha casa é consciente de suas responsabilidades como pai e habitante, que essa é a realidade de todas as outras mulheres.

Para a maioria, deixar de trabalhar é passar a depender financeiramente de alguém que já as vê como subalternas. É alimentar a covardia do machista. A maior parte dos homens acha que trazer dinheiro para casa encerra sua participação no lar – e foda-se que tem alguém trabalhando 24 horas por dia, sem direito a folga nem quando está doente. E é uma situação que não se reverte da noite para o dia, afinal, tem toda uma logística a ser considerada. Que tempo essa mulher vai ter para conseguir ir a uma entrevista de emprego? Com quem vai deixar as crianças?

Entendo, assim, que há muitas mulheres que precisam ou querem voltar a trabalhar mesmo tendo filhes pequenes. E é por isso que eu também apoio a demanda pelo aumento da quantidade e da qualidade das creches, além de uma política que permita às mulheres conciliar trabalho e cuidados com seus bebês, facilitando a amamentação e o convívio sempre que possível.

Não há, a meu ver, uma dicotomia entre licenças e creche. Pelo contrário, elas se complementam para atender a TODAS as mães. Me desagrada o debate que contrapõe uma opção à outra, porque é um debate que, na verdade, contrapõe escolhas pessoais de maternidade e cria uma disputa entre as mulheres representadas por essas escolhas. E enquanto nós estamos aqui, competindo entre nós, o sistema segue nos oprimindo.

Se o Estado atende a nossa escolha pessoal e nós nos calamos, mesmo sabendo que continuam impossibilitadas as escolhas de outras mulheres, nós estamos nos omitindo e permitindo que, através dessa divisão, ele nos enfraqueça e silencie.

É de interesse coletivo e urgente que nossas crianças sejam tratadas com o melhor cuidado possível, porque elas serão as pessoas adultas de amanhã. Elas estarão à frente das comunidades de que participaremos. Elas estarão encarregadas dos cuidados e funções de que nós um dia necessitaremos. Portanto, chega de “quem pariu Mateus que o embale”. Chega de “problema dela”. O problema é nosso.

Mulheres devem ter mais opções, não menos. Lutemos unidas pelas creches, pelas licenças e por muito mais!

***

 *Por “criação empática”, me refiro à forma de criar antiadultista, respeitando a criança como ser humano, buscando uma relação horizontal e não autoritária dentro de casa. Eu usei o termo “attachment parenting”, ou sua tradução comum “criação com apego” por um tempo, mas sinto que eles causam mal-entendidos, porque tornaram mais identificados com um conjunto de práticas (parto humanizado, amamentação prolongada, cama compartilhada, etc.), do que com a filosofia de criação e educação que, na verdade, surgiram para denominar – e que é o meu foco real.

E a palavra do dia é… sororidade!

A primeira vez em que vi esse termo numa discussão feminista, me apaixonei por ele. A ideia de criar um laço entre mulheres, de estimular nossa proteção umas às outras, de desconstruir a competitividade que o patriarcado nos impõe.

E agora eu a vejo sendo usada como o zap num jogo de truco. Um zap silenciador. Como você pode criticar outra feminista? Cadê a sua sororidade? Quem critica as irmãs aplaude “uzómi”.

E assim sororidade passou a ser usada para calar qualquer dissenso, qualquer apontamento de transfobia, racismo, elitismo, homofobia, bifobia…

Pô, eu sempre tive uma ideia tão diferente de sororidade.

Daí vi este texto. Concordo com o sentimento – e principalmente com a imagem do cartaz, que diz: “meu protesto será interseccional ou não será nada” – e gostaria de ir mais a fundo em relação a um ponto.

Para mim, não é que temos que colocar de lado a sororidade para apontar os erros no movimento. É que temos que apontar os erros no movimento precisamente por uma questão de sororidade.

A sororidade, para mim, é linda porque ela me mostra que mesmo aquela pessoa com quem eu não me identifico é minha irmã, minha semelhante. E me lembra que a dor que essa pessoa sente, mesmo que diferente da minha, ou até mesmo incompreensível para mim, é legítima, e que ela, tanto quanto eu, precisa de espaço para falar sobre essa dor e ver-se acolhida nela.

Não é concordar ou discordar. É considerar aquele ponto de vista, entrar nele, encontrar a pessoa humana por trás dele. É empatizar.

Quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade, a meu ver, que me cabe ouvi-la e ampará-la. Me cabe buscar entender essa crítica e seus fundamentos e, se for o caso, discutir sua validade não com a violência de quem luta contra um adversário, mas com o cuidado, a atenção, a consideração que eu gostaria que tivessem para comigo.

Porque para mim é essa a essência da sororidade: empatizar. Imaginar-se na outra e permitir que a outra seja você. Mesmo não sendo, mesmo só por um segundo. Tentar sair de si mesma, olhar-se de longe, enxergar seus próprios privilégios e sentimentos e desnudar-se deles para, nessa nudez, encontrar a outra pessoa diante de você com outros olhos, mais humildes, menos armados, menos defensivos.

É abrir mão de ganhar ou perder, estar certa ou errada. Eu já disse antes e torno a dizer: a empatia é o que fará o patriarcado ruir. E, para mim, a essência da sororidade sempre foi essa. Empatia.

Trigger Warning: Empatia

trigger

Você já ouviu a expressão “Trigger Warning”?

Trigger Warning, ou TW, é um alerta que se coloca no começo de um texto para que as pessoas saibam da existência de um conteúdo ali que pode servir de gatilho (daí o nome, em inglês, “trigger” – gatilho, e “warning” – alerta) para um eventual trauma, desencadeando memórias e sensações dolorosas ligadas a ele.

Como variadas são as pessoas e seus traumas, nem sempre temos como saber o que as atingirá dessa forma. Pode ser que alguém tenha um problema com algo aparentemente inocente, talvez uma fobia de abelhas, por exemplo, e por isso ver qualquer coisa que trate de abelhas para ela seja um trigger.

No entanto, há assuntos em que essa possibilidade é bastante previsível. Quando falamos de violência, por exemplo, é provável que alguém que nos leia a tenha vivenciado de alguma forma. Por isso, é uma questão de sensibilidade avisar as pessoas disso.

Quando alguém coloca o “trigger warning” (“TW: abelhas”, por exemplo), não está dizendo que acha que o assunto é nojento, vergonhoso, que não se deveria abordá-lo ou algo assim. Está apenas comunicando que acha possível ou mesmo provável que outras pessoas tenham algum trauma com aquilo.

Similarmente, quando alguém identifica algo como trigger e pede para ser avisade quando forem falar disso, usando o TW correspondente, o intuito não é censurar, ou transformar aquilo em tabu. É deixar explícito que se tem um trauma ligado a isso e que se gostaria de poder optar por não passar naquele momento pela avalanche emocional que aquilo causa.

Não é censura. Não é silenciamento. Não é reforçar a opressão. É reconhecer que algumas pessoas não lidam bem com um determinado assunto e, por uma questão de empatia, avisar quando for falar disso, ainda que não se compreenda o porquê da dificuldade.

É entender que não é factível (e não seria direito, ainda que fosse factível) regular o trauma ou não trauma alheio. E que impor às pessoas que lidem com seus conteúdos sensíveis sem que isso tenha partido delas é uma forma de violência e, isso sim, um silenciamento. Porque trata o trauma de outrem como se não fosse legítimo, a dor de outrem como se não fosse digna de ser sentida ou verbalizada. E quem somos nós para estabelecer isso? Será que, ao invés de recriminar, não seria melhor tentar empatizar?

Bato muito nessa tecla da empatia porque, para mim, é a base do meu feminismo, é o que constrói a minha noção de sororidade, de humanidade.

Uma vez, numa discussão, uma pessoa disse que empatizar com uma determinada moça que havia agido de uma forma que ela considerava machista era reforçar o patriarcado. Eu discordo, e com veemência. A empatia vai contra tudo o que o patriarcado representa. A empatia é o que fará o patriarcado ruir.

Empatizar é abrir mão de certo e errado, de ganhar ou perder, de concordar ou discordar, de culpar, de julgar. É encontrar o ser humano por detrás das palavras e dos atos. É se abrir para sentir junto com alguém algo que não é confortável de sentir, mas que essa pessoa precisa de companhia para conseguir atravessar. É uma dádiva.

O que seria a sororidade senão ir além da rivalidade que somos criadas para sentir umas em relação às outras para vermos nas mulheres com quem interagimos nossas irmãs na mulheridade, com muito mais em comum que de diferença? Nos abrirmos para acolhermos suas dores a despeito de as entendermos ou não, nos abraçarmos mesmo em nossa discordância?

Para mim, empatizar não é concordar. Sororidade não é defender o ponto de vista que não é nosso. É justamente entender que a concordância não é mais importante do que a comunicação e que é possível o entendimento mesmo na discordância.

O trauma de uma pessoa não é uma agressão a outra. O pedido de respeito a esse trauma não é silenciamento de quem não o tem. E a empatia não deveria ser reservada só para as pessoas com quem é fácil a gente empatizar.

Querida companheira misândrica de luta feminista,

dar as mãos

Não te odeio. Não te desprezo. Não acho que você está errada por sentir o que sente. Não quero você fora do movimento. Não te acho uma negação em termos de humanidade. Na verdade, eu entendo você.

Aliás, é muito difícil não entender uma mulher ser misândrica nos dias de hoje, quando vemos rotineiramente tantas mulheres sofrendo tantas violências e isso sendo considerado não só normal como digno de ser aplaudido.

É claro, portanto, que compreendo bem que a misandria e a misoginia, apesar de similares na essência – o ódio – são absolutamente distintas em causa, contexto e consequências. Afinal, enquanto a misoginia nasce do opressor, acalentada pela opressão que exerce, a misandria nasce no oprimido, em reação à opressão que sofre; enquanto a misoginia viceja num mundo que a nutre, a aprova e estimula, a misandria  é repudiada, reprovada, malvista e demonizada. Misandria é a Cinderella do castelo do ódio sexista. Ou, pelo menos, seria, se a Cinderella não fosse uma tremenda bundona. Não pense que não sei disso.

Também, por favor, ponha-me a salvo da impressão de que tenho qualquer coisa a dizer contra o seu ódio, o seu sentimento ou ressentimento e a legitimidade dele. Não acho que você tem que trabalhar isso se não quiser, que tem que parar de sentir o que quer que seja. Eu sou partidária de talvez conter a ação, dependendo do caso, mas nunca de reprimir o sentimento.

Meu problema, assim, não é com o que você sente – não escolhemos sentir, sentimos, apenas; o sentir não conhece razão, não conhece querer, e eu sei disso. Minha objeção é com relação ao que algumas pessoas misândricas fazem a partir do que sentem. Creio que todes somos livres para odiar, mas peço respeito a quem não compartilha desse ódio.

Tudo bem se para você a mais mínima cortesia, a menor mostra de boa educação, o menor cuidado com a polidez pareçam resquícios do machismo opressor que nos compele a sermos aprazíveis. Mas, por favor, tente entender que para muitas de nós a comunicação não-violenta é o ato de maior subversão possível diante do patriarcado que nos quer disputando, competindo, guerreando, vociferando umes contra es outres sem nunca parar para escutar.

A gente pode chamar de luta a nossa luta. De combate. Mas a verdade verdadeira? Acho que a nossa luta é pelo convencimento. Primeiro porque creio que não queremos o poder, mas acabar com o poder. Não é que o feminismo vai ter vencido quando metade des opressores do mundo forem mulheres – ou mesmo quando todes forem. O feminismo terá vencido quando não houver mais ninguém oprimindo ninguém.* Sempre entendi assim.

Não queremos dominar, queremos que não haja dominação. Não queremos oprimir, mas que não haja opressão. Estou enganada?

Me parece que, fora dos esportes, luta não empata. Existe sempre um perdedor e um vencedor. Um que sai por cima e outro por baixo. E a animosidade continua. O ódio e o medo continuam, aguardando o próximo embate. A guerra, mesmo fria, ainda é guerra. E ninguém merece viver com essa tensão, sempre de costas para a parede, sempre dormindo com um olho aberto. Pensei que estivéssemos tentando construir um mundo em que isso não fosse necessário.

É admissível que uma mulher seja explorada, humilhada e violentada, desde que seja por outra mulher? Não seria também machista usar da sua força para fazer sofrer a outra, não seria isso uma emulação do macho opressor?

E o que seria, por exemplo, colocar a mulherzinha que curte homens em seu devido lugar? Mostrar para ela como ela é fraca? Explicar bem explicadinho o quanto ela é oprimida e é imbecil demais para entender, já que quem discorda disso só pode ser por falta de intelecto? Seria isso sororidade, respeito, feminismo? Acolhimento?

Não é que você não pode sentir ódio, ou dizer que o sente. É que quando você se pronuncia de forma a equivaler sua misandria a feminismo, quando você dá a entender que são sinônimos, quando você recrimina as mulheres que não odeiam, como se fossem pelegas, como se fossem vendidas, como se as experiências delas negassem as suas e os sentimentos delas negassem os seus, quando você se nega a empatizar com elas, desclassificando e deslegitimando o que elas sentem por homens que elas de fato amam (filhos, pais, irmãos, amigos), quando você dá a entender que essas mulheres são umas idiotas iludidas, quando você faz provocações, tomando para si o direito de desrespeitar pessoas em espaços inclusivos mesmo quando não te faltam espaços exclusivos em que você possa desopilar livremente toda a sua bile misândrica… você pode sentir uma satisfação momentânea, você pode se sentir vingada, o que for. Mas o que acontece aqui, fora de você, é que você afasta as MULHERES que não se sentem como você. Mulheres, veja, não homens.

Você reforça a noção de que feminismo é machismo ao contrário, de que o feminismo é um movimento intransigente e raivoso em que só há espaço para quem odeia homens. Você desvaloriza a sua fala e a de outras feministas e valoriza a fala dos machistas que dizem que o feminismo não merece ouvidos.

Uma vez uma moça me disse que o discurso do feminismo não é voltado para os homens, nem para as mulheres que ainda apoiam o patriarcado. O discurso feminista é para quem, então? Não de mulheres para mulheres, mas de feministas para feministas, celebrando um feminismo exclusivo que tende a morrer quando suas representantes se esvaírem?

Pois eu acredito em fazer o possível para disseminar nossas ideias, para abrir ouvidos, para prender atenções e aguçar curiosidades. Fazer o possível para que o nosso discurso não interfira na transmissão das nossas informações, para que a nossa abordagem não ponha a perder a comunicação de nossos ideais. Sinto que essa responsabilidade é nossa, é do nosso ativismo.

Não estou falando simplesmente da conversão de homens ao feminismo, de “ser gentil com o opressor”, ou algo assim – estou falando de alcançar as mulheres, as vítimas, as pessoas que, ao invés de se sentirem acolhidas, sentem-se recriminadas pelo discurso violento, culpabilizadas por ele.

Porque do ódio ao homem para o ódio à mulher que não odeia o homem é um passo. E o ódio se move com muita agilidade.

A empatia tem muitos níveis e muitas aplicações. Uma delas é favorecer o diálogo. Temos muito mais em comum do que temos de diferença.

Juntas, podemos ir muito mais longe.

 

* Versão da frase de Lierre Keith: “People sometimes say that we will know feminism has done its job when half the CEOs are women. That’s not feminism; to quote Catharine MacKinnon, it’s liberalism applied to women. Feminism will have won not when a few women get an equal piece of the oppression pie, served up in our sisters’ sweat, but when all dominating hierarchies – including economic ones – are dismantled.”

Mulheres contra mulheres – o caso Adelir e o feminismo

O caso Adelir nos trouxe importantes reflexões acerca dos direitos humanos das mulheres no país, do machismo do sistema obstétrico e jurídico e da institucionalização da violência obstétrica.

Mas mais do que isso, mais uma vez acirrou o debate entre feminismo e maternidade, quando parte do movimento feminista silenciou diante daquela atrocidade e parte do movimento pela humanização do parto entendeu esse silêncio como prova de que o feminismo como um todo não representa a maternidade, ou, ainda mais grave, que não há espaço no feminismo para as mães.

Sim, o movimento feminista tem um problema muito sério de segregar os assuntos relativos à maternidade em seu meio. Porém, devemos nos lembrar que existem, sim, diversas ativistas que buscam conciliar as pautas da maternidade com o feminismo (e não somos poucas e estamos nos tornando cada vez mais numerosas). Somos, inclusive, críticas dessa marginalização da maternidade dentro do movimento.

E não estamos sós; vi cartas de repúdio ao acontecido escritas por coletivos feministas. E um texto da Lola Aaronovich, do blog Escreva, Lola, Escreva a respeito (acho o máximo que um blog que é uma das maiores referências do feminismo no Brasil atual defenda a nossa causa, não só em relação à Adelir, mas à humanização do parto como um todo).

Ocorre que o feminismo, com seus erros e seus acertos, com seus entendimentos e desentendimentos, é um movimento plural, cheio de vertentes. Há muito mais no feminismo que só mulheres que diminuem outras mulheres, seja pelo motivo que for.

Há espaços feministas que respeitam as mães e a maternidade, espaços que precisam ser expandidos. Mas essa expansão fica difícil se não aderirem ao feminismo mais mulheres que respeitem a escolha pela maternidade. E essa adesão é dificultada quando temos um discurso intransigente e violento, um discurso que assusta e afasta as mulheres do feminismo ao invés de aproximá-las.

O nosso inimigo é o machismo – uma forma opressora de pensar e de ver o mundo, de falar e de agir, que inferioriza a mulher perante o homem, o fraco perante o forte, o menor perante o maior. Creio que todas ganharíamos ao concentrarmos nossas forças não em lutar contra pessoas, e principalmente umas contra as outras, mas em combater essa ideologia e sua institucionalização, esteja onde ela estiver, na fala e nas ações de quem quer que seja.

Quanto às mulheres reprodutoras do machismo, sabe aquele lance de o mais poderoso truque do opressor ser conseguir que o oprimido reproduza a sua fala e a própria opressão? O pobre querendo ser rico e escarnecendo do pobre mais pobre que ele, o não-branco querendo ser branco e escarnecendo do não-branco que é menos branco que ele, seja na cor da pele, seja na forma de agir, no vestir, na cultura, nos modos, etc.?

Claro que a mulher muitas vezes tem ideias, falas e atitudes machistas. Mas isso não faz dela o opressor, nem tira sua qualidade de vítima; faz dela, talvez, menos consciente da opressão que sofre, de onde ela vem e de como ela poderia mudar isso – o que não equivale a dizer que ela não seja individualmente responsável pelos seus atos e palavras.

Segundo muitas feministas, não há mulheres machistas, apenas reprodutoras do machismo. Para mim não há diferença em termos de efeitos práticos. Para quem sofre a opressão, tanto faz se é opressão ativa ou reativa ou produtora ou reprodutora.

Por essa razão, prefiro de falar de ideias, falas e atitudes machistas (ou racistas, ou elitistas, ou adultistas, etc.) e não PESSOAS machistas (racistas, elitistas, adultistas, etc.). Eu aponto a opressão não no ser, mas no agir. Na manifestação. Porque a rotulação me parece despertar mais defensividade e resistência do que atenção e desloca a discussão para a pessoa, ao invés de centrá-la na ideologia, que é o que eu quero combater.

Afinal, não quero destruir ninguém; pelo contrário, quero que elas se juntem a mim, o que não conseguirei se simplesmente as transformar em minhas inimigas. Não quero manipulá-las, mas quero, sim, fazer a minha parte para que seu livre convencimento, ainda que no sentido oposto ao que eu defendo, seja de fato livre e não informado pela reatividade pessoal à violência presente no meu discurso. Ou terei falhado como ativista, como sei que já falhei diversas vezes.

Assim, pessoalmente, eu prefiro que nos comprometamos a buscar e desconstruir o machismo que temos dentro de nós (e creio que sempre teremos algum, mesmo sendo muito feministas, já que vivemos em um mundo muito machista e é muito difícil não introjetar algo tão enraizado na nossa cultura).

Enfim, diante de uma juízA e uma médicA que submeteram uma mulher a esse nível de violência por conta de uma diretiva machista (seja a supressão dos direitos fundamentais da mulher em favor de uma proteção equivocada à expectativa de direitos do nascituro, seja a desconfirmação de sua autoridade médica), que tal criticar seus atos e seus erros individualmente, ao invés de generalizá-los e usá-los como sintoma do que está errado “com as mulheres” ou, ainda mais grave “com as feministas” (algo que sequer sabemos se elas são)?

Que tal centramos nossas críticas e esforços na nossa direção comum – o combate ao machismo e ao patriarcado?