Sobre amar Kilgrave

***Publicado originalmente na Revista Fórum, em 22 de fevereiro de 2016.

Jessica Jones

*ATENÇÃO!!! Este texto contém spoilers da primeira temporada da série Jessica Jones, da Marvel (disponível no Netflix). Tejem avisades. ***

Jessica Jones é uma série sobre uma moça que tem superforça e trabalha como detetive particular. A personagem, interpretada por Krysten Ritter, é egoísta, cínica, sarcástica… na verdade, ela é bem daquele jeito que tantos personagens masculinos (especialmente os de histórias de detetives) são e todo mundo acha “adorável” (vide Gregory House, Sherlock Holmes, uma pilha de personagens interpretados pelo Bruce Willis, aquele do Tim Roth no Lie to Me, e mais tantos outros – todos? – anti-heróis homens por aí).

Um dos aspectos mais interessantes do enredo é a forma como ele aborda e retrata violência sexual e relacionamentos abusivos. A série mostra uma mulher traumatizada, assombrada por memórias das quais não consegue se livrar, que a assaltam a qualquer momento, fazendo-a reviver uma dor que ela nunca foi totalmente capaz de processar.

Purple ManKilgrave, o vilão da primeira temporada, interpretado por David Tennant (o mesmo cara que fez um dos Doctors mais amados da série Dr. Who) tem o poder de controlar mentes. Ele é, sem dúvida, um psicopata típico – um narcisista que não sente remorso, nem é capaz de empatia – e seria, creio, um grande manipulador mesmo sem seus poderes.

Quando o acaso o leva até Jessica, Kilgrave apodera-se dela e a violenta continuamente, de mil maneiras diferentes, incluindo sexualmente, até que ela consegue misteriosamente se libertar, num momento em que ele, por coincidência, sofre um acidente e parece ter morrido. A história começa quando Jessica, já trabalhando como detetive e tentando lidar com o que passou, descobre que ele ainda está vivo.

Numa das cenas mais marcantes para mim, ela tem um flashback em que aparece numa “refeição romântica” com Killgrave. Ele, de costas para a câmera, diz a ela: “Pasta all’amatriciana. Você vai adorar”. E ela responde, com os olhos e o sorriso de uma boneca de plástico, vestida em roupas que a verdadeira Jessica jamais escolheria para si mesma: “eu vou adorar”.

“Eu vou adorar”. Essa cena, só essa, tão simples, já me fez chorar.

restauranteMais para frente, conforme a trama vai se desenrolando, descobrimos que Killgrave está, na verdade, “apaixonado” por Jessica. Que ele a “ama”. Ou, pelo menos, é isso que ele acha que sente, e é isso que ele diz a ela. E então, ele se propõe a “começar de novo” seu relacionamento com ela, propondo-se a não controlá-la.

Ele a corteja, sendo amável, recriando para ela a casa em que ela cresceu, punindo pessoas que foram cruéis com ela, e contando coisas de seu passado que lançam laivos de cinza sobre seu personagem. E ela responde, como seria natural a qualquer vítima de estupro e violência diante de seu agressor, com revolta e nojo.

No diálogo que foi, para mim, emblemático da temporada até agora, ele reclama da falta de intimidade com ela, ao que ela responde que isso acontecia porque ele a estuprava. Kilgrave fica chocado. Nega-se a reconhecer a violência de seus atos. Ela o pressiona e ele então diz a ela que não tem culpa. Que ele nunca sabe se as pessoas fazem o que ele quer porque elas próprias querem ou se estão sendo influenciadas pelo poder dele.

Coitadinho.

À medida em que eu assistia a essas cenas (principalmente nos episódios 7 e 8), me dei conta, com vergonha e confusão, que eu não apenas estava sentindo pena de Kilgrave, como estava me sentindo atraída por ele. Gostaria de dizer que fiquei chocada com isso, mas não seria verdade.

Uma parte de mim ainda estava sob o encanto de tudo o que ele representa. E todo o resto de mim sentia repulsa não apenas por ele, mas por aquela parte de mim mesma. Aquele pedacinho meu que, ainda, mesmo depois de sobreviver a abusadores escrotos como aquele, ainda se permitia seduzir por aquele estereótipo, mesmo que apenas em minhas fantasias.

Meu conflito interior foi tão intenso que eu fiquei obcecada. Passei a assistir de novo e de novo aquelas cenas em que ele falava de “amor”, fantasiando a respeito dele com Jessica, juntos, felizes. Eu me perdia nesses devaneios a ponto de ficar perigosamente distraída. E, claro, o tempo todo me sentia muito mal por isso. Sentia vergonha, humilhação.

Então compreendi que o que estava causando a minha fixação era precisamente esse meu julgamento de mim mesma, essa minha relutância em aceitar e acolher a menininha batida que, mesmo depois de tantos anos, ainda sentia a necessidade de transformar agressão em amor, porque daí talvez não doeria tanto lembrar daquilo tudo.

É difícil encarar o fato de que certas feridas talvez vão doer para sempre e pronto. Quando achamos que já superamos, vem alguma coisa assim e a gente vê o quanto ainda tem para a gente digerir.

Parei de tentar me impedir de pensar sobre aquilo e permiti que a minha imaginação fluísse junto a uma Jessica que dava a Killgrave todo aquele “amor” que ele tanto queria. Que o ensinava a ser um ser humano decente. Que, por algum milagre, conseguia separar, sem enlouquecer, o estuprador em seu passado da pessoa que estava diante dela no presente. E me esforcei ao máximo para não me julgar, me odiar ou escarnecer de mim mesma enquanto fazia isso. Tentei não potencializar o sentimento de vergonha, exatamente como eu faria se estivesse ouvindo a uma mulher presa em um relacionamento abusivo que ela não estivesse conseguindo deixar.

E fui descascando assim, mais uma vez, o desejo de ser amada, aprovada, especial, que um dia me levou a aceitar qualquer coisa que me fizesse sentir assim, ainda que ilusoriamente. E revisitei o desespero por agradar, a pena, a culpa por “não ser forte o bastante” para ficar com meu agressor até que ele se tornasse uma pessoa melhor, uma pessoa que não me machucasse, uma pessoa que me amasse de verdade. Como se fosse o meu papel fazer dele alguém bom ou morrer tentando.

Todas essas coisas que eu achei que já tinha superado. Todas ainda ali, ainda vivas; menores, diferentes, talvez, mas vivas. Será que um dia elas vão deixar de existir em mim? Ainda não sei. Mas acho que agora estou mais de boa com não saber.

A série foi progredindo e evidenciando a monstruosidade de Kilgrave. E, aos poucos, foi chegando aquele ponto. Aquele momento em que a ilusão se desfaz de vez e só sobra o horror e a repulsa. Aquele buraco dentro do peito, fundo, gelado, que abre quando a gente pensa “Como ele consegue fazer isso comigo?”, quando a gente se dá conta do quanto estávamos enganadas a respeito deles, do quanto aquilo não é amor. E dentro desse buraco floresce a ira.

O estalo quando ela quebrou o pescoço dele foi um dos sons mais gratificantes que eu já ouvi na vida.

Killgrave não morreu sozinho. Levou com ele mais um pouco do monstro que mora dentro de mim. E eu sou grata a Jessica Jones por isso.

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Esperança

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 31 de janeiro de 2016.

io-iôMuita gente tem me dito que perdeu a esperança, ou a fé, na humanidade. Que não acredita que possamos mudar o caminho em que estamos, que somos uma espécie fadada à extinção. Eu não vejo isso.

Eu ofereço escuta para muitas pessoas e muitas delas são mulheres tentando sair de relacionamentos abusivos. E eu vejo um paralelo entre o caminho que costumamos percorrer nesse processo, com suas incidentais recaídas, e o caminho que a humanidade faz em direção à sua libertação da lógica da dominação (base do capitalismo e do Estado).

Sair de um relacionamento abusivo pode, de fora, parecer fácil, óbvio, questão de autopreservação. Mas não é tão simples. Porque há todo um condicionamento, uma armadilha mental, que mantém a gente ali.

Tem a vergonha de estar naquela situação, que por si só muitas vezes nos leva a crer que a merecemos. Tem a ideia de que as coisas são assim mesmo, e a de que a brutalidade é paixão – algo que muitas vezes vem da tendência de tentarmos negar o abuso por conta da necessidade de nos sentirmos amadas: “ele é assim porque ele me ama de verdade”.

Além disso, nos apegamos aos “momentos bons” e costumamos ter a sensação de que é nosso papel cuidar do cara, transformá-lo numa pessoa boa. Que, se ele é violento porque está sofrendo, que não podemos abandoná-lo com esse sofrimento, ainda que ficar faça com que nós próprias soframos física e/ou psiquicamente. E o agressor se aproveita disso, desse condicionamento (ainda que nem sempre conscientemente), nos envenenando e manipulando para que não consigamos nos permitir escapar.

Essas barreiras podem ser invisíveis, mas não são inexistentes. E são muito difíceis de se transpor. Especialmente sem qualquer apoio.

Muitas vezes, ensaiamos partir… mas daí ele corre atrás, faz mil coisas fofas, promete que vai mudar, que vai ser tudo diferente. E a gente desiste. E volta. E normalmente, ao fazê-lo, nos sentimos fracas e tolas. Especialmente por conta da forma como a sociedade costuma dizer que a culpa é nossa, que nós é que nos sujeitamos (“mulher de malandro!”), que nós não merecemos respeito porque não nos damos ao respeito, etc. “Falta de vergonha na cara”, dizem, quando o que mais sentimos é, precisamente, vergonha.

Tudo poderia ser tão mais fácil se entendêssemos e entendessem que esse ir e vir, quando acontece, é parte do nosso processo interno, do nosso tempo.

Para conseguirmos sair sem olhar para trás, precisamos abraçar e desconstruir muita coisa dentro de nós. E isso não se faz da noite para o dia. E fica muito mais difícil sem apoio. Quando não há quem olhe para a gente com carinho, quem nos acolha, é quase impossível a gente conseguir acreditar que é digna de carinho e acolhimento.

Para passar pela porta, precisamos superar o medo. Medo de ficarmos sozinhas. Medo do desconhecido. Medo de que todas as coisas terríveis em que ele nos faz acreditar em relação a nós mesmas sejam verdade.

Havendo escuta e suporte, haverá fortalecimento. Haverá empoderamento. E, com isso, eventualmente vai chegar o ponto em que o medo vai perder. Em que a gente vai conseguir encarar nossos piores temores e falar “foda-se” do fundo do nosso coraçãozinho batido e pisado que até então já não se aventurava mais para fora da cozinha. Porque finalmente enxergamos que, independentemente do que vai ser, como está não dá mais para ficar. E ouvir que ninguém mais vai nos querer não assusta mais – ou pelo menos não tanto, não a ponto de nos manter ali. Porque mesmo que o cara fosse a única outra pessoa no mundo a gente não iria querer ficar com ele.

Similarmente, quando a gente faz que vai sair da merda em que estamos, coletivamente, como sociedade, a direita, o conservadorismo, vem com flores e bombons e bônus de natal. Com promessas de que tudo pode ser melhor sem mudar nada. Com ameaças de que, se a gente for para o outro lado, o céu irá desabar sobre as nossas cabeças.

E daí a gente volta.

Só que não é um relacionamento entre apenas duas pessoas. É um relacionamento de cada pessoa com a visão de mundo baseada na noção de que só há duas opções possíveis: estar por cima ou estar por baixo. Dominar ou ser dominade.

E não estamos sós. Em números crescentes, nos ouvimos e nos acolhemos e nos abraçamos cada vez mais quando falamos de nossa infelicidade dentro deste paradigma. A empatia está se tornando uma palavra corrente nos nossos vocabulários.

Assim, a exemplo do que costuma ocorrer quando mulheres presas num relacionamento abusivo recebem escuta, apoio e acolhimento, cada vez que a gente volta, mesmo voltando, a gente volta mais de saco cheio daquilo. Com menos disposição para nos enganarmos. Com menos vontade de ficar. Com mais e mais certeza de que, por mais doloroso que possa ser o fim, ainda mais dolorosa é a perspectiva daquilo nunca acabar.

Isso me dá esperança de que vá chegar o dia em que não vamos voltar mais.

A questão é: vamos sobreviver ao percurso? Às indas e vindas?

Muitas mulheres, infelizmente, não sobrevivem. Talvez nós, também, como sociedade, pereçamos no caminho antes de chegar num ponto em que pelo menos estejamos fora de perigo.

Espero que não. Seria uma pena.

Não fui eu que comecei

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 13 de janeiro de 2016.

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Será?

Sentimos mais prontamente e profundamente a dor que é nossa. Isso é natural, porque a pele que sente é a nossa. É necessário um esforço para pensarmos em como outra pele, revestindo outra pessoa, pode receber o contato conosco, lembrarmos que, assim como há coisas que nos ferem e não ferem outras pessoas, há coisas que não nos ferem, mas podem ferir outras pessoas. Por isso, muitas vezes, machucamos a outrem sem sequer nos darmos conta e, depois, diante de sua reação violenta, nos espantamos, não compreendendo que se trata exatamente disso – uma reação, uma resposta a uma agressão que cometemos, ainda que inadvertidamente.

Por exemplo, a nossa cultura é tão acostumada com a promiscuidade entre as instituições seculares e a fé cristã que hoje é comum que seus símbolos sejam considerados neutros. Aparecem até nas nossas cédulas de dinheiro – colocaram lá no cantinho, como quem não quer nada: “deus seja louvado”. Que deus é esse? Olorum? Alá? Zeus? Odin? Sabemos que não. Esse “deus”, inominado, único, masculino, é o deus dos cristãos, um deus que é tão subentendido como “O” deus na nossa sociedade que não precisa nem ser chamado pelo nome para que saibamos exatamente que é a ele que as pessoas estão se referindo.

Esse deus, apesar de excludente e marginalizador de outros deuses e invasor de espaços que nenhuma deidade deveria adentrar, não costuma ser visto assim pelas pessoas que o cultuam. Basta ver que o ‘pai nosso’ é considerado por muitas delas uma prece universal. Eu tenho um amigo, Cesão, que diz (muito corretamente, na minha opinião) que não é sequer uma oração terráquea, quanto mais universal.

Muitas pessoas nem sequer percebem essa imposição como violência. Como também não percebem o quanto a invisibilização, a ausência de representatividade, por si só, fere e exclui – e não é só em relação a religiões. Sempre que eu ajo como se só houvesse um grupo a ser considerado, ou como se um outro grupo não precisasse ser considerado, as pessoas que estão sendo desconsideradas podem, claro, sentir-se muito mal com isso. É como se elas fossem irrelevantes, como se elas não existissem… ou não devessem existir.

Voltando ao exemplo inicial, se uma pessoa cristã diz a alguém “deus te abençoe”, à primeira vista, ela só está desejando-lhe o bem. Mas, e se esse alguém for de uma religião não monoteísta? E se for uma pessoa ateia ou agnóstica? E se tiver sofrido perseguições terríveis a vida toda em nome desse deus que aparece nessa bênção tão bem-intencionada?

Talvez a menção a esse deus ative esses gatilhos emocionais. Talvez, ao ouvir a palavra “deus”, essa pessoa imediatamente se lembre de todas as vezes em que sua fé ou não fé foi desrespeitada, ignorada, demonizada ou ridicularizada. E, assim, talvez ela reaja com uma agressividade inesperada por quem a “abençoou”.

E aí? Ela é “casca de ferida”? Ela é “violenta”?

Eu acredito que não. Não quero dizer que isso justifique qualquer reação dela – afinal, uma opressão não justifica outra. Mas a indignação dela não é sem motivo. Não é “por nada”. Não é porque nós, pessoalmente, não nos ofendemos com alguma coisa, que ninguém mais se ofenderá com ela.

Sim, me faz bem (a mim, particularmente), apesar de ser agnóstica, ouvir em um “deus te abençoe” o sentimento de bem-querer, de cuidado, de carinho, por detrás dele e ignorar o “deus” que quis vir junto no pacote. Isso me ajuda a neutralizar o potencial de violência que essa expressão poderia ter para mim. Mas eu não vejo isso como um dever meu, ou algo que eu deva me forçar a fazer.

Eu consigo ver além das palavras, além do deus em nome do qual eu já fui agredida tantas vezes, o sentimento daquela pessoa – que me quer bem, não mal. No entanto, se eu tivesse passado pelas perseguições pelas quais outras pessoas passaram e passam, talvez eu não fosse capaz disso neste momento. Talvez nem quisesse um dia ser capaz disso. O que seria perfeitamente legítimo, me parece.

Tudo bem que eu não tenho como prever toda forma de interpretação daquilo que eu digo, mas eu não posso, partindo disso, desencanar e sair falando o que e como me der na telha, sem considerar as pessoas que aquelas palavras irão atingir. De que adianta falar se não importa a quem?

Não faz diferença se é desleixo, ignorância ou má-intenção; eu não posso simplesmente me isentar da minha responsabilidade em relação às consequências do que eu digo e faço para outras pessoas. Eu não posso incumbi-las de buscarem meus reais sentimentos nas minhas palavras, especialmente se eu própria não me esforço por levar os sentimentos delas em consideração quando me expresso.

Não basta falar “deus te abençoe” e simplesmente esperar que a pessoa entenda as coisas boas que estou emanando para ela com aquela expressão naquele momento. O interessante seria eu sair do meu umbigo e pensar que talvez eu possa transmitir esses bons sentimentos de outra forma, com palavras que não tenham o potencial de ofendê-la caso ela não consiga ignorar o “deus” que vai na frase. Por exemplo, por que não dizer, simplesmente, “boa sorte” ou “te desejo o melhor” ou “tudo de bom para você” ou coisa que o valha?

É fácil cobrarmos que outras pessoas superem traumas e violências que nós nunca sofremos, deslegitimarmos dores que nunca sentimos. O difícil é mantermos em mente que elas podem ter sofrido esses traumas e violências e nos esforçarmos para não feri-las quando somos capazes de evitar isso. O difícil é, diante da ira de outra pessoa, não reagirmos defensivamente, e nos abrirmos para aprender mais sobre a vivência dela, para nos tornarmos mais capazes de levá-la em consideração ao nos comunicarmos. Para entendermos melhor o que a pele dela sente.

Ninguém quer ser racista, machista, adultista, capacitista. Ninguém quer ser outrefóbice. Mas nós nascemos, crescemos e vivemos numa sociedade em que vigoram essas opressões, infelizmente. Assim, se nós participamos de um grupo opressor, a questão não é SE nós temos a opressão dentro da gente, mas O QUANTO dela está arraigada em nós e o que nós pretendemos fazer a respeito. Não podemos deixar o nosso “não querer ser” nos impedir de ver quem realmente somos. Porque não temos como desconstruir o que nos negamos a enxergar e reconhecer.

Maria e João

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 4 de janeiro de 2016

Era uma vez duas crianças, Maria e João, que viviam com sua mãe e seu pai em um casebre muito simples.

O pai, lenhador, era um homem muito triste e muito bravo, que trabalhava para uma carvoaria. Sua vida era tirar as vidas das árvores e, assim, de tudo o que dependia delas para viver. Com o passar dos anos, essa profissão de morte o enchera de uma amargura tão profunda que ele passara a tratar mal sua família, muitas vezes agredindo seus filhos e sua esposa.

A comida começou a faltar com cada vez mais frequência, e o lenhador foi se tornando cada vez mais violento.

A mãe, preocupada com o bem-estar das crianças, de coração partido resolveu enviá-las para trabalharem para uma madame que morava distante dali, acreditando que assim as protegeria da cólera de seu pai e da fome que os rondava.

Assim, aos poucos, ela começou a tentar convencer seu companheiro de que seria mais fácil viver sem Maria e João, pois teriam menos bocas a alimentar. Ele foi se acostumando com a ideia, até que acabou concordando com ela.

À noite, as crianças ouviam seus pais conversando. Em pouco tempo compreenderam que estavam prestes a ser mandadas embora. Isso lhes causou grande tristeza, pois elas não queriam viver longe da mãe e preocupavam-se com o que poderia acontecer-lhe quando ela ficasse sozinha, tornando-se o único alvo da ira do pai delas dali por diante.

A mãe não conseguia conversar com Maria e João a respeito, porque sabia que se negariam a ir. Não tinha coragem de lidar com suas reações.

No dia da partida, o pai os levou até a cidade onde morava a madame, dando instruções de como chegarem na casa dela. João, no entanto, mais velho que Maria, já aprendera a ler e, no caminho, foi decorando as placas e referências; tão logo seu pai virou as costas, pegou Maria pela mão e correu para procurar um meio de voltar. Bem próximo dali, por coincidência, acabou encontrando uma mulher que estava indo visitar sua família perto de onde eles moravam. Indicou a ela o caminho e ela os deixou em casa antes mesmo de anoitecer.

O pai os encontrou na porta e ficou estupefato. Enraivecido por ser contrariado, pegou-os pelos braços e arrastou-os para outra cidade, ainda mais longe, sob ameaças de maiores agressões caso não fossem, largando-os no centro, sem ter para onde ir, sem saber o que fazer.

Chorando, as crianças se abraçaram. Estava escuro e elas estavam cercadas por pessoas estranhas, desconhecidas, barulhentas.

De repente, um perfume delicioso de pão fresco enroscou-se em seus narizes. A fome acordou e abafou o medo. Fisgados pelo aroma aconchegante, seguiram-no até uma casa grande e muito bonita. Em uma de suas janelas estava um pão recém-assado, esfriando para poder ser comido.

João não queria pegar aquele pão, porque sabia que era de outra pessoa. Mas eles estavam com tanta fome! Não resistindo, arrancou um pedaço e repartiu com sua irmã. Queria sair correndo em seguida, mas o pão estava tão bom, tão gostoso, tão quentinho… que ele pegou outro pedaço. E outro. E outro. E logo eles haviam comido o pão todo.

– Ah, vocês estão com fome? – eles ouviram subitamente, e tomaram um susto tão grande que até pularam. Era a dona da casa, uma doceira famosa e rica, que os observava.

Ela então abriu sua porta para eles, dizendo:

Venham, podem entrar, venham comer.

Quando eles entraram na casa, a mesa estava posta para o jantar com várias comidas gostosas. Sem qualquer hesitação, as crianças lançaram-se sobre os quitutes, devorando-os até fartarem-se.

Foi só depois de eles estarem com a barriga bem cheia, sem poderem correr, que a senhora, com uma colher de pau na mão, sentou-se à mesa com eles e disse:

– Agora vamos conversar sobre como vocês vão me pagar pelo que comeram.

Captura de tela de 2015-12-20 16:21:40Maria, espantada, disse:

– Mas você não nos disse que teríamos que pagar para comer. Não temos dinheiro.

Ao que a mulher respondeu, com uma gargalhada:

– O quê? Achou que eu iria alimentá-los de graça? Você, menina, vai trabalhar aqui na minha casa. Vai arrumar e limpar e cozinhar para mim todos os dias. E você – ela olhou para João – eu vou achar formas para que você seja útil. Mas você precisa primeiro encorpar um pouco. – ela disse, apertando os olhos enquanto o olhava detidamente.

– Mas, se vamos trabalhar aqui, vamos precisar comer, daí vamos ter que pagar com mais trabalho, mas vamos continuar comendo. Não vamos sair nunca!

– Pois é – disse a senhora, com frieza. Deveriam ter pensado nisso antes de comer o meu pão na janela…

Os olhos de Maria encheram-se de lágrimas grossas de indignação:

– Pensar como? Estávamos com fome demais para pensar! Agora vamos pagar pelo resto das nossas vidas? Isso não é justo!

– Isso não é problema meu, menina atrevida! Não seja insolente! – disse a senhora, ostentando a colher de pau ameaçadoramente.

Nos dias que se passaram, Maria passou o dia trabalhando arduamente sob o olhar atento da doceira, que a seguia pela casa, brandindo sua colher de pau sempre que ela parava para descansar. À noite, ela dormia no chão frio da cozinha, sobre o tapete sujo.

João ficava sempre trancado em um dos quartos, com barras na janela; havia um buraco na porta por onde sua irmã lhe passava comida. Ele chorava de raiva e impotência enquanto a ouvia trabalhar. Como queria estar lá fora, nem que fosse para limpar e arrumar a casa junto com ela! Não era justo que ela tivesse que fazer tudo sozinha.

A madame o mantinha preso para evitar que ele se juntasse com Maria e conseguissem fugir, já que ele era maior. Por isso, levava a chave do quarto sempre consigo, pendurada em um cordão em volta de seu pescoço.

Um dia, a doceira encasquetou que Maria deveria limpar um lustre muito alto e por isso ela precisaria subir numa escada muito velha e capenga. Um perigo. Na verdade, o que ela queria era empurrar e matar Maria, porque estava ficando com medo do dia em que a menina estaria mais forte que ela.

Maria, no entanto, muito inteligente, percebeu isso. Quando a senhora mandou que limpasse o lustre, ela disse:

– Mas como?

– Limpe o lustre, oras! – a outra respondeu, rispidamente.

– Mas é muito alto e eu não alcanço…

– É para isso que serve a escada!

Captura de tela de 2015-12-20 16:27:47– Mas mesmo com a escada eu não alcanço…

A doceira parou, encarando-a com muita raiva. Em seguida falou:

– Como não alcança? Você é só um pouco mais baixa que eu e veja como eu alcanço facilmente – e subiu na escada – Veja, veja, menina preguiçosa, é só você subir…

E Maria rapidamente empurrou com força a escada e a criatura maldosa caiu de lá de cima, bateu a cabeça e desmaiou.

Maria rapidamente pegou a chave e abriu a porta do quarto. Os irmãos se reencontraram e se abraçaram e saíram correndo da casa. Antes de saírem, no entanto, pegaram o livro de receitas da confeiteira.

Já na rua, por sorte, encontraram a mesma mulher que antes os levara para casa. Ela se chocou com o estado das crianças, prontificando-se a retorná-las aos seus pais.

Lá chegando, foram recebidas de braços abertos por sua mãe que as agarrou chorando e pedindo perdão por tê-las enviado para longe. O pai não estava mais ali.

Com o livro de receitas, a mãe pode se tornar uma grande doceira e a família viveu feliz para sempre.

*******

Espero que tenham gostado! Estou planejando fazer um livro infantil com essa história, ilustrado pelo meu amigo César. Acho que vai ficar bem legal, aguardem! =)

Usuário ou traficante

***Originalmente publicado na Revista Fórum, em 17 de dezembro de 2015.

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De https://www.rollingstone.com/politics/news/the-next-seven-states-to-legalize-pot-20121218

Qual a diferença entre usuário e traficante?

“A quantidade”, alguns responderiam.

Só se for de melanina na pele.

Segundo a “Nova lei de tóxicos”, a lei 11.343/2006, é usuário “quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar”. Está no artigo 28; quem grifou fui eu.

Mas como se estabelece que a droga era para consumo pessoal? Como? Hein? Calma. A cavalaria chega no parágrafo segundo do mesmo artigo: “Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juizatenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.” De novo, quem grifou fui eu.

Ou seja, quem determina se é para consumo próprio não é a pessoa, é “o juiz”. O juiz. Ele. Deus.

Claro que a quantidade e natureza da droga serão levadas em consideração. Mas qual é a medida? Tem uma medida? Galera das antigas ainda acha que tem um x de gramas a partir do qual você, se for pego, será enquadrado em tráfico. Ledo engano, querides. Hoje em dia você pode ser enquadrado em tráfico com um único baseadinho no seu bolso.

Quer ver? Olha só o artigo que define o tráfico:

“Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas,ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar”. É o artigo 33. Mais uma vez, claro, os realces são meus.

Ou seja, amiguinhes, não tem essa de “era só uma ponta”.

Se “o juiz” olhar para você e achar que você tem cara de traficante, você é traficante. Porque, né, é só pensar nas suas “circunstâncias sociais e pessoais”. É só considerar o “local”. É só levar em conta a sua “conduta e antecedentes”. Quer dizer, como você pode ser traficante se você é uma pessoa universitária, de classe média, que estuda direito?

Pessoas negras, pessoas pobres, são mais denunciadas, processadas, condenadas e mantidas presas no nosso sistema penal. Não por praticarem mais crimes, ou crimes mais graves, mas simplesmente porque o sistema é racista, o sistema é elitista, o sistema é genocida. O sistema está determinado a excluir, marginalizar e matar pessoas pobres e, principalmente, negras. E daí, a “estatística” de estarem em maior número em nosso sistema prisional é usada como evidência de que são a maioria entre infratores, de forma a justificar o preconceito no sistema com um argumento pseudo-científico. É uma referência circular.

E que justiça há em se falar em antecedentes num sistema que se especializa em perseguir pessoas pobres e negras? Eu me pergunto hoje quantos “antecedentes” eu já não teria se eu não fosse uma pessoa lida como branca e de classe média. E mesmo que o sistema fosse justo em relação a isso, que diferença fariam os antecedentes? Então, se você já “errou” antes, tudo o que você faz depois tem que ser julgado a partir desse erro? Deve-se presumir que você sempre vai errar? Que excelente incentivo para que uma pessoa sequer tente deixar de errar, né?

Quem duvida é só ler a lei. O mesmo documento que permite tirar a pessoa branca da cadeia permite manter a pessoa negra dentro dela. É por conta disso que a pessoa branca universitária pega com drogas é consumidora e a pessoa negra favelada pega com drogas é traficante. Afinal, na nossa sociedade, a pessoa branca comete “erros”; a pessoa negra comete “crimes”. A pessoa branca é “jovem” e a pessoa negra é “menor”.

Daí que a lei que supostamente vinha para abrandar o endereçamento da questão das drogas na verdade aumentou o número de prisões relacionadas a elas. Porque abrandou só para quem interessava abrandar. Para “o resto”, piorou, e muito.

E, ainda que você acredite que o sistema funciona, que “há pessoas culpadas fora da prisão, mas não há pessoas inocentes dentro dela”, fique sabendo que QUARENTA POR CENTO da nossa população carcerária NUNCA FOI JULGADA. Imagine isso. Duzentas e trinta mil pessoas. Presas. E ninguém sabe se de fato deveriam estar lá. Onde estão os tumultos nas ruas? Onde está a comoção pública?

Imagine-se lá. Imagine-se numa dessas celas que a gente vê nos noticiários. Se revezando para dormir porque não tem espaço no chão. Sem privacidade alguma. Vinte quatro horas por dia. Sete dias por semana. Trinta dias por mês. Doze meses por ano. Por anos e anos. Talvez sofrendo sevícias sem ter para onde correr, a quem pedir ajuda.

Ninguém precisa ser uma pessoa santa para merecer respeito e dignidade. Olhando bem de perto, não existe humano “direito” a quem os direitos humanos devam se reservar, ao contrário do que tantes farisaicamente propõem.

O Estado brasileiro trabalha para embranquecer as nossas ruas. Se foi feito assim de propósito por pessoas que se juntaram e planejaram tudo rindo malevolamente, ou se acaba sendo assim por conta do racismo muitas vezes inconsciente de quem o opera, pouco importa. O resultado é o mesmo. Ainda hoje, em pleno século XXI, é privilégio de gente branca poder simplesmente entrar num carro com amiges e sair para comemorar seu primeiro salário sem ter medo de morrer. E a diferença entre usuárie e traficante está na cor da pele.

aécio

de Wilson José Peron, no Humor Político

Orgulho

***Originalmente publicado em Revista Fórum, em 3 de dezembro de 2015.

Ocupação

de https://www.cartacapital.com.br/educacao/ocupacao-escolar-e-momento-de-aprendizagem

Estou emocionada com as ocupações que estão ocorrendo nas escolas de São Paulo. Creio que não estou sozinha nesse sentimento.

Muitas das ocupações têm um tom anarquista e anarquizante, revolucionário inclusive do ensino e da forma de aprender. Uma das postagens mostrava uma sala de aula reorganizada, com as carteiras em círculo, as pessoas livres para escolher o que querem aprender, quando e como.

Me encanta que a revolução do ensino possa partir des alunes e não des professores e demais profissionais da área da educação. Faz tanto sentido! A libertação não como algo concedido pela parte opressora, mas como algo conquistado pela parte oprimida. A poesia disso me faz sorrir enquanto escrevo.

No entanto, tenho visto muitas pessoas expressarem sua emoção dizendo que sentem “orgulho” dessas pessoas jovens. O que é esse orgulho? O que é sentir orgulho?

Dando um google, a primeira definição que encontramos é esta:Captura de tela de 2015-11-30 15:38:41

Tem como a gente se orgulhar de algo que outra pessoa fez?

Eu já vi uma pessoa falar que tem orgulho de descender de não sei quem que fez não sei quê. Daí perguntei a ela: e você? Fez o quê? E ela não soube me responder.

Eu não vejo problema em nos orgulharmos daquilo que consideramos serem nossas conquistas. Mas me parece estranho a gente se orgulhar das conquistas de outras pessoas. Porque elas não são nossas. A gente pode estar junto, a gente pode ter testemunhado, mas, se não participamos delas, elas não são nossas.

Então, eu sinto que essa coisa de dizer que se tem “orgulho” de outra pessoa ou de algo que ela fez é uma forma de a gente se apropriar do mérito que é dela. Falar como se tivéssemos participação nele.

Eu amo mes filhes. Mas não sinto orgulho deles, porque não são coisas que eu fiz. São pessoas. Menos ainda me orgulho das coisas que eles fazem. Porque as coisas que eles fazem são feitas por eles, não por mim. Não me cabe orgulhar-me delas. Posso admirá-las, posso ficar feliz por elas, posso vibrar com elas, posso torcer para que dêem certo, posso apoiá-les. Mas orgulhar-ME delas não faz sentido para mim.

Voltando às ocupações nas escolas, temos muito a aprender com esses estudantes. De alunes, se tornaram nosses mestres. E há pessoas que estão tendo dificuldade de lidar com ver gente tão jovem fazendo coisas que elas muitas vezes não conseguiram articular em uma vida inteira de militância. Então vem a necessidade de desmerecer esse movimento, ou se apropriar dele de alguma forma.

De um lado, aparecem críticas ressentidas, expondo e ressaltando falhas e ignorando as inúmeras coisas boas e lindas que estão acontecendo. De outro, aparece o orgulho condescendente da pessoa adulta que, diante da pessoa jovem que a supera, passa-lhe a mão na cabeça e diz “muito bem”, como se o intuito devesse sempre ser o de obter sua aprovação.

Menos orgulho. Mais admiração.

Educação ou opressão

***Originalmente publicado em Revista Fórum, em 29 de novembro de 2015.

sala de aula

Convido todes a lerem meu trabalho de conclusão do curso de pedagogia, “Educação ou Opressão? O Adultismo no Ensino de Crianças e Adolescentes”.

Segue abaixo uma amostrinha; o trabalho completo pode ser baixado aqui. Peço desculpas por não ter tido coragem de observar a neutralidade de gênero no texto (que aqui mantive conforme o original) e pela linguagem chata e acadêmica. Eu fiz o possível para que não se tornasse algo maçante, mas não poderia deixar que ficasse com cara de coisa que não é “séria”, sabem como é.

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2.3 O impacto do adultismo no desenvolvimento da autonomia

Para os fins deste trabalho, nos baseamos nas definições kantiana e piagetiana da palavra autonomia, isto é: a capacidade de alguém de governar-se por sua vontade própria, agir por si mesmo, através de uma escolha racional e emocional que não leva em conta as consequências externas e imediatas dos atos, ou seja, não é baseada no medo da punição ou da perda da recompensa (CHRISTINO, 1997).

É necessário ressaltar, ainda, para desfazer malentendidos, que a compreensão de autonomia aqui retratada não é a mera internalização das regras postas por outras pessoas, já que o ser humano autônomo a que nos referimos aqui é “aquele que pode dizer ‘não’ enquanto o resto da sociedade, possível refém das tradições, diz ‘sim’, contanto que este ‘não’ [não seja] decorrência de um ingênuo espírito de contradição”. (LA TAILLE et al., 1991, p. 63).

Por não acreditar na capacidade de pessoas não-adultas de viverem sem o controle adulto constante, o adultismo prejudica enormemente o desenvolvimento da autonomia delas, negando-lhes a oportunidade de exercitarem esse autogoverno sem interferências, além de viciá-las na busca das consequências externas (evitar a punição, obter a recompensa) para a motivação de seus atos, como detalharemos a seguir.

2.3.1 O esclarecimento e a menoridade

Segundo KANT (2005. p.64):

“Esclarecimento [Aufklarung] é a saída do homem da sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [Aufklarung]”

Obter o esclarecimento kantiano, portanto, seria sair do conforto da sombra de tutores e autoridades, emergir do estado – menoridade – em que se tem o conhecimento e o entendimento, mas não se confia em si mesmo para fazer uso desses recursos.

Esse pensamento flui junto ao de Carl Rogers, que tinha uma concepção de terapia que: “[…] não poderia deixar de suscitar controvérsia, porque ela caminhava no sentido contrário da ideia […] segundo a qual o paciente, ou o cliente, necessita de um especialista para resolver seus problemas.” Esse mesmo pensamento aparecia em seus escritos sobre educação, “nos quais afirma que o aluno tem motivações e entusiasmos que o professor deve liberar e favorecer” (ZIMRING, 2010, p. 11-12).

Não basta que tenhamos as ferramentas e saibamos como utilizá-las, temos que ter a coragem de fazê-lo. Temos que confiar em nossas habilidades e capacidades se pretendemos sair da dependência eterna e cega de “especialistas” e “tutores”.

Curiosamente, é possível interpretar, pelas palavras de Kant, que a menoridade não tem idade. É claro que uma criança dependerá muitas vezes da orientação, experiência e maior conhecimento da pessoa adulta, mas, se ela for capaz de se responsabilizar por si mesma naquilo em que isso é possível, se ela for capaz de fazer uso de seus conhecimentos por si só, por mais parcos que eles sejam, sem depender da validação de uma pessoa adulta para tanto, ou, ainda, sem acomodar-se na responsabilização de outrem, ela não estará no estado de menoridade.

Isso é interessante porque é a tendência natural da criança lutar para fazer por si mesma aquilo que acredita ser capaz de fazer. E tentar e tentar de novo e tentar mais uma vez, muitas vezes em meio a lágrimas de frustração e ira diante de suas dificuldades, como bem sabe quem já teve a oportunidade de observar uma criança em processo de superação de algum de seus limites.

Ou seja, o estado natural da criança – e, logo, do ser humano – portanto, não é o estado de menoridade, mas o de esclarecimento ou, ao menos, a busca enérgica por ele. A menoridade, na verdade, é aprendida, inculcada e mantida por meio do adultismo.

“Se crianças forem sempre levadas pela mão e, assim, impedidas de encontrarem seu próprio caminho, elas irão gradualmente parar de fazer descobertas por si próprias.” (MILLER, 1998, p. 184). E não é só uma questão de se acomodarem. É a perda de autoconfiança. A internalização da mensagem de que, sem alguém para guiá-las, elas se perderão.

HOLT (1982a) ilustra essa tendência dentro da pedagogia com a imagem de alguém (professor) que, depois de empurrar um carro enguiçado até ele dar a partida, recusa-se a soltar do para-choque, acreditando piamente que o carro não andará sem que ele o empurre. O motorista do carro (aluno), agora pronto para partir por conta própria, fica então restrito à velocidade da pessoa que o está empurrando, porque passa a acreditar que aquele empurrão é necessário para seu movimento, ou mesmo teme arrancar e largar quem o ajudou caído na rua. Estabelece-se uma relação de dependência.

Em outra passagem do mesmo texto, o autor coloca como “profecia autorrealizadora” a ideia de que crianças não aprendem sem as punições ou recompensas. Ele defende que, se tratarmos crianças por bastante tempo como se isso fosse verdade, isso se tornará verdade, porque elas próprias passarão a ver-se assim – como a maior parte das pessoas que declara que, se não fossem forçadas a fazer algo, não fariam nada (HOLT, 1982a).

É assim que se cria uma menoridade eterna e forçada.

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REFERÊNCIAS (citadas no trecho):

CHRISTINO, Raquel Rosan. Piaget e Kant: uma comparação do conceito de autonomia. Revista Nuances. São Paulo, v. III, p. 73-77, set/1997.

HOLT, John. How children fail.Boston: Da Capo Press, Revised edition, 1982.

KANT, Immanuel. Textos seletos. Tradução de: Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. 3ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

LA TAILLE, Yves.; DANTAS, Heloysa.; OLIVEIRA, Marta Kohl. Mesa redonda: três perguntas a vygotskianos, wallonianos e piagetianos. Cadernos de pesquisa. n. 76, p. 57-64, fev. 1991.

MILLER, Alice. Thou shalt not be aware. Tradução de Hildegarde and Hunter Hannum. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1998.

ZIMRING, Fred. Carl Rogers tradução e organização: Marco Antônio Lorieri. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Massangana, 2010.