Feminismo é amor

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Sim. Para mim, feminismo é amor.

É comum que a palavra feminismo seja associada à raiva, à luta. E faz sentido que seja. Mas, para mim, o que o feminismo promove é algo anterior a isso. Mais profundo que isso.

Eu já sentia raiva antes do feminismo. Essa raiva vinha do fato de que muitas necessidades muito básicas minhas – de liberdade, de segurança, de respeito, de cuidado, de justiça – não estavam sendo atendidas em inúmeras das minhas interações. E do medo de que jamais o fossem. E da sensação de impotência diante disso.

Eu sempre fui a “arrogante”, a “briguenta” (leia-se: mulher assertiva). Então eu achava que não tinha raiva represada. Que comigo era bateu-tomou, que eu resolvia as coisas na hora e deu.

Mas daí eu conheci o feminismo. E me dei conta de todas as violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido.

Quando eu falo das “violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido”, estou me referindo a todos aqueles atos que eu me senti muito mal de receber; que, na minha percepção, negavam a minha humanidade. E que eu por tanto tempo fingi que tudo bem eles terem acontecido, dizendo para mim que era o jeito que as coisas eram. Que fazia parte. E fiz de conta que nem doeu tanto assim. Eu contava sobre alguns em tom de piada, aliás, rindo aquele riso vazio, oco, que a gente ri sem alegria.

Por quê? Porque eu sentia vergonha de ter sofrido com aquilo. No fundo, eu achava que eu deveria ter algo em mim para merecer ser tratada daquela forma. E, se não era algo que eu tinha feito, então talvez fosse algo em quem eu era. Que aquele era o meu lugar no mundo.

Não passava pela minha cabeça me revoltar contra isso. Eu teria me revoltado, se fosse a história de outra pessoa – como tantas vezes de fato me revoltei por outrem, uma revolta que só ia até o ponto em que eu não me reconhecia na outra pessoa. Porque, se eu olhasse para ela e visse a mim mesma, não conseguia mais empatizar com ela.

E isso, por quê?

Porque eu não me amava. Eu não sei dizer se realmente me odiei, assim, em absoluto, em algum momento. Senti, sim, muito ódio de mim muitas vezes. Ódio do meu corpo, do meu rosto, meu nariz. Ódio do meu jeito de ser. Da minha voz. Eu acho que nunca quis ser outra pessoa, mas eu sei que quis ser uma versão diferente de mim mesma. Uma versão que, na minha cabeça, pudesse receber amor, cuidado, respeito. Porque eu achava que o jeito de receber essas coisas era mudar a mim mesma. Que tinha algo de fundamentalmente errado comigo para eu não tê-las.

O que o feminismo fez foi me mostrar que não.

Pela primeira vez entretive a noção de que eu não era um ser estruturalmente inadequado, que merecesse passar por aquelas coisas, lidar com aquelas coisas e suas tantas outras manifestações no dia a dia. De que, talvez, eu fosse digna de defesa. De cuidado. Por mim mesma.

Por mim mesma.

E, assim, aos poucos, eu comecei a sentir mais amor por mim. Comecei a me aceitar mais como sou, a cada dia em que sou. Comecei a ser capaz de empatizar mais comigo mesma à medida em que me via espelhada nas outras mulheres com quem empatizava. E comecei a (re)conhecer as mulheres ao meu redor, sem a crença interior tóxicas de que fossem minhas inimigas, sem querer me vingar de mim mesma nelas.

E, desse amor, a revolta nasceu. A raiva aflorou. Tanta raiva. E me dei conta de que muita raiva que eu sentia e achava que era de outras coisas, no fundo vinha disso. Porque as coisas que a gente esconde da gente não vão embora. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – e funciona assim dentro da nossa cabeça também, a meu ver. Toda aquela raiva que estava dentro de mim, contida, guardada, escondida, na verdade estava o tempo todo borbulhando e eclodindo em cada ocasião que tinha oportunidade de fazê-lo.

E, sim, houve momentos em que eu fiquei muito pouco tolerante com o que percebesse como violência – agora que eu finalmente via o meu balde cheio, qualquer gota me fazia transbordar… e eu me permitia transbordar. Mas ver o balde cheio foi o que me ajudou a esvaziá-lo. Ainda tem muita coisa lá dentro, claro. Mas tem bastante que já evaporou.

Ao me permitir sentir a minha raiva, o feminismo me libertou dela. Antes, eu era mais dela; hoje, é ela é mais minha. E eu me sinto mais capaz de escolher a forma como vou lidar com ela.

O mesmo amor que me faz levantar contra quem age de forma a ferir quem eu amo, hoje me faz levantar por mim mesma, seja com raiva ou não.

E amar a mim mesma me permite hoje amar a outras pessoas com muito mais aceitação e entrega, o que me traz muito mais satisfação nas minhas interações.

É por isso que, para mim, feminismo, em seu aspecto mais básico, mais fundamental, é amor.

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A amamentação imperfeita

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 5 de agosto de 2015.

Eu. Amamentando. Tirei dois dias atrás.

Já que estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno, me deu vontade de contar um pouco da minha história com a amamentação.

Eu amamento há mais de quatro anos. Já amamentei de noite, de dia, em público, privado, grávida, uma criança só, duas crianças ao mesmo tempo, criança dormindo, criança fazendo mama-sutra.

Ao amamentar, já recebi de muxoxos e olhares tortos a palavras de apoio e inclusive palmas. Isso ilustra bem a amplitude de sentimentos que o tema amamentação provoca por aí.

Para mulheres que, como eu, têm o privilégio de poder ficar à disposição das crianças – e a vontade de fazê-lo, claro – a maior praticidade do peito é indiscutível. Não tem que limpar, esterilizar, medir, misturar, aquecer. Já vem pronto, só sacar e dar, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Claro que para quem trabalha fora são outros tantos quinhentos. E toda a minha solidariedade a essas mães, aliás. Porque, numa sociedade que, coletivamente, se exime de qualquer responsabilidade por facilitar a vida das mães e suas crianças, há que se ter dedicação infinita para trabalhar fora e continuar amamentando (e ordenhando e coletando e acondicionando e relactando e dando em copinho e/ou colherinha e/ou mamadeira e etc. e ainda, por vezes, escutando abobrinhas das mais variadas). Um abraço apertado aí, galera. Não deveria ser assim.

Para quem consegue, claro que vale a pena. O leite materno, como sabemos, é um alimento completo sob medida para as necessidades da criança. Nutre, imuniza, hidrata, além de ajudar no desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos da face. Para a saúde da mãe amamentar também faz diferença, e muita. Diminui a incidência de câncer de mama e de ovários, ajuda a controlar diabetes e prevenir síndrome metabólica, osteoporose, etc. Além disso, o ato de amamentar permite um contato e um aconchego profundos, com inúmeros desdobramentos fisiológicos e emocionais – embora eu duvide que esse contato e esse aconchego sejam exclusivos do ato de amamentar.

No entanto, amamentar não é sempre fácil, e é sobre isso que eu quero falar.

Mesmo nos casos em que, como foi comigo, é majoritariamente fácil, tem horas em que amamentar é muito, muito difícil. Eu tive leite, não tive mastites, não tive feridas, não tinha mamilos invertidos, as pegas dos bebês sempre foram boas, eu tive o privilégio de poder estudar muito a teoria antes de lidar com a prática e, quando chegou a hora da prática, tive ao meu redor pessoas fantásticas que puderam me orientar. E, como eu disse, eu não trabalho fora. Ainda assim, houve momentos em que foi… como dizer? Foda. Bem foda.

Por que estou falando isso? Sou contra? Quero desencorajar? Claro que não. Amamento até hoje; estou, aliás, amamentando meu filho mais novo, de um ano e quase dez meses, neste exato momento, enquanto redijo este texto. Estou falando isso porque sinto que existe um precipício entre a amamentação idealizada e a amamentação real. E eu caí nele. E já vi muitas outras caírem também. Daí acho que não custa nada colocar uma plaquinha de “perigo” ali na beirada, né? É o que eu estou tentando fazer.

Existe uma vivaz torcida contra a nossa amamentação o tempo todo. É machismo, é adultismo, é capitalismo. Porque nossos peitos têm que estar à disposição dos homens e não devemos fazer nada que possa afetar-lhes a estética; porque nossos corpos são falhos e não devemos confiar neles; porque amamentação tem que ter prazo e horário e cronometragem, senão a criança, esse ser do mal, domina e escraviza a mãe; porque a mulher tem que voltar a trabalhar (e arcar com todas as complicações na amamentação que decorrem disso, como dito acima). Isso tudo sem falar na pressão da inescrupulosa indústria que não hesita em passar por cima da saúde das crianças para ganhar um trocado.

Mas o que acontece quando uma mulher vence tudo isso, está consciente dos benefícios da amamentação e quer muito amamentar… só que, naquele momento, está foda?

Com quem ela conversa, a quem ela pode procurar? Onde ela encontrará acolhimento?

No colo do médico que já está com a prescrição de complemento pronta na gaveta? Do marido machista que está desde o começo falando que agora ela virou “escrava da criança”, que os peitos dela são dele? Da avó/tia/amiga/vizinha que está sempre dizendo que leite de peito é só água, que, “se continuar assim, seu peito cai e ele arruma outra”?

E dá para chorar no colo das mães perfeitas que parecem sempre ter passado por coisas ainda mais complicadas e situações ainda mais difíceis, mas que persistiram estoicamente e “venceram”? Como falar que está difícil quando todo mundo parece estar tirando de letra? Quando a sensação que se tem é a de que há algo de errado em si mesma? Como se abrir para o julgamento do povo do “basta querer”, da meritocracia do leite, num momento de tanta fragilidade?

É muito solitário não dar conta. É estar perdida numa terra de ninguém no meio da guerra entre o país do “larga logo essa cruz” e o do “aguenta firme aí”.

Quantas depressões, inclusive pós-parto, são geradas ou disparadas por problemas na amamentação e os sentimentos de culpa e inadequação relacionados a isso? Quanto disso não poderia ser evitado se falar das dificuldades na amamentação não fosse tabu?

Minha filha mais velha tinha por volta de um ano e meio quando eu comecei a ter o que hoje eu sei que era perturbação (ou agitação) da amamentação. Eu estava grávida do meu filho mais novo, o que talvez tenha sido um fator que contribuiu para o surgimento disso.

A agitação da amentação é uma espécie de incômodo que começa a surgir durante a amamentação, uma irritação que vai crescendo e tomando conta da gente, aos poucos se tornando avassaladora, a ponto de ficar difícil de pensar, a ponto de ranger os dentes, esmurrar a parede e fantasiar violências enquanto se amamenta.

Para mim, ela se manifestava particularmente através de uma sensação muito próxima da de estímulo sexual indesejado. Era como se eu estivesse sofrendo um abuso, com alguém mexendo em mim contra a minha vontade. Não era uma sensação agradável, não era uma questão de repressão, ou algo assim. Era uma raiva profunda, que borbulhava de dentro de mim, incontrolável, irracional. E eu sentia como se estivesse, ao mesmo tempo, abusando da minha filha, já que ela causava esse estímulo involuntariamente. Eu sentia muita vergonha e muita culpa, além de muita raiva de mim mesma. Vivia à beira das lágrimas.

O que antes era uma dádiva rapidamente se transformou num suplício. Sofri sem saber o que havia de errado comigo por muito tempo, sem coragem de compartilhar essas sensações todas com outras pessoas além do meu marido e pessoas muito próximas, que também não sabiam me dizer o que estava acontecendo.

Supondo que o problema fosse psicológico, eu me analisei e reanalisei, verbalizei, escrevi. Supondo que o problema fosse fisiológico, eu mudei a alimentação, descansei. Aqui e ali a coisa melhorava, mas não passava. E a minha angústia só aumentava.

Foi o tempo e a coincidência que me trouxeram este texto, do blog MamaEDoula. E a ficha caiu. Eu cresci com gatos soltos, gatos de rua, acompanhei incontáveis ninhadas desde o nascimento e já tinha visto gatas passarem por isso com seus filhotes.

Engraçado que era o que me passava pela cabeça, muitas vezes, enquanto eu me sentia mal amamentando – a cena de uma gata tocando de perto dela os filhotes subitamente, no meio da mamada. Mas, antes do texto, eu nunca tinha me permitido entender que era a mesma coisa.

Como eu nunca havia ouvido falar de algo tão natural – e comum! – num meio (o ativismo de parto, amamentação e maternidade) em que tanto falamos sobre a nossa natureza?

Não creio que amamentar tenha que ser sempre prazeroso. A gente não amamenta só por prazer, assim como a criança não mama só por prazer. Existe uma necessidade da criança envolvida e um interesse em que essa necessidade seja suprida dessa forma, já que, apesar de haver outros meios, sabemos ser esse o fisiologicamente melhor.

Mas existe uma diferença entre aceitar que algo não será sempre prazeroso e se submeter a algo que está sendo constantemente excruciante.

Eu sempre tive muito claramente para mim que as crianças são hipossuficientes na relação com ses pais e mães; que elas não são adultas e suas particularidades devem ser levadas em consideração sempre. Que suas necessidades e vontades devem ser lembradas com mais relevo e ênfase para evitar os abusos que nós, pessoas adultas, somos tendentes a praticar com elas por conta da naturalização do adultismo na nossa sociedade.

Mas eu estava tão concentrada em não pisotear adultistamente as necessidades, vontades e particularidades da minha filha, que não me dei conta de que havia começado a esmagar as minhas próprias. E, ainda por cima, no meu desespero para fazer “o melhor para a minha filha” eu estava me tornando uma mãe pior para ela. Uma mãe irritada, cansada, ressentida, neurótica. Infeliz.

Eu me mordia, me batia, puxava meus cabelos, socava coisas duras. Eu não agredia minha filha, mas me violentava o tempo todo. Que bem poderia fazer a ela assistir a tudo isso? Os anticorpos e sais minerais no leite a fariam compreender que o que eu rejeitava era a amamamentação e não ela própria?

Ao contrário do que muitas pessoas parecem pensar e até defender, não temos como contrapor o melhor para a criança e o melhor para a mãe, como se fossem coisas separadas e opostas, ao invés de complementares e necessariamente interligadas. Eu estava tão focada em não falhar na amamentação que não me dei conta de que a amamentação estava falhando comigo. E, por tabela, com a minha filha. Porque nós não somos só os nossos corpos, a nossa biologia.

Daí, no grupo de feminismo de que participo, enquanto eu acolhia outras mulheres mães com sentimentos similares, amigas queridas minhas me mostraram, com muito jeito e carinho, que eu não estava praticando comigo o que eu própria pregava. Que eu não estava me acolhendo, nem me considerando como parte da equação. Registro aqui meus agradecimentos, aliás, a Lívia Marques e Bruna Betoli! ❤

Foi muito doloroso para mim aceitar aquele meu momento de distância do que eu havia sonhado e idealizado. Buscar dentro de mim empatia comigo mesma e perceber que não estava me respeitando, não estava me ouvindo.

Reconhecer meus limites foi um processo dilacerante, mas renovador, como crescer tantas vezes é. Saí dele mais livre, mais humana, mais aberta às vivências de outras pessoas, especialmente mulheres, e menos propensa a julgar e idealizar.

E decidi desmamar minha filha. Um longo e gradual processo que eu, na verdade, instintivamente já havia começado. Fiz o que pude para que fosse o menos abrupto possível; no todo, demoramos coisa de um ano e meio para concluir o processo de desmame, aos três anos dela.

Não me arrependo. Sinto, contudo, que, se desde o começo eu tivesse tido consciência de que amamentar não é tudo ou nada, eu teria me respeitado mais e não estaria já tão desgastada quando enfim comecei o desmame. Isso teria permitido uma transição ainda mais suave para a pequena, além de nos economizar muito – muito! – sofrimento e confusão desnecessários.

Eu sei que a minha filha sofreu mais que eu com tudo isso e ainda sinto por não ter conseguido encontrar uma alternativa viável para nós naquele momento. Espero que ela não tenha, em algum nível, ou de alguma forma, a sensação de que ela era o problema, de que a culpa era dela. Imagino que um dia vamos poder conversar sobre isso e talvez ela entenda. Ou talvez ela só vá mesmo entender se um dia passar por algo assim.

Eu não sei. E aceito isso.

Amamentar nem sempre é fácil. E isso precisa ser dito. E repetido. E esperado. Porque se ficar difícil, faz bem a gente saber que o problema não é com a gente. E encontrar acolhimento, especialmente dentro de nós mesmes.

Guerreira coisa nenhuma!

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 23 de junho de 2015

sobrecarga

Guerreira?

Não.

Você não vai aliviar a sua consciência pesada dando um tapinha nas minhas costas e me chamando de guerreira.

Você não vai me comprar com esse elogio vazio, esse biscoitinho com que se premiam mulheres por se submeterem à exploração dos homens, como se fosse um calvário que nos enobrecesse o espírito e nos tornasse mais e melhores mulheres, como se fosse algo de que devêssemos nos orgulhar.

Não é. É algo de que toda a sociedade deveria se envergonhar.

Por que tratar a sobrecarga de outrem como inevitável se ela só ocorre porque ninguém (incluindo, talvez, você) toma uma atitude a respeito dela? Por que é que, diante dessa sobrecarga, a resposta é dar os parabéns a quem carrega o piano resignadamente ao invés de arregaçar as mangas e entrar na roda?

Esse gracejo passa longe de ser um reconhecimento do esforço alheio. É, na verdade, um gaslighting e uma manipulação para manter a mulherada correndo atrás do próprio rabo sem nunca parar para perguntar “e você? Não vai fazer nada?”

Não é ridiculamente previsível que o único ponto em que se concede que o cérebro feminino seja superior ao masculino seja precisamente na característica que serve de desculpa para que nós, mulheres, sejamos pressionadas a fazer mil coisas ao mesmo tempo? Será mesmo que a mulher é uma deusa multifuncional, ou será que o homem é que é um folgado mal-acostumado?

Claro, há quem diga que as mulheres são responsáveis por isso, que são as mulheres que acostumam mal aos homens. Como se alguém um dia acordasse dizendo “ah, eu quero tanto viver trabalhando mais e ganhando menos e sendo menos reconhecida e ainda me sentindo culpada e fracassada quando não consigo dar conta de fazer o impossível!”

E daí que haja mulheres que acham que essa é a ordem natural das coisas? Isso torna moral a atitude dos homens que se aproveitam delas?

Não à toa, entre girarmos em falso tentando bater essas metas inatingíveis e nos sentirmos inferiores e defeituosas quando não conseguimos, não encontramos tempo para questionar a falta de sentido dessa desigualdade e sofremos caladas, temendo expor o que nos parece ser uma inadequação nossa. Não nos sentimos legitimadas sequer a pedir ajuda, que dirá exigir a mínima cooperação de outrem.

Criadas e educadas para competirmos entre nós, não buscamos apoio umas das outras e nos isolamos com nosso desespero. Guerreiras sofrendo estoicamente em silêncio.

Por isso, não me chame de guerreira. Ninguém deveria ter que ser guerreira. Glorificar o sofrimento das mulheres que estão ralando é exortá-las a continuar com esse sacrifício injusto e desnecessário, ao invés de juntar-se a elas na luta pelo fim dele. Se você se importa o bastante para “elogiar”, deveria se importar o bastante para se envolver e participar.

Se não há nada que você possa fazer, então acolha. Reconheça a sobrecarga, legitime o cansaço, valide a frustração. E não apenas “recompense” a mulher por estar lá, se martirizando para que outras pessoas não precisem nem se mexer.

Aliás, caso você seja homem, restringir-se a esse agradinho verbal só reafirmará a ideia de que é isso que as mulheres devem sempre buscar: a aprovação masculina. E, ainda, uma aprovação que vem na forma de um “elogio” essencialmente machista, afinal, guerrear é um papel que estereotipicamente se atribui aos homens. Isso sugere que a mulher assim elogiada é guerreira porque “equiparou-se” a um homem – ela é “forte“. Ironicamente, a gente recebe esse elogio por acumular muitas funções que dificilmente seriam vistas como “coisa de homem” pela sociedade machista.

Dói reconhecer limites, mas dói ainda mais desrespeitá-los. Eu não sou guerreira. Sou uma mulher. Sou um ser humano.

(Que?) Mães no parquinho

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 16 de junho de 2015

– É, fiquei triste demais. Não conseguia nem comer. – ela me disse, e seus olhos se encheram com as lágrimas de uma dor que já se arrasta há muitos anos. – É por isso que nunca mais peguei trabalho com bebê, só criança grande. Porque a gente se apega demais e sofre muito quando tem que se separar.

Ela pausou para suspirar, olhando com carinho profissional o menino “grande” de quem ela agora cuidava – cerca de cinco anos. Será mesmo que seria mais fácil com esse, se acontecesse?

Tive uma vontade enorme de chorar, mas me segurei. Tive vergonha de usurpar com o meu choro de espectadora aquela dor que eu desconhecia por dentro.

Eu, pessoa lida como branca, brincando no parquinho com minhas crianças lidas como brancas no meio de um dia de semana, porque tenho o privilégio de não ter que trabalhar. Eu, que não suporto a ideia de estar longe delas por mais que algumas horas, que se tivesse que deixá-las em casa para trabalhar, teria depressão. Que se tivesse que deixar para sempre uma criança de quem cuidei com amor desde seus primeiros meses de vida, teria depressão.

Depressão. Essa coisa que só se admite em gente branca. Ela não teve o luxo de ter depressão, teve tristeza e falta de apetite e bora trabalhar que a vida não se ganha sozinha. Então estava ali, um uniforme branco revestindo sua pele negra, olhando o filho de outra pessoa para poder ter casa e comida para a família dela.

Quem estaria olhando es filhes dela? Em que parquinho ensolarado e cheio de árvores e brinquedos estariam, rindo felizes enquanto observades com atenção e afeto? Em que colo aconchegariam suas dores, de que voz ouviriam cantigas de roda? De que deliciosos quitutes especialmente preparados com ingredientes saudáveis desfrutariam?

Como eu já disse, o retorno das pessoas com filhes ao trabalho deveria ser uma escolha e não uma imposição, uma necessidade; é um absurdo que poder optar ainda hoje seja um privilégio. Como, por conta do machismo e do adultismo, a criança é vista como estorvo e problema da mãe, não há apelo para que os pais assumam a paternidade de fato, nem apoio para que mulheres mães sigam trabalhando e estudando e participando da sociedade.

Não há apoio para as brancas ricas conciliarem trabalho com maternidade sem explorarem mulheres mais pobres e há ainda menos apoio para que as mulheres pobres não se vejam forçadas a se submeter à exploração para alimentarem suas famílias, já que a falta de empatia atinge mais acentuadamente as pessoas vistas pela nossa sociedade racista e elitista como menos humanas, como não iguais. Ainda há quem trate políticas públicas como “estímulo à procriação“, por exemplo – gente rica tem filhes, gente pobre procria.

Outra babá que estava ali mais tarde me contou que estava de aviso prévio na casa da menina loura de olhos azuis que criara com tanto carinho desde os vinte dias de vida. Contou que tinha cuidado da menina mesmo em muitos finais de semana, em viagens, que muitas vezes tinha ficado até as dez da noite ao longo dos sete anos que “passou com essa família”. Que, mesmo de férias, tirava do bolso para ir ver a menina, porque sabia que a criança não ficava bem sem ela por muito tempo.

Discreta, me disse que estava saindo porque queria tentar outras coisas, mas depois a ouvi quando deixou escapar à amiga ao lado que parecia que, para as pessoas suas patroas, tudo estava difícil se era para dar aumento para ela, mas estava fácil se era para gastar com outras coisas.

Menina e babá estavam amuadas. A criança não queria brincar já há dias, ela contou, com um misto de culpa e resignação. Contou também que a mãe da criança, ao receber o pedido de demissão, havia dito “mas a menina vai sentir tanto!” Que ódio me deu ouvir isso. A menina vai sentir tanto, que malvada a babá fazê-la se sentir assim, né? Deveria ficar lá, recebendo um salário injusto, para não fazer mal para a menina.

Como alguém é capaz de usar uma criança para extorquir a outrem, principalmente alguém com quem já se tem uma relação desigual de poder? Usar o amor de uma pessoa contra ela própria é a chantagem mais sórdida que eu posso imaginar.

Mas ela não disse isso com raiva, disse como se a patroa estivesse reconhecendo a importância dela na vida da menina. Vai ver estava e eu é que via maldade onde não havia. Quem sabe.

Outra babá me contou que o segredo para não perder o emprego é saber trabalhar com o ciúme do pai e da mãe. Claro que ela não colocou dessa forma; disse apenas que, quando o pai e a mãe do menino de dois anos que ela olhava chegavam em casa, ela o estimulava a ir brincar e conversar com eles porque, “se a mãe chega e a criança fica agarrada na babá, ela não gosta, né?”

Crianças precisam de amor. Como cuidar de uma criança sem amá-la? Como amar uma criança sem se entregar a esse amor? E como se entregar a amar uma criança sabendo que se pode perder todo contato com ela num estalar de dedos? Como se entregar a ser amada por uma criança sabendo que também ela poderá ter que enfrentar o dilaceramento emocional de um afastamento forçado? Existe profissionalismo possível ou mesmo desejável numa relação que envolve um laço afetivo tão profundo?

Mulheres negras são forçadas a cuidar de crianças brancas desde que primeiro chegaram ao Brasil, depois de caçadas, aprisionadas e escravizadas; são ainda hoje forçadas a cuidar das crianças brancas em detrimento de suas próprias crianças negras. Mais tarde, essas crianças brancas de quem elas cuidaram serão as pessoas adultas brancas que, tendo aprendido desde cedo que essa é a ordem natural das coisas, terão mais crianças brancas que também serão cuidadas pelas filhas negras dessas mulheres negras.

O racismo mais difícil de ser purgado é esse racismo sem querer. Esse que vem da naturalização das coisas, da monstruosidade cotidiana resultante da insensibilidade das pessoas que detêm tantos privilégios que sequer se dão conta de que é isso que eles são.

Creio que não temos como romper com o ciclo de opressões se não nos dispusermos a reconhecê-las e desconstruí-las antes dentro de nós. Não temos como revolucionar o mundo se fugirmos às problematizações que nos deixam desconfortáveis.

Não basta abrirmos o peito. Precisamos abrir também a mente.

Quem será que limpa a casa da empregada?

Este é um guest post de autoria da Cris Matos, publicado originalmente na Revista Fórum em 29/06/2015.

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Nasci no dia 23 de julho de 1994 em João Pessoa-PB às 5h20 da manhã. Minha mãe vem de uma família muito pobre em uma cidade muito pequena da Paraíba. É uma mulher que não se declara negra, mas nunca foi lida como branca. Sofreu algumas formas de racismo, principalmente quando ainda tinha um black power com cabelos crespos, ou carregava no colo a filha branca de cabelos claros.

Eu sou essa criança; apesar do nariz largo e os lábios grossos como da minha mãe, sou branca como meu pai. Meu pai (ausente toda vida) é um homem branco de olhos verdes, escolarizado, que trabalhou por anos em um cargo alto em uma grande empresa automotiva e por coisa de quatro anos não tinha o dobro da idade da minha mãe.

Pouco sei sobre ele, e depois de quase 21 anos isso não faz tanta diferença. Eu quero falar da minha mãe. Ela eu sei quem é, e ela me importa falar quem é. Não posso falar por ela, apesar de muitas opressões que ela sofreu e sofre terem respingado em mim e fazerem diferença em quem eu sou hoje.

Podem me chamar de Cris, sou filha de uma empregada doméstica.

Após meu pai nos abandonar, eu e minha mãe viemos para São Paulo. Ela tinha 26 anos e eu 2 anos e 9 meses. Viemos com a patroa dela, com a esperança de um emprego e uma vida melhor.

Não foi bem isso que aconteceu. Poucos meses depois ela foi demitida. Moramos de favor por um tempo, e assim que minha mãe se restabeleceu ela passou a carregar toda uma família nas costas.

Minha mãe lê e escreve muito mal. Quase não teve acesso à escola, e o pouco que teve era precário. Meu avô trabalhava em um parque carpindo, minha avó cuidava de mim e meu tio menor de idade também trabalhava. Minha mãe era a única que sabia ler, e era quem mais ganhava para por comida em casa.

Eu quase não via minha mãe, ela saia muito cedo e chegava muito tarde. Tenho poucas lembranças de passeios que fiz com ela, mas lembro bem dela contando dos filhos de suas patroas, o que faziam, o que deixavam de fazer. De quando ia levá-los e buscá-los na escola, ou da viagem que fizeram à praia.

Eu, que nasci em uma casa de frente pra praia de Tambaú, nunca tive oportunidade de conhecer o mar, muito menos com a minha mãe. A patroa tinha ciúmes da minha mãe com os filhos dela, e eu também.

Meus passeios eram com a minha avó, devo dizer que talvez essa seja a parte mais feliz de toda minha infância, eu brincava a tarde toda no parque em que meu avô trabalhava. É um parque em uma área até que mais “rica” de São Paulo. Eu estava lá diversas vezes por semana, às vezes dia sim dia não, às vezes só não ia no domingo que minha mãe estava de folga.

Lá, eu fazia muitos amigos que iam com babás, quase nunca alguém com o pai, de fim semana tinha vários avós, mães, famílias completas…

Minha mãe só pôde me levar em um parque quando não tinha mais graça.

Conforme os anos passavam, via minha mãe chegar cansada em casa, estressada. Eu quase não via TV nessa época e não era porque minha mãe achava que me prejudicava. Era porque só tinhamos uma e, após fazer o jantar – que quando ela chegava tarde era miojo – ela queria deitar e assistir TV. Óbvio que eu chorava porque queria ver as Meninas Superpoderosas, mas não tinha conversa.

Hoje eu a entendo. Minha mãe às vezes se lamentava de não poder comprar mais uma TV, ficava com dó de eu não poder assistir. E deixava os filhos da patroa às vezes verem TV quando não podia porque “que frescura de fazer mal, tem várias TVs na casa, se não tivesse ia querer que assistissem”.

Mas todo domingo de manhã assistíamos juntas a alguns desenhos. Sonhava também em me dar um computador, os filhos da patroa tinham, ela se preocupava em saber que quem não soubesse mexer no computador teria dificuldade de estar no mercado de trabalho. Ganhei um computador com 15 anos de idade.

Minha mãe ouvia a patroa falar sobre criança ser criança, sobre a pressão para uma criança já ir sendo moldada para o mercado de trabalho, e me perguntava todos dias qual seria minha profissão. Eu não tinha muito tempo de sonhar, minha mãe me dizia: “mas isso não dá futuro! Você não pode ser todas essas coisas ao mesmo tempo, tem que escolher algo que te dê futuro.”

Minha mãe engravidou e isso mudou minha vida. As nossas vidas.

Eu tinha quase 8 anos quando minha irmã nasceu. Minha mãe foi demitida, ela não podia pagar para olharem duas crianças, não saía a vaga da creche. A nova patroa, com o tempo, deixou minha mãe nos levar para lá. E se antes eu não tinha como, agora eu passava o dia na frente da TV e minha irmã ficava no carrinho comendo os pés ou um brinquedo ou qualquer coisa que deixasse minha mãe terminar o serviço. Quando acabavam as férias eu ia para a escola e minha mãe levava somente minha irmã. Uma vizinha esquentava o meu almoço e eu ficava dentro de um quarto de pensão comendo nuggets requentado com ketchup e na frente da TV, não tinha mais ninguém em casa para querer assistir.

Minha mãe trocou de emprego algumas outras vezes até a vaga na creche sair, meu padrasto começou a se mostrar violento. Passamos fome. Minha mãe vivia sobrecarregada e é aqui onde o meu direito a uma infância saudável acaba. Eu quase não via minha mãe, e quando via meu padrasto estava do outro lado tentando matá-la ou bater nela.

Ele ficou desempregado. Minha mãe tinha que pegar várias faxinas além do serviço que já fazia para dar conta de tudo. Ela não tinha tempo de limpar nossa casa, mas eu tinha. Eu fazia tudo o que todos os adultos deveriam fazer. Todos os dias.

Eu me sentia pressionada, triste, apanharia se não fizesse. Eu ia para escola e, na volta, tinha que limpar tudo de todo mundo. Pode parecer pouco porque era só um quarto, mas eu não queria fazer aquilo, eu queria brincar e aquilo era a minha obrigação. Eu nasci com essa obrigação, como mulher e como a filha mais velha de uma empregada doméstica.

Mas não se enganem em achar que se eu fosse homem não teria que fazer, talvez se tivesse uma irmã mais velha ou de idade aproximada não, mas meu primo também perdeu a infância cuidando de três irmãos pequenos e limpando a sujeira da família, porque o pai puxava uma carroça e a mãe limpava chão.

Enquanto a patroa contratava minha mãe porque julgava necessário não perder tempo limpando a casa, para curtir os filhos aos fins de semana ou qualquer que seja lá o que ela precisava curtir, minha mãe trabalhava para por comida na mesa, não tinha tempo de limpar a própria casa, eu a limpava. E quando ela tinha um tempo ou pegava mais uma faxina, ia lavar nossa roupa ou fazer uma faxina pesada na nossa casa, pois minha irmã vivia com bronquite e eu era uma criança, nunca ia limpar nada direito.

Quanto tempo eu e milhares de outras crianças filhas de empregadas perderam de sua infância para que uma mulher de classe média tivesse a casa limpa e mais tempo em sua vida? Não sei, poucas não foram. Nem são. Mas, certamente, se minha mãe tivesse opção, não teria feito isso comigo.

Eu não culpo a minha mãe. Apesar de já ter sentido muito ódio de ter passado por tudo isso, hoje vejo que ela é uma vítima que fez outras vítimas. As patroas dela, que eram pessoas “boazinhas”, me diziam que eu tinha que ajudar, me diziam que eu estava errada, que eu tinha que limpar sim. Mas quantos dos filhos e netos delas precisavam fazer isso se tinha a minha mãe lá até para recolher o papel de merda que eles deixavam cair no chão? Quantas delas mesmas precisavam fazer o que eu com oito anos de idade tinha que fazer para ajudar minha mãe? Nenhum deles.

Essas mesmas pessoas que já faziam minha mãe me explorar, que os filhos e netos chegavam com carro do ano mas não podiam aumentar R$100,00 no salário dela, não perderam também a oportunidade de me explorar diretamente.

Na minha vida eu só fui a dois passeios desses caros que tem na escola. Minha mãe nunca podia pagar. Uma vez eu chorei porque queria ir ao circo, o ingresso custava R$5,00, mas se eu fosse não teria dinheiro para feira. Em um desses passeios, que era ao finado Playcenter e eu queria muito ir, minha irmã acabou ficando muito doente. Minha mãe ia ao hospital todos os dias com ela e eu, com 11 anos de idade, fui lá limpar tudo para as senhorinhas tão coitadas que precisavam de ajuda tendo familiares saudáveis, com carro e disponibilidade.

Me davam dois reais, três, quatro, e eu comecei a falar que juntaria para o meu passeio. Eles poderiam me dar esse passeio, não que fosse uma obrigação, mas eles não tinham o direito de se aproveitar do desejo de uma criança. Consegui ir ao passeio, foi legal, mas me dói saber que para ter esse passeio passei por uma coisa que os filhos dessas pessoas jamais passariam em nenhuma situação.

Demorei 5 anos para perceber que isso era uma violência. A percebi quando, anos mais tarde, o filho de uma dessas senhoras, que já faleceram (e minha mãe mantém um certo contato, um laço de amizade), me propôs, aos 16 anos, ir lá fazer faxina na casa da filha dele que acabava de ter um bebê.

Eu não fui, eu não precisei e minha mãe não deixaria. Ela me disse com uma certa felicidade na voz que eu não era mulher para isso. Eu estava terminando o ensino médio e minha mãe disse com orgulho a esse senhor que eu havia passado em oitavo lugar em um curso técnico público.

Minha mãe trocou de emprego, saia às 20h30 e chegava só no outro dia às 7 da manhã. Para se livrar e nos livrar de um relacionamento abusivo.

Deixou de dormir para trabalhar à noite limpando um hotel e ganhar mais, mesmo deixando duas meninas menores de idade em uma casinha na favela, mesmo saindo com o coração na mão, rezando para todos os santos do qual é devota, ela foi porque isso era menos pior e mais rentável do que limpar a casa dos outros. Porque assim ela conseguiu comprar uma casa na favela e pagar os R$ 500,00 de material que eu gastava por semestre no curso técnico, que era público.

Minha mãe querida, minha mãe sofrida, minha mãe que tanto vi reclamar de ter que limpar a sujeira dos outros e ganhar pouco – “tá vendo isso aqui? Estude para não ter que fazer! Trabalho, trabalho e não ganho nada, não me sobra nem pra comer uma pizza, tomar um sorvete…” –, minha mãe que vi contar discriminações que sofria e nem entendia porque estava incomodada, minha mãe que EU VI ser discriminada, por sua cor, por ser mãe e solteira, por ter duas filhas que não eram do mesmo pai e da mesma cor, por apanhar do marido (que agora é ex, graças à Deusa), por limpar a sujeira dos outros.

Minha mãe que me machucou porque foi tão machucada a vida toda, porque acreditou de verdade que era o melhor para mim (ou para nós), minha mãe que tanto se orgulha do que faz, que AMA trabalhar, que diz com satisfação que limpa bem, que gostam do que ela faz, que elogiam seu capricho e agilidade, se culpou a vida toda por não ter estudado mais, por não ser “alguém na vida”, sonhou em saber inglês, sonhou ser advogada.

Eu não tive a infância que muitas crianças têm, eu tive a infância que nenhuma criança deve ter. Às vezes não tinha o que comer, e se tinha não era sempre do melhor ou mais saudável; não tive pai, tive uma mãe pouco presente, tive uma mãe que cometeu diversas violências contra mim porque diversas violências foram cometidas contra ela.

Minha mãe limpou até túmulo de gente rica, literalmente, sem ter onde cair morta, para termos o que comer, para pagar as contas e para comprar remédio. Perguntavam se ela não tinha medo. Ela dizia que não: o fantasma de que ela tinha medo provavelmente era não ter o que por na mesa.

Se hoje você pode ler meu texto razoavelmente bem escrito é porque, apesar de todas violências que passei com a minha mãe, ela fez das tripas coração para eu não ser como ela, para que eu não precise nunca fazer o que ela faz. Ela me criou dizendo isso. Desde que eu me entendo por gente, não existe um dia na minha vida que eu não me lembre de ter ouvido isso da minha mãe.

Empregadas domésticas nunca sonharam com isso, nunca sonharam em limpar a sujeira dos outros, não sonharam com essa profissão. Tampouco é o que querem para seus filhos. Aos trancos e barrancos, fazendo das tripas coração, com cada gota de suor e sangue, debaixo de chuva ou de sol essas mulheres lutam para salvar seus filhos da fome, do frio, e da dor de não serem “alguém na vida”.


 

Cris Matos é técnica em modelagem de vestuário e mãe da Clara, de 27 meses.

Quem cuida de quem cuida

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 17 de maio de 2015

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A maternidade não é simplesmente uma escolha pessoal.

Nós, mulheres, somos constantemente empurradas no sentido dela. É uma pressão exercida tanto de forma direta e descarada, pela cobrança por parte das pessoas (conhecidas ou desconhecidas, já que, aparentemente, o status reprodutivo de uma mulher é assunto aberto ao comentário do grande público), quanto de forma indireta, toda vez que é repetida a mensagem de que o amor só é completo, e a mulher, realizada, depois des filhes. Que a existência de crianças de alguma forma impedirá o homem de abandonar o relacionamento – e que a pior coisa que pode acontecer no mundo a uma mulher é ela “perder seu homem”.

Não raro, com o intuito de convencer mulheres a procriarem, ouve-se, inclusive, a “ameaça” da solidão na velhice (“quem vai cuidar de você quando você estiver velhinha?”), como se esse fosse um mal que acometesse apenas as pessoas sem filhes. Aliás, preciso dizer que o mesmo adultismo que transforma crianças em ferramentas para punir a mulher que ousa fazer sexo (“abriu as pernas? Agora cria”) é o que fundamenta o egoísmo que coloca pessoas no mundo para que, no futuro, elas retribuam esse “favor” prestando sua companhia, não por vontade, mas por sentirem-se obrigadas a isso.

Além disso, o aborto continua sendo crime, a educação sexual segue, em geral, precária, tanto dentro quanto fora de casa, a maior parte das medidas contraceptivas e anticoncepcionais realmente seguras e sem o risco de efeitos colaterais graves (a pílula, por exemplo, hoje se sabe que causa diversos problemas de saúde) são inacessíveis para a maior parte da população, e a laqueadura ainda é tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples (a suposição de que a mulher que está ali, pedindo para ser esterilizada, na verdade não sabe bem o que quer da vida e tem que ser protegida de sua falta de noção por essa pessoa maravilhosa que é formada em medicina).

Enfim, por tudo isso, tratar a maternidade como se fosse um capricho da mulher, uma escolha pessoal dela e só, é de um simplismo muito conveniente para uma sociedade que adora cobrar, mas detesta pagar.

Mas, ainda que o único fator que levasse hoje uma mulher a ter filhes fosse a vontade dela própria de fazê-lo (e, sim, há casos em que isso é verdade e tenho o privilégio de me incluir entre eles), isso não apagaria o fato de que é de interesse da sociedade que ela o faça. Sim, pois, sem crianças hoje, não haverá pessoas adultas amanhã. Trata-se da continuidade da espécie humana.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora, mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar, talvez até mesmo a sua sobrevivência, dependerão. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Não à toa, em países em que a pirâmide social se inverteu (ou seja, em que há menos pessoas jovens que pessoas de mais idade) há hoje políticas de incentivo à maternidade, incluindo a busca por imigrantes que tenham crianças na família, tamanho o desespero.

Ou seja, ao invés de torcer o nariz para a mulher que está com um bebê no colo, lembre-se que ela está prestando o serviço de aumentar o contingente populacional humano ao seu redor. Especialmente se você próprie não tem ou não pretende ter filhes, agradeça pelo fato de outras pessoas estarem dispostas a fazê-lo e procure entender as necessidades específicas delas, ao invés de tratá-las como se não devessem existir.

E não é apenas de interesse da sociedade que bebês continuem nascendo; é de interesse da sociedade que esses bebês sejam bem nutridos, bem amados e bem educados. Mesmo que sejamos absolutamente egoístas e não sintamos qualquer empatia por crianças, ainda será melhor para todes que elas recebam sempre os melhores cuidados possíveis. Porque, quanto melhor nutridas, mais saudáveis e menor o custo para o nosso sistema de saúde, por exemplo. Maior a sua força e disposição para o trabalho. Quanto melhor educadas e amadas, maior a probabilidade de que se tornem pessoas empáticas, cooperativas, conscientes da coletividade ao seu redor, perceptivas de suas individualidades como partes do todo em que estão inseridas. E por aí vai.

Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Daí, a questão é: como podem as crianças ser bem nutridas, bem amadas e bem educadas num contexto em que suas mães estão sempre sobrecarregadas e estressadas, forçadas a escolher entre ses filhes e si mesmas, seu trabalho ou seus estudos?

Quantas mães se sentem apoiadas em sua maternidade? E quantas se sentem isoladas e desamparadas?

Quantas sentem que a conciliação da maternidade com suas carreiras profissionais, acadêmicas, etc., foi facilitada pela sociedade como um todo e pelas pessoas ao seu redor? E quantas sentem que, tão logo pariram, suas presenças se tornaram indesejadas em qualquer ambiente que não sejam seus lares?

A criança é muitas vezes tratada como um castigo (em alguns casos divino, inclusive), e frequentemente é vista como um estorvo para a mãe, uma coisacuja existência inevitavelmente a impedirá de viver uma vida plena. Como se não houvesse nada que qualquer pessoa pudesse fazer a respeito – “que pena que ela engravidou… vai acabar largando a faculdade”. Eu acredito que todes deveríamos empreender um esforço maior para a inclusão real das mães e de suas crianças. Porque, na verdade, o problema não são as crianças – crianças são pessoas, não problemas. O problema é a atitude das pessoas adultas que se recusam a fazer a parte que lhes caberia e teimam em excluir mães e crianças do convívio social.

Até mesmo na militância nós vemos isso. Pessoas que não compreendem as dificuldades das militantes que são mães, que não admitem a presença de crianças em reuniões, nem buscam soluções alternativas, pessoas que cobram tempo e disposição que mães muitas vezes simplesmente não têm e acabam perdendo a voz no movimento por isso.

E essa marginalização é especialmente danosa na esfera profissional, porque, apesar de ser também particularmente sentida na esfera acadêmica, trabalhar não é, para a maior parte de nós, uma escolha, mas uma necessidade imposta pela sociedade capitalista em que vivemos. A atitude que dificulta que alguém trabalhe coloca em risco a sua própria sobrevivência ou, no mínimo, seu bem-estar, na esmagadora maioria dos casos.

Costumamos dizer que nós, mulheres, “conquistamos” o mercado de trabalho (me refiro aqui, claro, ao trabalho antes pensado como “masculino”). Mas será que isso é mesmo verdade quando quem teve que se adaptar fomos nós?

Penso que, se as mulheres tivessem entrado no mercado de trabalho com o mesmo status de seus colegas homens, suas particularidades pessoais e suas necessidades especiais, inclusive as relativas à maternidade, seriam levadas em consideração e acomodadas, ao invés de repudiadas e inclusive usadas como desculpa para que não sejamos contratadas ou o sejamos em piores condições que os homens.

Nós fazemos todas as adaptações para que eles não tenham que fazer nenhuma. Sequer se espera que pais abram mão de suas carreiras profissionais e acadêmicas. Da cervejinha e do futebol com os amigos.

Mesmo quando as mães se mantêm trabalhando, suas carreiras sofrem interrupções muito maiores e mais frequentes que as de seus maridos, que costumam ser tratadas como prioritárias mesmo quando eles ganham menos. Essa tendência, claro, se agrava em caso de separação.

Sim, a criança precisa da mãe. Mas será que apenas a mãe pode suprir todas as necessidades da criança, vinte e quatro horas por dia? E será que, mesmo nos casos das necessidades que só podem ser supridas pela mãe, não há nada que se possa fazer para facilitar que isso ocorra sem prejuízo para outros aspectos da vida dela?

As necessidades específicas da mãe e da criança são tratadas como se fossem algo que a mãe tem que ou se virar sozinha para satisfazer (o que sobrecarrega a mãe) ou forçar a criança a lidar com sua não satisfação (o que sobrecarrega a criança). É como se um tratamento diferenciado para suprir essas demandas fosse um privilégio e não o acolhimento de particularidades que surgem do atendimento de um interesse que é, como demonstrado, inegavelmente coletivo.

Mães e crianças oficialmente fazem parte da sociedade, mas, na prática, apenas usufruem dela na medida em que conseguem se adaptar a estruturas idealizadas para pessoas adultas e sem filhes – este é o padrão e tudo o que “se desvie” disso deve ser “corrigido” (anulado, neutralizado ou silenciado) para que se mereça conviver de fato. Quem não consegue “se corrigir”, na prática fica de fora, para escanteio: crianças são discriminadas por serem crianças, ou seja, pessoas que têm necessidade de correr, pular, verbalizar, de instalações específicas, de espaços minimamente seguros, etc.; e mães são discriminadas por serem mães, ou seja, pessoas que precisam de horários flexíveis, de contato com ses filhes, etc.

Viver em sociedade significa estar junto de outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade e acomodar as necessidades específicas de cada pessoa, de forma a possibilitar sua efetiva participação na vida em comunidade. Não é o indivíduo que tem que adaptar suas necessidades ao que a sociedade considera cômodo; é a sociedade que tem que se adaptar para satisfazer essas necessidades, mesmo que tenha que sair de sua zona de conforto para tanto.

Não se trata de pessoas sem filhes trabalharem mais para “as folgadas” com filhes trabalharem menos. Não se trata de forçar pessoas sem filhes a conviver com crianças mesmo quando elas não quiseram tê-las. Trata-se de entender que pessoas com filhes já têm uma carga de trabalho descomunal em comparação a quem não tem filhes, e que essa carga vem de um serviço que, no fundo, está sendo prestado para toda a coletividade, inclusive quem não pretende procriar.

Bruxarias

***Publicado originalmente na Revista Fórum em 08 de abril de 2015

E eis que dei minha primeira palestra sábado passado. Quem me convidou foram as diretoras Regina Freitas e Sílvia Gimenes, do Sindicato dos Securitários do Paraná; o evento era o XV Encontro das Mulheres Securitárias do Paraná. O encontro é organizado por elas todos os anos com muito carinho, mas esta edição, por ser a décima quinta, foi especial e eu me sinto honrada de ter podido fazer parte disso.

Passamos o fim de semana todo juntas (minha família, que me acompanhou, também estava lá) e foi uma oportunidade fantástica de aprendizado para mim. Eu já havia feito rodas de conversa antes, mas nada estruturado, com apresentação etc. e foi muito legal poder experimentar esse novo formato.

Era um grupo diversificado, com pessoas das idades mais variadas; algumas sem filhes, a maioria mães, outras já avós e inclusive uma bisavó simpaticíssima. O que todas ali tinham em comum era o prazer em estar e a vontade de conviver com outras mulheres. O interesse em participar de um ambiente praticamente exclusivamente feminino. E isso, infelizmente, é algo raro em um mundo em que somos educadas para vermos umas às outras como inimigas, como concorrentes pela atenção e aprovação masculinas.

Ainda são maioria, infelizmente, as mulheres que vivem dentro dessa ilusão criada para nos desunir, para nos enfraquecer, para que não nos revigoremos com o bálsamo que é o contato com pessoas que entendem de fato aquilo que nós passamos, mesmo que cada uma passe de um jeito diferente.

Tive a oportunidade de falar sobre o mito da mulher multifuncional e o quanto essa exaltação da sobrecarga da mulher é uma forma de mantê-la desesperadamente buscando essa aprovação, tentando dar conta de fazer o impossível, ao invés de perceber que não teria que fazer sozinha o trabalho de dez pessoas se quem está ao redor dela fizesse a sua parte.

Também pude enfocar a maternidade como assunto de interesse coletivo, no sentido de perpetuação da espécie humana, e do quanto é absurdo que a mesma sociedade que tanto pressiona, direta ou indiretamente, a mulher para que se torne mãe, desampare-a tão logo ela engravide, como se fizesse sentido ela ter que se virar sozinha para lidar com a conciliação de sua maternidade com outras esferas de sua vida – especialmente a profissional e a acadêmica. Esse assunto me é tão caro neste momento que pretendo, aliás, fazer um texto só a respeito disso, que estou há meses rascunhando, e a preparação para essa palestra me ajudou a sintetizar muito do que eu quero dizer nele. Me aguardem.

Mas, principalmente, pude entrar em contato com mulheres incríveis, divertidas, interessantes, cheias de histórias para contar e vivências para compartilhar. Rimos juntas, choramos juntas, nos indignamos juntas contra as opressões cotidianas e reconhecemos juntas tantas coisas que temos para desconstruir e reconstruir em nós.

Ouvindo sobre suas carreiras, aprendi muita coisa nova, assim como identifiquei muitas das coisas infelizes de sempre – aquele machismo péssimo que acompanha a existência de qualquer uma de nós, basicamente, tomando a forma, inclusive, de companheiros e chefes que tentaram sabotar a ida de algumas ao evento. E não é à toa, afinal, muitos homens se sentem ameaçados pela ideia de mulheres reunidas, rindo livremente longe da presença deles. Enquanto parece ser direito sagrado do homem sair com seus amigos, é vista com muita desconfiança a saída da mulher somente com outras mulheres. Claro. Instintivamente sabem que será esse o fim dos privilégios a que eles tanto querem se agarrar.

Talvez por isso seja essa a imagem da bruxa, uma mulher que cruza, livre, o firmamento adornado pela lua cheia, esse símbolo feminino tão antigo, preenchendo a noite com uma gargalhada maravilhosa e arrebatadora.

Antes de eu ir embora, Regina me disse que eu não me esquecesse delas, porque elas não se esqueceriam de mim. E eu disse, sincera e emocionadamente, que não. E não é porque foi a primeira palestra que eu dei na vida, mas por conta daquela energia feminina, orgulhosa e deliciosa, que me contagiou e me fortaleceu. Por conta das tantas coisas bonitas de carinho e cuidado e apoio entre mulheres que eu pude ouvir e ver entre elas. Foi uma experiência tocante e muito rica de sororidade e humanidade e eu sinto que sou outra pessoa depois dela.

Tenho certeza de que, mesmo daqui a décadas, eu ainda vou me lembrar de caminhar na praia à noite com aquelas mulheres sensacionais, conversando e dando risada enquanto o mar beijava os nossos pés. A lua não estava cheia, mas não fez diferença. Bruxaria é coisa linda, gente! ❤

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Eu sou a de preto ali no cantinho esquerdo da foto =)